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O onus do poder absoluto: o dia em que o fascismo tiver de governar

Foto do escritor: codigoabertonet
codigoabertonet
há 11 minutos
12 min de leitura

Se Flávio Bolsonaro vencer apoiado por uma correlação parlamentar amplamente favorável ao campo reacionário, o bolsonarismo deixará de viver da promessa de que faria tudo diferente se tivesse poder suficiente. Terá de responder pelo país que seu projeto for capaz de produzir.


Durante anos, o bolsonarismo transformou limites institucionais, crises e derrotas em prova de que inimigos impediam seu projeto. Uma vitória em 2026 mudaria essa condição. Com a Presidência, a maior bancada da Câmara, presença decisiva no Senado e capacidade real de atrair o Centrão, o campo fascista teria espaço para avançar sobre o Estado em escala inédita. A partir daí, a questão deixaria de ser o que ele promete fazer e passaria a ser o que consegue sustentar quando capital, trabalho, soberania, proteção social e vida cotidiana entram na mesma conta.

A Constituição como voz de Bolsonaro a la Carl Schimitt



Desde a noite de 4 de outubro, uma pergunta não sai das nossas cabeças. Não é apenas o que significa Flávio Bolsonaro ter chegado ao segundo turno com 56,1 milhões de votos e 47,03% dos votos válidos. O problema maior está na estrutura de poder que pode se formar ao redor dessa votação caso ele vença. O PL elegeu 121 deputados e deverá iniciar 2027 com 28 senadores. A disputa presidencial continua aberta e precisa ser travada até o último voto, mas ignorar o que essa correlação representa seria um erro estratégico. Pela primeira vez, o campo fascista brasileiro pode chegar ao Executivo cercado por uma força parlamentar suficientemente grande para tentar converter em programa de governo aquilo que durante anos apresentou como desejo bloqueado.


O bolsonarismo já governou o país, mas conseguiu preservar uma condição psicológica de oposição. Jair Bolsonaro comandou ministérios, orçamento, milhares de cargos e parcelas importantes da máquina pública sem abandonar a narrativa de que forças ocultas ou instituições hostis impediam seu projeto de avançar. Supremo, Congresso, governadores, imprensa, universidades, servidores, movimentos sociais, sistema eleitoral. O personagem mudava conforme a necessidade. A função permanecia. Cada fracasso podia ser apresentado como sabotagem e cada limite servia para alimentar a promessa de que tudo seria diferente se o movimento finalmente recebesse poder suficiente. Governar e permanecer insurgente contra o próprio Estado foi uma das operações políticas mais eficientes do bolsonarismo.


Bolsonaros os que sempre viveram do Estado e se vendem muito habilmente como outsiders.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro reduziria parte desse álibi.


O PL não possui sozinho os votos necessários para alterar a Constituição, afastar autoridades ou impor qualquer decisão que desejar. Só que a política brasileira nunca funcionou pela soma mecânica das bancadas. A Presidência organiza orçamento, cargos, agenda legislativa, alianças regionais e acesso à máquina federal. O Centrão não é uma corrente doutrinária e muito menos centro ideologico. É uma estrutura de poder que historicamente se aproxima de quem governa e dispõe de recursos para construir maioria. Um presidente bolsonarista - que ascende neste 2026 com base em negociatas com rachadinhas, Vorcaro e fascismo evangélico - iniciaria essa negociação apoiado na maior bancada da Câmara, numa presença extraordinária no Senado e em forças reacionárias espalhadas por outras legendas. Não receberia poder juridicamente absoluto. Poderia, porém, reunir condições políticas para empurrar o país muito além dos limites que contiveram Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.


A reforma e emenda da constituição poderia ser uma nova constituinte e ai direitos civilizatórios seriam todos questionados porque contra clausulas pétreas teríamos a voz do Fuher, como fala Carl Schimitt. O guardião da constituição não é mais um supremo corrupto na voz dos eleitores, mas quem? Flavio Bolsonaro I o Probo, o Justo, aquele que acusa o supremo de negociatas com Vorcaro quando embolsa milhões de Vorcaro.


Chamamos esse campo de fascista ou fascismo de massas porque sua trajetória, sua prática e seu projeto justificam a categoria. Não é insulto nem atalho retórico. Estamos falando de uma força que transformou adversários em inimigos internos, naturalizou a violência política, naturalizou feminicídio e crianças rebolando com armas letais. Principalmente o Bolsonarismo fascista atacou o sistema eleitoral, quando o resultado lhe foi desfavorável. E tentou submeter instituições de controle pela força e pelo cooptação de militares entreguistas e não soberanos.

