A Guerra pela autonomia cognitiva
- Rey Aragon

- há 21 horas
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Como o capitalismo transformou a capacidade humana de julgar em uma força produtiva, um ativo estratégico e o principal campo de disputa do século XXI.
Toda soberania começa na capacidade de um povo reconhecer a realidade, compreender seus próprios interesses e decidir seu destino histórico. Quando essa capacidade se transforma em recurso econômico, ativo estratégico e objeto permanente de disputa, a guerra também muda de lugar. Ela passa a ser travada sobre aquilo que torna todas as outras batalhas possíveis: a autonomia cognitiva.
Nota do autor

Este ensaio resulta de um percurso de pesquisa dedicado a compreender as transformações do capitalismo informacional, das guerras cognitivas e das novas formas de poder produzidas pela convergência entre tecnologia, economia e política. Ao longo desse percurso, desenvolvi reflexões sobre a Ideologia da Fricção Zero e a Metaintermediação Algorítmica, conceitos que buscaram compreender como as infraestruturas digitais passaram a reorganizar a experiência social, a circulação do conhecimento e os processos de mediação.
À medida que essas investigações avançavam, tornou-se evidente que ambas conduziam a uma questão mais profunda. O problema central já não dizia respeito apenas às plataformas digitais, à inteligência artificial ou às novas arquiteturas de informação. Dizia respeito à própria capacidade humana de perceber, interpretar, julgar e agir sobre a realidade.
Foi dessa constatação que nasceu este ensaio. Seu propósito é compartilhar uma reflexão sobre a hipótese de que a autonomia cognitiva deixou de ser apenas uma questão filosófica, psicológica ou educacional para tornar-se uma categoria da economia política e um dos principais terrenos de disputa estratégica do século XXI.
Longe de oferecer respostas definitivas, este texto procura contribuir para um debate que permanece em aberto. Se conseguir estimular novas perguntas, ampliar o diálogo entre diferentes campos do conhecimento e incentivar outras investigações sobre as relações entre tecnologia, poder, capitalismo e soberania, terá cumprido seu objetivo.

Quando o julgamento se torna uma força produtiva

Durante boa parte da história do capitalismo, a exploração concentrou-se sobre a força física, o tempo e o conhecimento técnico dos trabalhadores. A cada transformação tecnológica, novas formas de trabalho foram incorporadas ao processo produtivo, ampliando a capacidade de produzir mercadorias, reduzir custos e acelerar a acumulação. O capitalismo algorítmico, entretanto, inaugura uma inflexão qualitativa. Pela primeira vez, não se limita a organizar o trabalho ou a capturar conhecimento especializado. Ele passa a incorporar como força produtiva a própria capacidade humana de perceber, interpretar, comparar, decidir e formular julgamentos.
Essa mudança altera profundamente a economia política do poder. Julgar nunca foi apenas um ato individual ou uma operação abstrata da consciência. Julgar é relacionar experiências, distinguir o verdadeiro do falso, reconhecer interesses, construir confiança, atribuir significado aos acontecimentos e escolher entre diferentes possibilidades de ação. É dessa capacidade que depende toda decisão política, econômica e social. Sem julgamento, não há cidadania; sem julgamento, não há democracia; sem julgamento, não há soberania.
Foi precisamente essa capacidade que passou a adquirir um novo valor econômico. As plataformas digitais, os sistemas de inteligência artificial e as grandes infraestruturas de dados não operam apenas sobre informações. Operam sobre os processos pelos quais indivíduos e sociedades constroem interpretações da realidade. O que está em jogo já não é somente a circulação de conteúdos, mas a organização das condições que tornam determinados julgamentos mais prováveis do que outros.
Essa transformação representa uma nova etapa da própria lógica de acumulação capitalista. Se a Revolução Industrial ampliou a produtividade ao mecanizar o trabalho físico, e a revolução informacional reorganizou a produção a partir do processamento de informações, o capitalismo algorítmico busca converter em valor econômico aquilo que, até então, permanecia como uma das dimensões mais propriamente humanas: a capacidade de produzir sentido. Percepção, memória, linguagem, atenção e julgamento deixam de ser apenas atributos da vida social para tornarem-se ativos estratégicos, capazes de gerar vantagem competitiva, concentração de riqueza e poder político.
Sob essa perspectiva, a inteligência artificial não constitui uma ruptura isolada nem uma tecnologia neutra que paira acima das relações sociais. Ela representa uma etapa histórica do desenvolvimento das forças produtivas sob relações de propriedade profundamente desiguais. A inteligência que hoje se apresenta como atributo das máquinas é resultado do trabalho social acumulado de milhões de pessoas, condensado em dados, linguagens, pesquisas científicas, práticas culturais e conhecimentos produzidos coletivamente, mas apropriados de forma privada. O que aparece como inteligência artificial é, em grande medida, inteligência social convertida em capital.
É justamente por isso que a autonomia cognitiva deixa de ser apenas uma questão filosófica ou educacional para assumir um significado histórico inteiramente novo. Quando a capacidade de julgar passa a integrar os mecanismos de acumulação, ela deixa de ser apenas uma faculdade humana. Torna-se também uma força produtiva, um recurso estratégico e, inevitavelmente, um objeto permanente de disputa. É nesse deslocamento que a autonomia cognitiva deixa de ser apenas uma condição da liberdade e se torna o principal terreno estratégico do século XXI.
A economia política da autonomia cognitiva

