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Desmistificando a bolha da inteligência artificial: o capital pode perder bilhões sem perder o poder

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 3 horas
10 min de leitura

Por que o estouro da bolha não significa o fim da IA e pode, ao contrário, fortalecer as Big Techs, aprofundar a dependência tecnológica e tornar ainda mais decisiva a disputa pela soberania digital.


A bolha da inteligência artificial pode estourar. Mas quem acredita que isso significará o fim da IA ou uma derrota das Big Techs está ignorando como o capitalismo funciona. As crises não destroem necessariamente o poder: podem concentrá-lo ainda mais. O verdadeiro perigo é que, enquanto bilhões desaparecem das bolsas, o controle sobre a tecnologia, o conhecimento e o futuro das sociedades fique nas mãos de cada vez menos empresas.

A bolha pode estourar. O poder, não.



Há um erro de leitura que pode custar caro à esquerda. Quando as ações de empresas ligadas à inteligência artificial despencam, parte do campo progressista comemora como se estivesse assistindo à derrota das Big Techs. A reação é compreensível diante da exploração do trabalho, da vigilância e do poder acumulado por essas corporações. Mas uma bolsa em queda não equivale a uma estrutura de dominação desmontada. O capital pode perder bilhões em valor de mercado e conservar o controle sobre os meios de produção. Em certas crises, pode até ampliá-lo.


Em 5 de novembro de 2026, o Nasdaq caiu 5,5% e terminou o pregão 11,9% abaixo do recorde do mês anterior. O temor de restrições à construção de centros de dados, os custos do crédito e as dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos pesaram sobre as empresas associadas à corrida pela IA. A correção é real. Não comprova, porém, que a tecnologia tenha fracassado nem que seus proprietários tenham perdido o poder. Tampouco prova que uma liquidação generalizada de infraestrutura já esteja em curso.


Uma coisa é a inteligência artificial como capacidade técnica. Outra é o preço que investidores aceitam pagar pela promessa de lucros futuros. Modelos já auxiliam programação, pesquisa, tradução e diversas rotinas produtivas. Também erram, reproduzem discriminações, consomem recursos e podem subordinar o trabalho à vigilância permanente. Reconhecer sua utilidade não significa aceitar o marketing de uma produtividade sem limites. Denunciar esse marketing não exige fingir que a tecnologia desaparecerá quando o mercado corrigir suas apostas.


A base dessa indústria está longe de ser imaterial. Há minas, fábricas de semicondutores, servidores, sistemas de refrigeração, redes elétricas, cabos e trabalhadores em cada etapa. A Amazon, sozinha, projetou aproximadamente 220 bilhões de dólares em investimentos de capital para 2026, cifra que inclui a inteligência artificial e outras operações. Somam-se Microsoft, Alphabet, Meta, Oracle e operadores especializados que recorrem a bancos e fundos para ampliar instalações. A produção física avança hoje sob a cobrança de receitas que precisam chegar amanhã.


Em outubro, o Fundo Monetário Internacional examinou 14 operações de financiamento relacionadas à IA, anunciadas desde 2023, com cerca de 300 bilhões de dólares em aportes acionários, 650 bilhões em dívida e 1,4 trilhão em compromissos de receitas futuras. São categorias distintas, que não podem ser somadas como se fossem uma única conta. O aspecto decisivo está nos vínculos. Investidores financiam desenvolvedores que assumem compromissos de contratar computação e comprar equipamentos de empresas integrantes do mesmo circuito econômico. Parte das expectativas de receita de um grupo depende, portanto, do financiamento e da expansão de outro.


Não se trata de declarar ilegais operações que, em princípio, podem ser legítimas. Trata-se de compreender a fragilidade comum que elas podem produzir. Se a procura por serviços crescer menos que o previsto, não cai apenas a avaliação de uma startup. O fornecedor pode perder encomendas, o operador pode ter dificuldades para pagar a dívida e o investidor pode descobrir que sua receita contratada não se converteu em dinheiro recebido. O relatório do FMI descreve precisamente essa possibilidade de deterioração simultânea.