Reduzir esse bloco a uma direita convencional esconderia justamente aquilo que precisa ser compreendido antes que volte ao Planalto em condições muito mais favoráveis.


O primeiro erro da esquerda seria acreditar que um eventual governo Flávio Bolsonaro fracassará simplesmente porque é fascista. Justamente os governos fascistas de massa vem com o aplauso da toda população. E vitorias e glamour. Olhem as olimpiadas da Alemanha Nazista. Um trem de bonança e riqueza em uma europa falida economicamente com a bolha de 1929.

A história não oferece o conforto de que as pessoas não vão aderir a este marketing do grande pai do grande irmão que Bolosonaro e Trump oferecem.


.O fascismo pode governar, entregar resultados, incorporar parcelas das classes populares e construir consentimento enquanto reorganiza a sociedade em favor de uma ordem profundamente desigual. Mussolini destruiu a autonomia sindical e submeteu o trabalho ao Estado corporativo, mas combinou essa submissão com mecanismos de proteção social, assistência e integração. Erdoğan ampliou programas sociais ao mesmo tempo que enfraquecia sindicatos e flexibilizava relações de trabalho. Orbán construiu apoio com benefícios familiares, crédito e proteção seletiva enquanto redesenhava instituições e concentrava poder. Modi combinou transferências, moradia, infraestrutura e serviços digitalizados com nacionalismo hindu e exclusão. Bukele demonstrou algo que a esquerda não pode desprezar. Segurança também é uma necessidade material. Uma família que deixa de viver sob ameaça cotidiana experimenta uma mudança concreta, ainda que essa segurança seja produzida por estado de exceção, prisões em massa e concentração extrema de poder.


A segurança aparente das periferias será construída com toda carne preta e pobre que a maioridade penal de 16 e o encarceramento recorde vai trazer. E tudo isso privatizado, vendido a magnificas empresas do tio Sam.


Petrobras, saúde publica e SUS, bancos públicos, Correios, tudo será privatizado e entregue aos Bezos da vida. A vacinação infantil não será mais gratuita, segundo pediatras nas redes sera 10 mil por criança. E como dos Estados Unidos as pessoas apodrecerão na rua, nos seus carros e nas barracas, celebrando o estado liberal.


É nessa diferença que a questão de classe recupera nitidez. Um trabalhador pode receber transferência e perder capacidade de negociação, conseguir emprego numa relação mais precária, acessar crédito assumindo mais risco individual e viver num bairro mais seguro sob um Estado mais intrusivo. A melhora de uma dimensão da vida não produz automaticamente autonomia política. A incorporação pode ser real e ainda assim subordinada. O trabalhador entra na ordem como beneficiário, consumidor, pequeno empreendedor, fiel, usuário de serviço público ou destinatário de uma política de segurança, mas perde força quando sindicatos, associações e outras formas coletivas de proteção são esvaziados. O fascismo não precisa empobrecer todos os trabalhadores para derrotá-los politicamente. Precisa impedir que ganhos individuais se convertam em poder coletivo.


A precarização pode ser percebida como exploração ou vendida como liberdade de empreender. Uma dificuldade econômica pode ser atribuída a decisões concretas ou deslocada para um inimigo escolhido. O mesmo trabalhador pode viver uma relação objetiva de dependência e se perceber como empresário em ascensão. Guerra psicológica do fascismo evangélico que vivemos no Brasil começa exatamente nesse intervalo entre experiência e interpretação. Ela não cria sentimentos do nada. Organiza medo, esperança, humilhação, pertencimento e ressentimento, oferecendo uma leitura da realidade e apontando quem deve ser amado, temido ou odiado.


O programa apresentado por Flávio Bolsonaro precisa ser lido a partir dessa lógica. Ele reúne privatizações, redução de regulações, reforma administrativa, diminuição do custo do trabalho, prevalência do negociado sobre o legislado e hostilidade explícita ao que chama de República Sindical. Ao mesmo tempo, projeta um Estado mais digital, integrado e capaz de identificar indivíduos, cruzar informações, automatizar decisões e ampliar sua presença na segurança pública. O mesmo projeto que pretende retirar o Estado de determinadas relações econômicas quer fortalecê-lo como infraestrutura de dados, administração, vigilância e coerção. Não há incoerência. Há uma escolha de classe sobre onde o Estado deve recuar e onde deve se tornar mais poderoso.


Essa escolha aparece na vida cotidiana. O capital encontra menos obstáculos, a negociação trabalhista tende a ser individualizada e organizações coletivas perdem capacidade de interferência. O cidadão, por sua vez, se aproxima de um Estado que pretende concentrar serviços, documentos, benefícios e informações numa identidade digital, usar inteligência artificial no atendimento e expandir reconhecimento facial e monitoramento. Para alguns, a fricção diminui. Para outros, cresce. Certas operações econômicas devem acontecer com velocidade. A organização do trabalho, o protesto e os grupos definidos como ameaça encontram identificação, suspeita, controle e coerção.


