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Não, as big techs não serão nossas aliadas

  • Foto do escritor: Sara Goes
    Sara Goes
  • há 15 horas
  • 5 min de leitura

O lançamento da TV 3.0 e as operações contra o PCC, que revelou um esquema de 140 bilhões de reais, expuseram a mesma lição: quando o Estado delega mediações a atores privados, a soberania nacional fica em risco


A semana foi marcada por dois grandes eventos que parecem distantes, mas dialogam profundamente entre si. De um lado, o anúncio da TV 3.0 como símbolo da modernização digital brasileira. De outro, as maiores operações da história do Ministério Público e da Polícia Federal contra o crime organizado, revelando que o PCC movimentou cerca de 140 bilhões de reais por meio de um sistema empresarial paralelo, sustentado por postos de combustíveis, fundos da Faria Lima e fintechs que funcionavam como bancos clandestinos. Ambos os acontecimentos escancaram um ponto central: quando o Estado se ausenta ou entrega mediações estratégicas a atores privados, sejam eles corporações tecnológicas globais ou facções criminosas, abre-se espaço para a corrosão da soberania nacional.

A TV 3.0 não é apenas sobre imagem em 4K ou som imersivo. O coração do projeto é a importação do modelo de negócios do capitalismo de vigilância para a televisão aberta. Cada telespectador precisará fazer login, cada clique, cada segundo diante da tela se tornará um dado. O que antes era um recurso público, o espectro eletromagnético, será convertido em infraestrutura de extração de informações privadas para fins comerciais.

Assim como o PCC criou um sistema bancário paralelo para drenar recursos, as big techs buscam transformar a radiodifusão em terreno de coleta massiva de dados para seu próprio lucro. Em ambos os casos, a ausência de controle estatal pleno abre caminho para estruturas privadas se tornarem mediadoras da vida econômica e simbólica do país.

O Estado como financiador e refém

A transição para a TV 3.0 exigirá cerca de 11 bilhões de reais em investimentos. Para viabilizá-la, o BNDES oferecerá linhas de crédito às emissoras, impondo como contrapartida que empresas inadimplentes percam acesso a verbas de publicidade estatal. O mecanismo, apresentado como medida de responsabilidade fiscal, abre espaço para novas formas de disciplinamento político sobre o setor.

Mas aqui emerge uma contradição. O modelo de parcerias público-privadas pode e deve ser criticado, pois traduz a tentativa de conciliar capitais privados à lógica da acumulação ampliada sob direção estatal. No entanto, reduzi-lo a uma simples privatização ou chamá-lo de política neoliberal é distorcer a realidade. Nesse arranjo, o Estado não abdica de seu comando, mas o reforça, ao mesmo tempo em que transfere parte dos custos ao capital privado e mantém sob sua órbita a capacidade de disciplinar o setor. Chamar isso de privatização é construir uma ficção que serve mais à retórica de oposição do que à análise concreta. Ao repetir essa narrativa, parte da esquerda acaba mimetizando a mesma lógica distorciva que a extrema direita bolsonarista utilizou para atacar políticas públicas. O desafio é ser crítico sem se transformar em oposição automática, entendendo que a disputa real está em torno da soberania nacional.


Globo ontem, big techs hoje

A história é pedagógica. Nos anos 2000 acreditou-se que bastaria irrigar a Globo com verbas oficiais para reduzir sua hostilidade. Em 2023 o grupo recebeu mais de 142 milhões de reais em publicidade estatal, mais da metade do bolo destinado às TVs abertas. Mas em momentos de crise prevaleceram seus interesses de classe e de mercado, culminando no impeachment de Dilma Rousseff.

Com as big techs, a lógica é ainda mais perigosa. Diferentemente da Globo, cujo poder é nacional, Google, Meta, Amazon e Microsoft operam em escala transnacional e subordinam sua atuação a centros decisórios externos. Seu modelo de negócios não é jornalismo nem entretenimento, mas a extração de dados e a manipulação algorítmica. É um poder que desafia não apenas governos, mas a própria noção de soberania.

