AS FRAUDES ELEITORAIS E ATAQUES CIBERNÉTICOS DE TRUMP, RÚBIO E BOLSONAROS PARA ROUBAR E ANEXAR A AMÉRICA LATINA AOS EUA

POR MIGUEL MANSO
A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais, um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alerta o risco de influência dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro. Intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, o documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça e alerta sobre a interferência externa dos EUA a um “nível de criticidade”.

A campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro virou alvo de ações na Justiça por supostamente se beneficiar de disparos e anúncios pagos feitos a partir dos Estados Unidos.
As coligações das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Renan Santos (Missão) acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo investigações contra o senador por abuso de poder econômico, político e interferência estrangeira.
De acordo com os documentos apresentados à Justiça:
Impulsionamento Estrangeiro: perfis e influenciadores de direita sediados nos EUA — incluindo figuras políticas norte-americanas — teriam veiculado conteúdos pagos de propaganda eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro no X.
Parcerias Pagas: os posts foram propagados com o selo de “parceria paga” e utilizavam cotações da plataforma estrangeira de apostas Polymarket para alegar um suposto favoritismo do candidato do PL, o que distorce o cenário real das pesquisas eleitorais brasileiras.
Financiamento Proibido: os partidos alegam que a prática configura o uso de dinheiro impulsionado fora da estrutura oficial de campanha e financiamento vindo de procedência estrangeira, condutas estritamente proibidas pela legislação eleitoral brasileira.
As ações judiciais solicitam a remoção imediata das publicações, a abertura de inquérito pela Polícia Federal e, caso as irregularidades sejam comprovadas, a cassação dos registros e a inelegibilidade dos envolvidos.
O ESCUDO DAS AMÉRICAS DE TRUMP E O CASO FERNANDO CERIMEDO
A tentativa de assassinato de Nadia Beller e o papel de Fernando Cerimedo e outras conexões investigadas levantaram a conexão com aviões de transporte de drogas e o envolvimento do chefe da polícia de combate às drogas da Bolívia, que supostamente definiu os executores.
No dia 17 de agosto de 2026, Nadia Beller, advogada e namorada de Fernando Cerimedo, foi baleada por dois sicários em uma motocicleta na saída de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Ela sobreviveu, mas ficou ferida no pescoço, tórax e braço.
Aldúbar Henry Silva Peña, de nacionalidade colombiana, é apontado pela Polícia da Bolívia como principal executor e responsável pelos disparos. Ele fugiu logo após o ataque. Em setembro de 2026, divulgou um vídeo admitindo sua participação na logística do crime, embora tenha alegado que o plano inicial era apenas “dar um susto” em Beller. Ele liderava um grupo que contava com outros quatro executores (dois colombianos e dois brasileiros). A identidade detalhada de ambos permanece sob sigilo de investigação e eles seguem foragidos.
Víctor Hugo C. Z. foi detido e formalizado como cúmplice e colaborador direto dos sicários. Róger Aguilera foi preso sob acusação de fornecer a arma calibre .32 utilizada no crime, enquanto Paola Andrea Vargas foi presa sob acusação de esconder e guardar a arma.
O narco consultor político do MAGA de Trump, o argentino Fernando Cerimedo, ex-companheiro de Nadia Beller, foi preso pelas autoridades bolivianas no aeroporto internacional de Viru Viru. Ele é acusado pelo Ministério Público da Bolívia de ser o autor intelectual (mandante) da tentativa de feminicídio.
A perícia no celular de Cerimedo revelou trocas de mensagens em tempo real com Erik Correa González (ECG), chefe de inteligência do governo boliviano, confirmando a execução dos disparos no exato momento em que o ataque ocorria. Nadia Beller declarou publicamente que o atentado foi encomendado para silenciá-la antes que ela revelasse esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e negócios ilícitos envolvendo o consultor e funcionários do governo local.
Foram encontrados dois tipos principais de evidências: uma nota de texto escrita seis dias antes do atentado, na qual aparece a expressão “La Nadia” associada à intenção de “eliminar” a vítima, e uma conversa com um contato identificado como “E.C.G.”, na qual, às 20h54 do dia 17 de agosto, aparece a mensagem: “Hermano, en este momento le dispararon”.