Há anos, uma das linhas que orientam nossa pesquisa é que a tecnologia não elimina intermediários. Ela substitui alguns por outros menos visíveis e mais concentrados. Quando uma plataforma toma o lugar de uma agência, um algoritmo substitui uma decisão humana ou uma base de dados passa a organizar elegibilidade e prioridade, a mediação permanece. Quando esse processo chega ao Estado, o cidadão pode sentir que finalmente se relaciona de maneira direta com o governo enquanto sua vida passa a ser filtrada por sistemas que definem acesso, risco, benefício e comportamento esperado. A conveniência não elimina o poder. Muitas vezes o torna mais difícil de enxergar.


A experiência indiana ajuda a perceber a mudança. Sistemas digitais de identificação e transferências diretas permitiram ao governo Modi alcançar milhões de pessoas com rapidez e reduzir intermediações tradicionais. Houve eficiência real, mas também uma transformação política. Direitos e benefícios podem ser associados diretamente à figura do governante, e a relação coletiva com o Estado cede espaço ao vínculo individual entre liderança e beneficiário. A mediação política diminui enquanto a mediação técnica cresce.


Nesse ambiente, guerra psicológica deixa de ser apenas instrumento eleitoral. Quem controla a relação informacional entre governo e cidadão ganha capacidade para organizar contexto, prioridade e interpretação. Não precisa convencer a sociedade inteira num único discurso. Pode atuar sobre milhões de pequenas experiências repetidas. A mensagem que chega primeiro, a ameaça que ganha visibilidade, o benefício associado ao presidente, o grupo apresentado como parasita ou inimigo. A disputa começa antes da opinião formada, no campo em que a realidade se torna perceptível.


A infraestrutura digital amplia esse poder. Câmeras, reconhecimento facial, bancos de dados, redes sociais e inteligência artificial permitem transformar classificações políticas em procedimentos administrativos. O inimigo deixa de existir apenas no discurso e pode passar a aparecer nos sistemas que distribuem suspeita, atenção policial e acesso. Nada disso exige que o país acorde numa manhã sob uma ditadura formal. A mudança pode avançar por acúmulo, apresentada a cada etapa como solução técnica para um problema concreto.


Por isso a velha discussão sobre Estado mínimo explica pouco. O projeto é reduzir obrigações sociais e mediações democráticas em determinadas áreas enquanto se amplia a capacidade de executar decisões, organizar informação e disciplinar conflitos. Menos regulação diante do capital pode conviver perfeitamente com mais vigilância, polícia, prisão e poder administrativo. O Estado não desaparece. Muda de função e distribui sua força de maneira desigual.


No Brasil, essa transformação carrega ainda uma contradição de soberania. Grande parte das infraestruturas digitais que organizam comunicação, armazenamento, inteligência artificial e circulação de informação está sob controle de empresas estrangeiras. Um governo pode ampliar enormemente a capacidade tecnológica do aparato estatal enquanto aprofunda a dependência nacional de plataformas, nuvens, modelos e redes que o país não controla. É possível construir um Estado mais eficiente para administrar sua população e um Brasil menos capaz de decidir o próprio destino. Tecnologia, classe e geopolítica se encontram exatamente aí.


Mas nenhuma arquitetura informacional governa sozinha uma sociedade. Algoritmos podem organizar percepção, propaganda pode deslocar responsabilidade e coerção pode elevar o custo da resistência. Nenhum deles produz comida, paga aposentadoria, sustenta hospital ou cria emprego por decreto. Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria de atender o bloco econômico que espera desregulação, privatizações, redução do custo do trabalho e abertura de novos espaços de acumulação, sem romper a base popular que continuará exigindo renda, serviços, segurança, crédito e perspectiva de ascensão. Enquanto essas duas necessidades puderem caminhar juntas, o governo pode conservar força. A tensão começa quando uma exige o sacrifício da outra.


O próximo presidente tampouco receberá uma economia devastada em que qualquer melhora possa ser vendida como reconstrução. A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026 e o rendimento real médio do trabalho alcançou R$ 3.777. Manter emprego e renda é politicamente diferente de prometê-los quando tudo desmoronou. Ao mesmo tempo, a dívida pública federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto e seu custo permanece alto. Cortar despesas, privatizar e reduzir impostos pode satisfazer frações importantes do capital, mas o mesmo governo terá de financiar Previdência, saúde, educação, segurança, transferências e infraestrutura. Não existe engenharia ideológica capaz de abolir essa conta.


