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É fascismo!

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 2 minutos
  • 19 min de leitura

A nova arquitetura do fascismo global e o retorno da tragédia histórica


O fascismo não voltou nas margens: voltou pelo centro do império, armado por tecnologia, racialização e guerra híbrida. O trumpismo reinstala no mundo a lógica que produziu a maior catástrofe humana do século XX — e o planeta precisa encarar isso antes que seja tarde demais.

O nome da coisa: por que chamar de fascismo importa



Há momentos da história em que as palavras deixam de ser escolhas estilísticas e se tornam obrigações morais. Quando um fenômeno político ultrapassa o campo do autoritarismo convencional, rompe os limites da retórica agressiva e passa a reorganizar a vida social a partir da desumanização, da hierarquia racial e da violência de Estado, a tarefa ética de nomeá-lo com precisão se impõe. Não nomear é pactuar; suavizar é legitimar; relativizar é permitir que o impensável se naturalize. Hoje, diante do que emerge abertamente do centro do império, não há outro nome possível: é fascismo.


Chamar de fascismo não é um exercício de comparação literária, nem uma metáfora emocional jogada ao calor dos acontecimentos. É uma análise rigorosa da forma histórica que retorna. O fascismo é, como ensinou a tradição crítica do século XX, a reorganização violenta da ordem capitalista em momentos de crise profunda, quando as formas liberais já não conseguem produzir consenso nem estabilidade. Seu núcleo é a fabricação de um inimigo absoluto, tratado como presença contaminante, elemento biológico perigoso, ameaça ontológica à nação. A política deixa de operar pela disputa de projetos e passa a operar pela eliminação do outro. Este é exatamente o terreno em que o trumpismo se move — não por acidente, mas por função.


A escolha do termo fascismo é, portanto, um gesto de precisão. A racionalidade política que emerge hoje não é apenas autoritária: ela reativa categorias fundamentais do fascismo clássico — pureza, sangue, degeneração, invasão, limpeza, hierarquia racial — e as articula com novos instrumentos tecnológicos, econômicos e algorítmicos que ampliam seu alcance e sua eficiência. O fascismo não renasce como imitação de museu: renasce como engenharia política atualizada, acoplada às plataformas digitais, aos sistemas de vigilância, à guerra híbrida e à crise global do imperialismo estadunidense.


Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético, chamar de fascismo significa reconhecer a forma específica que o capital escolhe quando precisa proteger sua estrutura de poder em um cenário de desordem sistêmica. Significa compreender que o trumpismo não é um desvio, mas a resposta regressiva de uma potência em declínio tentando reconstituir sua autoridade por meio do ódio, da racialização e da violência. Significa entender que a tragédia não está no passado: ela ressurge porque as condições que a produziram voltaram a se combinar.


E há ainda uma razão ética profunda para não recuar diante do termo: os povos do Sul Global conhecem essa lógica desde sempre. Conhecem o Estado de exceção permanente. Conhecem o racismo colonial, a eliminação física, a violência legitimada pelo discurso civilizatório. Reconhecem o cheiro da desumanização muito antes de ela se consolidar. O fascismo que o mundo não quer ver é o que há séculos opera sobre nós. Agora, ele retorna pelo centro — mais sofisticado, mais tecnológico e com maior capacidade de destruição.


Nomear é interromper o conforto da negação.

Nomear é impedir que o horror se disfarce de normalidade.

Nomear é o primeiro ato de resistência.


Por isso, antes de qualquer análise, antes de qualquer nuance, antes de qualquer contextualização, é necessário dizer com todas as letras: é fascismo.

E entender isso é a única forma de impedir que a tragédia histórica, já em curso, se complete.


