A última fronteira
- Rey Aragon

- há 12 minutos
- 17 min de leitura

Guerra híbrida, soberania e o limite histórico da hegemonia imperial
A ofensiva contra o Irã não é regional nem ideológica. É a tentativa final de controlar os fluxos que mantêm vivo o Sul Global. Sanções, operações psicológicas, lawfare e guerra quente convergem em Teerã. O que está em jogo não é um país, é o futuro do sistema internacional.
O mundo entrou na fase terminal da hegemonia

A ordem internacional atravessa um ponto de inflexão histórico que não se confunde com crise conjuntural, desaceleração econômica ou rearranjo diplomático passageiro. O que se observa é o esgotamento estrutural de uma forma de hegemonia que, incapaz de sustentar liderança produtiva, tecnológica e moral, passa a operar crescentemente por coerção. Quando a capacidade de organizar consensos se dissolve, o poder se reorganiza em torno do controle, da interdição e da imposição assimétrica de custos. É nesse estágio que a hegemonia deixa de ser invisível e passa a ser sentida como força.
A transição em curso não é marcada por uma substituição imediata de centros de poder, mas por uma mutação qualitativa dos instrumentos de dominação. O sistema internacional deixa de funcionar prioritariamente por integração e passa a operar por disciplinamento. Sanções substituem acordos, normas substituem política, e a excepcionalidade jurídica se converte em regra operacional. O direito internacional, antes invocado como horizonte comum, é fragmentado e instrumentalizado como tecnologia de guerra. A previsibilidade, elemento central de qualquer ordem estável, transforma-se em privilégio concedido apenas aos atores alinhados.
Esse deslocamento é inseparável da perda relativa de centralidade produtiva do núcleo hegemônico. Quando a capacidade de organizar cadeias globais de valor, financiar desenvolvimento e oferecer prosperidade compartilhada entra em declínio, o poder migra para a administração dos gargalos. Controlar o acesso passa a ser mais importante do que controlar a produção. Quem define quais fluxos circulam, sob quais condições e a que custo, passa a deter o comando efetivo do sistema. A hegemonia, então, deixa de ser exercida pelo exemplo e passa a ser imposta pela escassez fabricada.
O discurso que acompanha esse movimento busca ocultar sua natureza histórica. A coerção é apresentada como técnica, as sanções como moralidade, a intervenção como responsabilidade. O léxico da segurança, do combate a ilícitos e da defesa de valores universais cumpre a função de despolitizar decisões que são profundamente políticas. Ao deslocar o conflito do terreno da soberania para o da legalidade seletiva, o poder imperial preserva a aparência de ordem enquanto dissolve seu conteúdo. A guerra não desaparece; ela muda de forma.
É nesse contexto que a fragmentação do sistema internacional se acelera. O mundo não se divide apenas em blocos geopolíticos, mas em regimes distintos de circulação. Há um espaço de alta previsibilidade, protegido por instituições, seguros, crédito e reconhecimento jurídico, e um espaço de instabilidade permanente, submetido a sanções, inspeções, interrupções e punições exemplares. Essa assimetria não é um efeito colateral: é o próprio mecanismo de governo do sistema em declínio.
A fase terminal da hegemonia não se caracteriza pela perda imediata de poder militar ou financeiro, mas pela incapacidade de oferecer um futuro compartilhado. Quando o horizonte se fecha, o sistema passa a viver de administrar riscos, conter alternativas e punir desvios. A política é progressivamente substituída pela força regulatória, e a exceção se torna método. É nesse cenário que a guerra deixa de ser evento e passa a ser condição permanente.
Este é o pano de fundo indispensável para compreender o presente. Nada do que ocorre hoje pode ser lido como episódio isolado, crise regional ou conflito ideológico. O mundo entrou numa etapa em que a hegemonia, ao não conseguir mais liderar, tenta sobreviver controlando. E é a partir dessa lógica que se desenha o tabuleiro contemporâneo, no qual cada movimento carrega implicações sistêmicas.