A investigação também se aprofundou no movimento financeiro de Cerimedo. Foi encontrada no celular uma anotação de uma “billetera virtual” que movimentou cerca de US$ 66.000 nos últimos 11 meses, com mais de 320 transferências. Uma “billetera de paso” ainda maior movimentou US$ 1.386.997. Em buscas realizadas, a polícia apreendeu cerca de US$ 400.000, além de 500.000 bolivianos, armas, veículos e equipamentos para uma “fazenda de bots”, robôs para fraudar as redes sociais e manipular eleições.
O TERREMOTO DA SOBREVIVENTE NADIA BELLER
As denúncias da ex-companheira de Fernando Cerimedo fazem balançar os regimes de Paz (Bolívia), Milei (Argentina), Kast (Chile), Asfura (Honduras) e Abelardo (Colômbia) e suas conexões com o clã Bolsonaro.As informações de Beller permitiram revelar a rede de tecnofascismo voltada à manipulação e à interferência em eleições na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e até mesmo nas próximas eleições no México, por meio de fazendas de bots e trolls operadas pela equipe de Cerimedo a partir da Argentina e de Santa Cruz de la Sierra.
O objetivo era promover líderes submissos aos interesses dos EUA e Israel com o apoio do “Escudo das Américas”, a promoção do La Derecha Diario e o financiamento de Trump & Cia, através de Milei. Cerimedo é apontado como espião da CIA e do Mossad.
Fernando Cerimedo, conhecido como o “rei dos bots” da ultra direita latino-americana, é investigado também por lavagem de dinheiro e por supostos vínculos com o narcotráfico. O Ministério Público busca determinar se Cerimedo integrou uma estrutura que teria facilitado voos irregulares para transportar até 500 quilos de cocaína por viagem e retornar com grandes quantidades de dinheiro em espécie.
Durante as buscas em propriedades ligadas ao narco marqueteiro na Bolívia, as autoridades locais apreenderam grandes quantias de dinheiro vivo e identificaram indícios de uma estrutura tecnológica voltada para a criação automatizada de contas falsas na internet, conhecida popularmente como “fazenda de bots”.
AS CONEXÕES DE FERNANDO CERIMEDO COM TRUMP, RÚBIO E A FAMÍLIA BOLSONARO
Já era conhecida a articulação global que envolve o movimento MAGA, liderado por Donald Trump nos EUA, e lideranças de direita na América Latina, que opera por meio de uma infraestrutura de financiamento internacional de empresários e narcotraficantes, com rede de manipulação da inteligência artificial e redes integradas de dados para ataques cibernéticos.
A coordenação entre esses grupos ocorre em eventos e fóruns políticos de grande visibilidade, como Mar-a-Lago e a CPAC, onde estrategistas e operadores de dados compartilham metodologias de engajamento digital e arrecadação de fundos.
De acordo com a versão dada pelo próprio Fernando Cerimedo em entrevistas, ninguém o apresentou formalmente a Eduardo Bolsonaro: eles teriam se conhecido por acaso na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em 2010. Contudo, veículos de imprensa consultaram formalmente a Universidade Harvard, que respondeu não possuir registros de que Eduardo Bolsonaro ou Fernando Gabriel Cerimedo tenham sido alunos regulares da instituição. Confrontado, Cerimedo alegou posteriormente que fez apenas “cursos livres” e abertos na universidade.
No âmbito do inquérito da Polícia Federal que apura a tentativa de golpe de Estado no Brasil, as investigações apontam que a aproximação prática de Cerimedo com o núcleo duro do bolsonarismo em 2022, para a produção de relatórios falsos contra as urnas, foi intermediada por militares e auxiliares.
Relatórios baseados na delação de Mauro Cid apontam que o coronel do Exército Ângelo Denicoli foi o responsável por entrar em contato e coordenar com Cerimedo os detalhes técnicos para viabilizar as transmissões e ataques ao sistema eleitoral brasileiro.
A Polícia Federal obteve registros eletrônicos comprovando que o número de telefone e as referências de Fernando Cerimedo foram repassados diretamente para Denicoli. Análises periciais em celulares apreendidos demonstraram que Denicoli assumiu a função de interlocutor principal com o argentino, coordenando o envio de materiais.
