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Crise EUA - Irã: O gatilho nuclear do século

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 4 dias
  • 16 min de leitura

Por que uma mudança de regime em Teerã é uma questão existencial para a China e pode levar a um conflito nuclear de proporções inéditas


Não é apenas petróleo. É o controle dos fluxos energéticos e das rotas continentais da Nova Rota da Seda. A queda do Irã ameaça diretamente o coração do projeto chinês de desenvolvimento, compromete a arquitetura logística da Eurásia e empurra o sistema internacional para um ponto de ruptura histórico, com risco real de uma guerra nuclear.

O perigo que está sendo subestimado



O debate público sobre a crise entre Estados Unidos e Irã está profundamente equivocado. Dominado por enquadramentos morais, disputas narrativas e análises fragmentadas, ele ignora o que realmente importa em momentos de inflexão histórica: a estrutura material do poder, os fluxos que sustentam as economias e os pontos de estrangulamento que definem a sobrevivência dos projetos nacionais. Não se trata de avaliar simpatias políticas, regimes internos ou discursos oficiais. Trata-se de compreender como o sistema internacional funciona quando entra em zona de estresse máximo.


A Nova Rota da Seda não é um conjunto difuso de investimentos, nem um slogan diplomático. Trata-se de um projeto histórico de reorganização da circulação global, concebido para alterar a geografia do poder no século XXI. Seu objetivo central é reduzir a dependência chinesa de rotas marítimas vulneráveis, criar corredores continentais redundantes e estabelecer uma infraestrutura capaz de sustentar, no longo prazo, um sistema multipolar funcional. Dentro dessa arquitetura, alguns territórios são importantes. Outros são decisivos. O Irã pertence a este segundo grupo. Sua posição estratégica o transforma em um nó crítico da reorganização eurasiática, confirmando uma regra clássica da geopolítica: quando a infraestrutura da circulação entra em disputa, os conflitos deixam de ser regionais e passam a ser sistêmicos.


A insistência em reduzir o conflito à questão nuclear iraniana ou à retórica de segurança regional serve mais para ocultar do que para esclarecer. O que está em jogo é o controle dos fluxos energéticos e, sobretudo, das rotas continentais que sustentam a reorganização do poder global no século XXI. A Nova Rota da Seda não é um projeto comercial neutro. Ela é a espinha dorsal de um processo histórico de deslocamento do centro de gravidade do sistema internacional. E o Irã ocupa uma posição central nessa arquitetura.


Quando um nó dessa magnitude é ameaçado por uma estratégia explícita de mudança de regime, o problema deixa de ser diplomático e passa a ser existencial para os atores diretamente envolvidos. É nesse ponto que a China entra no centro da equação. A possibilidade de um Irã capturado pelos interesses do eixo atlântico não representa apenas uma perda de parceiro estratégico. Representa a ruptura de corredores vitais, a reimposição de gargalos logísticos controlados por potências adversárias e a demonstração de que o projeto chinês de desenvolvimento pode ser estrangulado sem que um único tiro seja disparado em território chinês.


Em cenários como esse, a história mostra que as grandes potências não escolhem entre paz e guerra a partir de preferências morais. Elas reagem à ameaça de colapso estrutural. Quando a continuidade de um projeto histórico é colocada em xeque, a escalada deixa de ser uma opção e passa a ser uma consequência. É essa lógica, dura e impessoal, que está sendo ignorada no debate atual.


O risco que se desenha não é abstrato nem retórico. Ele é concreto, mensurável e crescente. A combinação entre mudança de regime, guerra híbrida, disputa por infraestrutura e erosão dos mecanismos de contenção nuclear cria um ambiente materialmente propício a uma guerra de proporções inéditas. Subestimar esse momento é repetir, em escala ampliada, os erros que precederam as grandes catástrofes do século XX.


O erro central do debate: por que não é sobre democracia nem ideologia



O primeiro obstáculo para compreender a gravidade da crise entre Estados Unidos e Irã é a persistência de um enquadramento ideológico que não corresponde à realidade das relações de poder. A narrativa dominante insiste em apresentar o conflito como uma disputa entre democracia e autoritarismo, valores liberais e regimes teocráticos, direitos humanos e ameaças à ordem internacional. Esse enquadramento não apenas empobrece o debate, como o torna analiticamente inútil. Estados não entram em confrontos existenciais por afinidades morais. Entram porque seus interesses materiais, sua segurança estrutural e sua capacidade de reprodução histórica estão ameaçados.


