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Discurso de cinema, gestão de terror: a São Paulo que Tarcísio esconde

  • Foto do escritor: Luís Delcides
    Luís Delcides
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Discurso afiado, gestão cega. Privatizações atabalhoadas, trens incendiados, pedágios extorsivos e obras ineficientes escancaram o que as câmeras não mostram: a São Paulo que Tarcísio decora, mas não resolve.


A cada debate ou entrevista, o governador Tarcísio de Freitas repete um mesmo mantra: números decorados, nomes de bairros, quilometragem de obras e promessas de entregas. Parece um concurseiro brilhante na prova de memorização, mas um gestor pífio quando o assunto é explicar o caos que se instala por trás dos holofotes.


Sua estratégia discursiva é clara: evitar respostas substantivas. Quando pressionado, refugia-se em dados soltos, como quem tenta encher os olhos da população com inaugurações precárias, mas se esquiva do que realmente importa: a qualidade dos serviços, a transparência e o planejamento estratégico.


Comecemos pelo emblemático caso da Sabesp. Tarcísio repete à exaustão que a companhia é um patrimônio paulista, mas foi justamente ele quem a colocou no centro de um processo de privatização atabalhoada e desorganizada. Se o fornecimento e a gestão de contas são tão deficitários, como justificar o aumento dos investimentos após a venda? A contradição é evidente: ou o serviço era deficitário e a privatização é uma solução improvisada, ou a empresa era saudável e foi entregue a preço de banana ao capital privado. Falta clareza — e sobra discurso ensaiado.


No transporte, o cenário é ainda mais preocupante. As linhas 11, 12 e 13 da CPTM, agora sob a gestão da Trivia, já acumulam falhas graves — incluindo um incêndio em uma composição a caminho do Brás. A promessa de modernização se desfaz diante da realidade de trens superlotados, intervalos longos e manutenção precária. E o que dizer das estações da Linha 6 e da Linha 17, entregues com horário reduzido e operação limitada? Não são soluções, são vitrines. Maquiagem em obra inacabada.


Outro ponto que a imprensa subserviente ao capital insiste em ignorar: a viagem de Tarcísio a Israel. Até minha mãe, com seus 85 anos, se lembra desse episódio e pergunta: o que ele foi fazer lá? Não houve explicação à altura, apenas silêncio e omissão. Enquanto isso, o governador segue em sua turnê de inaugurações-relâmpago, enquanto a saúde pública agoniza. Os repasses federais para novos leitos e cirurgias eletivas são negligenciados, e a verba da FAPESP segue defasada, comprometendo a pesquisa científica no estado que deveria ser o motor do país.


E não bastasse o desmonte dos serviços essenciais, o governo ainda impõe à população do interior o pedágio free-flow — um acinte disfarçado de modernidade. Moradores de micro-regiões, que dependem do deslocamento diário, são penalizados com tarifas abusivas, que inflacionam o custo de produtos e serviços. A tal "resiliência hídrica" mencionada por Tarcísio também não resiste ao próprio governo: como falar em sustentabilidade enquanto se negam as mudanças climáticas, se desmatam áreas protegidas e se abandonam os parques estaduais?


Haddad tem razão ao cobrar um passo mais ousado em políticas públicas. Enquanto São Paulo patina, o governo estadual se apega a números frios para disfarçar a estagnação. O estado que menos cresceu nos últimos 12 meses não pode se dar ao luxo de trocar eficiência por estética. Metrô no SESC Pompeia? Sim, mas inútil no horário de pico. Obras entregues? Sim, mas pela metade. Promessas de gestão municipal? Sim, mas as filas por consultas continuam.


Diante de tudo isso, fica uma questão incômoda: como Tarcísio ainda mantém aprovação positiva? Talvez porque a população ainda não tenha visto, na prática, o verdadeiro custo dessas escolhas. Mas os sinais estão aí. E quanto mais a imprensa o proteger, mais tarde virá o choque de realidade.


Não adianta decorar endereços e números. Gestão não se faz com flash e propaganda. Faz-se com compromisso, planejamento e, acima de tudo, com respostas claras àqueles que mais precisam. Tarcísio pode até vencer no discurso, mas perde feio na prática. E o povo, esse, continua pagando a conta.


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