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A guerra começa antes da guerra

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 16 horas
  • 10 min de leitura

Como Estados Unidos e Israel entram na escalada contra o Irã com a legitimidade corroída por Gaza e por que a batalha decisiva já foi travada no campo da cognição, da narrativa e das operações psicológicas


Antes do primeiro míssil, a guerra já estava em curso. Não no campo de batalha, mas na mente das pessoas, na disputa por legitimidade e na construção da percepção global. Ao transformar Gaza em um marco de ruptura moral, Estados Unidos e Israel enfraqueceram o próprio terreno cognitivo que sustenta qualquer escalada militar. O resultado é uma guerra que nasce com alto poder bélico, mas com baixa adesão política, social e simbólica, e por isso estruturalmente mais instável desde o início.

A guerra que começa antes do primeiro tiro



A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não começa no momento em que os primeiros mísseis são lançados. Ela começa antes, no campo da cognição, da percepção e da disputa por legitimidade. Isso não é figura de linguagem. A NATO passou a tratar a chamada “cognitive warfare” como um domínio operacional em que o alvo central é a mente humana, enquanto a doutrina de operações psicológicas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos define PSYOP como ações destinadas a influenciar emoções, raciocínio e comportamento de audiências estrangeiras. Em outras palavras, guerras contemporâneas são preparadas antes de serem travadas.


É nesse terreno invisível, mas decisivo, que se estabelece a primeira vantagem estratégica. Nenhuma potência entra em guerra apenas com capacidade de destruição. Entra com narrativa, com capital moral e com a capacidade de mobilizar apoio interno e construir legitimidade externa. Sem isso, mesmo a superioridade militar mais esmagadora se converte em custo político, instabilidade diplomática e limitação estratégica.


No caso da escalada contra o Irã, esse processo já chega comprometido. A devastação em Gaza, amplamente documentada por organismos internacionais e relatórios de direitos humanos, não apenas produziu uma crise humanitária de grandes proporções. Ela reconfigurou o ambiente perceptivo no qual essa nova guerra passa a ser interpretada. Quando a Corte Internacional de Justiça indica medidas provisórias relacionadas à Convenção do Genocídio, quando o Tribunal Penal Internacional emite mandados contra lideranças israelenses, e quando organizações como a Amnesty International classificam a conduta em Gaza como genocida, o impacto deixa de ser apenas jurídico. Ele passa a ser cognitivo, político e simbólico.


Esse conjunto de eventos rompe o enquadramento que sustentava a legitimidade automática do Ocidente. A guerra deixa de ser percebida, por parcelas crescentes da opinião pública global, como resposta defensiva e passa a ser lida como expressão de punição coletiva, assimetria extrema e seletividade moral. Esse deslocamento não nasce de abstração ideológica, mas da circulação massiva de imagens, dados e decisões institucionais que reorganizam a percepção do conflito em tempo real.


O resultado é uma inversão estratégica. Estados Unidos e Israel entram na escalada contra o Irã com poder militar intacto, mas com seu capital de legitimidade profundamente desgastado. E em um cenário em que guerras são também decididas pela capacidade de moldar percepções, sustentar narrativas e mobilizar apoio, isso significa iniciar o conflito em desvantagem antes mesmo do primeiro disparo.

O campo de batalha invisível: cognição, narrativa e operações psicológicas



Se a guerra começa antes do primeiro tiro, é porque o campo decisivo já não é apenas físico. É cognitivo. Essa transformação não é teórica. É doutrinária. A NATO passou a tratar a “cognitive warfare” como um domínio operacional voltado a influenciar como indivíduos e sociedades percebem, interpretam e reagem à realidade. Nesse tipo de conflito, não se disputa apenas território. Disputa-se a capacidade de definir o que é legítimo, verdadeiro e aceitável.