A história recente oferece evidências abundantes de que a retórica democrática é frequentemente instrumentalizada para justificar operações cujo objetivo real é a reorganização coercitiva de espaços estratégicos. Iraque, Líbia e Afeganistão não colapsaram porque seus regimes eram autoritários, mas porque ocupavam posições geopolíticas sensíveis em momentos de reconfiguração do sistema internacional. O resultado desses processos não foi a consolidação de democracias estáveis, mas a produção de caos, fragmentação institucional e dependência externa. Ignorar esse padrão é fechar os olhos para a lógica que orienta as grandes intervenções do pós-Guerra Fria.


Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético, a política internacional não se move por princípios abstratos, mas por relações concretas de produção, circulação e poder. A forma política dos Estados é relevante, mas secundária diante da função que esses Estados cumprem na arquitetura do sistema mundial. O Irã não é alvo prioritário por ser uma república islâmica, mas porque exerce controle sobre corredores energéticos, rotas logísticas e articulações regionais que escapam à hegemonia atlântica. A ideologia aparece, nesse contexto, como véu legitimador, não como causa determinante.


O realismo político reforça essa leitura ao demonstrar que grandes potências tendem a reagir de forma agressiva sempre que percebem ameaças à sua posição estrutural. Mudanças de regime promovidas externamente não são exceções morais, mas instrumentos recorrentes de disputa por influência. Elas se intensificam, sobretudo, em períodos de transição hegemônica, quando o poder estabelecido tenta conter a ascensão de novos polos por meios indiretos, evitando confrontos frontais enquanto reorganiza o tabuleiro a seu favor.


Reduzir a crise atual a um embate ideológico cumpre uma função política clara: despolitizar o que é essencialmente estrutural. Ao deslocar o foco para valores, esconde-se a disputa real pelo controle da circulação global. Ao falar de democracia, silencia-se sobre infraestrutura. Ao invocar direitos humanos, evita-se discutir logística, energia e soberania. Esse deslocamento não é ingênuo; ele é funcional à manutenção de uma ordem que depende da opacidade para operar.


Enquanto o debate permanecer preso a esse erro central, o público seguirá incapaz de compreender por que a desestabilização do Irã produz efeitos tão amplos e perigosos. Só quando a análise abandona o moralismo e retorna ao terreno da economia política e do poder é possível enxergar o que realmente está em jogo. É a partir desse ponto que se torna necessário examinar o papel do petróleo e, sobretudo, entender por que ele já não é suficiente para explicar a profundidade da crise atual.

Petróleo ainda importa — mas já não explica tudo



Seria um erro simétrico ao moralismo liberal ignorar o papel do petróleo na crise atual. A energia continua sendo a base material das guerras modernas. Desde o início do século XX, o controle sobre fontes energéticas define a capacidade industrial, militar e logística das grandes potências. Nenhuma economia de escala continental funciona sem acesso estável, previsível e politicamente seguro a petróleo e gás. Nesse sentido, o Irã permanece central: suas reservas, sua posição no Golfo Pérsico e sua influência sobre o Estreito de Ormuz conferem-lhe um peso estratégico que não pode ser relativizado.


Contudo, o erro recorrente da análise tradicional é tratar o petróleo como causa suficiente. Essa leitura pertence a um estágio anterior da geopolítica, quando a disputa se dava majoritariamente no plano da extração e da posse dos recursos. No século XXI, a questão energética deslocou-se progressivamente da produção para a circulação. Não basta possuir petróleo; é preciso garantir os corredores por onde ele transita, as infraestruturas que o integram às cadeias globais e os sistemas financeiros que viabilizam sua troca. É nesse deslocamento que a crise atual ganha uma dimensão qualitativamente nova.


A China compreendeu essa transformação antes de seus concorrentes. Sua vulnerabilidade não reside apenas na dependência energética, mas na dependência de rotas marítimas controladas por potências adversárias. O chamado “dilema de Malaca” não é um conceito abstrato, mas a expressão concreta de um estrangulamento potencial: grande parte do petróleo que abastece a economia chinesa passa por gargalos facilmente bloqueáveis por forças navais dos Estados Unidos e de seus aliados. É para escapar dessa armadilha estrutural que a China investiu massivamente em corredores terrestres, oleodutos, gasodutos e infraestrutura continental.