A guerra híbrida como forma dominante do conflito contemporâneo

A guerra deixou de ser um acontecimento delimitado no tempo e no espaço para se tornar uma condição permanente de governo do sistema internacional. O que hoje se convencionou chamar de guerra híbrida não é um conceito descritivo, nem uma moda acadêmica, mas a forma histórica que o conflito assume quando a hegemonia entra em declínio e já não pode sustentar-se nem pelo consenso nem pela ocupação direta. Trata-se de uma guerra que não começa com tanques nem termina com tratados, porque seu objetivo não é a vitória clássica, mas o controle contínuo.
A característica central dessa forma de guerra é a dissolução da fronteira entre paz e conflito. Sanções econômicas, operações financeiras, campanhas de desinformação, lawfare, pressão diplomática, coerção logística e ações militares pontuais passam a operar de maneira integrada, sem declaração formal e sem responsabilidade política explícita. A violência não desaparece; ela se distribui. Em vez do choque frontal, impõe-se a asfixia progressiva. Em vez da ocupação, a interdição. Em vez da conquista territorial, o controle do comportamento.
Nesse modelo, o alvo principal deixa de ser o Estado enquanto entidade militar e passa a ser a sociedade enquanto sistema psicológico, econômico e institucional. A guerra híbrida atua sobre expectativas, percepções, medos e incentivos. Ela busca produzir instabilidade cognitiva, fragmentação social e paralisia decisória. O objetivo não é apenas enfraquecer o adversário, mas torná-lo incapaz de organizar respostas coerentes. Quando a população perde a capacidade de interpretar o que está acontecendo, o conflito já foi vencido em seu nível mais profundo.
A psicologia social desempenha aqui um papel decisivo. A repetição de narrativas contraditórias, a saturação informacional, a amplificação do medo e a normalização da exceção criam um ambiente em que o indivíduo deixa de agir politicamente e passa a reagir emocionalmente. A guerra híbrida não exige adesão ideológica; basta induzir confusão suficiente para quebrar a coesão coletiva. O consenso não é substituído por outro consenso, mas pelo cansaço, pela desorientação e pelo cinismo.
O direito, nesse contexto, deixa de ser limite e passa a ser instrumento. A guerra jurídica não se apresenta como ruptura da ordem, mas como sua aplicação seletiva. Normas são mobilizadas de forma assimétrica, processos legais substituem a força bruta e a extraterritorialidade se converte em arma estratégica. A legalidade, ao invés de proteger a soberania, passa a funcionar como mecanismo de punição e disciplinamento. O conflito é deslocado do campo político para o campo técnico, onde decisões profundamente estratégicas são apresentadas como inevitáveis, neutras ou morais.
A economia, por sua vez, transforma-se em campo de batalha permanente. Sanções deixam de ser medidas excepcionais e passam a estruturar o sistema. O acesso a crédito, seguros, tecnologia, mercados e sistemas de pagamento é condicionado ao alinhamento político. O custo da dissidência é cuidadosamente calculado para não provocar ruptura total, mas para manter o adversário em estado de fragilidade crônica. A guerra híbrida não busca o colapso imediato; ela prefere a dependência prolongada.
Esse modelo de conflito não surge por escolha ética ou estratégica isolada, mas por necessidade histórica. Quando a hegemonia já não consegue expandir, ela passa a conter. Quando já não consegue integrar, ela passa a segmentar. A guerra híbrida é, portanto, a forma racional de um poder que perdeu a capacidade de organizar o mundo como projeto e passa a governá-lo como risco. Ela não visa construir uma nova ordem, mas impedir que outra se consolide.
O mais perigoso dessa forma de guerra é sua capacidade de naturalização. Ao operar abaixo do limiar da guerra clássica, ela reduz a percepção de agressão e dificulta a mobilização de respostas. Estados são punidos sem que o conflito seja reconhecido como tal. Sociedades são desestruturadas sem que haja um inimigo visível. A guerra deixa de ser reconhecida como guerra, e exatamente por isso se torna mais eficaz.
