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Cinco dias antes das urnas: o voo militar EUA–Argentina sobre o coração da defesa brasileira

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 52 minutos
7 min de leitura

A cinco dias da eleição brasileira, uma operação militar EUA–Argentina atravessou o país e passou pela região de Gavião Peixoto, um dos centros mais sensíveis da indústria de defesa nacional. O voo era autorizado. O que ele revela, porém, ultrapassa sua rota.


Não há prova de espionagem, provocação ou interferência eleitoral. Há algo mais profundo. Uma missão militar sustentada logisticamente pelos Estados Unidos atravessou o território brasileiro, passou pelo entorno da linha de produção do Gripen e o fez na semana mais sensível do calendário político nacional. Este artigo reconstrói a rota, as autorizações e a integração dos F-16 argentinos à arquitetura militar norte-americana para mostrar onde realmente está a questão. Não no que aqueles aviões podem ter observado, mas nas relações de dependência, circulação e poder que estão reorganizando o entorno estratégico do Brasil.

A arquitetura militar que avança no entorno do Brasil



Na tarde de 29 de setembro, seis F-16 argentinos cruzaram o interior de São Paulo acompanhados por dois KC-135 da Força Aérea dos Estados Unidos. Tinham saído de Natal e seguiam para Río Cuarto, na etapa final do traslado do segundo lote de caças comprado pela Argentina da Dinamarca. A formação passou por Araraquara e Gavião Peixoto, desceu pelo Paraná e deixou o espaço aéreo brasileiro na direção de Foz do Iguaçu.


Gavião Peixoto concentra uma das capacidades mais sensíveis da defesa brasileira. No complexo da Embraer funciona a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia. Em março, saiu dali o primeiro F-39E produzido no Brasil. Em julho, Saab e Embraer abriram caminho para a produção potencial de outras 20 aeronaves. Até agora, porém, não apareceu evidência pública de órbita, espera ou desvio deliberado da formação sobre a fábrica. A rota entre Natal e o centro da Argentina atravessa naturalmente o interior do continente. A importância do episódio está no que cruzou o país, não numa manobra secreta que ninguém demonstrou.


A operação era conhecida pelo Estado brasileiro antes de aparecer nos radares civis. Aeronaves militares estrangeiras precisam de autorização para entrar no espaço aéreo nacional, e a regulamentação exige rota, finalidade declarada e informações sobre equipamentos bélicos, de comunicação, guerra eletrônica, reconhecimento e vigilância. A Base Aérea de Natal já havia sido habilitada, a pedido do Comando da Aeronáutica, para receber aeronaves estrangeiras naquele período. O despacho específico do voo ainda não estava disponível no boletim ostensivo quando este artigo foi concluído.


O voo ocorreu cinco dias antes do primeiro turno. A proximidade, por si só, não estabelece vínculo com a eleição. Ela situa a operação no tempo. Na semana em que o Brasil escolherá seu próximo governo, caças argentinos integrados a uma cadeia militar norte-americana passaram por um dos principais centros da indústria de defesa brasileira.


Os F-16 pertencem à Argentina, mas boa parte do sistema que lhes dá capacidade de combate vem dos Estados Unidos. Buenos Aires pagou cerca de US$ 301 milhões por 24 aeronaves usadas da Dinamarca. Washington aprovou depois um pacote de até US$ 941 milhões com mísseis AMRAAM, bombas guiadas, rádios, dispositivos criptográficos, equipamentos para Link-16, suporte a bancos de dados de guerra eletrônica, software, treinamento, engenharia, assistência logística e reabastecimento aéreo. O preço dos aviões era apenas uma parte do negócio. A sustentação do poder de combate vinha depois.


Em janeiro, militares argentinos foram aos Estados Unidos para trabalhar com a Air Forces Southern no programa Peace Condor. A AFSOUTH definiu a relação como mentoria para montar a estrutura de operação e sustentação do F-16. Pilotos foram treinados segundo padrões americanos, instrutores vinculados ao Foreign Military Sales atuaram na formação e, em março, representantes argentinos, da agência americana de vendas militares e do Comando Sul revisaram logística, suporte técnico e interoperabilidade. Em agosto, entraram na pauta redes táticas e Link-16, usado por forças americanas e aliadas para compartilhar dados operacionais. Os KC-135 sobre o Brasil deram forma concreta a essa dependência. O traslado só foi possível, naquela escala e com aquela simplicidade operacional, porque havia uma infraestrutura americana de apoio por trás dele.


Sete dias antes, Donald Trump reuniu em Nova York líderes latino-americanos e caribenhos ligados ao Escudo das Américas, coalizão de segurança criada sob liderança dos Estados Unidos. Javier Milei participou. Brasil e México ficaram de fora. Trump prometeu empregar poder militar americano contra cartéis classificados por seu governo como organizações terroristas. Sanções, inteligência, cooperação policial e meios militares passam a ocupar o mesmo desenho regional. A Argentina de Milei entrou por essa porta, e a aproximação rapidamente avançou para outras áreas.


A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos ajuda a entender esse movimento. O documento fala em preservar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, fortalecer cadeias críticas regionais, ampliar vendas de armas, inteligência e exercícios conjuntos e desencorajar vínculos estratégicos de países latino-americanos com competidores extrarregionais. Portos, infraestrutura e recursos aparecem como ativos centrais. O Escudo das Américas se encaixa nessa orientação.


O Brasil está no centro dessa disputa por razões materiais. Em março, autoridades americanas, empresas e instituições financeiras participaram em São Paulo de um fórum sobre a integração de minerais críticos brasileiros às cadeias estratégicas dos Estados Unidos. Em setembro, o U.S.-Brazil Business Council voltou a apresentar o país como alternativa hemisférica para nióbio, grafite, terras raras e níquel. A lista brasileira vai além da mineração. Inclui Embraer, energia, Amazônia, Atlântico Sul e uma relação comercial profunda com a China. Para Washington, esses ativos têm peso econômico e militar. Para Brasília, a questão é quanto controle o país conserva ao negociá-los.