Mauro Cid confirmou formalmente em depoimentos que Ângelo Denicoli era a ponte direta da organização criminosa com Fernando Cerimedo. Segundo Cid, Denicoli fazia parte do grupo encarregado de buscar dados para sustentar alegações de falhas nas urnas eletrônicas.
As provas técnicas conectaram Ângelo Denicoli, o argentino Fernando Cerimedo e o empresário de tecnologia Eder Balbino. Enquanto Balbino e Denicoli formatavam relatórios contendo argumentos e dados falsos baseados em modelos antigos de urnas, esses arquivos eram repassados a Cerimedo, que os utilizava como base visual para suas transmissões.
Cruzamentos digitais feitos pela PF provaram que os dados apresentados por Cerimedo em suas transmissões na Argentina continham as mesmas inconsistências matemáticas e a mesma formatação estrutural dos documentos manipulados pelo comitê técnico do PL no Brasil. A PF concluiu que o material não foi descoberto de forma independente pelo argentino, mas fornecido a ele pela estrutura sob a gestão de Denicoli.
As investigações apontaram ainda que Denicoli integrou o chamado “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”. A PF encontrou rastros digitais que conectaram diretamente Denicoli a arquivos falsos de auditoria de urnas armazenados em uma pasta pública do Google Drive de Fernando Cerimedo, tendo como proprietário original e editor o perfil de Denicoli.
Denicoli coordenou a compilação técnica de relatórios falsos com Eder Balbino. O material foi repassado a Cerimedo, que o utilizou na “live da fraude” transmitida da Argentina em novembro de 2022 e amplificada no Brasil por Eduardo Bolsonaro.
Em julgamento concluído pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Ângelo Denicoli foi considerado o réu com a condenação mais pesada de seu núcleo, recebendo sentença de 17 anos de prisão em regime fechado, enquadrado nos crimes de golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada.
A BILIONÁRIA INFRAESTRUTURA DE DADOS, SOFTWARES E IA A SERVIÇO DA MENTIRA E DAS FRAUDES
A conexão entre o Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio e o estrategista digital argentino Fernando Cerimedo consolidou-se a partir de 2023, tendo o lobista e consultor político Damián Merlo como intermediário.
Proprietário da Latin America Advisory Group (LAAG), baseada em Miami, Merlo atua como elo entre políticos conservadores latino-americanos e círculos de poder do movimento MAGA nos EUA. Conforme registrado em relatórios da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA) dos EUA, Merlo utilizou sua interlocução com Viviana Bovo, assessora sênior de Marco Rubio, para introduzir Cerimedo, suas ferramentas e relatórios de dados diretamente ao gabinete do senador, hoje Secretário de Estado.
Fernando Cerimedo fundou a agência Numen e o portal La Derecha Diario. Especializou-se no uso de “fazendas de bots” e na manipulação de algoritmos para pautar redes sociais. No Chile, trabalhou na campanha pela derrota da Constituinte em 2022; no Brasil, auxiliou o clã Bolsonaro a propagar teses de desinformação contra as urnas após o pleito de 2022; e, na Argentina, capitaneou a estratégia digital que elegeu Javier Milei em 2023.
Brad Parscale, que foi o principal chefe de estratégia digital das campanhas presidenciais de Donald Trump nos EUA, tornou-se sócio de Cerimedo na consultoria política Numen, sediada em Buenos Aires.
A aliança comercial fez com que Cerimedo passasse a gerenciar a representação na América Latina de ferramentas como a Campaign Nucleus e a Eyes Over, plataformas de mineração de dados e inteligência artificial criadas ou ligadas a Parscale. A relação uniu o conhecimento de dados norte-americano de Parscale com a estrutura operacional que Cerimedo montou em países como Argentina, Brasil, Chile e Bolívia.
BRAD PARSCALE, PETER THIEL E O ECOSSISTEMA DE DADOS
Brad Parscale ganhou a confiança da família Trump e passou a desenhar os sites de seus negócios, até ser escolhido para capitanear a estratégia digital da campanha presidencial de Donald Trump em 2015.