Há uma segunda contradição, frequentemente escondida pela propaganda. Aumentar produtividade não é o mesmo que realizar lucro. Uma ferramenta pode executar determinada tarefa com menos trabalho e ainda assim não render o suficiente para pagar treinamento, equipamentos, energia e financiamento. A concorrência comprime preços; chips envelhecem; modelos exigem atualização. A OCDE identificou queda de quase 80% nos preços dos modelos de linguagem ajustados pela qualidade entre janeiro de 2024 e abril de 2026. Computação mais acessível é um ganho potencial para a sociedade, não a garantia de que todas as empresas da corrida atual recuperarão seus investimentos.


Quando a conta deixa de fechar, projetos são adiados, dívidas renegociadas e empresas pressionadas a vender. Os prejuízos não atingem a todos da mesma forma. Quem depende da próxima rodada de crédito negocia em condições muito diferentes das de uma corporação com receitas diversificadas, caixa e acesso privilegiado a bancos. É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas destruição de valor e pode se tornar transferência de controle.


Marx distinguiu a acumulação de capital da centralização, movimento pelo qual capitais já existentes se reúnem sob menos proprietários ou centros de comando. A diferença não é retórica. Em 2008, depois da quebra do Washington Mutual, o JPMorgan Chase adquiriu suas operações bancárias em transação conduzida pela agência americana de garantia de depósitos, pagando cerca de 1,9 bilhão de dólares e assumindo ativos e obrigações definidos no acordo. Um banco desapareceu, outro ampliou sua presença. A comparação não transforma uma eventual crise da IA numa repetição de 2008. Revela um mecanismo que pode operar em mercados distintos.


Na inteligência artificial, o comando pode mudar sem que haja sequer uma compra integral. Em janeiro de 2025, a agência antitruste americana FTC examinou os acordos entre Microsoft e OpenAI, Amazon e Anthropic, Google e Anthropic. Encontrou participações em receitas, direitos de consulta, controle ou exclusividade em determinadas condições, além de compromissos de contratar serviços de nuvem dos próprios investidores. O relatório apontou riscos de elevar os custos de migração para outros fornecedores e de restringir o acesso de concorrentes a recursos essenciais. O domínio não começa na falência. Pode estar inscrito nos contratos muito antes dela.


A CoreWeave expõe outro lado dessa estrutura. Segundo seu relatório anual, a Microsoft respondeu por aproximadamente 67% das receitas da empresa em 2025. Parte de sua expansão depende de financiamento garantido por ativos e compromissos comerciais. Isso não significa insolvência anunciada, mas ajuda a localizar onde reside o poder econômico. Possuir os servidores é diferente de decidir, sozinho, como serão financiados e utilizados. O cliente que sustenta a receita e o credor que controla garantias participam das condições reais de operação.


O risco, portanto, não é simplesmente que gigantes comprem empresas menores em liquidação. É que a queda do preço de modelos e equipamentos conviva com o aumento do custo de sair de uma plataforma. Quanto mais governos, universidades e empresas incorporam serviços proprietários aos seus processos, mais difícil pode ser substituí-los sem perder dados, rotinas ou continuidade operacional. O preço de usar a IA pode cair enquanto o preço da autonomia sobe. Essa é uma contradição material, não uma previsão inevitável. Modelos abertos e novas estruturas de acesso podem enfrentá-la, desde que sobrevivam à disputa por financiamento e infraestrutura.


O destino da bolha não está escrito. Parte dos equipamentos poderá se tornar obsoleta; a computação mais barata poderá ampliar concorrência e acesso público. Mas comemorar a correção financeira como se ela já tivesse democratizado os meios tecnológicos ignora a pergunta que realmente importa. Quem terá capacidade para comprar, financiar, operar e determinar as regras de acesso ao que restar?