Se o julgamento se tornou uma força produtiva, sua apropriação passou a obedecer à lógica central do capitalismo: socializar a produção e privatizar seus resultados. A inteligência concentrada nos sistemas algorítmicos não nasceu espontaneamente nas máquinas. Foi produzida por gerações de trabalhadores, pesquisadores, artistas, professores, programadores e comunidades inteiras, acumulada em linguagens, obras, práticas sociais e conhecimentos coletivos. Convertida em dados e modelos proprietários, retorna à sociedade como capital privado. O que foi produzido coletivamente reaparece como propriedade de poucos.
A aparente imaterialidade da inteligência artificial encobre uma vasta estrutura de trabalho, energia e recursos naturais. Por trás da interface instantânea existem minas, fábricas de semicondutores, cabos submarinos, centros de dados, sistemas elétricos e cadeias globais de trabalhadores responsáveis por programar, classificar, moderar, corrigir e treinar aquilo que depois aparece como inteligência autônoma. A máquina parece dispensar o trabalho porque o trabalho foi retirado do campo de visão. Quanto mais perfeita a aparência de automatismo, mais facilmente desaparecem os sujeitos, os territórios e as relações de exploração que a sustentam.
Essa ocultação não é apenas ideológica. Ela permite que o capital apresente como propriedade empresarial uma potência intelectual que é, em sua origem, social. Marx demonstrou que, ao incorporar ciência, cooperação e conhecimento às máquinas, o capital faz com que as capacidades produzidas pelo trabalho se levantem diante do trabalhador como forças estranhas, pertencentes a quem controla os meios de produção. Na economia algorítmica, essa contradição alcança o próprio saber acumulado da sociedade. A inteligência coletiva é extraída, codificada e devolvida sob a forma de serviço, assinatura, patente e dependência tecnológica.
O resultado não é somente o enriquecimento extraordinário de uma reduzida elite tecnológica. É também uma recomposição do comando sobre o trabalho. Sistemas algorítmicos passam a definir ritmos, distribuir tarefas, avaliar desempenhos, prever comportamentos e transferir para a administração conhecimentos antes dominados pelos trabalhadores. Mesmo quando não elimina uma profissão, a automação pode fragmentá-la, intensificá-la e reduzir a autonomia de quem a exerce. A tecnologia que poderia libertar tempo aparece, sob o domínio privado, como desemprego, vigilância e perda de poder coletivo.
A produtividade não contém, em si mesma, qualquer princípio de justiça. Quando os meios de produção permanecem concentrados, cada capacidade liberada pela técnica pode ser convertida em lucro para poucos e insegurança para muitos. O problema histórico, portanto, não está na existência das máquinas, mas nas relações sociais que determinam quem as controla, com quais objetivos e em benefício de qual classe. A contradição não opõe humanidade e tecnologia. Opõe a potência social do trabalho à sua apropriação privada pelo capital. A inteligência artificial não elimina essa contradição. Ela a leva ao seu ponto mais avançado.
Em escala internacional, essa concentração assume uma forma abertamente imperial. Poucas empresas e poucos Estados controlam a computação avançada, as plataformas, os modelos, as patentes, a nuvem e os circuitos financeiros indispensáveis à economia digital. Ao Sul Global reservam-se, em grande medida, a extração mineral, o fornecimento de energia, a produção de dados, o trabalho invisível e a condição de mercado consumidor. A velha divisão internacional do trabalho não desaparece diante da inovação. Ela se reorganiza em torno das infraestruturas que passam a mediar conhecimento, produção e decisão.
A dependência tecnológica converte-se, assim, em dependência cognitiva. Uma sociedade que não controla suas infraestruturas digitais entrega a agentes externos parte crescente de sua memória, de sua linguagem e de sua capacidade de organizar a realidade. Seus dados alimentam sistemas que ela não governa; suas instituições tornam-se dependentes de arquiteturas que não pode auditar; seus problemas passam a ser interpretados por modelos construídos segundo interesses, idiomas e prioridades produzidos fora de sua história. O imperialismo já não se limita a controlar recursos e mercados. Ele alcança as condições materiais pelas quais uma sociedade conhece a si mesma.
É por isso que a autonomia cognitiva não pode ser defendida apenas como liberdade individual. Ela depende da propriedade das infraestruturas, do domínio científico, da soberania tecnológica e da capacidade coletiva de decidir quais sistemas devem organizar a vida social. Onde essas condições são monopolizadas, o poder econômico começa a governar também os limites do visível, do pensável e do possível. A partir desse ponto, a acumulação deixa de operar somente sobre a produção e o consumo. Ela passa a oferecer a Estados e corporações os instrumentos necessários para transformar a própria formação do julgamento em território de conflito.
A guerra muda de lugar

