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A política sem culpa: por que o escândalo já não derruba ninguém

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 1 hora
  • 9 min de leitura

Como a extrema direita aprendeu a transformar denúncias em lealdade política.


Durante décadas, acreditou-se que grandes escândalos destruíam carreiras políticas. Hoje, em muitos casos, ocorre exatamente o contrário. Este ensaio investiga a arquitetura psicológica, cultural e tecnológica dessa inversão histórica e propõe uma interpretação original: o escândalo não perdeu importância; ele mudou de função. Em uma sociedade moldada pela fricção zero, pela metaintermediação algorítmica e por operações permanentes de engenharia da subjetividade, a denúncia pode deixar de produzir vergonha para produzir pertencimento.

O escândalo mudou de função



As grandes transformações políticas raramente anunciam a própria chegada. Elas preservam as instituições, mantêm o vocabulário da democracia e reproduzem a aparência da normalidade. O que muda é mais difícil de perceber. Mudam as relações invisíveis que organizam o comportamento coletivo. Foi exatamente isso que aconteceu com o escândalo político.


Durante muito tempo, a denúncia pública de um ato de corrupção, de um abuso de poder ou de uma grave transgressão ética acionava um mecanismo relativamente previsível de responsabilização. O escândalo produzia desgaste, o desgaste comprometia a confiança e a perda da confiança limitava a capacidade de um líder preservar sua legitimidade. Essa relação jamais foi automática. A história sempre conheceu governantes capazes de sobreviver a crises profundas. O que existia era outra coisa: um horizonte compartilhado segundo o qual a acumulação de escândalos elevava progressivamente o custo político de permanecer ao lado do acusado.


Esse horizonte começou a desaparecer. Não porque a corrupção tenha deixado de existir, nem porque as denúncias tenham perdido visibilidade. O que se alterou foi a maneira como elas passaram a ser incorporadas ao comportamento político. Em vez de produzir afastamento, passaram frequentemente a fortalecer vínculos. Em vez de corroer lideranças, consolidaram identidades. Em vez de ampliar o isolamento dos acusados, reforçaram comunidades inteiras organizadas em torno deles. O escândalo permaneceu o mesmo. Mudaram as condições históricas que determinam seus efeitos.


As interpretações mais correntes continuam procurando respostas onde o problema já não está. Ora atribuem essa transformação à ignorância do eleitor, ora ao poder das plataformas digitais, ora à disseminação da desinformação. Nenhuma dessas explicações é suficiente. Todas descrevem dimensões importantes da realidade, mas permanecem prisioneiras da mesma premissa: a de que o escândalo continua desempenhando a função política que desempenhava antes e que apenas alguns fatores externos passaram a impedir seu funcionamento. Talvez a hipótese correta seja exatamente a inversa. Talvez não estejamos diante de um mecanismo interrompido, mas de um mecanismo transformado.


Essa mudança desloca completamente a investigação. O problema já não consiste em compreender por que determinados líderes sobrevivem aos escândalos, mas por que o próprio escândalo deixou de exercer a função política que desempenhou durante boa parte da experiência democrática moderna. É essa a hipótese que organiza este ensaio. O escândalo não perdeu importância. Mudou de função. E, quando muda a função política do escândalo, muda também a forma como a democracia produz responsabilização, pertencimento e poder.

A reorganização da subjetividade política



Se o escândalo mudou de função, a transformação não pode ser explicada apenas pela política institucional. Nenhuma sociedade altera tão profundamente seus mecanismos de responsabilização porque determinados líderes aprenderam a comunicar melhor ou porque novas tecnologias passaram a circular informações com maior velocidade. Mudanças dessa natureza atingem um plano muito mais profundo. Elas reorganizam a maneira como indivíduos constroem vínculos, atribuem confiança, reconhecem autoridades e produzem sentido para a experiência coletiva. Antes de modificar eleições, modificam subjetividades.


Esse deslocamento rompe uma das ilusões mais persistentes da política moderna. Costumamos imaginar que primeiro acreditamos e só depois agimos. A experiência histórica sugere o inverso. Comportamentos não permanecem porque parecem verdadeiros. Permanecem porque ambientes inteiros aprendem a recompensá-los. É nesse terreno que a política deixa de ser apenas uma disputa entre ideias e passa a ser uma disputa pelas condições que tornam determinados comportamentos mais prováveis do que outros.


Essa percepção aproxima a psicologia do problema clássico da hegemonia. Nenhuma ordem social permanece porque convence continuamente todos os indivíduos. Ela se estabiliza quando determinados modos de perceber, interpretar e agir deixam de ser experimentados como escolhas e passam a parecer naturais. A hegemonia não habita apenas os discursos. Habita hábitos, expectativas, rotinas, afetos e formas de reconhecimento que, repetidas diariamente, transformam relações históricas em evidências aparentemente espontâneas. É justamente nesse ponto que comportamento e hegemonia deixam de ser temas distintos. Ambos tratam da produção histórica daquilo que uma sociedade aprende a considerar normal.