O que está em disputa é o controle do futuro


Para o Sul Global, essa pergunta tem uma história longa. A periferia capitalista fornece matérias-primas, energia, território e trabalho, enquanto conhecimento industrial, crédito e poder de decisão se concentram nos centros dominantes. A IA pode atualizar essa divisão. Um país abriga centros de dados, consome eletricidade e concede incentivos, mas depende de chips, programas, serviços de nuvem e contratos definidos fora de suas fronteiras. Ter máquinas no território não é o mesmo que possuir soberania sobre elas.


Os números recentes mostram a dimensão do atraso. No Panorama Econômico da América Latina de 2026, a OCDE calcula que a região representa 6,6% do produto mundial, mas responde por apenas 1,12% dos investimentos em IA e 0,4% da capacidade global de centros de dados de hiperescala. A CEPAL encontrou as maiores lacunas na capacidade computacional, na adoção empresarial e na execução de estratégias nacionais. Não faltam somente aplicativos. Faltam os meios de formar especialistas, sustentar pesquisa e produzir tecnologia nas condições impostas por necessidades sociais próprias. Sem essa base, uma oferta aparentemente barata pode se converter em dependência de longo prazo.


No Brasil, a Empresa de Pesquisa Energética registrou, em novembro de 2025, 26,2 gigawatts em projetos de data centers que tramitavam em pedidos de acesso à rede. Não eram instalações em funcionamento. A dimensão da demanda projetada já revela que a infraestrutura digital disputa energia, transmissão e planejamento com outras necessidades sociais. Em setembro de 2026, o REDATA virou lei, oferecendo incentivos tributários ao setor e exigindo contrapartidas de pesquisa, sustentabilidade e oferta ao mercado interno. A política tem instrumentos reais, mas precisa responder a uma questão política ainda maior. Que capacidade tecnológica e que poder de decisão permanecerão no país depois dos incentivos?


A resposta não pode ser separada da disputa mundial pelas cadeias produtivas. A Pax Silica, lançada pelos Estados Unidos em dezembro de 2025, apresenta-se como uma rede de segurança tecnológica entre parceiros considerados confiáveis. Sua declaração articula minerais, energia, fabricação avançada, semicondutores, redes, centros de dados e modelos. Coloca explicitamente o investimento privado e a proteção de tecnologias sensíveis no centro do projeto. Não é uma instituição concebida para universalizar a capacidade computacional. É uma arquitetura de segurança econômica organizada a partir dos interesses estratégicos de Washington e de seus parceiros empresariais.


Essa orientação já tem instrumentos financeiros. Em março de 2026, o Departamento de Estado anunciou a intenção de destinar 250 milhões de dólares a um fundo para minerais e infraestrutura vinculados à Pax Silica, buscando atrair capital privado e soberano. Em agosto, publicou uma chamada de até 50 milhões de dólares para uma plataforma de credenciamento e rastreamento de cadeias tecnológicas, com etapa inicial prevista no Panamá. O piloto ainda não equivale a um sistema de controle instalado. Mas mostra a direção do projeto, em que origem, certificação e circulação de componentes podem ser submetidas a critérios estabelecidos pelos participantes da rede.


A dimensão política ficou ainda mais nítida quando a Reuters revelou, em agosto, uma minuta do governo americano que discutia pressionar países ligados à iniciativa a não participar de arranjos concorrentes, especialmente da nova organização de cooperação em IA articulada a partir da China. A minuta não havia sido enviada e não pode ser tratada como política já aplicada. Mesmo assim, é uma evidência concreta de como acesso a cadeias tecnológicas e alinhamento diplomático podem aparecer juntos. É a velha hierarquia internacional traduzida para a linguagem das credenciais, dos chips e da computação.


A Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, WAICO, fundada em Xangai em julho de 2026 com assinatura de representantes de 29 países, inclusive o Brasil, propõe outra forma institucional. Segundo a nota conjunta dos ministérios brasileiros, ela é concebida como organismo intergovernamental independente, voltado à cooperação científica, à capacitação, à redução das desigualdades tecnológicas e ao estímulo de ecossistemas de código aberto. Sua agenda declarada não se estrutura pelo privilégio de acesso reservado a um círculo de aliados militares e comerciais. Esse contraste é substantivo, não uma equivalência entre duas marcas geopolíticas.


