Expresso 61 sai do ar após anunciar debate sobre possível infiltração do Mossad e da CIA no Brasil
- Redação

- há 3 minutos
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Portal ficou completamente indisponível depois de publicar a chamada do programa Movimento; causas do desaparecimento ainda estão sendo apuradas, e transmissão está mantida para terça-feira (1º), às 20h30.
Falha técnica, ataque ou coincidência? O site Expresso 61 desapareceu depois de anunciar um debate sobre a possível atuação do Mossad e da CIA dentro do Estado brasileiro. Enquanto as causas da indisponibilidade são investigadas, o programa Movimento está confirmado: nesta terça-feira (1º), às 20h30, Reynaldo Aragon e Sayid Tenório analisam as denúncias, os interesses em disputa e os riscos para a soberania nacional.

O site Expresso 61 saiu completamente do ar depois de publicar a matéria “Mossad e CIA estão infiltrados no governo brasileiro?”, que anunciava um debate ao vivo sobre a possível atuação de serviços estrangeiros de inteligência e de redes de influência vinculadas a interesses externos dentro do Estado brasileiro. Na manhã deste sábado, 29 de agosto, leitores começaram a informar que não conseguiam abrir a reportagem. Pouco depois, constatou-se que o problema não estava restrito à página do programa: todo o portal havia desaparecido, com a página principal do Expresso 61 carregando sem título, textos, imagens ou qualquer conteúdo visível.
O responsável técnico pelo site foi acionado e trabalha para identificar o que aconteceu. Até a conclusão desta matéria, não havia diagnóstico definitivo sobre a origem da indisponibilidade nem evidência pública que permitisse atribuí-la a uma pessoa, organização, governo ou serviço de inteligência. Falha de hospedagem, pane no sistema de gerenciamento de conteúdo, problema em banco de dados, alteração indevida de arquivos, erro de configuração, comprometimento de credenciais, ataque digital ou suspensão administrativa são possibilidades tecnicamente distintas e precisam ser examinadas antes de qualquer conclusão. A proximidade temporal entre a publicação da chamada e o desaparecimento do portal é um fato relevante e não deve ser ignorada, mas, isoladamente, não comprova uma relação de causa e efeito.
Essa distinção é indispensável. Afirmar desde já que o Expresso 61 foi vítima de sabotagem, censura ou operação de inteligência seria ultrapassar as evidências disponíveis. Fingir, por outro lado, que o desaparecimento de um veículo jornalístico imediatamente depois da publicação de uma pauta sensível não merece registro, investigação e transparência seria igualmente irresponsável. O dever do jornalismo é documentar a ocorrência, preservar a cronologia, formular as perguntas necessárias e acompanhar a apuração até que existam elementos capazes de confirmar ou afastar as diferentes hipóteses.
Uma investigação tecnicamente séria precisa preservar e examinar registros de acesso e de erro do servidor, histórico de autenticações no painel de hospedagem, alterações recentes no sistema editorial, integridade do banco de dados, modificações em arquivos, configurações de domínio e DNS, certificados de segurança, tráfego anormal e eventuais comunicações da empresa de hospedagem. Os backups também devem ser verificados, mas a restauração do portal não substitui a apuração da causa. As orientações contemporâneas de resposta a incidentes, como as reunidas pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, recomendam que os responsáveis confirmem a ocorrência, coletem e preservem evidências, analisem os dados disponíveis e somente então atribuam natureza, extensão e eventual autoria ao incidente.
O desaparecimento do site ganha relevância pública porque atingiu diretamente a circulação de uma reportagem e o acesso dos leitores a um debate político. A Constituição brasileira determina, em seu artigo 220, que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, independentemente do processo ou do veículo utilizado, não devem sofrer restrições incompatíveis com a ordem constitucional. Essa proteção alcança também o jornalismo praticado na internet e os veículos independentes, frequentemente mais vulneráveis por dependerem de estruturas reduzidas de hospedagem, segurança, manutenção e financiamento. A eventual origem técnica do problema não diminuiria o prejuízo informativo provocado; uma ação deliberada, caso comprovada, elevaria o episódio a outro nível de gravidade e exigiria a identificação dos responsáveis.