A doutrina militar dos Estados Unidos formaliza esse mecanismo. As operações psicológicas, ou PSYOP, são definidas pelo Departamento de Defesa como ações planejadas para influenciar emoções, motivos e raciocínio de audiências estrangeiras com o objetivo de moldar comportamentos. O alvo final não é a opinião, mas a decisão. Trata-se de preparar o ambiente estratégico antes da ação militar, reduzindo resistência, organizando apoio e condicionando a interpretação dos eventos.


Esse modelo ganha escala inédita com a integração entre plataformas digitais, sistemas algorítmicos e produção massiva de conteúdo. A guerra informacional deixa de ser episódica e passa a ser permanente, distribuída e adaptativa. Imagens de alta intensidade, vídeos virais, pronunciamentos calibrados, relatórios institucionais e campanhas coordenadas circulam em tempo real, atravessando fronteiras e disputando atenção global. A percepção pública deixa de ser consequência da guerra e passa a ser um de seus principais objetivos.


O impacto estratégico é direto. A capacidade de destruir deixa de ser suficiente. Torna-se necessário sustentar coerência narrativa, preservar legitimidade e manter adesão social. Quando esse tripé se fragiliza, o custo da guerra aumenta e a margem de ação política se reduz. Coalizões se tornam mais instáveis, opiniões públicas mais voláteis e decisões mais difíceis de sustentar no tempo.


É esse cenário que define a escalada atual. O problema enfrentado por Estados Unidos e Israel não é apenas militar. É cognitivo. A narrativa que historicamente organizava suas intervenções passa a encontrar resistência crescente. E essa resistência não se limita a adversários geopolíticos. Ela emerge dentro do próprio Ocidente, em universidades, meios de comunicação, ruas e redes.


Nesse contexto, a guerra contra o Irã não começa em um ambiente neutro. Ela começa em um campo já tensionado, no qual o enquadramento dominante perdeu parte de sua capacidade de produzir consenso. Isso não elimina a superioridade militar do bloco ocidental, mas reduz sua eficácia estratégica. Porque, no padrão contemporâneo de conflito, poder só se sustenta quando é percebido como legítimo.

Gaza e a ruptura do enquadramento moral do Ocidente



Foi em Gaza que a engrenagem começou a falhar. Não porque o Ocidente tenha deixado de operar, ao longo de séculos, com categorias de hierarquização e racialização dos povos da Ásia Ocidental, mas porque, desta vez, a escala da destruição, a continuidade das operações e a circulação massiva das imagens romperam parte do mecanismo que historicamente convertia violência em defesa e dominação em civilização. O que se viu em Gaza não foi apenas uma campanha militar. Foi a exposição direta de uma lógica de punição coletiva que atingiu a base moral do enquadramento ocidental.


Essa ruptura não ocorreu no vazio. Ela se apoiou em eventos institucionais concretos que deslocaram o debate do campo da opinião para o campo da legalidade internacional. Em 26 de janeiro de 2024, a Corte Internacional de Justiça indicou medidas provisórias no caso movido pela África do Sul com base na Convenção do Genocídio. Em março e maio do mesmo ano, a Corte reiterou e ampliou essas medidas diante do agravamento da situação humanitária. Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant. Em dezembro, a Amnesty International concluiu que Israel estava cometendo genocídio em Gaza. Esses elementos não encerram o debate jurídico, mas alteram de forma decisiva o ambiente em que ele se desenrola.


O efeito foi uma ruptura na narrativa. A moldura da autodefesa passou a coexistir com uma leitura mais difícil de conter, baseada em desproporção, desumanização e seletividade moral. Quando essa leitura ganha escala, o problema deixa de ser reputacional e se torna estratégico. A legitimidade internacional deixa de operar como base automática de sustentação, e a opinião pública passa a funcionar como vetor de pressão e instabilidade. Esse deslocamento aparece empiricamente em 2025, quando pesquisas do Pew indicam avaliações negativas de Israel em grande parte das sociedades ocidentais.


É nesse ponto que Gaza deixa de ser apenas uma tragédia humanitária e se torna um marco de reorganização do campo cognitivo. A escalada contra o Irã já não chega ao mundo sob um enquadramento coerente e estabilizado. Ela chega atravessada por decisões judiciais, por relatórios de organismos internacionais e pela memória recente de destruição em larga escala. O resultado é uma guerra que nasce sob suspeita.