A escalada de conflitos

Desde 2018, quando o Congresso começou a discutir projetos sobre fake news, a tensão entre Estado e plataformas digitais só cresceu. Em 2020, o PL 2630 foi aprovado no Senado, enquanto o STF abriu frentes contra as milícias digitais, notificando empresas como Google, Facebook e Twitter. Em 2021, Moraes determinou a suspensão temporária do Telegram. Entre novembro de 2022 e janeiro de 2023, Carlos Bolsonaro articulou uma intentona digital com espionagem ilegal e apoio internacional, consolidando o chamado partido digital. O ápice dessa ofensiva foi a invasão de 8 de janeiro de 2023.

De 2023 a 2024, o STF passou a investigar o lobby das big techs e suas conexões internacionais. Em junho de 2024, Moraes ordenou a remoção de perfis como o de Monark e abriu investigações sobre interferência digital. Em agosto, Elon Musk se recusou a nomear representante legal da X no Brasil e teve a plataforma suspensa. Em setembro, o tribunal reafirmou sua autoridade ao rejeitar dezenas de recursos apresentados por X, Rumble e Discord.

Em 2025 a disputa alcançou novo patamar. Em março, Bolsonaro virou réu por tentativa de golpe. Em abril, Moraes recolocou o PL 2630 no centro do debate e incluiu formalmente as plataformas no inquérito de interferência legislativa. Em junho, o STF derrubou o artigo 19 do Marco Civil, responsabilizando plataformas por conteúdos impulsionados, decisão com efeito vinculante. Já em julho, diante da pressão internacional e do tarifaço de Trump, movimentos populares e juristas organizaram o evento Soberania Já em Brasília, consolidando um pacto em defesa do STF e da autonomia nacional.


A ofensiva das plataformas contra o PL 2630

O relacionamento entre regulação e big techs sempre foi tenso. O caso mais simbólico ocorreu em maio de 2023, quando o Google usou sua página inicial para induzir usuários a rejeitarem o PL das Fake News, oficialmente PL 2630. Quem acessava o buscador encontrava um aviso com links e textos que apresentavam a proposta como ameaça à internet livre e à experiência digital dos brasileiros. Em vez de oferecer informação neutra, a empresa transformou sua vitrine global em instrumento de campanha política. No dia 2 de maio, o Ministério Público Federal interveio, cobrando a retirada do material e classificando a prática como abuso de poder econômico.

Em paralelo, um lobby sofisticado foi construído no Congresso em torno da pauta da adultização infantil. A chamada FrenCyber, apresentada como frente parlamentar da cibersegurança, ganhou força com apoio de executivos das big techs e contou com empresas obscuras como a Kodex. Esse arranjo moralista foi usado para travar a regulação das plataformas sem transparência sobre seus reais interesses e sem participação da sociedade civil.



Tarifaço a favor das big techs ou amizade sincera

A ofensiva internacional seguiu a mesma linha. Em abril de 2025, o STF ampliou o cerco e incluiu formalmente as plataformas no inquérito de interferência legislativa. Poucos meses depois, Donald Trump anunciou tarifas de 50 por cento sobre produtos brasileiros. O gesto, consolidado em julho, foi interpretado como retaliação direta à tentativa do Brasil de impor limites às big techs.

Esse tarifaço expôs a falsa amizade entre plataformas digitais e o poder político norte-americano. As mesmas empresas que se apresentam como neutras se alinham de forma explícita a Washington quando seus interesses são ameaçados. Assim como o PCC utilizou fintechs para drenar a economia e corromper instituições, as big techs recorrem ao poder econômico e diplomático dos Estados Unidos para sabotar a soberania brasileira.

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A lição histórica

O Brasil já viu esse filme. A aposta em uma parceria com a Globo custou caro. Repetir a mesma lógica com as big techs seria mais do que ingenuidade, seria suicídio político. A defesa da soberania informacional e da democracia exige o fortalecimento da mídia independente, investimentos em infraestrutura pública de comunicação e regulação firme. A TV 3.0 pode ser uma oportunidade para ampliar o acesso e modernizar o sistema, mas também pode se transformar em porta de entrada definitiva para a colonização algorítmica.

O recado é claro. Se a esquerda quiser evitar novos golpes, não pode se iludir, as big techs não serão nossas aliadas.

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