O tema que motivou a reportagem desaparecida é sensível, mas não surgiu de uma fantasia histórica. A atuação dos Estados Unidos na crise que desembocou no golpe de 1964 está registrada em documentos oficiais norte-americanos posteriormente desclassificados. O acervo histórico do próprio Departamento de Estado reúne telegramas, conversas e comunicações secretas produzidas nos dias anteriores à derrubada de João Goulart. Os documentos demonstram que o governo de Lyndon Johnson acompanhou a conspiração, manteve contato com atores brasileiros e preparou apoio material aos militares golpistas. A chamada Operação Brother Sam previa o deslocamento de recursos militares, combustível, armas e munições caso houvesse resistência ao golpe, como mostra a documentação reunida pelo Office of the Historian do Departamento de Estado e pelo National Security Archive.
Décadas depois, as revelações de Edward Snowden demonstraram que a então presidenta Dilma Rousseff, integrantes do governo brasileiro e informações estratégicas da Petrobras estiveram no alvo da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA. O caso provocou uma crise diplomática, levou Dilma a adiar uma visita de Estado a Washington e foi denunciado pela presidenta na Assembleia Geral das Nações Unidas. Em seu discurso de 24 de setembro de 2013, Dilma afirmou que dados de cidadãos, representações diplomáticas e informações empresariais de valor econômico e estratégico haviam sido alcançados pela espionagem. Portanto, discutir vigilância estrangeira, soberania informacional e interferência externa no Brasil é legítimo e necessário. Isso, contudo, não transforma automaticamente toda suspeita contemporânea em fato comprovado.
É justamente essa fronteira entre documentação, indício, influência política, cooperação institucional e atividade clandestina que o programa Movimento pretende examinar. A pergunta “Mossad e CIA estão infiltrados no governo brasileiro?” deve ser tratada como pergunta investigativa, não como uma sentença previamente estabelecida. Falar em infiltração exige evidências verificáveis: vínculos funcionais ocultos, cadeias de comando, pagamentos, missões operacionais, acesso indevido a informações protegidas, intermediações clandestinas ou conclusões produzidas por investigações competentes. Relações diplomáticas, contratos, programas de cooperação, encontros institucionais ou afinidades políticas podem justificar escrutínio público, mas não bastam, por si sós, para qualificar alguém como agente de um serviço estrangeiro.
O mesmo rigor precisa ser aplicado ao debate sobre Israel. O Mossad é um serviço de inteligência do Estado israelense e suas possíveis atividades devem ser examinadas como questão de poder estatal, segurança e soberania. Essa análise não pode ser confundida com hostilidade contra judeus, contra a comunidade judaica brasileira ou contra pessoas de origem israelense. Criticar as políticas do governo de Israel, investigar redes de influência política ou questionar a atuação de um serviço de inteligência não significa atacar uma religião ou uma população. Da mesma forma, nacionalidade, fé, opinião política, atividade empresarial ou defesa pública de Israel não constituem prova de pertencimento ao Mossad. O debate responsável precisa ser firme diante dos Estados e cuidadoso diante das pessoas.
Entre as questões que serão analisadas estão os limites entre cooperação legítima e interferência estrangeira; a presença de empresas privadas em áreas sensíveis do aparelho público; a terceirização de sistemas, bancos de dados e serviços estratégicos; as redes de relacionamento político e empresarial que podem produzir dependência ou influência; e os mecanismos pelos quais interesses externos procuram alcançar governos, parlamentos, administrações locais, meios de comunicação e setores religiosos. O ponto central não é distribuir acusações indiscriminadas, mas perguntar se o Estado brasileiro possui instrumentos suficientes de contrainteligência, segurança cibernética, auditoria contratual e proteção dos seus ativos informacionais.
Apesar da indisponibilidade do Expresso 61, o debate está mantido. O programa Movimento será transmitido ao vivo nesta terça-feira, 1º de setembro, às 20h30, pelo horário de Brasília, por um pool formado pelos canais do YouTube TV 61 (@TV61bsb), TV Travessia (@ricardosilveira1269) e Direito à Cidade (@alissonlopes). A apresentação será do jornalista João Negrão, com as participações do jornalista Ricardo Silveira e do advogado Alisson Lopes.
Os convidados serão o historiador, escritor e analista de geopolítica do Oriente Médio Sayid Tenório, presidente do Instituto de Amizade Brasil-Irã e autor dos livros Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência e RASD 50 anos — A longa marcha pela independência da última colônia da África; e Reynaldo Aragon, jornalista e pesquisador especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, integrante do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC/UFF), além de editor do Código Aberto.
O Expresso 61 precisa voltar ao ar, e as causas de seu desaparecimento precisam ser esclarecidas. Se houve apenas uma falha técnica, o diagnóstico deve ser apresentado com transparência. Se forem encontrados sinais de ação deliberada, os vestígios deverão ser preservados e encaminhados às instâncias responsáveis. Enquanto não houver evidência técnica, não se apontará autoria. Mas a ausência de uma conclusão imediata não exige silêncio: exige investigação.
O site pode ter desaparecido da tela, mas a pergunta que tentou colocar em circulação permanece. Na terça-feira, ela será feita ao vivo, diante do público, com a responsabilidade de separar história documentada, fatos contemporâneos, hipóteses investigativas e acusações que ainda dependem de prova. Em uma democracia, perguntas de interesse público não devem desaparecer junto com uma página da internet.





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