A matriz biológica do ódio: sangue, pureza e o inimigo contaminante



O fascismo sempre precisou transformar pessoas em substâncias. Nenhum regime se sustenta apenas com discursos de força ou apelos nacionalistas; ele precisa de uma gramática que rebaixe grupos humanos a impurezas, doenças, pragas que ameaçam o corpo da nação. Essa é a chave que permite converter diferenças políticas em guerras raciais, disputas sociais em operações de limpeza, adversários em invasores. No trumpismo, essa gramática não é metáfora: é método. O discurso do “poisoning the blood”, da “infestation”, dos “vermin” não é apenas agressão retórica — é a atualização do vocabulário biológico que permitiu ao fascismo histórico transformar povos inteiros em problema sanitário.


Essa linguagem constrói uma ontologia política na qual certos grupos não são considerados divergentes, mas deformações. Migrantes do Sul Global deixam de existir como sujeitos sociais — trabalhadores, refugiados, estudantes, famílias — e passam a existir como agentes de contaminação. Não se trata de imigração, mas de limpeza racial; não se trata de fronteira, mas de pureza. A política migratória fica subordinada à ideia de defesa do sangue nacional, e o território torna-se metáfora de um corpo ameaçado que precisa ser purgado. É assim que o fascismo fala, não porque seja irracional, mas porque precisa dessa fantasia para justificar a violência necessária à sua sobrevivência.


As palavras importam porque organizam a percepção. Quando um líder descreve pessoas como pragas, a sociedade passa a vê-las como problema ambiental, não político. Quando fala de “infestation”, reativa o imaginário colonial que tratava africanos, latino-americanos e povos indígenas como agentes de decadência. O trumpismo reorganiza essa tradição com eficiência cirúrgica: ao mesmo tempo em que desumaniza o imigrante, absolve a estrutura que produz sua migração. A precarização global do trabalho, as guerras, o saque imperial, a concentração de riqueza — tudo desaparece. A causa da crise deixa de ser o capital e passa a ser o corpo do outro.


Sob a lente do materialismo histórico-dialético, isso é um deslocamento necessário ao fascismo: ele desvia a luta de classes para uma guerra biológica imaginária. Em vez de reconhecer que a crise decorre da dinâmica destrutiva do capitalismo, identifica no pobre, no estrangeiro, no racializado o agente da degradação nacional. O ódio biológico reorganiza a consciência coletiva, anulando a possibilidade de solidariedade entre explorados. Ao invés de trabalhadores unidos contra o capital, trabalhadores brancos são convocados a defender o “corpo da nação” contra aqueles que o “corrompem”.


A construção do inimigo contaminante cumpre ainda uma segunda função: justifica o estado de exceção permanente. Se o problema é biológico, não há debate público possível. Se o outro é veneno, não há diálogo — só expulsão, encarceramento, guerra. Essa lógica abre a porta para políticas brutais apresentadas como medidas de sobrevivência. Deportações em massa deixam de parecer autoritarismo e passam a parecer higiene. Suspensões de direitos civis deixam de parecer violência e passam a ser proteção. A máquina autoritária se disfarça de cuidado.


Do ponto de vista do Sul Global, reconhecer essa operação é imediato, quase intuitivo. Há séculos nosso sangue foi descrito como ameaça, nossa presença como desordem, nossa cultura como degeneração. A lógica biológica colonial sempre esteve pronta para ser reativada — e agora retorna pelo centro do império, com a potência amplificada da tecnologia digital e o alcance planetário da propaganda algorítmica.


A matriz biológica do ódio não é resíduo do passado. Ela é a engrenagem central que permite ao trumpismo reorganizar o mundo a partir da purificação, da hierarquia e da eliminação. Quando a política volta a falar de sangue, a história começa a repetir sua pior lição. E é dessa gramática que nasce todo o resto.

Fascismo imperial: a América Latina como laboratório histórico



O fascismo nunca foi apenas um fenômeno doméstico. Sua força real surge quando transforma fronteiras em hierarquias e povos inteiros em objetos de engenharia política. No século XX, isso se expressou nas conquistas coloniais, nos protetorados militarizados, na reorganização violenta de territórios considerados “inferiores”. No século XXI, essa lógica retorna pela mão do trumpismo, que ressignifica a América Latina não como vizinhança, mas como campo de experimentação: um laboratório de guerra cultural, intervenção eleitoral, coerção econômica e fabricação de inimigos civis alinhado à lógica fascista clássica. A região volta a desempenhar o papel que o imperialismo estadunidense historicamente lhe atribuiu: o espaço onde o excesso de poder pode ser exercido sem escrutínio e onde as pulsões autoritárias podem ser testadas antes de serem aplicadas em escala global.