Compreender a guerra híbrida como forma dominante do conflito contemporâneo é condição indispensável para entender o que está em curso. Sem essa chave, eventos distintos parecem desconectados, crises parecem espontâneas e decisões parecem técnicas. Com ela, o mundo volta a fazer sentido como totalidade em disputa. E é a partir desse entendimento que se torna possível identificar precedentes, antecipar movimentos e reconhecer que certos territórios deixam de ser apenas espaços nacionais para se tornarem peças decisivas de um tabuleiro global.
É nesse ponto que o olhar precisa se deslocar do método para o exemplo concreto. A guerra híbrida não é abstração teórica. Ela se materializa em laboratórios específicos, onde técnicas são testadas, ajustadas e replicadas. E poucos espaços foram tão centrais para esse ensaio geral quanto a Venezuela e o Caribe.
Venezuela e o Caribe: o laboratório da coerção

A ofensiva contra a Venezuela não pode ser compreendida como exceção, desvio ou resposta circunstancial a um governo específico. Ela constitui um laboratório operacional no qual se testam, refinam e normalizam técnicas de coerção que depois são exportadas para outros teatros. O Caribe, por sua geografia, densidade logística e centralidade energética, tornou-se o espaço ideal para esse ensaio: suficientemente próximo para ser controlado, suficientemente periférico para que a violência política seja naturalizada.
O que se observa nesse laboratório é a aplicação quase didática da guerra híbrida em todas as suas camadas. O cerco não começa com intervenção militar direta, mas com sanções progressivas, isolamento financeiro, bloqueio de acesso a mercados, criminalização de dirigentes e captura simbólica da legitimidade estatal. Cada medida é apresentada como técnica, legal ou moralmente necessária. O efeito acumulado, no entanto, é profundamente político: a erosão sistemática da soberania e da capacidade de decisão autônoma.
O elemento central desse processo é o controle da circulação. A Venezuela não é apenas um território; ela é um nó energético. Ao interferir na capacidade do país de vender, transportar, assegurar e receber pagamentos por seu petróleo, o poder coercitivo atua diretamente sobre sua base material. Não se trata apenas de reduzir receitas, mas de introduzir imprevisibilidade estrutural. O custo não é apenas econômico; é cognitivo. Governar sob permanente incerteza logística e financeira mina qualquer planejamento de médio e longo prazo.
O Caribe funciona, nesse contexto, como espaço de interdição seletiva. Portos, rotas marítimas, seguros, bandeiras, inspeções e regimes de compliance convertem-se em instrumentos de punição indireta. Não há bloqueio formal, mas há atraso. Não há confisco explícito, mas há risco calculado. O resultado é uma forma de estrangulamento que não viola frontalmente o direito internacional, mas o esvazia por dentro. A coerção opera na zona cinzenta, onde a responsabilidade política se dilui e a violência se apresenta como efeito colateral.
Esse laboratório também testa a dimensão psicológica da guerra híbrida. A narrativa da crise permanente, da falência estatal e da inevitabilidade da mudança de regime é cuidadosamente construída e amplificada. A repetição contínua de diagnósticos de colapso produz um efeito de naturalização: o futuro parece bloqueado, a alternativa parece impossível e qualquer solução externa passa a ser percebida como mal menor. A guerra não precisa vencer; basta convencer que não há saída interna.
O precedente mais grave, porém, não está apenas nas sanções ou na narrativa, mas na normalização da excepcionalidade. Medidas que, em outro contexto, seriam tratadas como agressão direta passam a ser aceitas como ferramentas legítimas de política externa. A captura jurídica de dirigentes, a extraterritorialidade penal e a redefinição unilateral de autoridades legítimas criam um ambiente em que a soberania deixa de ser um princípio e passa a ser uma concessão revogável.
O laboratório venezuelano ensina algo essencial sobre a fase atual do sistema internacional: a coerção não precisa ser total para ser eficaz. Pelo contrário, ela é mais eficiente quando é calibrada, prolongada e exemplificadora. O objetivo não é destruir completamente, mas demonstrar o custo da desobediência. A punição de um serve como disciplina para muitos. O Caribe, nesse sentido, não é apenas cenário; é mensagem.