Nesse contexto, o Irã surge como mais do que um fornecedor de energia. Ele se converte em elo de um sistema alternativo de circulação, capaz de reduzir a exposição chinesa à coerção marítima. A energia iraniana integrada a corredores terrestres eurasiáticos não representa apenas diversificação de fornecedores, mas diversificação de riscos estratégicos. É exatamente essa função que transforma o país em alvo prioritário de estratégias de contenção e mudança de regime.


Ao insistir em explicar a crise apenas pelo petróleo, o debate público ignora a mutação central do conflito. O que está em jogo não é quem controla o poço, mas quem controla o caminho. A infraestrutura passou a desempenhar o papel que as bases militares desempenharam no século passado. Ferrovias, portos, dutos e hubs logísticos tornaram-se instrumentos de poder tão decisivos quanto frotas e arsenais. Quando essas estruturas entram em disputa, a guerra assume formas menos visíveis, mas não menos perigosas.


É justamente por isso que o petróleo, embora indispensável, já não basta para compreender a profundidade da crise entre Estados Unidos, Irã e China. Ele explica a base material do conflito, mas não seu vetor estratégico principal. Para entender por que a desestabilização do Irã assume um caráter sistêmico, é preciso avançar para além da energia e examinar o papel que o país desempenha na arquitetura da Nova Rota da Seda. É nesse ponto que o Irã deixa de ser apenas um produtor e passa a ser um nó crítico da reorganização do poder global.

O Irã como nó estratégico da Nova Rota da Seda



A Nova Rota da Seda não é um conjunto difuso de investimentos, nem um slogan diplomático. Trata-se de um projeto histórico de reorganização da circulação global, concebido para alterar a geografia do poder no século XXI. Seu objetivo central é reduzir a dependência chinesa de rotas marítimas vulneráveis, criar corredores continentais redundantes e estabelecer uma infraestrutura capaz de sustentar, no longo prazo, um sistema multipolar funcional. Dentro dessa arquitetura, alguns territórios são importantes. Outros são decisivos. O Irã pertence ao segundo grupo.


A posição geográfica iraniana é singular. O país conecta a Ásia Central ao Oriente Médio, faz a ponte entre o Cáucaso e o Sul da Ásia, liga o interior da Eurásia ao Golfo Pérsico e ao Mar de Omã, e se projeta em direção à Turquia e à Europa Oriental. Não há outro território que concentre tantas possibilidades de conexão continental em um único espaço soberano. Essa centralidade não é teórica; ela se materializa em corredores ferroviários, rodoviários, energéticos e digitais que atravessam o território iraniano e integram diferentes braços da Nova Rota da Seda.


É essa função de articulação que transforma o Irã em nó crítico. Ele não é apenas um ponto de passagem, mas um elemento de coerência sistêmica. Sem o Irã, a malha eurasiática se fragmenta, os corredores se tornam mais longos, mais caros e mais politicamente instáveis, e a promessa de uma circulação continental autônoma perde consistência. A Nova Rota da Seda deixa de ser uma rede integrada e volta a depender, em última instância, de rotas marítimas sujeitas à coerção militar e financeira do eixo atlântico.


A importância do Irã torna-se ainda mais evidente quando se observa o papel dos corredores terrestres na estratégia chinesa de mitigação de riscos. Cada trilho, cada duto e cada hub logístico no território iraniano representa uma redução marginal da vulnerabilidade chinesa ao bloqueio naval. Em conjunto, essas reduções constroem algo maior: a possibilidade de continuidade econômica mesmo em cenários de crise prolongada. É essa resiliência estrutural que está sendo atacada quando se fala em mudança de regime em Teerã.


A tentativa de capturar politicamente o Estado iraniano não visa apenas alterar sua orientação diplomática. Visa reconfigurar o controle sobre essa infraestrutura estratégica. Um Irã alinhado aos interesses de Washington e Tel Aviv deixaria de ser nó de integração eurasiática para se tornar ponto de estrangulamento. Corredores poderiam ser interrompidos, investimentos congelados, contratos revistos e fluxos condicionados a interesses externos. A coerção que hoje opera no mar passaria a operar também em terra.


Nesse sentido, a Nova Rota da Seda revela sua natureza profundamente política. Ela não é apenas um projeto de desenvolvimento, mas uma estratégia de soberania. Cada nó preservado fora do controle atlântico amplia o espaço de manobra da China e de seus parceiros. Cada nó capturado reduz esse espaço e reintroduz a assimetria que marcou o sistema internacional nas últimas décadas. O Irã é um dos poucos nós cuja perda produz efeitos imediatos e amplificados em toda a rede.


