A esquerda, a máquina e o capital
- Rey Aragon

- há 1 hora
- 9 min de leitura

A esquerda aprendeu a denunciar o poder da tecnologia. Agora precisa aprender a disputá-lo.
A inteligência artificial não vai desaparecer porque denunciamos seus riscos. A questão decisiva do século XXI é quem controlará a técnica, para quais fins e em benefício de quem. Se a luta de classes chegou aos algoritmos e à inteligência artificial, abandonar esse território não é resistência. É entregá-lo ao adversário.
A esquerda está fazendo a pergunta errada

A esquerda tem razões de sobra para desconfiar da inteligência artificial. Ela nasce, em sua forma dominante, concentrada nas mãos de algumas das corporações mais poderosas da história, alimentada por volumes colossais de dados, infraestrutura computacional, energia e trabalho humano. Pode eliminar postos de trabalho, intensificar a exploração, ampliar a vigilância, automatizar decisões e concentrar ainda mais riqueza e poder. O diagnóstico é correto. O problema começa quando dele se extrai a conclusão errada.
Diante da inteligência artificial, boa parte da esquerda ainda pergunta o que a tecnologia fará conosco: quantos empregos destruirá, quais profissões substituirá, quanto poder entregará às Big Techs, quais capacidades humanas atrofiará. São perguntas necessárias. Mas são perguntas de quem observa a transformação tecnológica como objeto, não de quem pretende disputá-la como sujeito. A pergunta estratégica é outra: o que a classe trabalhadora pretende fazer com a inteligência artificial?
É precisamente nesse deslocamento que aparece a tecnofobia. Não na crítica à IA, que é indispensável; não na defesa de limites, regulações ou mesmo da proibição de tecnologias socialmente inaceitáveis; mas no momento em que a crítica à técnica sob o capitalismo se converte em recuo diante da disputa pela própria técnica. Porque a inteligência artificial não desaparecerá por ser perigosa. O capital tampouco renunciará a uma força capaz de ampliar produtividade, reorganizar o trabalho, concentrar conhecimento e produzir poder. Enquanto discutimos se deveríamos temê-la, outros estão decidindo quem a possui, como será construída e para que servirá.
É aqui que a tecnofobia deixa de ser apenas uma insuficiência de leitura e se torna um erro estratégico. Uma força política pode compreender perfeitamente os perigos de uma tecnologia e ainda assim fracassar em compreender o poder que existe em controlá-la. E nenhuma tecnologia desaparece porque aqueles que não a controlam decidiram recusá-la. Ela apenas continua sendo desenvolvida por quem tem capital, infraestrutura e capacidade para fazê-lo.
A esquerda pode, portanto, estar certa sobre quase todos os perigos da inteligência artificial e ainda chegar à conclusão política errada. A questão decisiva não é escolher entre aceitar a técnica ou resistir a ela. É decidir quem terá poder para determinar seus rumos.
Marx já havia separado a máquina do capital

Há quase dois séculos, Marx enfrentou uma confusão que retorna agora sob novas formas. Ao analisar as revoltas operárias contra a maquinaria, escreveu em O Capital que foi preciso “tempo e experiência” para que os trabalhadores aprendessem a distinguir a máquina de seu emprego pelo capital e, assim, deslocassem seus ataques do instrumento material para a forma social que o convertia em arma contra eles. A distinção é decisiva: a máquina não é o capital.
Isso jamais significou neutralidade. Marx descreveu com brutal precisão o que acontece quando a maquinaria entra na produção submetida à valorização do capital: ela pode disciplinar o trabalhador, intensificar o ritmo, desqualificar saberes, ampliar a exploração e transformar o ganho de produtividade em desemprego. A técnica incorpora relações de poder, reorganiza o processo de trabalho e pode confrontar quem trabalha como uma força hostil. Mas é precisamente aí que começa a análise materialista, não onde ela termina.
A contradição está no fato de que a máquina capaz de eliminar trabalho necessário contém uma possibilidade que o próprio capitalismo converte em ameaça. Se uma inteligência artificial permite realizar em duas horas o que antes exigia oito, há pelo menos duas perguntas possíveis: quantos trabalhadores poderão ser dispensados ou quanto tempo de vida poderá ser devolvido a quem trabalha? A capacidade técnica é reduzir trabalho. Transformar essa capacidade em desemprego, precarização ou redução da jornada é uma decisão determinada pelas relações de propriedade, poder e distribuição.
É por isso que a tecnofobia produz uma inversão tão problemática para a esquerda. Desde quando uma tradição fundada na crítica das relações de produção passou a localizar na capacidade da máquina de poupar trabalho o problema que deveria procurar na sociedade que transforma essa economia de trabalho em ameaça à sobrevivência? O escândalo não é uma máquina poder trabalhar por nós. O escândalo é termos organizado uma sociedade em que trabalhar menos pode significar não poder viver.
No Grundrisse, Marx enxergou ainda mais longe: à medida que ciência, conhecimento e cooperação social se incorporam às forças produtivas, a riqueza deixa de depender na mesma proporção do trabalho humano imediato. O horizonte emancipatório não era manter seres humanos trabalhando onde máquinas poderiam poupá-los, mas converter o aumento da produtividade em tempo disponível para o desenvolvimento humano. A inteligência artificial radicaliza essa contradição. Nunca tivemos instrumentos tão poderosos para economizar determinadas formas de trabalho; sob o capital, essa possibilidade chega aos trabalhadores primeiro como medo.
A pergunta marxista diante da IA, portanto, não é como impedir que a técnica nos poupe trabalho. É quem se apropriará da produtividade, quem controlará a máquina e quem ficará com o tempo que ela for capaz de libertar.
A tecnofobia também pode ser um fetichismo

