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Invasões e trajetórias: o desafio comunicacional até 2026

  • Foto do escritor: Luís Delcides
    Luís Delcides
  • 31 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 13 de ago. de 2025

Por Luís Delcides, advogado e jornalista



Entre fofocas de bairro, cultos barulhentos e vídeos de WhatsApp, Dina virou o retrato vivo da guerra informacional no Brasil: uma mistura de fé, alienação e consumo midiático seletivo que transforma vizinhas comuns em alvos perfeitos da extrema direita


Quando eu vejo textos como “Como o Brasil pode vencer a guerra informacional” e “Sinal da Record News é invadido e vídeo perturbador é transmitido”, eu lembro de uma vizinha de rua transversal, religiosa, telespectadora assídua da TV Record e que se recusa a assistir à Rede Globo.

Antes de frequentar a igreja evangélica, Dina* era uma senhora fofoqueira, vendedora de roupas e esnobava pelo bairro com seu Wolkswagen Santana GLS branco. Era uma reclamação enorme do marido, ex-taxista, que fazia a lotação “Cidade”, já que na época não havia metrô no bairro – ou como diz um senhorzinho da região, “o Trenzinho”.

Dina estava tão cansada da vida, de saco cheio do marido mau, ruim, machista e agressivo, que resolveu tentar tirar a própria vida no Viaduto do Chá. Logo, se arrependeu, chorou muito e voltou pra casa.

Durante algumas caminhadas e conversas com a vizinha da rua de frente, após orações, trocas de ideias e abraços, Dina resolveu frequentar uma igreja batista. No entanto, como os batistas são silenciosos e na época prezavam pela qualidade do sermão, oração silenciosa e poucos instrumentos na liturgia, ela resolveu migrar para a Igreja do Evangelho Quadrangular.

Dina se encontrou na Quadrangular. Barulho, banda, mulheres dançando. Uma vez, eu visitei a Quadrangular de uma rua próxima à Avenida Mateo Bei e encontrei a atual vizinha-pastora do 324 dançando, praticamente fazendo um “split-planet” no corredor principal do templo.

Logo, Dina ficou escandalizada ao ver várias moças dançando no palco da Quadrangular. O palco era de madeira e, no momento da empolgação, quebrou, causando um acidente horrível. A neo-convertida Dina ficou chocada e constrangida. Resolveu mudar de igreja e passou a frequentar a igreja da vizinha-pastora do 324, que estava começando.

Contudo, ficou decepcionada também ao ver uma bacia com água suja na igreja e decidiu mudar para outra, mais distante, quase perto da atual Estação Oratório da Linha 15. Dina gosta de ir pra igreja. O domingo, para ela, é sagrado: ela se arruma quatro horas antes da celebração e sai contando os passinhos até o primeiro ponto da Sapopemba para ir à igreja.

Dina gosta da Record. Ama o Cidade Alerta. Não troca a Record por nada. Fala mal da Globo, das novelas. Acha a Globo um lixo, sim: pra ela, a Globo é do Satanás! Ou seja, Dina é uma verdadeira fiscal da vida alheia. Se alguém faz uma provocação que cause reflexão, ela não consegue emitir uma resposta adequada e profunda, porque a Globo é lixo e ponto final.

Chama atenção as frases da invasão: “Você verá coisas tão belas” e “Você está doente”. Ao mesmo tempo, há um ataque informacional que se sustenta na desigualdade estrutural, na capilaridade das redes religiosas e na precarização informacional. Dina é produto dessa teia igrejeira e, ao mesmo tempo, da alienação e da falta de educação midiática.

Assim, Dina é o alvo preferido da estratégia informacional sofisticada da extrema-direita. Sua nora, durante as eleições de 2022, atuou no “Gabinete do Ódio” e tentou, por diversas vezes, mandar vídeos de ódio ao PT para a minha mãe. No entanto, minha mãe reagiu e enviou um link do YouTube do programa da Andréa Gonçalves.

Dina ficou emburrada e virou a cara pra minha mãe por dois meses. Sim, minha mãe foi chamada de “comunista”, “marxista”, sem nunca ter lido nem a capa de O capital, Crítica ao Programa de Gotha ou Liberdade de imprensa. Ela sabe o que é forma-mercadoria e forma-valor porque eu tento explicar os conceitos marxianos pra ela.

Depois de um tempo, Dina voltou a conversar com minha mãe. Ela nem tocou no assunto, se assistiu ou não o vídeo da Andréa Gonçalves. Logo, Dina é uma vítima da guerra cultural e das operações psicológicas. Aliás, vou mais longe: trata-se de Psyops – movimento de operação psicológica premeditado.

As igrejas fingem ensinar a Bíblia e a pregação, mas praticam operação psicológica. Grupos de redes virtuais também utilizam a mesma lógica operacional, e o jornalismo hegemônico trabalha de forma semelhante, especialmente pela falta de ação dos seus comunicadores ao entrevistarem personagens da extrema-direita.

Sim, Dina é resultado da desigualdade social e informacional. Ou seja, é mais uma vítima da guerra híbrida – redes sociais, igreja, grupos de oração disfarçados de propagação de ódio. Dina é vítima da experimentação desses grupos; é produto do ecossistema de desinformação – igreja, grupo de bairro, grupo de zap disfarçado de grupo de irmãs de oração.

O desafio lançado por Rey Aragon é a construção de um modelo de resistência eficaz no Brasil. O meu desafio é tentar convencer a Dina e tantas outras mentes estreitas, fechadas, alienadas, com leituras rasas do texto bíblico e da realidade da vida.

Ainda acredito que o caminho está na reflexão dos temas. E você?

*personagem fictício

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete necessariamente a opinião do <código aberto> (mas provavelmente sim)

 
 
 

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