Em fevereiro, Buenos Aires assinou com Washington um acordo para minerais críticos. Em 23 de setembro, seis dias antes do sobrevoo, o EXIM Bank dos Estados Unidos anunciou até US$ 7 bilhões para projetos argentinos em minerais, energia, redes elétricas, conectividade digital, sistemas seguros, espaço e tecnologias avançadas. Em abril, Milei e Benjamin Netanyahu lançaram os Acordos de Isaac, apresentados como uma estrutura de aproximação entre Argentina, Israel e parceiros alinhados no Hemisfério Ocidental em segurança, contraterrorismo, tecnologia, inovação, comércio e coordenação internacional. O documento cita os Acordos de Abraão de Trump como inspiração.


No próprio 29 de setembro, a Suprema Corte argentina derrubou a decisão que bloqueava a revogação da Lei de Terras. A Corte não julgou constitucional o decreto de Milei. Entendeu que a entidade autora da ação não tinha legitimidade. Na prática, voltaram a cair os limites federais que restringiam a propriedade rural estrangeira. A decisão se soma ao regime de grandes investimentos, à abertura de setores estratégicos, à mineração, à inteligência artificial e à infraestrutura digital reunidos pelo governo Milei sob uma política agressiva de atração de capital e tecnologia externos.


A rota dos F-16 não nasceu desses acordos, mas os caças chegam a uma Argentina já reorganizada por eles. O laboratório tecnolibertário de Milei combina desregulação, grandes capitais, infraestrutura digital, minerais, segurança e defesa numa mesma orientação externa. Washington fornece parte da arquitetura militar e financeira. Israel entra pela tecnologia, pela segurança e pela coordenação política. O governo argentino chama esse movimento de alinhamento com o Ocidente. O resultado concreto é uma parcela crescente de capacidades estratégicas presa a redes externas de financiamento, armamento, inteligência e tecnologia.


O Brasil tem outra escala e outra base material. Gavião Peixoto concentra parte dessa diferença. O Gripen também depende de uma cadeia internacional, mas o programa brasileiro internalizou engenharia, montagem, testes, manutenção, produção de aeroestruturas e conhecimento. Somem-se Embraer, uma base industrial de defesa, reservas minerais, infraestrutura energética, Amazônia, presença no Atlântico Sul e relações econômicas profundas com Estados Unidos, Europa, China e o Sul Global. A política externa brasileira opera sobre ativos cobiçados por todos esses centros de poder.


Em 4 de outubro, o eleitorado escolherá quem conduzirá essa posição. O programa de Lula registrado no TSE reúne integração sul-americana, Mercosul, BRICS, relações com África, Ásia, Oriente Médio e Sul Global, defesa nacional e fortalecimento da base industrial de defesa. Em setembro, Lula sancionou uma política para minerais críticos que amplia instrumentos estatais de proteção de informações e ativos estratégicos. Seu governo também negocia comércio e minerais com Washington. A lógica é ampliar parceiros e preservar espaço de negociação entre polos concorrentes, sem romper com os Estados Unidos nem se subordinar a um único eixo.


Flávio Bolsonaro oferece outra direção. Seu programa defende abertura comercial, adesão à OCDE e maior participação nas cadeias globais de valor. Fora do documento, apoiou a entrada do Brasil no Escudo das Américas, admitiu rever a participação no BRICS, propôs parceria estratégica com Washington para minerais críticos e anunciou a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Em maio, foi recebido por Trump no Salão Oval e, no dia seguinte, reuniu-se com JD Vance e Marco Rubio. Segurança, comércio e terras raras estiveram nas conversas.


Uma carta enviada por Flávio a Rubio levou essa aproximação para dentro da própria transição de governo. O senador escreveu que, se eleito, colocaria imediatamente sua equipe à disposição da administração americana para acelerar um amplo acordo de comércio e investimentos. O gesto ocorre antes da posse e diante de uma potência com interesses diretos em minerais, infraestrutura, tecnologia e segurança no Brasil. Em julho, Milei foi a São Paulo apoiar sua candidatura. Netanyahu enviou uma mensagem à convenção. Trump também declarou apoio público. A candidatura passou a ocupar um lugar reconhecível dentro dessa rede internacional.


Lula aposta em arranjos multipolares, base industrial própria e negociação com diferentes centros de poder. Flávio quer aproximar o Brasil das estruturas políticas, econômicas e de segurança lideradas pelos Estados Unidos e estreitar o vínculo com Israel. Num país que concentra minerais, defesa, tecnologia, dados e infraestrutura estratégica, essa diferença alcança diretamente a margem de decisão do Estado.


A Argentina oferece uma referência concreta do que essa mudança pode produzir. Em poucos meses, contratos militares, programas de treinamento, financiamento, segurança, tecnologia e mudanças regulatórias passaram a convergir na mesma direção. Os F-16 são uma das peças mais visíveis desse processo. O traslado pelo Brasil, com apoio de aviões-tanque americanos, mostrou que essa rede já tinha alcance operacional regional.


O sobrevoo de 29 de setembro não prova uma operação contra o Brasil. Ele ocorreu dentro de uma reorganização regional que combina poder militar, capital, tecnologia e alianças políticas. Cinco dias depois, o eleitorado brasileiro escolherá quem conduzirá a política externa e de defesa diante desse ambiente. A rota dos aviões foi autorizada pelo Brasil. A orientação do país diante dessa arquitetura dependerá das escolhas feitas nas urnas.


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