Há uma ironia desconfortável na crítica contemporânea à inteligência artificial. Quanto mais poder atribuímos à máquina, mais facilmente desaparecem de cena aqueles que realmente decidem o que fazer com ela. Dizemos que a IA vai destruir empregos, precarizar profissões, vigiar trabalhadores, manipular comportamentos e concentrar riqueza. A frase transforma a tecnologia em sujeito. O capital some.
Marx conhecia bem esse tipo de inversão. No fetichismo, relações sociais produzidas por seres humanos aparecem diante deles como propriedades naturais das coisas. Não se trata de afirmar que a tecnofobia seja simplesmente uma nova modalidade do fetichismo da mercadoria, mas de reconhecer nela uma operação semelhante quando consequências historicamente determinadas pelas relações de propriedade e poder passam a ser apresentadas como atributos inevitáveis da própria técnica. A máquina parece agir sozinha justamente quando mais precisamos perguntar quem age por meio dela.
A inteligência artificial não decide que um ganho de produtividade será convertido em demissão em vez de redução da jornada. O algoritmo não escolhe sozinho transformar cada movimento de um trabalhador em métrica de desempenho. Um modelo não determina que conhecimento produzido socialmente será cercado por propriedade privada. Sistemas técnicos tornam essas operações possíveis, condicionam escolhas e incorporam relações de poder em sua própria arquitetura, mas são empresas, proprietários, gestores, Estados e instituições que definem sob quais relações sociais essas capacidades serão mobilizadas. Apagar esses sujeitos não radicaliza a crítica ao capital. Apaga o capital da crítica.
É nesse ponto que a tecnofobia pode produzir seu paradoxo mais profundo: pretendendo denunciar o poder da tecnologia, acaba por conceder à tecnologia um poder que pertence às relações sociais. O desemprego aparece como destino técnico; a vigilância, como consequência inevitável do algoritmo; a concentração, como natureza da inteligência artificial. E aquilo que foi historicamente construído começa a parecer tecnologicamente necessário.
Para uma esquerda materialista, essa inversão é especialmente perigosa. Se a causa está na máquina, a política termina na contenção da máquina. Mas se a técnica é um campo material atravessado pela luta de classes, a questão muda inteiramente: quem detém o poder de determinar sua finalidade? A tecnofobia começa a perder força no instante em que o capital volta a aparecer na frase.
O capital não tem tecnofobia

O capital não está esperando que a sociedade resolva seus dilemas éticos sobre a inteligência artificial. Enquanto discutimos se devemos temê-la, corporações e Estados disputam semicondutores, energia, data centers, capacidade computacional, modelos, dados e cérebros. A corrida pela IA é apresentada como corrida pela inovação, mas sua materialidade revela algo maior: é uma disputa pela infraestrutura do poder.
A concentração já começa na base. Mais de 90% dos modelos de IA considerados relevantes em 2025 vieram da indústria. A fabricação dos semicondutores mais avançados depende de uma cadeia extraordinariamente concentrada, enquanto a capacidade de treinar e operar grandes modelos exige volumes de computação e energia que poucos atores conseguem financiar. Não existe “nuvem” no sentido etéreo que a palavra sugere: existem minas, eletricidade, chips, servidores, cabos, data centers, propriedade intelectual e bilhões em capital. Por trás da inteligência aparentemente imaterial existe uma infraestrutura brutalmente material.
É essa infraestrutura que transforma capacidade tecnológica em poder. Quem controla computação em escala pode decidir quais modelos serão treinados; quem controla modelos condiciona aplicações; quem controla plataformas organiza acesso, circulação e dependência. Dados e conhecimento produzidos socialmente entram nessa arquitetura e podem retornar à sociedade cercados por propriedade privada, preços, licenças e regras definidas por poucas corporações. A inteligência artificial não elimina a velha questão dos meios de produção. Ela a estende aos meios de produção da própria inteligência social.
O capital não precisa acreditar que toda inovação seja boa nem ignorar seus riscos. Basta reconhecer o poder que ela concentra e agir para controlá-lo. A tecnofobia, ao contrário, corre o risco de transformar a recusa moral de seus efeitos em ausência política no terreno onde esse poder está sendo acumulado.
Denunciar monopólios tecnológicos não constrói capacidade tecnológica alternativa. O capital não precisa que a esquerda ame sua tecnologia. Basta que ela desista de disputá-la.
No Sul Global, não disputar é depender