Durante séculos, o poder foi medido pela capacidade de controlar territórios, recursos naturais, rotas comerciais, exércitos e instituições. Nada disso perdeu importância. O que mudou foi a percepção de que essas formas clássicas de poder dependem, cada vez mais, de uma condição anterior: a capacidade de organizar a maneira como indivíduos e sociedades percebem a realidade, constroem confiança, identificam ameaças e definem seus próprios interesses.
Toda guerra pressupõe uma disputa pela interpretação dos acontecimentos. Clausewitz demonstrou que a guerra nunca foi apenas o emprego da força, mas a continuação da política por outros meios. No século XXI, essa relação adquire uma nova dimensão. A política deixa de disputar apenas decisões institucionais para disputar, de maneira permanente, os próprios processos pelos quais essas decisões se tornam possíveis. A batalha desloca-se para o ambiente onde percepções são formadas, narrativas ganham legitimidade e julgamentos coletivos passam a orientar comportamentos sociais.
É nesse contexto que operações psicológicas, guerra informacional, guerra híbrida e guerra cognitiva deixam de constituir fenômenos independentes. Representam diferentes expressões de uma mesma transformação histórica: a incorporação da subjetividade ao campo estratégico. O objetivo já não consiste apenas em convencer adversários ou produzir propaganda, mas em modificar, de forma contínua, os ambientes cognitivos nos quais pessoas e instituições interpretam a realidade. A disputa deixa de ocorrer apenas sobre as ideias. Passa a ocorrer sobre as condições que tornam determinadas ideias plausíveis, desejáveis ou aparentemente inevitáveis.
Essa transformação encontra terreno fértil nas infraestruturas digitais contemporâneas. Plataformas, sistemas algorítmicos e modelos de inteligência artificial não apenas aceleram a circulação de informações. Eles reorganizam a arquitetura da atenção, da memória, da confiança e da visibilidade social. O que cada indivíduo encontra, recorda, ignora ou considera relevante passa a depender, em grande medida, de sistemas técnicos controlados por estruturas econômicas e políticas altamente concentradas. O ambiente informacional deixa de ser um simples espaço de comunicação. Torna-se um espaço de governo.
É nesse ponto que a hegemonia descrita por Gramsci adquire uma dimensão inédita. Se, ao longo do século XX, a disputa pelo consenso passava principalmente pela escola, pela imprensa, pelos partidos, pelas igrejas e pelas demais instituições da sociedade civil, o capitalismo algorítmico acrescenta uma nova camada de mediação. Plataformas digitais passam a organizar, em tempo real, aquilo que merece atenção, quais acontecimentos permanecem visíveis, quais interpretações circulam com maior intensidade e quais experiências desaparecem antes mesmo de serem compartilhadas. A hegemonia deixa de atuar apenas sobre conteúdos. Passa a atuar também sobre a própria arquitetura da circulação social do sentido.
A consequência política dessa transformação é profunda. Uma sociedade não precisa ser censurada para perder autonomia. Basta que os mecanismos responsáveis por organizar sua percepção da realidade estejam submetidos a interesses que escapam ao seu controle democrático. Quando isso acontece, escolhas continuam sendo realizadas, eleições continuam ocorrendo e opiniões continuam sendo emitidas. O que se modifica são as condições históricas sob as quais essas escolhas, opiniões e decisões são produzidas.
A guerra pela autonomia cognitiva nasce exatamente dessa convergência entre economia política, tecnologia e poder. Não se trata de uma guerra travada apenas contra indivíduos, nem de uma sucessão de campanhas de desinformação. Trata-se da disputa permanente pelas condições materiais que tornam possível o julgamento autônomo de uma sociedade. Quem organiza essas condições passa a disputar algo mais profundo do que narrativas. Passa a disputar a própria capacidade coletiva de reconhecer a realidade e agir sobre ela.
Como se produz um julgamento