É por isso que a desestabilização do Irã não pode ser lida como evento isolado. Ela representa uma ofensiva direta contra a arquitetura logística que sustenta a ascensão chinesa. Quando esse fato é compreendido, torna-se impossível tratar a crise como mais uma disputa regional. O que está em jogo é a integridade de um projeto histórico de reorganização do poder global. E é exatamente nesse ponto que a questão deixa de ser estratégica e passa a ser existencial para a China.

Por que a queda do Irã é uma questão existencial para a China



A palavra “existencial” é frequentemente usada como exagero retórico. Aqui, ela tem sentido técnico. Um conflito se torna existencial quando ameaça não apenas interesses pontuais, mas a própria continuidade de um projeto histórico, a estabilidade interna de um Estado e sua capacidade de permanecer soberano no sistema internacional. Para a China, a hipótese de uma mudança de regime em Teerã orientada pelos interesses do eixo atlântico se encaixa precisamente nessa definição.


A China não se construiu como potência por um milagre cultural ou por uma benção tecnológica espontânea. Ela se construiu como processo histórico de longa duração, alicerçado em industrialização, planejamento, acumulação produtiva, controle estratégico do Estado e ampliação gradual de autonomia frente aos mecanismos de coerção do capitalismo ocidental. Esse processo, iniciado em 1949 e transformado em projeto nacional de desenvolvimento, tem um requisito básico: estabilidade de circulação. Uma economia industrial continental não sobrevive se seus fluxos vitais podem ser estrangulados por um adversário externo.


É aqui que o Irã deixa de ser parceiro e passa a ser pilar. Um Irã soberano, capaz de operar como nó logístico e energético fora da órbita atlântica, amplia o espaço estratégico chinês. Ele permite diversificação de rotas, fortalece corredores terrestres eurasiáticos e sustenta a possibilidade de a China continuar se desenvolvendo mesmo sob pressão. Um Irã capturado, por outro lado, não significa apenas perda de um aliado. Significa a transformação desse pilar em arma contra a própria China.


A mudança de regime, nesse cenário, atua como operação de estrangulamento. Ela desloca o controle dos corredores de circulação para mãos hostis, torna contratos e investimentos vulneráveis, cria instabilidade deliberada em pontos de passagem e reintroduz a lógica imperial do bloqueio, agora não apenas no mar, mas também na terra. O resultado não é necessariamente uma interrupção imediata de todos os fluxos, mas algo mais perigoso: a incerteza estrutural. Cadeias logísticas vivem de previsibilidade. Quando a previsibilidade se torna refém de um adversário, o projeto de desenvolvimento entra em risco.


Há também um componente político interno que torna o problema ainda mais grave. A legitimidade do Estado chinês, no período contemporâneo, está profundamente ligada à capacidade de garantir crescimento, estabilidade e continuidade do desenvolvimento soberano. Se a China demonstrar impotência diante da derrubada de um nó estratégico como o Irã, ela não perde apenas um ativo externo. Ela perde credibilidade sistêmica. E credibilidade, para grandes potências, é parte da dissuasão. Sem dissuasão, a pressão se multiplica. Outros pontos sensíveis se tornam alvos. Outros nós passam a ser testados. A coerção se normaliza.


É nesse ponto que o adversário percebe uma oportunidade histórica: atacar não o território chinês, mas sua infraestrutura externa de circulação. É uma forma de guerra que não precisa de invasão para produzir colapso. Ela opera pela captura de corredores, pela sabotagem de conexões, pela imposição de gargalos, pelo controle das chaves da circulação. E é exatamente por isso que o Irã é uma linha vermelha. Não por ideologia, mas por função sistêmica.


Se a China aceitar passivamente a captura do Irã, ela sinaliza que pode ser contida e estrangulada sem reação proporcional. Isso equivale, na prática, a aceitar a reversão do seu projeto histórico. É por isso que o cenário se torna existencial. E quando uma potência interpreta uma crise como existencial, a política deixa de ser debate e passa a ser sobrevivência. A partir daí, a escalada não depende de vontade, mas de necessidade histórica.