Em 2016, como Diretor de Mídia Digital da campanha, liderou uma operação de dados chamada Projeto Álamo. Parscale concentrou grande parte do orçamento em anúncios altamente segmentados nas redes sociais, gerando até 60 mil variações de anúncios no Facebook por dia.
Em fevereiro de 2018, Trump anunciou Parscale como gerente geral de sua campanha de reeleição para 2020.
Os vínculos de Brad Parscale com as BigTechs e com a Palantir Technologies, do bilionário Peter Thiel, são de cooperação estratégica de dados, alinhamento político e fornecimento de tecnologia.
Peter Thiel, cofundador da Palantir, foi um dos grandes bilionários do Vale do Silício a apoiar e financiar diretamente a campanha de Donald Trump em 2016. A Palantir atua com softwares de vigilância e inteligência analítica para governos e agências de defesa.
Parscale criou a Campaign Nucleus, plataforma para desenvolver uma estrutura de comunicação e ecossistema de dados. O modelo de mineração de dados e inteligência artificial utilizado pela empresa espelha conceitos de processamento em massa e controle de informação atribuídos à Palantir.
O ecossistema funciona de maneira integrada: a Palantir, de Peter Thiel, desenvolve tecnologias de vigilância e inteligência de dados; essas lógicas alimentam softwares políticos como a Campaign Nucleus, de Brad Parscale; e Parscale, por sua vez, distribui essas tecnologias para a América Latina através da Numen, de Fernando Cerimedo.
O ELO ENTRE AS EMPRESAS DOS EUA E ISRAEL
As relações desse grupo de empresas com Israel e com o governo israelense concentram-se em duas frentes centrais: inteligência artificial para alvos militares e guerra cibernética/operações de influência digital.
Em janeiro de 2024, a Palantir assinou um acordo estratégico direto com o Ministério da Defesa de Israel para fornecer tecnologia avançada de IA de suporte a “missões relacionadas à guerra”.
Em julho de 2026, investigações jornalísticas internacionais revelaram o papel de Brad Parscale como agente estrangeiro registrado de Israel nos EUA. O governo de Israel contratou a principal empresa de Parscale, a Clock Tower X, por meio de um aporte de US$ 46,5 milhões, para realizar uma operação de influência digital.
Segundo as investigações citadas no artigo, a empresa construiu uma rede de sites e blogs de propaganda pró-Israel, buscando também produzir dados otimizados para mecanismos de busca e influenciar as bases de dados utilizadas por inteligências artificiais.
A Numen, de Cerimedo, é apresentada como o elo latino-americano dessa rede, utilizando conceitos de dados da Campaign Nucleus e estruturas de bots por meio do portal La Derecha Diario.
A relação é descrita como simbiótica: Israel entra com contratos públicos; a Palantir fornece tecnologia de dados; a Clock Tower X utiliza esse financiamento para operações de influência digital; e a Numen operacionaliza o discurso e a estrutura de bots na América Latina.
O USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O “ENVENENAMENTO DE IAs”
As táticas evoluíram do disparo de desinformação em redes sociais para a manipulação de ecossistemas digitais institucionais.
O GEO (Generative Engine Optimization) é apresentado como uma técnica destinada a inundar a internet com textos doutrinários e falsos centros acadêmicos de pesquisa, para que robôs rastreadores de sistemas como ChatGPT, Gemini e Claude absorvam essa propaganda como informação factual.
Dessa forma, quando cidadãos consultam inteligências artificiais sobre temas geopolíticos ou eleições, os sistemas podem reproduzir narrativas previamente disseminadas pela rede.
A desarticulação de estruturas de Fernando Cerimedo na Bolívia também revelou o uso de dezenas de milhares de celulares automatizados por softwares de IA que simulam comportamento humano, dificultando o bloqueio pelas redes sociais.
Os estrategistas políticos do MAGA de Trump, articulados com Eduardo e Flávio Bolsonaro, seguem operando para interferir nas eleições do Brasil, apesar da prisão do marqueteiro argentino Fernando Cerimedo, escancarando uma forte aliança e atuações conjuntas focadas na adulteração e fraudes no cenário político para submeter a América Latina aos EUA, até quando?
Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.





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