Para o Brasil, faz sentido estratégico aprofundar a participação na WAICO e trabalhar para que seus compromissos virem capacidade concreta. Isso exige concluir os procedimentos internos de adesão, defender participação efetiva dos países em desenvolvimento nas decisões, negociar intercâmbio científico, formação de profissionais, acesso a processamento e desenvolvimento de tecnologias que possam ser auditadas e modificadas localmente. Não basta celebrar uma declaração multilateral. A WAICO será uma alternativa soberana na medida em que ampliar a liberdade dos membros para produzir conhecimento, escolher parceiros e definir seus próprios usos da inteligência artificial.


A capacidade de bifurcação é um critério mais exigente que o nacionalismo de fachada. Se uma empresa elevar preços, uma licença for negada ou uma rota de fornecimento for bloqueada, o país consegue migrar seus serviços, manter sistemas públicos e desenvolver soluções próprias? Consegue estabelecer cooperação sem aceitar exclusividade? O caminho não é substituir a dependência de um centro por dependência absoluta de outro, nem fantasiar autossuficiência em cada chip. É construir alternativas reais, com infraestrutura pública, pesquisa, interoperabilidade e trabalhadores capazes de dominar a tecnologia.


Uma correção pode criar oportunidade para essa autonomia se houver instituições preparadas. Universidades e operadores públicos podem adquirir equipamentos depreciados, desde que úteis e sem contratos inviáveis. Licitações podem exigir portabilidade, auditoria, interoperabilidade e transferência de conhecimento. Do contrário, o Estado subsidia a instalação de máquinas e paga indefinidamente pelo direito de utilizá-las. A crise não distribui soberania de graça. Exige planejamento público e organização social.


Essa disputa também atravessa o cotidiano do trabalho. A Organização Internacional do Trabalho estimou em 2025 que uma em cada quatro pessoas ocupadas no mundo exerce funções com algum grau de exposição à IA generativa. Exposição não equivale a demissão. A reorganização das tarefas é mais provável que a substituição integral da maioria das profissões. Sob comando exclusivamente empresarial, porém, ganhos de produtividade podem significar fiscalização mais intensa, redução de postos e apropriação privada do tempo economizado. A mesma capacidade técnica poderia apoiar redução de jornada, serviços públicos melhores e ampliação do conhecimento coletivo.


Há ainda um custo que não aparece no balanço contábil. Quando trabalhadores, pesquisadores e instituições passam a depender de sistemas que não conseguem compreender, contestar ou modificar, ficam condicionadas também as condições de formar juízos e tomar decisões. A disputa pela inteligência artificial alcança o conhecimento e a própria autonomia de quem o produz. Não se resolve com mais uma assinatura de software, nem com a simples instalação de servidores.


O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos em computação, formação, pesquisa e aplicações públicas. Sua execução precisa ser medida pela autonomia que produz, não pelo volume de recursos anunciado. Infraestrutura pública e cooperativa, ciência aberta, proteção de dados, formação técnica e participação dos trabalhadores na definição dos usos da IA não são adereços de uma política tecnológica. São condições para que uma força produtiva desenvolvida socialmente não se converta em mais uma engrenagem de subordinação.


A crítica socialista não tem motivo para absolver a inteligência artificial dos danos que já causa. Tem menos motivo ainda para confundir a falência de uma aposta financeira com o desaparecimento de uma tecnologia estratégica. O que está em julgamento não é apenas o futuro das ações nas bolsas, mas a propriedade dos meios de produzir, conhecer e decidir. Se a bolha estourar, a classe trabalhadora não ganhará soberania por assistir de fora à queda dos especuladores. O futuro será disputado entre os que controlam a infraestrutura e aqueles que forem capazes de arrancá-la da condição de privilégio e colocá-la a serviço da sociedade.


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