Nenhum ser humano nasce com a capacidade de interpretar a realidade. O julgamento não é um atributo natural que emerge espontaneamente da consciência, nem uma faculdade isolada do cérebro. Ele é uma construção histórica, psicológica e social. Cada decisão depende de experiências acumuladas, memórias compartilhadas, aprendizagens anteriores, vínculos de confiança, linguagem, identidade, valores, emoções e referências construídas ao longo da vida. Julgar é, antes de tudo, organizar significado diante da incerteza.
A psicologia comportamental demonstrou que o comportamento humano não é produzido apenas por estímulos imediatos, mas por histórias de aprendizagem que moldam a maneira como indivíduos respondem ao ambiente. A psicologia social ampliou essa compreensão ao revelar que percepções, crenças e decisões nunca são exclusivamente individuais. Elas se desenvolvem em permanente interação com grupos, instituições, normas sociais e processos de comunicação. O julgamento não nasce dentro do indivíduo para depois alcançar a sociedade. Ele é produzido na relação contínua entre indivíduo e mundo social. Por isso, o julgamento não é um acontecimento. É um processo permanente de aprendizagem, interpretação e revisão da experiência.
Essa constatação possui enorme importância política. Se o julgamento depende das condições nas quais a experiência é organizada, modificar essas condições significa alterar, ainda que parcialmente, as formas pelas quais indivíduos interpretam a realidade. Não é necessário controlar cada pensamento nem impor uma única narrativa. Basta reorganizar os ambientes onde informações circulam, onde relações de confiança são estabelecidas, onde memórias permanecem acessíveis e onde determinadas interpretações passam a parecer mais plausíveis do que outras. O poder desloca-se da imposição direta das ideias para a organização dos contextos nos quais elas se tornam verossímeis.
É justamente nesse ponto que as contribuições de William McGuire, Stephan Lewandowsky e Sander van der Linden ajudam a compreender um aspecto decisivo da guerra contemporânea. Suas pesquisas demonstram que crenças não são simplesmente substituídas por argumentos mais fortes. Elas são influenciadas pela forma como informações são apresentadas, pela confiança nas fontes, pela identidade dos grupos aos quais pertencemos e pela capacidade de reconhecer tentativas de manipulação antes que elas produzam efeito. A disputa contemporânea ocorre menos sobre conteúdos específicos do que sobre a arquitetura psicológica que sustenta a formação do julgamento.
Essa compreensão rompe tanto com a ideia liberal de um indivíduo perfeitamente racional quanto com a visão determinista segundo a qual pessoas seriam meros produtos da propaganda. Os seres humanos interpretam, resistem, negociam significados e aprendem continuamente. Ao mesmo tempo, fazem isso dentro de ambientes sociais que favorecem algumas interpretações e dificultam outras. A autonomia cognitiva não consiste em pensar sozinho ou em permanecer imune à influência. Consiste na capacidade de construir julgamentos próprios a partir de um ambiente suficientemente plural, crítico e aberto ao contraditório.
É precisamente essa capacidade que adquire importância estratégica no século XXI. Quanto maior a dependência de sistemas capazes de selecionar informações, organizar prioridades, antecipar comportamentos e personalizar experiências, maior se torna a disputa pelas condições psicológicas que sustentam o julgamento humano. A questão central já não é saber quem controla uma mensagem específica, mas quem organiza o ambiente no qual milhões de pessoas aprendem, recordam, confiam, duvidam, interpretam e decidem.
A guerra pela autonomia cognitiva não busca conquistar consciências plenamente formadas. Ela busca disputar os processos pelos quais consciências são continuamente produzidas. É nesse terreno, onde comportamento, experiência e relações sociais se encontram, que a psicologia deixa de ser apenas um campo científico para tornar-se uma dimensão incontornável da economia política, da hegemonia e da soberania contemporâneas.
A autonomia cognitiva como fundamento da soberania