A identidade é o ponto em que essa transformação se torna politicamente decisiva. Nenhum indivíduo julga um escândalo a partir de um vazio psicológico. Julga a partir dos vínculos que o reconhecem, das comunidades às quais pertence e da posição que ocupa dentro delas. Quando a identidade passa a organizar a experiência política, a denúncia deixa de atingir apenas um líder. Atinge também aqueles que aprenderam a reconhecer parte de si mesmos nesse vínculo. É nesse momento que defender um projeto político pode ser vivido, antes de tudo, como uma forma de defender a própria identidade.


É por isso que denúncias frequentemente deixam de produzir os efeitos esperados. Não porque as pessoas ignorem os fatos, mas porque esses fatos chegam a indivíduos cuja experiência política já está organizada por vínculos afetivos, identidades coletivas e mecanismos permanentes de reconhecimento. A racionalização, descrita por Leon Festinger, e o desengajamento moral, desenvolvido por Albert Bandura, deixam de ser anomalias psicológicas para se tornarem respostas previsíveis em ambientes que recompensam a fidelidade mais do que a revisão crítica das próprias posições. O comportamento protege a identidade porque a identidade passou a organizar o comportamento.


Seria um equívoco, contudo, compreender esse processo como um fenômeno exclusivamente individual. A subjetividade não nasce encerrada na consciência. Ela é produzida nas relações sociais, na linguagem, no trabalho, na cultura e nas formas concretas de participação na vida coletiva. É nesse terreno que a psicologia social crítica de Sílvia Lane e Martín-Baró amplia decisivamente o problema. O sujeito não é apenas alguém que reage ao mundo. É alguém continuamente produzido por relações históricas de poder. Quando essas relações se transformam, transformam-se também as formas pelas quais medo, confiança, pertencimento e lealdade passam a organizar o comportamento político.


Talvez essa seja a mudança menos visível da democracia contemporânea. A disputa deixou de concentrar-se apenas na conquista da opinião pública. Ela passou a incidir sobre os próprios processos de formação da subjetividade. Antes de convencer, tornou-se necessário organizar os ambientes nos quais as pessoas aprendem quem merece confiança, quais vínculos devem ser preservados e que tipo de comportamento será reconhecido como legítimo. O centro de gravidade da política deslocou-se silenciosamente da persuasão para a produção das condições sociais que tornam a persuasão quase desnecessária.


É nesse ponto que emerge a questão decisiva deste ensaio. Se a subjetividade passou a ser organizada por novas formas de reforço, reconhecimento e pertencimento, quem reorganizou esse ambiente? É essa pergunta que nos conduz ao verdadeiro centro da transformação política contemporânea.

A arquitetura invisível do comportamento



Nenhuma transformação descrita até aqui ocorreu espontaneamente. Se a subjetividade política passou a organizar-se de outra maneira, é porque também se transformaram os ambientes responsáveis por selecionar comportamentos, distribuir reconhecimento e produzir confiança. Toda ordem social depende de uma arquitetura que orienta, de forma mais ou menos invisível, aquilo que seus membros percebem como normal, desejável ou legítimo. A novidade do capitalismo informacional não está apenas na capacidade de produzir informação em escala inédita. Está na capacidade de organizar, em tempo real, os ambientes onde essa informação será interpretada.


A transformação decisiva não ocorreu na circulação das informações, mas na reorganização dos ambientes onde elas passam a adquirir significado. É esse deslocamento que denomino metaintermediação algorítmica. As plataformas deixaram de intermediar apenas conteúdos. Passaram a intermediar as próprias mediações, selecionando antecipadamente os circuitos de confiança, os enquadramentos da realidade e as comunidades de pertencimento. A consequência mais profunda dessa reorganização é a redução contínua da fricção necessária ao pensamento crítico. Quanto menor o intervalo entre estímulo e resposta, menor o espaço para comparação, hesitação e revisão. A fricção zero deixa, assim, de ser apenas uma característica técnica das plataformas. Torna-se a forma dominante de organização da experiência política.


É nesse contexto que emerge a ideologia da fricção zero. Toda experiência crítica depende de algum grau de atrito. A dúvida, a comparação, a demora e a hesitação não representam obstáculos ao pensamento democrático. Constituem sua condição de existência. A fricção obriga o sujeito a confrontar diferenças, revisar certezas e sustentar a complexidade do real. A lógica dominante das plataformas segue o caminho inverso. Seu objetivo permanente consiste em reduzir o intervalo entre estímulo e resposta, tornando a interação cada vez mais fluida, previsível e contínua. O resultado não é apenas uma aceleração da comunicação. É uma transformação da própria ecologia cognitiva onde decisões políticas passam a ser produzidas.


Essa mudança altera profundamente o funcionamento do escândalo. A denúncia já não chega a um espaço aberto de deliberação. Ela desembarca em ambientes previamente organizados por vínculos afetivos, comunidades de confiança e sistemas permanentes de reforço. O fato continua importante, mas deixa de ocupar sozinho o centro da interpretação. Antes que qualquer reflexão se desenvolva, a arquitetura do ambiente já oferece enquadramentos, distribui recompensas simbólicas e orienta respostas emocionalmente estáveis. A disputa desloca-se do conteúdo da informação para as condições que determinam sua recepção.