Essa mudança não elimina a capacidade militar do Ocidente. Mas altera sua capacidade de justificar, sustentar e expandir a guerra. E, em um cenário em que percepção e legitimidade condicionam a ação estratégica, isso significa iniciar o conflito com uma desvantagem construída antes mesmo de qualquer avanço no teatro militar.

Quando a narrativa falha: fissuras no Ocidente e crise de consenso



A ruptura produzida por Gaza não permanece no plano simbólico. Ela se traduz em fissuras concretas dentro do próprio Ocidente. O que antes operava como alinhamento quase automático passa a apresentar atritos, hesitações e recusas operacionais. A escalada contra o Irã expõe esse deslocamento com clareza. Análises do Council on Foreign Relations descrevem a resposta europeia como fragmentada, marcada por divergências sobre legalidade, riscos de escalada e custo político interno.


Os sinais são objetivos e mensuráveis. A França recusou o uso de seu espaço aéreo para a transferência de armamentos vinculados à operação. A Espanha limitou o uso de bases militares em seu território. A Itália questionou a base jurídica da intervenção. O Reino Unido adotou postura mais cautelosa, evitando envolvimento direto ampliado. Nenhuma dessas decisões representa ruptura formal com os Estados Unidos. Mas, em conjunto, elas indicam algo mais relevante: a perda de coesão automática em torno da ação militar.


Esse quadro é reforçado pela opinião pública. Pesquisas da Reuters/Ipsos em 2026 mostram que 66% dos americanos defendem o encerramento rápido do envolvimento dos Estados Unidos no conflito, enquanto mais de 75% se opõem ao envio de tropas terrestres. Esse dado desloca a análise para dentro do próprio centro de poder. A guerra não enfrenta apenas resistência externa. Ela nasce com baixa sustentação social interna, o que limita sua escalabilidade e eleva seus custos políticos.


É essencial, no entanto, evitar reducionismos. A hesitação europeia não deriva exclusivamente de Gaza. Pesam fatores como a prioridade estratégica da guerra na Ucrânia, os riscos energéticos de uma escalada no Golfo, a ausência de consulta prévia por parte de Washington e os cálculos políticos domésticos de cada governo. O ponto decisivo é outro. Gaza altera o terreno sobre o qual esses fatores passam a operar.


Antes, esses elementos coexistiam com um enquadramento relativamente estável de legitimidade. Agora, atuam dentro de um ambiente cognitivo deteriorado, no qual a narrativa ocidental perdeu capacidade de organizar consenso. O resultado é uma combinação mais instável e menos previsível, que transforma a guerra em um problema político contínuo.


As implicações são diretas. Sem coesão sólida entre aliados, sem apoio consistente da opinião pública e com uma narrativa fragilizada, a superioridade militar encontra limites concretos. A guerra continua possível, mas se torna mais cara, mais arriscada e menos controlável. É nesse cenário que a escalada contra o Irã se desenvolve: não como projeção incontestável de poder, mas como operação já atravessada por desgaste estrutural.

O Irã e a adaptação à guerra do século XXI



É nesse ponto que o conflito deixa de ser apenas a história do desgaste ocidental e passa a ser também a história da adaptação iraniana. O Irã não avança por superioridade material, mas por melhor adaptação ao ambiente contemporâneo da guerra. Enquanto Estados Unidos e Israel entram na escalada com vantagem militar, porém com legitimidade corroída e alianças tensionadas, Teerã opera de forma mais eficiente em três planos simultâneos: o militar, o econômico e o cognitivo.


No plano militar, a estratégia iraniana evita o confronto direto e aposta na assimetria. O objetivo não é derrotar o adversário em batalha convencional, mas elevar custos, alongar o tempo do conflito e dispersar o campo de pressão. Essa lógica transforma a superioridade militar ocidental em desgaste político progressivo. A dificuldade de resposta coordenada entre aliados, evidenciada pela fragmentação europeia, é um dos efeitos diretos desse tipo de abordagem.