Ao longo da história, a soberania foi associada ao controle do território, das fronteiras, das riquezas naturais, da capacidade militar e das instituições do Estado. Essas dimensões permanecem indispensáveis. Contudo, nenhuma delas pode ser plenamente exercida quando uma sociedade perde as condições de compreender a própria realidade, reconhecer seus interesses coletivos e deliberar autonomamente sobre seu futuro. Antes de existir como atributo jurídico ou poder militar, a soberania depende da capacidade de uma comunidade produzir conhecimento sobre si mesma e agir a partir desse conhecimento.
Essa capacidade nunca foi exclusivamente intelectual. Ela resulta da articulação entre educação, ciência, cultura, comunicação, instituições públicas, infraestrutura tecnológica e participação democrática. São esses elementos que permitem a formação de uma esfera pública capaz de sustentar o dissenso, confrontar evidências, corrigir erros e construir decisões coletivas. A autonomia cognitiva não nasce do isolamento dos indivíduos, mas da existência de condições sociais que tornam possível o exercício permanente da crítica.
É justamente por isso que a soberania assume um significado mais amplo na era digital. Não basta possuir centros de dados, desenvolver modelos de inteligência artificial ou ampliar a capacidade computacional. Esses recursos são fundamentais, mas constituem apenas parte do problema. A questão decisiva consiste em saber quem controla as infraestruturas responsáveis pela circulação do conhecimento, pela organização da informação e pelas mediações que estruturam a experiência cotidiana. Quando essas funções estratégicas permanecem subordinadas a interesses externos ou privados, a dependência tecnológica transforma-se, inevitavelmente, em limitação da capacidade de decisão política.
A defesa da autonomia cognitiva também não pode ser confundida com isolamento nacional, censura ou fechamento informacional. Sociedades democráticas produzem conhecimento precisamente porque permanecem abertas ao debate, ao conflito de ideias e à circulação plural de informações. O desafio contemporâneo consiste em assegurar que essa abertura não seja capturada por estruturas de poder capazes de organizar unilateralmente os ambientes onde o julgamento coletivo é formado. A soberania democrática exige diversidade de fontes, transparência das infraestruturas, fortalecimento da ciência, educação crítica e capacidade pública de governar tecnologias que passaram a desempenhar funções essenciais para a vida social.
Nesse sentido, a autonomia cognitiva não representa apenas uma agenda para especialistas em tecnologia ou comunicação. Ela constitui uma condição para a preservação da própria democracia e para a possibilidade de projetos nacionais de desenvolvimento em um mundo marcado pela crescente concentração econômica, tecnológica e informacional. Sem capacidade de produzir conhecimento, interpretar a realidade e decidir de maneira relativamente autônoma, nenhum país consegue exercer plenamente sua soberania, independentemente de sua força econômica ou militar.
A principal disputa estratégica do século XXI, portanto, não ocorre apenas em torno de mercados, recursos naturais ou sistemas de inteligência artificial. Ela se desenvolve sobre as condições materiais, sociais e psicológicas que tornam possível o julgamento humano. É nesse terreno que se define quem possui a capacidade de interpretar o presente, imaginar alternativas e construir o futuro.
Defender a autonomia cognitiva significa, em última instância, defender a possibilidade histórica de que indivíduos e sociedades permaneçam capazes de reconhecer a realidade, deliberar sobre seus próprios interesses e decidir coletivamente seu destino. Quando essa capacidade se converte em objeto de acumulação econômica, de competição geopolítica e de disputa estratégica, ela deixa de ser apenas uma questão filosófica ou acadêmica. Torna-se um dos fundamentos da soberania no século XXI.





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