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Hackers desmontam câmera da Flock e revelam como sua rede de vigilância funciona por dentro

Foto do escritor: Redação
Redação
há 3 minutos
7 min de leitura

Arquivos extraídos de um leitor automático de placas instalado nos Estados Unidos mostram que uma única câmera gerou 1,6 milhão de imagens em 21 dias, detectou pessoas além de veículos e operava como porta de entrada para uma infraestrutura nacional de buscas. A descoberta chega quando cidades começam a rever contratos e a Flock reforça suas regras de privacidade.


Uma câmera retirada de uma estrada americana entregou aos pesquisadores um retrato raro da infraestrutura da Flock Safety: vídeos temporários, milhões de imagens registradas nos logs, detecção de pessoas e software que depende da nuvem para transformar passagens cotidianas em dados pesquisáveis. A revelação chega no pior momento recente da empresa, pressionada por cidades, legisladores e organizações de direitos civis, mas ainda presente em milhares de comunidades dos Estados Unidos.


Vinte e um dias dentro de uma câmera



No dia 16 de setembro, a WIRED e a 404 Media publicaram o resultado de uma investigação que começou de forma pouco convencional. Integrantes do coletivo de hackers stegan0gram retiraram uma câmera da Flock instalada sobre uma via, copiaram quase todo o conteúdo que conseguiram acessar e compartilharam o material com jornalistas e com a organização de transparência Distributed Denial of Secrets. A Flock respondeu que a retirada e a adulteração de seus equipamentos são ilegais e afirmou que pesquisadores de segurança devem utilizar seu programa formal de divulgação de vulnerabilidades.


O material abriu uma janela para um dispositivo normalmente visto da rua apenas como uma caixa presa a um poste, acompanhada por painel solar. Por dentro, a câmera analisada usa um processador semelhante aos encontrados em smartphones intermediários e executa cerca de vinte aplicativos desenvolvidos pela própria Flock. Eles cuidam de tarefas como perceber movimento, disparar sequências de fotografias, separar imagens úteis, recortar regiões de interesse, enviar arquivos pela rede celular e receber atualizações.


Os registros recuperados cobriam cerca de 21 dias, distribuídos em diferentes períodos. Nesse intervalo, a câmera contabilizou aproximadamente 50,2 mil veículos e gerou cerca de 1,6 milhão de imagens. Uma passagem típica produzia por volta de 28 fotografias; em alguns casos, mais de cem. O volume não significa que todas essas imagens tenham permanecido armazenadas por longo prazo. O equipamento produz sequências rápidas, seleciona material e envia dados para a infraestrutura da empresa, enquanto arquivos mais antigos podem ser sobrescritos no próprio dispositivo.


A investigação também mostrou uma divisão de trabalho importante entre a câmera e os servidores. O equipamento parece realizar a captura, detectar objetos e preparar as imagens, mas a leitura da placa e a identificação de características como marca, modelo e cor do veículo ocorrem nos sistemas da Flock. Na prática, o poste é a primeira etapa de uma cadeia de processamento maior.


Foi dentro dessa primeira etapa que surgiu um dos achados mais sensíveis. O software da câmera possuía modelos capazes de detectar pessoas, além de veículos, bicicletas e placas. A WIRED extraiu esses modelos e os testou sobre 27.321 pequenos vídeos encontrados no aparelho. Pessoas apareceram em apenas 11 deles, todas sobre motocicletas, resultado coerente com a posição da câmera, elevada e apontada para o fluxo de carros. O sistema registrava a posição da pessoa na imagem e o grau de confiança da detecção.


Isso precisa ser descrito com precisão. Os jornalistas não encontraram evidência de reconhecimento facial ativo no equipamento, e detectar a presença de uma pessoa é diferente de identificá-la. A própria Flock afirma que seus leitores automáticos de placas não coletam biometria, informações sobre motoristas nem dados de reconhecimento facial. Em seu centro de privacidade, a empresa resume o produto com uma frase direta: as câmeras capturam veículos, não pessoas. O código recuperado mostra, porém, que a visão computacional usada no dispositivo enxerga pessoas como uma classe de objeto, ainda que não saiba quem elas são.


Os arquivos reacenderam também uma discussão de segurança que já vinha de um episódio anterior. Em 2025, o pesquisador Jon Gaines já havia demonstrado formas de obter acesso de nível administrativo a uma câmera da empresa. Na época, a Flock disse que o acesso físico ao equipamento não permitiria chegar às imagens porque elas permaneceriam no aparelho por pouco tempo e seriam protegidas por criptografia. O grupo stegan0gram encontrou uma chave de criptografia armazenada em uma das partições e conseguiu abrir outra área com vídeos e imagens. A Flock disse à WIRED e à 404 Media que não recebeu esses achados por seu canal oficial e que, com as informações disponíveis, não poderia avaliar tecnicamente as alegações.


Uma câmera local, uma rede nacional


O alcance da Flock não decorre apenas daquilo que cada câmera consegue registrar. O valor do sistema está na conexão entre milhares de pontos de captura e numa camada de software que permite consultar registros produzidos em lugares diferentes. A empresa afirma que mais de 6 mil comunidades, 5 mil órgãos policiais e mil empresas utilizam sua tecnologia. Em levantamento próprio com 700 agências, a Flock diz que seus produtos apoiaram mais de um milhão de investigações ou ocorrências em 2025 e ajudaram a localizar mais de 10 mil pessoas desaparecidas. São números produzidos pela própria companhia, usados por ela para defender a utilidade pública do sistema.