A doutrina “narcocommunists” é o exemplo mais claro dessa operação. Não é apenas um slogan grotesco: é uma categoria estratégica criada para dissolver distinções políticas e produzir um inimigo total. Num único rótulo, o trumpismo amalgama comunismo, terrorismo, cartéis, China, Cuba e qualquer força latino-americana que não se submeta à tutela estadunidense. O objetivo é construir uma narrativa em que a América Latina aparece como fonte permanente de ameaça, justificando interferências que variam de sanções a operações encobertas, de manipulação eleitoral a pressão militar. A lógica é idêntica à das ditaduras apoiadas pelos EUA no século XX: governos populares são tratados como doenças, e a “cura” é sempre externa.


Essa operação é profundamente fascista porque desloca a luta de classes para uma guerra civilizacional racializada. O que está em disputa na América Latina não é apenas ideologia, mas pertencimento. Povos inteiros são enquadrados como incapazes de autogoverno, susceptíveis à corrupção comunista, inclinados ao caos. A velha matriz colonial que tratava a região como incapaz de modernidade retorna agora travestida de geopolítica. O trumpismo, ao denunciar “roubos eleitorais” onde não há, “ameaças comunistas” onde há apenas soberania e “terrorismo” onde existe resistência popular, reativa o dispositivo fundamental da Doutrina Monroe: a recusa de reconhecer aos povos latino-americanos o direito de decidir seu destino.


O fascismo imperial se expressa também pela combinação entre discurso de ódio e tecnologia. A região é alvo prioritário de campanhas digitais de desinformação, operações coordenadas de guerra cultural e ataques psicológicos que buscam fragmentar sociedades, desmoralizar governos progressistas e criar atmosferas artificiais de caos. A exportação do trumpismo para a América Latina não ocorre apenas por diplomacia agressiva, mas pela infiltração emocional: algoritmos amplificam discursos anticomunistas, redes de extrema direita reproduzem narrativas supremacistas, e think tanks ultraliberais funcionam como pontes intelectuais para justificar a intervenção. A tecnologia permite que a guerra imperial se realize sem tanques, mas com eficiência equivalente.


Sob a análise do materialismo histórico-dialético, a América Latina se torna a prova empírica da função histórica do fascismo imperial. Quando o centro do sistema entra em crise — econômica, moral, tecnológica — ele precisa reorganizar sua periferia para extrair mais obediência, mais recursos e menos autonomia. Daí a escalada de hostilidade contra Venezuela, Cuba, Bolívia, Honduras, Nicarágua, Brasil. Daí o apoio explícito a candidatos submissos, a ataques contra instituições progressistas, a campanhas contra sindicatos e movimentos populares. Daí o uso intensificado de sanções e tarifas para disciplinar economias que ousam construir caminhos próprios. Nada disso é retórica: é projeto.


E é por isso que o Sul Global percebe antes. A América Latina reconhece na doutrina trumpista a mesma lógica que sustentou golpes, ditaduras, invasões e programas de extermínio. Reconhece a linguagem, os métodos, as justificativas. A região sabe, porque viveu, que quando o fascismo reaparece no centro do império, o impacto na periferia é imediato — e devastador. A América Latina não é cenário desse processo: é alvo prioritário. E nesse alvo, o fascismo imperial revela sua verdadeira essência.