Essa lógica não se encerra na América Latina. Ela aponta para fora. Ao demonstrar que é possível desorganizar um Estado, capturar seus fluxos e impor um regime de instabilidade crônica sem guerra declarada, o laboratório caribenho fornece o manual para intervenções futuras em contextos mais sensíveis. O que foi testado na Venezuela prepara o terreno para disputas de maior escala, onde os interesses em jogo são ainda mais profundos.
É por isso que a Venezuela não é apenas um caso latino-americano. Ela é um precedente global. E compreender esse precedente é fundamental para entender por que certos países deixam de ser tratados como adversários regionais e passam a ser encarados como obstáculos sistêmicos. Quando o laboratório está pronto, o método pode ser aplicado onde o impacto será maior.
É nesse ponto que o tabuleiro se amplia. A lógica testada no Caribe começa a se deslocar para os corredores centrais do sistema internacional, onde energia, rotas e equilíbrio geopolítico se entrelaçam de forma decisiva. E é ali que o controle dos fluxos deixa de ser instrumento regional e passa a ser o núcleo da disputa global.
O controle dos fluxos: energia, rotas e a nova anatomia do poder

A disputa central do nosso tempo não se organiza mais em torno da ocupação territorial clássica, mas do controle dos fluxos que tornam a vida econômica, política e social possível. Energia, rotas marítimas, corredores logísticos, sistemas de pagamento, seguros, cabos de dados e infraestruturas críticas formam a espinha dorsal do sistema internacional. Quem controla esses circuitos não precisa governar diretamente territórios; governa comportamentos, decisões e horizontes de futuro.
O poder contemporâneo se exerce pela administração da previsibilidade. Estados e sociedades dependem de fluxos contínuos para planejar, investir, produzir e consumir. Quando essa previsibilidade é interrompida, mesmo parcialmente, o efeito é devastador. A incerteza se converte em custo, o custo em retração e a retração em instabilidade política. Controlar fluxos, portanto, não significa apenas interrompê-los, mas torná-los condicionais, voláteis e seletivos. A coerção mais eficaz não é a que bloqueia tudo, mas a que faz cada decisão carregar risco.
A energia ocupa posição central nessa anatomia do poder. Petróleo e gás continuam sendo o sangue do sistema global, não apenas como insumos produtivos, mas como instrumentos geopolíticos. O controle sobre a produção é importante, mas o controle sobre a circulação é decisivo. Portos, estreitos marítimos, contratos de transporte, regimes de seguro e moedas de liquidação transformam-se em armas silenciosas. Um barril que não encontra navio, seguro ou sistema de pagamento equivale a um barril que não existe.
As rotas, por sua vez, são mais do que caminhos físicos. Elas condensam relações de poder. Corredores marítimos, ferroviários e digitais definem quem depende de quem, quem pode contornar gargalos e quem fica exposto à interdição. A geopolítica dos estreitos, dos portos estratégicos e dos nós logísticos retorna com força, agora combinada a tecnologias financeiras e informacionais que ampliam exponencialmente o alcance da coerção. O estrangulamento deixa de ser local e passa a ser sistêmico.
Nesse contexto, o sistema financeiro internacional funciona como multiplicador de poder. Moedas, bancos correspondentes, sistemas de compensação e normas de compliance operam como filtros políticos. A exclusão não precisa ser total; basta ser incerta. A ameaça de sanção secundária, a possibilidade de bloqueio futuro ou a simples elevação do risco reputacional já produzem alinhamento preventivo. O mercado antecipa a punição e se autocensura. A coerção se internaliza.
O elemento mais sofisticado desse modelo é sua aparência técnica. Decisões profundamente políticas são apresentadas como exigências regulatórias, avaliações de risco ou critérios de mercado. A dominação se disfarça de neutralidade. Ao deslocar o conflito para a esfera da técnica, o poder reduz a resistência e fragmenta a oposição. A política parece impotente diante de “regras” que ninguém votou, mas todos são obrigados a cumprir.
Esse controle dos fluxos redefine o próprio conceito de soberania. Estados continuam formalmente independentes, mas sua autonomia material é severamente limitada. Governar passa a significar administrar restrições impostas externamente. A soberania deixa de ser capacidade de decisão e se transforma em gestão da escassez. O espaço de manobra se estreita, e qualquer tentativa de romper esse cerco é tratada como ameaça à ordem.