Quando conflitos se tornam existenciais, a guerra deixa de ser escolha



Carl von Clausewitz formulou uma das intuições mais duras e frequentemente mal compreendidas da teoria política moderna: a guerra não é um desvio da política, mas a sua continuação por outros meios. Essa formulação não celebra a guerra, tampouco a naturaliza moralmente. Ela descreve um mecanismo histórico. Quando os instrumentos normais da política deixam de ser suficientes para garantir a sobrevivência de um projeto estatal, a violência organizada passa a ocupar esse espaço. Em conflitos existenciais, a guerra não é decidida. Ela se impõe.


É exatamente esse tipo de dinâmica que começa a se desenhar quando a desestabilização do Irã passa a ameaçar diretamente a arquitetura que sustenta o desenvolvimento chinês. A partir desse momento, a lógica da contenção clássica se fragiliza. A dissuasão funciona quando os atores acreditam que os custos da escalada superam os benefícios. Em cenários existenciais, essa equação se inverte. O custo de não agir passa a ser percebido como maior do que o custo da escalada.


Nesse contexto, a escalada não ocorre necessariamente de forma abrupta ou declarada. Ela pode se dar por camadas sucessivas, por movimentos indiretos, por respostas assimétricas e por conflitos por procuração. Sanções, sabotagens, ataques cibernéticos, bloqueios financeiros e operações de guerra híbrida passam a integrar um continuum que, pouco a pouco, corrói os limites entre paz e guerra. O problema é que, à medida que esses instrumentos se acumulam, o risco de erro de cálculo cresce exponencialmente.


A história das grandes guerras mostra que conflitos de proporções inéditas raramente começam com decisões conscientes de destruição total. Eles emergem de encadeamentos de crises, percepções distorcidas e respostas graduais a ameaças percebidas como intoleráveis. Quando múltiplos atores operam em ambientes de alta tensão, com canais diplomáticos enfraquecidos e narrativas securitárias dominantes, a probabilidade de uma escalada fora de controle deixa de ser remota.


O componente nuclear torna esse cenário qualitativamente distinto. As armas nucleares foram concebidas como instrumentos de dissuasão, não de uso regular. Elas pressupõem racionalidade estratégica, comunicação clara e reconhecimento mútuo de limites. Em cenários existenciais, porém, esses pressupostos começam a falhar. Se uma potência acredita que sua sobrevivência histórica está em jogo, a ameaça nuclear deixa de ser apenas simbólica. Ela se torna parte do cálculo estratégico, ainda que como último recurso.


É por isso que o risco atual não deve ser tratado como alarmismo. Ele decorre de uma lógica objetiva. A combinação entre disputa por infraestrutura, captura de nós logísticos, erosão da dissuasão e proliferação de conflitos indiretos cria um ambiente materialmente propício à escalada nuclear. Não porque os atores desejem a destruição mútua, mas porque o sistema perde a capacidade de absorver choques sem recorrer a meios extremos.


Quando conflitos atingem esse patamar, a política deixa de ser administração de interesses e passa a ser gestão do risco de aniquilação. É esse deslocamento que marca os momentos mais perigosos da história moderna. E é exatamente esse deslocamento que começa a se delinear quando a crise entre Estados Unidos, Irã e China é analisada fora das ilusões morais e recolocada no terreno duro da economia política e do poder.

O risco do erro de cálculo e o colapso da ordem internacional



O maior perigo do momento atual não reside em uma decisão consciente de iniciar uma guerra total, mas na combinação entre múltiplos atores, interesses cruzados e instrumentos de coerção operando simultaneamente em um sistema internacional já fragilizado. Quando a política global entra nesse estágio, o risco central deixa de ser a intenção declarada e passa a ser o erro de cálculo. A história demonstra que grandes catástrofes não nascem apenas da vontade de confronto, mas da incapacidade de conter cadeias de reação em ambientes saturados de tensão.


A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial foi pensada para reduzir esse risco por meio de regras, instituições e canais de comunicação. Essa arquitetura, porém, vem sendo sistematicamente corroída. Sanções unilaterais, intervenções sem mandato, operações de guerra híbrida e a instrumentalização seletiva do direito internacional minaram a previsibilidade do sistema. Quando normas deixam de ser universais e passam a ser aplicadas de forma instrumental, o resultado não é estabilidade, mas anomia estratégica.