Supremacia branca global: África do Sul, G20 e o mito do genocídio branco



O fascismo sempre precisou de mitos. E nenhum mito é tão funcional ao imaginário supremacista quanto a fantasia do “genocídio branco”. No século XX, essa narrativa alimentou regimes que se viam ameaçados pela simples existência de povos que reivindicavam dignidade. No século XXI, ela reaparece pela voz de Donald Trump — não como delírio isolado, mas como peça de uma operação estrutural que busca reorganizar o sistema internacional a partir da supremacia branca. A acusação de que a África do Sul estaria promovendo um “massacre de afrikaners” é uma inversão histórica que só encontra paralelo no revisionismo nazista: transforma vítimas de um regime de apartheid em supostos perseguidos e acusa um país que tenta superar séculos de violência racial de cometer crimes inexistentes.


Trump não mobiliza essa narrativa por ignorância — ele mobiliza porque ela cumpre uma função política precisa. Ao acusar a África do Sul de genocídio contra brancos, justifica a exclusão do país do G20, corta recursos, pressiona diplomaticamente e envia um recado ao Sul Global inteiro: qualquer Estado que questione a ordem imperial, que busque autonomia, que fortaleça alianças multipolares ou que confronte o poder branco no sistema internacional será tratado como ameaça civilizacional. A construção do inimigo racializado se amplia: não é mais apenas o migrante individual, mas o país inteiro que ousa não se submeter.


A narrativa do genocídio branco opera como tecnologia de inversão moral. Ela desloca o foco do trauma real — o apartheid, suas mortes, torturas e desigualdades persistentes — para uma vitimização fictícia da população branca. Ao fazer isso, absolve simbolicamente séculos de violência colonial, legitima ressentimentos raciais e reposiciona o branco como figura vulnerável que precisa ser protegida pelo poder imperial. A estratégia é sofisticada: ao apresentar a África do Sul como país que “mata brancos”, Trump cria uma licença moral para punir o Estado africano sem parecer agressão, mas sim defesa de direitos humanos invertidos.


Essa inversão é profundamente fascista porque constrói uma narrativa em que a ordem racial global está sob ataque e precisa ser reestabelecida pela força. A mensagem implícita é inequívoca: países majoritariamente negros não têm legitimidade para liderar, governar ou disputar poder em arenas globais. Quando a África do Sul assume protagonismo no BRICS, acolhe debates sobre reforma da governança global e denuncia violações de direitos palestinos, o trumpismo responde com a acusação de barbárie racial. A supremacia branca volta a operar como eixo de política externa, agora travestida de “preocupação humanitária”.


Sob o materialismo histórico-dialético, essa operação se revela parte do movimento mais amplo do capital imperial para conter a multipolaridade. A crise estrutural dos EUA exige novas formas de coerção, e o discurso racial oferece justificativa para punir aliados estratégicos do Sul Global sem recorrer ao vocabulário diplomático tradicional. Ao mesmo tempo, mobiliza a base interna do trumpismo, que encontra na fantasia da ameaça aos brancos a cola ideológica que sustenta ódio racial, ressentimento econômico e identidade nacional ferida.


Do ponto de vista do Sul Global, esse episódio não é um desvio: é a continuidade das técnicas coloniais de dominação, agora atualizadas no palco da geopolítica digital. Sabemos que a acusação de “violência dos negros contra brancos” sempre foi o pretexto para massacres, invasões e regimes de exceção. Sabemos que a demonização de Estados africanos acompanha a necessidade de controlar recursos estratégicos, rotas comerciais e alinhamentos políticos. Sabemos que a supremacia branca nunca desapareceu — apenas aprendeu a ser mais eficiente.


O mito do genocídio branco revela o fascismo global em sua forma mais explícita: um projeto de hierarquização racial do sistema internacional, sustentado por mentiras deliberadas, tecnologia de propaganda e coerção econômica. Quando o centro do império acusa a África do Sul de barbárie, não está descrevendo uma realidade — está anunciando uma ordem. E essa ordem, como no século XX, se organiza pela cor, pela força e pelo medo.