É nesse ponto que a disputa deixa de ser regional e assume caráter verdadeiramente global. Quando o controle dos fluxos se consolida como método dominante, cada nó estratégico do sistema se transforma em campo de batalha potencial. Regiões que concentram energia, rotas ou conectividade passam a ser tratadas não como parceiros, mas como riscos a serem neutralizados. A lógica não é integrar, mas impedir alternativas.
O laboratório caribenho mostrou que esse método funciona. O passo seguinte é aplicá-lo onde o impacto sistêmico é maior. É por isso que a disputa se desloca dos espaços periféricos para os corredores centrais da economia mundial. Quando o controle dos fluxos se torna o núcleo do poder, os países que sustentam a circulação alternativa deixam de ser apenas adversários políticos. Eles passam a ser obstáculos estruturais.
É nesse momento que o conflito entra em sua fase mais perigosa. Quando energia, rotas e logística se tornam armas, qualquer perturbação localizada pode produzir efeitos globais. O sistema se torna frágil, volátil e propenso a choques em cadeia. E é nesse tabuleiro, onde a circulação é tudo, que emerge um país cuja soberania se torna decisiva para o destino do mundo.
É ali que a disputa deixa de ser abstrata e ganha um nome próprio. O próximo passo do texto não trata de um conflito regional, mas do ponto em que todas essas forças convergem. O Irã não aparece como tema; aparece como limite histórico.
Irã: a última fronteira da multipolaridade

O Irã ocupa uma posição singular no sistema internacional contemporâneo porque reúne, de forma concentrada, três dimensões decisivas da disputa global: energia, circulação e autonomia estratégica. Não se trata de um país “difícil”, “ideológico” ou “problemático”, como costuma aparecer na narrativa dominante, mas de um nó estrutural sem o qual a arquitetura emergente da multipolaridade se torna inviável. É por isso que o conflito em torno de Teerã não é regional. Ele é sistêmico.
Do ponto de vista energético, o Irã é insubstituível. Não apenas por suas reservas de petróleo e gás, mas por sua capacidade de oferecer alternativas de fornecimento fora do circuito plenamente controlado pelo eixo atlântico. Em um mundo no qual a energia continua sendo o principal insumo da produção, da logística e da guerra, a existência de um fornecedor soberano, capaz de operar com contratos de longo prazo e fora da disciplina política ocidental, constitui um fator de equilíbrio. Remover esse fator não significa apenas redistribuir barris; significa reconcentrar poder.
Mas a centralidade iraniana não se esgota na energia. O Irã é também um eixo geográfico incontornável da circulação eurasiática. Ele conecta o Golfo Pérsico ao Cáucaso, à Ásia Central e ao subcontinente indiano, funcionando como corredor natural entre Oriente Médio, Eurásia e Sul da Ásia. Em um sistema baseado no controle dos fluxos, a existência de rotas alternativas é o principal antídoto contra a coerção. O Irã é precisamente isso: uma rota viva que impede o fechamento completo do sistema.
Para China e Rússia, essa função é vital. A China depende de energia estável e diversificada para sustentar seu crescimento e sua capacidade industrial. A Rússia depende de profundidade estratégica e de parceiros capazes de manter abertos corredores fora do cerco euro-atlântico. O Irã, ao combinar energia, localização e autonomia política, oferece exatamente esse ponto de apoio. Sua queda ou captura não seria apenas uma derrota diplomática para Pequim e Moscou; seria um golpe estrutural em sua capacidade de operar fora de um sistema disciplinado por sanções e gargalos.
É por isso que a pressão sobre o Irã assume formas tão variadas e persistentes. Sanções econômicas prolongadas, sabotagens, operações de inteligência, guerra cibernética, campanhas de desinformação e estímulo à instabilidade interna não são respostas a comportamentos específicos, mas componentes de uma estratégia de desgaste. O objetivo não é necessariamente uma guerra direta, mas a corrosão lenta da soberania, até que o custo da autonomia se torne insustentável. A coerção busca produzir a capitulação sem confronto aberto.