Nesse cenário, a crise envolvendo Irã, Estados Unidos e China opera como catalisador. Cada movimento é interpretado não apenas pelo que é, mas pelo que sinaliza. Um ataque indireto, uma sanção ampliada, uma sabotagem logística ou uma operação encoberta podem ser lidos como ensaio de algo maior. A reação, então, tende a ser desproporcional não por irracionalidade, mas por antecipação. O medo de ser o próximo alvo leva os atores a agir antes que a ameaça se materialize plenamente.


A multiplicação de frentes de conflito agrava esse quadro. O sistema internacional atual convive com guerras ativas, conflitos congelados e disputas latentes em diferentes regiões. Cada novo foco reduz a margem de erro global. Recursos diplomáticos se dispersam, mecanismos de mediação perdem eficácia e a capacidade de absorver choques diminui. A crise no Irã, ao se conectar estruturalmente com disputas maiores envolvendo China e Estados Unidos, adiciona uma camada de complexidade que o sistema talvez já não seja capaz de suportar.


O colapso da ordem internacional não ocorre quando as instituições deixam de existir formalmente, mas quando deixam de ser levadas a sério pelos principais atores. Nesse ponto, a força passa a substituir a regra como mecanismo primário de resolução de conflitos. É exatamente esse deslocamento que torna o momento atual tão perigoso. Sem regras compartilhadas e com a percepção de ameaças existenciais em jogo, a política global se aproxima de uma lógica de soma zero, na qual concessões são vistas como fraqueza e contenção como capitulação.


O risco nuclear emerge dessa combinação. Não como plano, mas como possibilidade real em um ambiente de desorganização sistêmica. Quanto mais a ordem internacional se fragiliza, menor é a capacidade de controlar a escalada. E quanto mais os conflitos se conectam a questões estruturais de sobrevivência, maior é a probabilidade de que decisões extremas sejam consideradas aceitáveis em nome da preservação de projetos históricos.


É nesse ponto que o debate atual falha de maneira mais grave. Ao tratar a crise como episódica, ignora-se o fato de que o sistema internacional já opera no limite de sua capacidade de contenção. A desestabilização do Irã não é apenas mais um evento em uma sequência de crises. Ela se soma a um conjunto de tensões que, juntas, empurram o mundo para uma zona de risco inédita desde a metade do século XX.

Conclusão – O século XXI está sendo decidido agora



A crise entre Estados Unidos e Irã não é um desvio momentâneo nem um excesso retórico de um sistema ainda funcional. Ela revela, com nitidez crescente, os limites de uma ordem internacional em esgotamento e a emergência de conflitos que não admitem soluções cosméticas. Quando a disputa deixa de ser sobre influência pontual e passa a envolver infraestrutura vital, circulação global e a continuidade de projetos históricos, o risco não é mais administrável nos termos tradicionais da diplomacia.


O Irã ocupa hoje uma posição que o transforma em ponto de inflexão. Sua estabilidade soberana sustenta corredores, fluxos e equilíbrios que extrapolam em muito o Oriente Médio. Sua captura política, por outro lado, reconfiguraria a geografia do poder na Eurásia, fragilizaria a Nova Rota da Seda e colocaria a China diante de uma escolha que nenhuma grande potência aceita fazer sem reagir: submeter-se ao estrangulamento estrutural ou enfrentar o custo de uma escalada sistêmica.


É por isso que o debate centrado em moralidade, ideologia ou intenções declaradas falha em compreender o momento histórico. O perigo não nasce do desejo explícito de guerra, mas da convergência entre disputas existenciais, erosão das regras, fragmentação do sistema internacional e incapacidade crescente de conter crises antes que elas se transformem em algo maior. A guerra, nesses contextos, não é anunciada. Ela emerge.


O risco nuclear, tantas vezes tratado como relíquia da Guerra Fria, retorna não como ameaça abstrata, mas como possibilidade concreta inscrita na lógica do poder contemporâneo. Não porque os atores desejem a destruição, mas porque o sistema já não oferece garantias suficientes de contenção quando projetos históricos inteiros entram em jogo. Ignorar essa dinâmica não a neutraliza. Apenas a torna mais perigosa.


O século XXI está sendo decidido agora, não em discursos solenes ou cúpulas diplomáticas, mas na disputa silenciosa por nós logísticos, corredores continentais e fluxos de energia. A forma como essa crise será enfrentada determinará se o mundo caminhará para uma reorganização negociada do poder ou para um confronto de proporções inéditas. A história ensina que momentos como este não se repetem. Eles se resolvem. E o custo da cegueira estratégica costuma ser alto demais para ser pago duas vezes.


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