A engrenagem digital: metaintermediação, guerra híbrida e memética fascista



O fascismo do século XXI não marcha uniformizado pelas ruas nem ergue estátuas de bronze. Ele opera em silêncio, na velocidade dos fluxos digitais, escondido nos circuitos que moldam comportamentos, preferências, medos e ódios. Se o fascismo clássico dependia de propaganda massiva pela mídia centralizada, o fascismo contemporâneo depende de algo maior: da captura algorítmica da subjetividade, da guerra híbrida informacional e de uma infraestrutura global de metaintermediação que transforma cada pessoa em vetor involuntário de uma máquina de ódio. O trumpismo entendeu isso primeiro — e melhor — do que qualquer força política contemporânea.


A nova engrenagem fascista funciona porque dissolve a fronteira entre comunicação e comportamento. O algoritmo não apenas mostra conteúdo; ele distribui afetos, amplifica ressentimentos, recompensa impulsos destrutivos e penaliza nuances. Não é mais necessário convencer racionalmente: basta organizar as emoções sociais para que a violência pareça inevitável. A política do século XXI não é feita de argumentos, mas de estímulos — e o fascismo opera como sistema operacional desse ecossistema. Memes substituem doutrinas; ressentimento substitui ideologia; viralização substitui organização.


O trumpismo se tornou o movimento político mais eficiente desse novo ambiente porque entendeu que a radicalização é um produto algorítmico. O discurso de ódio — biológico, racial, misógino, anti-imigrante — performa bem nos sistemas digitais. Ele gera engajamento, conflito, presença. Os algoritmos priorizam o que divide e rebaixam o que esclarece. Assim, o fascismo digital não precisa impor censura: basta criar condições para que a violência simbólica seja o conteúdo mais visível e mais lucrativo. O fascismo clássico queimava livros; o fascismo digital queima a própria capacidade de pensar.


Essa engrenagem também opera no plano internacional. A guerra híbrida contemporânea — que combina desinformação, lawfare, sabotagem econômica e pressão algorítmica — transforma países inteiros em ambientes instáveis. A América Latina é um dos laboratórios mais notórios dessa dinâmica: campanhas digitais que fabricam histerias anticomunistas, manipulações psicológicas em ciclos eleitorais, redes transnacionais que espalham narrativas supremacistas, think tanks financiados por capital estrangeiro moldando percepções de risco. Tudo isso sedimenta a paisagem afetiva que legitima intervenções e golpes brancos. O trumpismo não exporta apenas sua retórica — exporta seu ecossistema.


Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético, esse processo não é espontâneo; é produto de uma infraestrutura tecnológica profundamente integrada ao capitalismo monopolista. As grandes plataformas funcionam como metaintermediários da vida social: controlam o fluxo de informação, modulam a atenção, selecionam o intolerável e silenciam o essencial. São empresas privadas com poder político maior que muitos Estados, alinhadas estruturalmente ao capital financeiro global. O fascismo digital surge quando essa infraestrutura é mobilizada para produzir subjetividades obedientes, fragmentadas e violentas — indispensáveis para manter a ordem em momentos de crise estrutural.


O Sul Global entende essa dinâmica com nitidez porque sempre foi alvo de guerras informacionais antes mesmo de elas terem esse nome. Do rádio durante as ditaduras ao WhatsApp nos golpes contemporâneos, a região sofreu sucessivos ciclos de manipulação política, sempre articulados para impedir projetos soberanos. A diferença agora é a escala: nunca houve uma máquina tão poderosa, tão rápida e tão global para fabricar consenso autoritário. Nunca houve uma indústria capaz de converter o preconceito cotidiano em arma geopolítica em segundos. Nunca houve tanta capacidade de transformar ressentimentos individuais em massa.


O fascismo digital é a forma mais eficiente de reorganização do capitalismo em crise porque controla não apenas corpos, mas mentes; não apenas territórios, mas afetos; não apenas eleições, mas horizontes de imaginação. Ele molda as condições de possibilidade da política. E quando essa moldura é produzida por uma lógica de ódio, purificação e inimigo absoluto, o resultado é inevitável: a repetição da tragédia histórica por meios mais sofisticados, mais silenciosos e, por isso mesmo, mais perigosos.