No plano econômico, o elemento central é o Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial. Ao restringir essa rota, o Irã desloca o conflito para o coração material da economia global. O impacto não se limita ao setor energético. Ele atinge inflação, cadeias de abastecimento e custo de vida em países centrais. Dados reportados pela Reuters mostram pressão sobre os preços da energia e associação direta entre custo de combustíveis e rejeição pública à guerra nos Estados Unidos. Quando a guerra encarece a vida cotidiana, ela deixa de ser abstração geopolítica e se torna problema doméstico imediato.


Mas é no plano cognitivo e cultural que a adaptação iraniana se mostra mais eficaz. O Irã compreendeu que, no século XXI, disputar narrativa é tão decisivo quanto sustentar capacidade militar. Vídeos virais de baixo custo, peças de propaganda digital, pronunciamentos calibrados para circulação global e uma estética de resistência que atravessa redes sociais ocidentais mostram que a produção de sentido já não é monopólio do Ocidente. Esse movimento ocorre em um ambiente previamente alterado por Gaza, no qual a narrativa tradicional de segurança perdeu capacidade de organizar consenso.


O resultado é uma inversão parcial de posição. O Irã não apenas reage. Ele explora a fissura aberta pela crise de legitimidade ocidental. Ao combinar assimetria militar, pressão econômica e disputa narrativa, converte sua limitação material em capacidade de impor custos, desorganizar coalizões e disputar legitimidade internacional.


A implicação estratégica é direta. No padrão contemporâneo de conflito, poder não é apenas a capacidade de destruir. É a capacidade de sustentar tempo, deslocar custos e moldar percepção. E, até aqui, o Irã tem operado com maior eficiência justamente nesses três terrenos.

A guerra que já começou perdendo



A escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã expõe uma mudança estrutural na forma como as guerras são iniciadas, conduzidas e percebidas no século XXI. Não se trata apenas de um conflito regional com efeitos globais. Trata-se de um exemplo claro de como capacidade militar, isoladamente, já não basta. Hoje, organizar percepção, sustentar legitimidade e preservar coesão política se tornou parte central da própria mecânica da guerra.


O que esse conflito revela é uma inversão estratégica. Estados Unidos e Israel entram com superioridade material, mas com déficit acumulado no plano cognitivo, moral e narrativo. Gaza não produziu apenas devastação humanitária. Produziu um colapso parcial do enquadramento que durante décadas sustentou a autoridade discursiva do Ocidente. A partir daí, cada ataque passou a ser lido sob suspeita, cada justificativa passou a encontrar mais resistência e cada movimento militar passou a carregar um custo político superior ao de guerras anteriores.


Esse desgaste não impede a escalada. Mas altera sua natureza. Sem legitimidade estável, sem consenso sólido entre aliados e com opiniões públicas mais fragmentadas, a guerra deixa de ser simples projeção de força e passa a ser gestão permanente de desgaste. A superioridade militar continua existindo, mas opera em um ambiente mais restritivo, mais contestado e menos controlável.


Ao mesmo tempo, o Irã demonstra que compreender a lógica contemporânea do conflito pode compensar limitações materiais. Ao atuar de forma articulada nos planos militar, econômico e cognitivo, consegue impor custos, explorar fissuras e disputar narrativa em um cenário já marcado pela crise de legitimidade ocidental. Não se trata de vitória definitiva, mas de vantagem situacional construída por adaptação estratégica.


A conclusão central é direta. No padrão contemporâneo de guerra, quem perde o terreno da percepção entra em desvantagem antes mesmo do primeiro disparo. Porque guerras já não são decididas apenas pela capacidade de destruir o inimigo, mas pela capacidade de sustentar sentido, organizar consenso e legitimar a própria ação diante do mundo. E, nesse terreno, a guerra já havia sido parcialmente decidida antes mesmo de se tornar visível.


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