Há uma diferença brutal entre recusar uma tecnologia e não possuir capacidade para decidir sobre ela. Para países do Sul Global, essa distinção separa soberania de dependência. O Brasil pode decidir não desenvolver inteligência artificial, capacidade computacional ou modelos próprios. Isso não fará a IA desaparecer de seu território. Fará empresas, governos, universidades e trabalhadores brasileiros utilizarem sistemas construídos sobre infraestruturas, padrões e interesses definidos em outros centros de poder.
A dependência começa muito antes da tela. Está nos semicondutores que não produzimos em escala avançada, na computação que precisamos contratar, nas nuvens que armazenam e processam dados, nos modelos que não controlamos e nas condições de acesso que podem ser alteradas por decisões empresariais, sanções, controles de exportação ou conflitos geopolíticos. Soberania tecnológica não significa fabricar sozinho cada chip ou construir uma autarquia digital impossível. Significa possuir capacidade material suficiente para escolher interdependências sem transformar dependência em destino.
É por isso que a disputa pela inteligência artificial já entrou na razão de Estado. O próprio Brasil começou a investir em infraestrutura pública de computação, supercomputadores, semicondutores e modelos de linguagem em português, ao mesmo tempo que procura diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades externas. Há mais de meio século, o Chile de Salvador Allende já havia percebido, com o Projeto Cybersyn, algo que permanece atual: informação, capacidade de processamento e coordenação econômica também são instrumentos de soberania. Mudaram as máquinas. A questão do poder permaneceu.
Para a esquerda do Sul Global, portanto, a tecnofobia carrega uma contradição adicional: é possível rejeitar a tecnologia produzida pelo centro e terminar ainda mais subordinado a ela.
A soberania do século XXI não será medida apenas pelo controle do território físico, dos recursos naturais ou da moeda. Será medida também pela capacidade de uma sociedade participar das decisões sobre as infraestruturas que organizam conhecimento, produção e vida. No Sul Global, abandonar a disputa pela técnica não é escapar da máquina. É correr o risco de viver dentro da máquina dos outros.
A técnica também é luta de classes

Disputar a técnica não significa ajoelhar-se diante dela. Uma sociedade emancipada não seria aquela que desenvolve tudo o que é tecnicamente possível, mas aquela que recupera o poder de decidir coletivamente o que merece ser desenvolvido. Há tecnologias que devem ser apropriadas, outras transformadas, algumas limitadas e aquelas que simplesmente não deveriam existir. O contrário da tecnofobia não é a tecnofilia. É poder sobre a técnica.
Essa disputa começa antes de a máquina chegar ao local de trabalho. Está em quem financia a pesquisa, controla a infraestrutura, define os problemas que merecem ser automatizados, projeta os sistemas e determina suas finalidades. Continua quando a tecnologia entra na fábrica, no escritório, na escola ou no serviço público: trabalhadores precisam ter poder para interferir em sua implantação, contestar seus critérios e participar da decisão sobre aquilo que será automatizado. E termina onde o capitalismo procura encerrar a discussão: na apropriação dos ganhos de produtividade.
Se uma inteligência artificial permite produzir em quatro horas aquilo que antes exigia oito, a pergunta política não pode se limitar a quantos empregos serão eliminados. Deve alcançar aquilo que realmente está em disputa: por que não trabalhar quatro horas? Por que o aumento da capacidade produtiva deveria pertencer ao proprietário da máquina e não à sociedade que acumulou o conhecimento capaz de torná-la possível? A promessa emancipatória da automação só começa onde termina o direito automático do capital de capturar seus benefícios.
É nesse sentido que inteligência artificial, algoritmos e automação precisam entrar definitivamente no horizonte da luta de classes. Sindicatos terão de disputar algoritmos como disputam jornadas e salários; movimentos populares terão de disputar infraestrutura e dados; Estados periféricos terão de construir capacidade tecnológica; universidades públicas terão de produzir conhecimento que não termine cercado por monopólios privados. Controle popular da técnica não significa trocar o conselho de administração de uma Big Tech por uma burocracia estatal. Significa democratizar o poder de decidir o que produzir, como produzir, para quê produzir e quem se apropria do resultado.
A esquerda não precisa amar a inteligência artificial. A máquina não nos oferece emancipação nem nos condena inevitavelmente à barbárie. Entre uma possibilidade e outra existem política, propriedade, organização e luta.
Durante demasiado tempo, perguntamos o que a tecnologia fará com os trabalhadores. A pergunta continua necessária, mas já não basta. O século XXI colocou diante da esquerda uma tarefa maior: disputar as forças capazes de reorganizar trabalho, conhecimento e poder antes que sua propriedade pareça tão natural quanto hoje parece sua presença. A esquerda aprendeu a perguntar o que a tecnologia fará com os trabalhadores. Agora precisa decidir o que os trabalhadores farão com a tecnologia.





Comentários