A função histórica: fascismo como resposta regressiva à crise do capital



O fascismo não surge do ar. Ele não é desvio, nem irrupção inexplicável do irracional, nem acidente psicológico de sociedades adoecidas. O fascismo é uma resposta histórica específica do capitalismo em momentos de crise estrutural, quando a ordem econômica já não consegue garantir estabilidade, legitimidade ou futuro. Quando o pacto liberal se exaure, quando a desigualdade implode o tecido social, quando o sistema não tem mais como oferecer prosperidade para a maioria, o capital precisa de uma nova forma de governo — mais violenta, mais racializada, mais autoritária — para preservar sua dominação. O fascismo é essa forma.


O trumpismo emerge exatamente nesse terreno. Não é a ruptura do sistema: é o mecanismo de defesa do sistema em decomposição. Os Estados Unidos vivem o esgotamento de sua hegemonia: desindustrialização, perda de poder global, financeirização extrema, colapso da mobilidade social, ódio racial acumulado e elites econômicas que já não precisam da democracia para manter privilégios. Em um cenário assim, as promessas do liberalismo deixaram de funcionar. A classe trabalhadora empobrecida não encontra respostas, e o capital, pressionado por crises recorrentes, precisa reorganizar a sociedade para impedir que a frustração se transforme em consciência.


O fascismo cumpre essa tarefa porque desloca a crise do sistema para a “ameaça do outro”. Em vez de admitir que o colapso econômico decorre da própria dinâmica do capitalismo — 40 anos de neoliberalismo, privatização, precarização, financeirização — o trumpismo indica culpados externos: imigrantes, latinos, negros, muçulmanos, sindicatos, movimentos sociais, países do Sul Global. A luta de classes é substituída por guerra racial, guerra cultural, guerra civilizacional. O problema deixa de ser o sistema que destruiu empregos e passou a ser o estrangeiro que “rouba” empregos. É uma operação brilhante na sua crueldade: ao reorganizar o ódio, o fascismo impede que a classe trabalhadora identifique o verdadeiro adversário.


Mas a função histórica do fascismo vai além da administração do ressentimento. Ele reorganiza o Estado para que o capital concentre poder sem obstáculos democráticos. O trumpismo testa medidas de exceção — suspensões de direitos, deportações em massa, perseguição política, uso discriminatório do aparato jurídico — como instrumentos de governo. O objetivo não é proteger a população: é criar zonas de legalidade flexível onde o poder estatal possa agir sem accountability. A democracia torna-se inconveniente para um sistema que precisa impor políticas brutais de austeridade, militarização e controle social. A exceção deixa de ser remédio e passa a ser rotina.


Sob a lente do materialismo histórico-dialético, fica evidente que a crise atual não é conjuntural; é uma crise de reprodução do capital em escala global. Mudança climática, guerras, colapso de cadeias produtivas, disputa tecnológica, multipolaridade, financeirização predatória — tudo pressiona o sistema ao limite. Em momentos assim, as classes dominantes não cedem; elas se reorganizam. O fascismo é a forma política que permite essa reorganização quando o consenso rui. Ele fecha espaços de participação, criminaliza opositores, transforma minorias em inimigas internas e usa o medo como cimento de estabilidade.


É por isso que o fascismo sempre ressurge com força quando o capitalismo perde sua capacidade de promessa. Hoje, essa incapacidade é estrutural. O sistema não tem horizonte, apenas gestão de crise. E, como sempre fez, o fascismo tenta resolver o impasse deslocando o sofrimento para os corpos racializados, para os migrantes, para o Sul Global, para os pobres, para as mulheres, para dissidentes. Ele protege o capital sacrificando vidas — literalmente.


O trumpismo é a forma contemporânea dessa lógica. Ele não destrói o capitalismo: ele o salva, entregando-lhe um novo contrato social baseado no medo, na violência e na hierarquia. Ele reorganiza o ódio para preservar a ordem. Ele transforma a angústia coletiva em arma política. Ele repete, em outro cenário, a função exata que o fascismo desempenhou no século XX.