A dimensão psicológica desse processo é central. Ao transformar o Irã em sinônimo permanente de crise, ameaça e isolamento, constrói-se um ambiente no qual a própria ideia de soberania passa a ser associada ao sofrimento. A população é colocada diante de uma escolha falsa: resistir e pagar o preço, ou ceder e recuperar a normalidade. Essa engenharia da percepção é tão importante quanto as sanções materiais. Quando a soberania passa a ser vivida como fardo, a batalha já avançou profundamente.
O ponto decisivo, porém, é que não há substituto funcional para o Irã no tabuleiro multipolar. Nenhum outro país combina, simultaneamente, reservas energéticas, posição geográfica, capacidade estatal e disposição política para operar fora da lógica de alinhamento. Se o Irã for neutralizado, o sistema internacional se refecha. As alternativas de circulação diminuem, os gargalos se tornam absolutos e a coerção deixa de ser exceção para se tornar norma global.
Nesse sentido, o Irã é a última fronteira não por simbolismo, mas por estrutura. Ele marca o limite a partir do qual a multipolaridade deixa de ser projeto concreto e passa a ser retórica vazia. A queda de Teerã não significaria apenas a derrota de um Estado, mas a consolidação de um mundo em que a autonomia se torna impraticável. Um mundo no qual a obediência não é exigida por tanques, mas pela impossibilidade material de existir fora das regras impostas.
É por isso que tudo converge para o Irã. Não porque ele seja o centro do mundo, mas porque ele é o último ponto de resistência sistêmica à transformação da coerção em forma permanente de governo global. O que se decide ali não diz respeito ao futuro de um regime, mas à possibilidade mesma de um sistema internacional plural.
A partir desse ponto, torna-se necessário compreender como essa pressão é operacionalizada. A guerra híbrida não atua sozinha. Ela exige operadores capazes de manter a instabilidade sob controle, calibrar escaladas e produzir choques sem ultrapassar o limiar da guerra total. É aí que emerge um ator cuja função estratégica é precisamente essa.
Israel, escalada controlada e a engenharia do caos

A pressão contínua sobre o Irã não opera apenas por sanções ou isolamento diplomático. Ela exige um operador permanente de instabilidade, capaz de atuar no limiar entre guerra e paz, mantendo o conflito ativo sem permitir sua resolução política. Nesse tabuleiro, Israel desempenha uma função estratégica específica: a de engenheiro da escalada controlada. Não como ator isolado ou irracional, mas como peça integrada a uma arquitetura mais ampla de contenção e coerção.
A lógica é clara. A guerra híbrida necessita de tensão constante para justificar sanções, operações de inteligência, excepcionalidades jurídicas e narrativas de ameaça. Sem crise, o mecanismo perde tração. Israel atua precisamente nesse ponto, promovendo ações que mantêm o Irã sob pressão permanente, seja por meio de ataques seletivos, sabotagens, operações cibernéticas ou campanhas de deslegitimação internacional. A escalada é calculada para produzir instabilidade, não para provocar guerra total.
Essa forma de atuação permite algo fundamental: deslocar o centro do conflito da política para a segurança. Ao enquadrar a relação com o Irã como questão existencial, qualquer tentativa de mediação é tratada como ingenuidade ou conivência. O espaço da diplomacia se estreita, enquanto o da coerção se expande. O conflito deixa de ser discutido em termos de soberania e passa a ser administrado como risco permanente, justificando ações preventivas e punições contínuas.
Israel opera, assim, como vetor de antecipação. Testa limites, mede reações, ajusta o nível de pressão e fornece justificativas para a manutenção do cerco. Essa função é particularmente eficaz porque combina superioridade tecnológica, capacidade de inteligência e respaldo político do eixo atlântico. O resultado é um ciclo de provocação e resposta que mantém o Irã em estado de alerta constante, drenando recursos, ampliando tensões internas e reduzindo o espaço para estabilidade.