É justamente a escala da rede que alimenta a disputa sobre privacidade. A WIRED já havia identificado que os registros das câmeras de Alpharetta, na Geórgia, podiam ser consultados por mais de 2 mil organizações, entre departamentos policiais, universidades, aeroportos e outros órgãos. A Flock sustenta que o acesso é definido pelos clientes, realizado por usuários autorizados e registrado para auditoria. Críticos apontam que o compartilhamento entre jurisdições transforma leitores instalados para resolver crimes locais em uma infraestrutura muito mais ampla de rastreamento de deslocamentos.


Esse desenho ficou ainda mais controverso com a expansão das ferramentas de busca. A Flock oferece recursos que permitem procurar não apenas uma placa específica, mas características visuais e padrões. Em investigações anteriores, jornalistas reconstruíram partes do software policial da companhia e encontraram funções capazes de relacionar veículos que viajam juntos, combinar registros das câmeras com outros bancos de dados e realizar pesquisas por descrições. O potencial de consulta cresce à medida que a câmera deixa de ser apenas um leitor de caracteres e passa a alimentar sistemas de visão computacional.


A polícia que não existe


Um conjunto de registros públicos divulgado em 17 de setembro pela 404 Media mostrou como essa capacidade foi apresentada a clientes. A Flock criou uma organização de demonstração chamada “Flock City PD”, uma espécie de departamento de polícia fictício utilizado por funcionários em testes, treinamento e apresentações comerciais. Algumas dessas demonstrações, porém, foram feitas sobre câmeras reais instaladas em cidades americanas.


Logs obtidos em Dunwoody, na Geórgia, e em outras localidades registraram buscas por termos como “crowd”, “person wearing a mask”, “large group with signs”, “vehicle with a political sticker”, “Star of David” e “vehicle with trump bumper sticker”. Eram consultas do recurso FreeForm, no qual uma descrição em linguagem natural é interpretada pelo sistema de reconhecimento de imagens.


A empresa afirmou à 404 Media que várias dessas pesquisas tinham justamente a função de testar e demonstrar as barreiras criadas para impedir usos indevidos. Os próprios logs mostram comportamentos diferentes: certas consultas foram bloqueadas; outras acionaram avisos; algumas foram permitidas. Uma busca por uma pessoa com “Star of David”, por exemplo, foi bloqueada, enquanto a procura pelo símbolo em um veículo gerou um alerta que ainda permitia prosseguir. Termos como “crowd” e “large group with signs” foram aceitos.


Depois da controvérsia, a Flock informou que o ambiente Flock City PD foi isolado e deixou de consultar câmeras reais. A empresa também sustenta que aquelas buscas não eram investigações conduzidas por clientes policiais, mas testes de moderação e demonstrações de produto. Para moradores que descobriram que câmeras instaladas em sua cidade eram usadas nessas apresentações, a explicação não encerrou a discussão: a infraestrutura captava material real de pessoas que não participavam do teste.


A reação chegou aos contratos


A sequência de revelações encontra uma empresa sob pressão crescente. Boston abandonou o uso da Flock depois que um relatório municipal mostrou que, durante um projeto-piloto em 2025, o recurso de consulta nacional ficou habilitado apesar de o contrato prever o contrário. Na Flórida, o governo estadual proibiu policiais locais de utilizar leitores de placas em rodovias estaduais. A ACLU mantém uma campanha nacional contra a expansão desses sistemas e defende regras mais restritivas para retenção, compartilhamento e finalidade das buscas.


A reação também já aparece dentro da Flock. Em agosto, a empresa anunciou uma série de mudanças em sua política de privacidade e segurança. Para novos clientes policiais, reduziu de 30 para sete dias o período padrão recomendado de retenção dos dados e criou um modo específico para preservar evidências ligadas a investigações ativas. Tornou a autenticação multifator obrigatória, ampliou mecanismos de auditoria e anunciou ferramentas para detectar usos anormais. Clientes existentes podem manter períodos aprovados anteriormente, e os contratos do setor privado seguem regras próprias.


Dois dias depois da publicação da investigação sobre a câmera desmontada, a WIRED revelou que a Flock abriu um programa voluntário de desligamento para seus cerca de 1.500 funcionários. Segundo a reportagem, um grupo que acompanha a reação à empresa identificou 93 governos locais encerrando relações com a Flock apenas em agosto; ao longo de 2026, aproximadamente três vezes mais governos teriam abandonado a companhia do que nos cinco anos anteriores somados. A empresa não anunciou uma retirada do mercado. Continua expandindo produtos e afirma que o endurecimento das salvaguardas responde justamente às preocupações levantadas por clientes e comunidades.


Até agora, grande parte do debate em torno da Flock dependia do que autoridades, moradores e a própria empresa diziam que essas câmeras faziam. O material obtido pelo stegan0gram acrescenta outra fonte: o equipamento. Os arquivos mostram dezenas de imagens produzidas numa única passagem, modelos capazes de detectar pessoas, processamento dividido entre o dispositivo e a nuvem e uma máquina relativamente simples conectada a uma plataforma de alcance muito maior.


Nada disso decide se uma cidade deve ou não usar a tecnologia. Essa disputa continua em audiências públicas, tribunais e prefeituras. Mas o aparelho analisado oferece uma descrição técnica mais concreta do que existe por trás da expressão “leitor de placas”. A diferença ficou visível quando uma dessas câmeras saiu do poste e foi examinada por dentro.


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