A tragédia histórica não se repete como farsa — repete-se como método.

A clareza do Sul Global: o que nós vemos antes de todos



Há uma lucidez que nasce da dor. Uma inteligência histórica que só pode emergir de povos que foram colonizados, explorados, saqueados e massacrados por séculos. Quem viveu as violências do império percebe, quase instintivamente, quando a lógica que sustentou essas violências volta a ganhar forma. O Sul Global reconhece o fascismo não quando ele se consolida — mas quando ele começa a respirar. Para nós, a linguagem do ódio, da pureza, da disciplina racial e do inimigo absoluto não é novidade: é memória. E memória, quando não é anestesiada, se torna método.


O que para o Norte Global ainda é “exagero retórico”, “polarização política”, “discurso duro”, para a América Latina, África e Ásia é padrão histórico. Não vemos apenas palavras: vemos o que está por trás delas. Quando Trump fala em “veneno no sangue”, populações que foram tratadas como impurezas pelo colonialismo sabem exatamente o que isso significa. Quando o trumpismo acusa países africanos de genocídio contra brancos, sociedades que viveram o apartheid e as ditaduras apoiadas pelo Ocidente reconhecem a inversão moral que sempre precede a violência. Quando imigrantes latino-americanos são descritos como pragas, povos que enfrentaram séculos de racialização entendem que o alvo simbólico nunca é apenas o migrante — é a humanidade inteira dos que vêm de baixo.


A clareza do Sul Global vem da experiência, não da teoria. Sabemos que o fascismo não começa com campos de concentração. Começa com piadas raciais, com metáforas biológicas, com a ideia de que certos grupos são ameaça, com a noção de que o Estado tem o direito de “proteger” a sociedade eliminando o diferente. Sabemos como a violência se legitima: ela se infiltra devagar, pelas margens, pelas instituições, pelas narrativas de desordem, até se naturalizar como solução. Sabemos que, quando um império entra em crise, ele sempre procura reorganizar sua autoridade deslocando o sofrimento para corpos racializados. Nada disso nos surpreende. A diferença é que agora essa lógica retorna com escala planetária — e com a potência das tecnologias digitais.


O Sul Global enxerga o fascismo emergente porque reconhece seu cheiro. Reconhecemos a criminalização da pobreza, o ataque a governos populares, o discurso de “restauração da ordem”, o uso seletivo do aparato jurídico, o lawfare como arma geopolítica, a fabricação do inimigo interno. Reconhecemos o papel das elites compradoras, dos think tanks transnacionais, das igrejas alinhadas ao capital e das plataformas digitais como mediadoras da subjetividade coletiva. Não precisamos que historiadores europeus expliquem o fascismo: ele sempre esteve entre nós, nas ditaduras militares, nas chacinas policiais, nas guerras contra favelas, nos massacres indígenas, nos golpes patrocinados por Washington.


Essa clareza é moral e também geopolítica. Enquanto parte do Norte ainda romantiza a supremacia branca ou se recusa a nomear o fascismo para não “polarizar”, o Sul Global observa o que realmente está em jogo: o esforço desesperado de uma potência em declínio para reestabelecer hierarquias coloniais. A exclusão da África do Sul do G20, as ameaças à Venezuela, as sanções à Nicarágua e a Cuba, as tarifas contra o Brasil, a retórica do “narcocommunism” aplicada à América Central — tudo isso é continuidade lógica do mesmo projeto que, ao longo do século XX, destruiu democracias e impôs ditaduras para proteger interesses econômicos.


A clareza do Sul Global não é arrogância; é sobrevivência. É a consciência de que não podemos cometer o erro de subestimar o fascismo quando ele retorna pelo centro. É a percepção de que o mundo está diante de uma encruzilhada histórica, e que os povos do Sul — justamente porque já carregaram o peso da tragédia antes — têm a responsabilidade ética de alertar a humanidade.