O efeito sistêmico dessa engenharia do caos vai além do Irã. Cada escalada localizada reverbera nos mercados energéticos, nas rotas marítimas e na percepção global de risco. A instabilidade torna-se difusa, elevando custos e reforçando a narrativa de que certos países são, por natureza, incompatíveis com a ordem internacional. A coerção, então, aparece não como escolha política, mas como necessidade de segurança.
O perigo desse modelo está em sua própria eficiência. Ao operar abaixo do limiar da guerra total, a escalada controlada reduz a pressão por soluções políticas e normaliza a violência permanente. O conflito se torna administrável, previsível e, paradoxalmente, sustentável. É exatamente essa sustentabilidade da instabilidade que ameaça transformar o sistema internacional em um espaço de guerra contínua, sem tratados, sem reconstrução e sem futuro compartilhado.
É nesse ponto que a história exige uma inflexão. Quando a coerção se estabiliza como método e a escalada se converte em rotina, o retorno da política deixa de ser opção moral e passa a ser condição de sobrevivência sistêmica. O texto, então, precisa avançar para o último movimento: o futuro em disputa e a possibilidade, ainda que estreita, de reabrir o campo da mediação.
O futuro em disputa: cenários, riscos e o retorno da política

O mundo se aproxima de um ponto de bifurcação histórica. A convergência entre guerra híbrida, controle dos fluxos e escalada controlada produz um sistema altamente instável, no qual pequenos choques podem gerar efeitos globais. Diante desse quadro, o futuro não está predeterminado, mas condicionado por decisões que serão tomadas sob extrema pressão. É possível identificar, com clareza, quatro cenários estruturais.
No primeiro cenário, a coerção prevalece. O Irã é progressivamente neutralizado por desgaste econômico, isolamento político e fragmentação interna. A multipolaridade perde seu principal nó de sustentação, e o sistema internacional se fecha em torno de poucos centros capazes de impor regras. A autonomia passa a ser exceção, e a obediência, norma. A guerra deixa de ser evento e se consolida como condição permanente de governo global.
No segundo cenário, a instabilidade se prolonga. O Irã resiste, mas sob custo elevado. A pressão contínua impede estabilização interna e mantém o conflito em estado latente. O sistema opera em permanente tensão, com riscos recorrentes de escalada regional. A multipolaridade sobrevive, mas fragilizada, dependente de arranjos improvisados e exposta a choques frequentes.
No terceiro cenário, a escalada sai do controle. Incidentes acumulados, erros de cálculo ou decisões precipitadas levam a confrontos diretos de maior escala. O impacto é imediato sobre energia, comércio e segurança global. Esse é o cenário mais perigoso, não por ser inevitável, mas porque se torna mais provável à medida que a política é substituída pela gestão técnica da crise.
O quarto cenário, o mais difícil e o mais necessário, é o da reabertura da política. Ele exige a reconstrução de canais de mediação capazes de romper a lógica da coerção permanente. Nesse contexto, emerge uma figura histórica com credenciais singulares para desempenhar esse papel: Lula. Não como salvador ou árbitro neutro, mas como mediador legítimo num mundo fraturado.
A autoridade de Lula não deriva de poder militar ou econômico, mas de trajetória política, reconhecimento no Sul Global e capacidade de diálogo transversal. Ele representa a possibilidade de recolocar a soberania, o desenvolvimento e a paz no centro do debate internacional, desarmando narrativas binárias e abrindo espaço para soluções políticas onde hoje só se enxerga força. Em um sistema empurrado para a guerra contínua, a mediação torna-se ato estratégico.
O futuro do sistema internacional será definido pela resposta a uma pergunta fundamental: a coerção continuará substituindo a política, ou a política será capaz de conter a coerção? O Irã é o teste decisivo dessa escolha. O que se decidir ali não afetará apenas um país ou uma região, mas a própria possibilidade de um mundo plural, soberano e multipolar.
A última fronteira não é geográfica. Ela é histórica. E atravessá-la sem retorno significaria aceitar que o mundo entrou numa era em que a guerra deixou de ser exceção e passou a ser método. Ainda há tempo para outra escolha. Mas esse tempo é curto, e as consequências de perdê-lo serão sentidas por gerações.





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