Talvez seja esse o aspecto mais invisível da política contemporânea. O poder já não depende apenas da capacidade de convencer. Depende, sobretudo, da capacidade de organizar os ambientes onde o convencimento se torna desnecessário. Quando pertencimento, reconhecimento e identidade passam a ser continuamente reforçados por arquiteturas capazes de antecipar expectativas e reduzir a fricção cognitiva, o comportamento político adquire uma estabilidade inédita. A lealdade deixa de depender da força dos argumentos. Passa a depender da qualidade do ambiente que a sustenta.


É justamente por isso que o escândalo mudou de função. Ele não encontrou apenas novos eleitores. Encontrou uma nova arquitetura do comportamento. E toda arquitetura produz, inevitavelmente, uma nova forma de poder.

A política sem culpa



Toda ordem política produz uma determinada economia moral. Não porque elimine os conflitos ou uniformize consciências, mas porque estabelece quais comportamentos serão reconhecidos, quais desvios serão tolerados e quais limites não poderão ser ultrapassados sem consequências. Durante grande parte da experiência democrática moderna, o escândalo ocupou um lugar central nessa economia. Funcionava como um mecanismo de responsabilização pública. Não impedia a corrupção, nem garantia a integridade das instituições. Ainda assim, preservava a expectativa de que determinadas transgressões produziriam custos políticos capazes de limitar o exercício do poder.


Essa expectativa deixou de organizar a democracia contemporânea da mesma maneira.


A mudança não reside na perda dos valores morais nem na incapacidade dos cidadãos de distinguir o certo do errado. Tampouco resulta exclusivamente da ascensão das plataformas digitais ou da circulação de desinformação. O que se transformou foi a arquitetura histórica que conecta julgamento moral, identidade, pertencimento e comportamento político. A culpa continua existindo. A responsabilização continua sendo um ideal democrático. O que deixou de existir, em muitos contextos, foi a relação relativamente direta entre uma denúncia pública e a reorganização do comportamento eleitoral.


É precisamente nesse deslocamento que o escândalo muda de função. Quando comunidades políticas passam a organizar-se em torno de identidades continuamente reforçadas por ambientes de reconhecimento permanente, a denúncia deixa de representar apenas um fato que exige avaliação. Ela passa a disputar espaço com vínculos afetivos, lealdades acumuladas e formas de pertencimento cuidadosamente produzidas ao longo do tempo. O comportamento deixa de responder prioritariamente à gravidade da acusação e passa a responder às consequências sociais de aceitá-la ou rejeitá-la. A política deixa de ser organizada principalmente pela culpa. Passa a ser organizada pela administração do pertencimento.


Talvez essa seja a transformação mais profunda da democracia no século XXI. O centro da disputa política deslocou-se silenciosamente das instituições para a subjetividade. Já não basta conquistar governos, maiorias parlamentares ou espaços de comunicação. Torna-se decisivo organizar os ambientes onde identidades são produzidas, afetos são distribuídos e comportamentos são continuamente selecionados. É nesse terreno que a extrema direita demonstrou uma capacidade estratégica superior à de seus adversários. Sua principal vitória não consistiu em convencer milhões de pessoas de que seus líderes são inocentes. Consistiu em construir ecossistemas sociais nos quais a lealdade produz mais reconhecimento do que a responsabilização.


Essa constatação possui consequências que ultrapassam em muito o destino eleitoral de qualquer liderança. Se o escândalo deixou de cumprir a função disciplinadora que durante décadas estruturou parte da imaginação democrática, talvez não seja apenas a política que esteja mudando. Talvez tenham mudado também as premissas sobre as quais continuam operando o jornalismo, o sistema de justiça, os partidos e grande parte das instituições que ainda apostam na simples exposição dos fatos como mecanismo suficiente de transformação da realidade. A informação permanece indispensável. Mas já não basta. Nenhuma democracia consegue sustentar-se apenas produzindo evidências quando outras forças passaram a organizar, antecipadamente, as condições sob as quais essas evidências serão percebidas.


É por isso que compreender o presente exige deslocar o olhar. O problema já não consiste apenas em denunciar mentiras, revelar escândalos ou desmontar campanhas de desinformação. Tudo isso continua indispensável. Mas a disputa decisiva deslocou-se para outro lugar: as condições históricas que organizam confiança, pertencimento e lealdade. Enquanto continuarmos combatendo apenas as mensagens, permanecerá intacta a arquitetura que produz seus efeitos.


O escândalo continua existindo. A corrupção continua existindo. A mentira continua existindo. O que deixou de existir foi a expectativa de que sua simples revelação bastasse para reorganizar o comportamento político. Talvez essa seja a transformação mais profunda da democracia contemporânea. A maior vitória da extrema direita não foi convencer milhões de pessoas de que seus líderes eram inocentes. Foi alterar as condições históricas sob as quais a democracia produz lealdade.


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