O fascismo sempre contou com a cegueira do Norte e com o silêncio das elites. Desta vez, o Sul não silenciará. Porque sabemos, com a precisão de quem aprendeu pela dor, que quando o fascismo se instala no império, os primeiros a sangrar somos nós — mas os últimos também serão eles.

A porta que volta a se abrir: o risco civilizatório e o papel da humanidade agora



A história não avança em linha reta. Ela pulsa, retorna, reorganiza-se, sobretudo quando as forças que a movem são incapazes de produzir futuro. No mundo de hoje, o fascismo não é um acidente nem um exagero retórico: é uma porta que volta a se abrir. Uma porta que muitos acreditavam trancada para sempre, mas que nunca deixou de ranger sob o peso das desigualdades, do colonialismo, da violência racial e da incapacidade estrutural do capitalismo de garantir dignidade para a maioria da humanidade. O trumpismo não criou essa porta: apenas escancarou o que já estava preparado para retornar.


A crise atual não é apenas política. É civilizatória. E por isso exige uma compreensão que ultrapassa preferências partidárias, análises conjunturais ou explicações psicológicas. O fascismo contemporâneo é produto de uma combinação inédita: declínio imperial, colapso da democracia liberal, tecnologia de manipulação em escala planetária, desigualdades extremas, crise climática e ressentimentos acumulados de uma população esmagada pela precarização. Quando todos esses vetores se alinham, o fascismo deixa de ser fantasma retórico e passa a ser alternativa concreta de governo — violenta, eficiente, destrutiva.


O perigo não está apenas nas palavras de Trump. Está na normalização. No hábito. No “é só retórica”. Na incapacidade de perceber que, quando o inimigo absoluto é fabricado, quando a hierarquia racial é restituída, quando a violência é apresentada como proteção, quando o Estado de exceção vira método, a história começa a repetir sua tragédia mais conhecida. O fascismo nunca anuncia suas fases: ele avança em marolas, em decisões administrativas, em políticas migratórias, em algoritmos que amplificam ódio, em narrativas que rebaixam vidas, em mentiras que legitimam punições contra povos inteiros. Quando percebe-se, já é tarde.


Mas ainda não é tarde. E é aqui que a humanidade precisa tomar sua decisão histórica. O fascismo não está garantido. Ele é projeto — poderoso, articulado, violento — mas não inevitável. Ele se alimenta de silêncio, resignação, covardia, cálculo eleitoral, ilusões liberais e da crença de que instituições frágeis resistirão sozinhas. Não resistirão. O fascismo só pode ser derrotado quando a sociedade escolhe vê-lo, nomeá-lo e enfrentá-lo com a coragem que sua gravidade exige.


O Sul Global tem papel central nesse enfrentamento. Não apenas porque reconhece padrões históricos, mas porque hoje encarna a única força geopolítica que desafia o monopólio do poder imperial. A multipolaridade, a soberania informacional, a integração regional e o resgate de projetos de justiça social não são apenas escolhas políticas: são trincheiras civilizatórias. São as únicas respostas capazes de impedir que o século XXI repita o pior do século XX com tecnologias mais perigosas e instituições mais fracas.


Não se trata de pessimismo nem alarmismo. Trata-se de lucidez. A mesma lucidez que faltou na década de 1930 e que custou dezenas de milhões de vidas. Hoje, essa lucidez precisa ser ética, global e imediata. A história já mostrou o que acontece quando a humanidade hesita diante do fascismo. E hoje, mais uma vez, a hesitação é um luxo que não existe.


O fascismo voltou a organizar o mundo pelo ódio, pela racialização e pela eliminação. Voltou com novas ferramentas, novos discursos, novos inimigos construídos, mas com a mesma matriz moral que guiou sua maior tragédia. A porta está aberta — e tudo o que definirá o futuro da humanidade é se teremos a coragem de fechá-la antes que ela engula todos nós.


Porque, desta vez, não haverá a desculpa da ignorância.


Nós sabemos.


E justamente por isso, precisamos agir.



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