A luta de classes reaparece justamente na distribuição do custo. Quando o governo reduz proteção trabalhista e enfraquece organizações coletivas, alguém absorve o risco antes compartilhado. Quando uma família precisa pagar pelo que deixou de encontrar numa política pública, a despesa ressurge em outra parte de sua vida. Quando o trabalhador negocia sozinho diante de uma empresa muito maior, a liberdade contratual esconde uma desigualdade concreta de poder. O governo pode compensar grupos e escolher prioridades. Não pode eliminar o conflito distributivo produzido pela própria estrutura que pretende aprofundar.


Há ainda uma contradição que nenhum nacionalismo de palanque resolve. Entre janeiro e setembro deste ano, a China recebeu 29,75% das exportações brasileiras. Os Estados Unidos ficaram com 9,65%. O bolsonarismo fez da aproximação política com Washington um eixo de sua identidade internacional, mas governar o Brasil exige lidar com uma estrutura econômica na qual a China é decisiva para agronegócio, mineração, balança externa e estabilidade. Subordinar essa relação à disciplina geopolítica dos Estados Unidos produziria custo interno. Preservá-la exigiria reconhecer que o interesse nacional brasileiro não coincide automaticamente com a estratégia de Washington. Soberania é justamente a capacidade de decidir a partir dessa diferença.


A tensão atravessaria o próprio bloco governista. Agronegócio dependente do mercado chinês, capital financeiro, indústria, governadores, forças de segurança e parlamentares não carregam prioridades idênticas. Inimigos comuns podem reunir essas forças na oposição. Governar obriga a decidir diariamente quem ganha, quem perde e quem paga. É nessa passagem da unidade contra alguém para a administração concreta dos interesses que surgem fissuras reais.


Nada disso garante crise política. Regimes autoritários sobrevivem durante anos quando conseguem proteger setores decisivos, distribuir perdas de maneira desigual e convencer parte suficiente da população de que a responsabilidade pertence a outro. A fabricação do inimigo ganha, nesse momento, uma função ainda mais prática. Ela administra culpa. Se o próprio governo concentra instrumentos de decisão, precisa trabalhar cada vez mais para demonstrar que algum poder oculto continua impedindo a prosperidade prometida. Só que a propaganda atua sobre a experiência, não no lugar dela. Medo e identidade podem sustentar lealdades por muito tempo, mas não tornam irrelevantes salário, serviço público, dívida familiar e expectativa de futuro.


O ônus do poder absoluto está nessa passagem. O problema não é saber se o fascismo consegue administrar o Brasil. Consegue administrar, reprimir, distribuir, privatizar, investir e produzir consentimento. O teste é saber por quanto tempo consegue manter juntos os interesses de quem espera lucrar com a reorganização do Estado e as expectativas de quem entregou seu voto esperando melhorar de vida. Se essa equação se romper, a contradição não trabalhará automaticamente a favor da democracia. Pode produzir desilusão, mas também radicalização, medo e mais violência. Esperar o fracasso do fascismo nunca poderá ser uma estratégia.


A resposta democrática precisa começar antes. A democracia é inclusive votar em quem não se gosta mas se sabe um democrata. Defender instituições continuará indispensável, mas será insuficiente se democracia voltar a significar apenas regras formais para milhões de pessoas submetidas à precariedade e à falta de horizonte. Democracia precisa existir na experiência concreta como trabalho digno, moradia, saúde, segurança, mobilidade, educação, tempo e participação nas decisões que organizam a vida. Sem isso, o fascismo continuará encontrando matéria social para transformar abandono em ressentimento e ressentimento em autoridade.


Também será necessário abandonar o desprezo pelo trabalhador que aderiu ao bolsonarismo. Muitos desses eleitores não ignoram simplesmente os próprios interesses. Seus interesses foram interpretados e organizados politicamente por outro campo. O motorista de aplicativo que se percebe como empreendedor, a família que associa proteção ao discurso religioso, o pequeno comerciante que identifica imposto como inimigo e o trabalhador que exige segurança vivem contradições reais. A resposta democrática não pode dizer a essas pessoas que compreenderam a própria vida de forma errada. Precisa construir uma explicação mais poderosa para a experiência que elas efetivamente vivem e, principalmente, oferecer capacidade material de transformá-la.


Isso exige organização. Sindicatos capazes de falar com o trabalho do século XXI, movimentos presentes nos territórios, partidos enraizados fora dos períodos eleitorais, comunicação própria, inteligência estratégica e instituições capazes de organizar trabalhadores dispersos, informais, terceirizados e conectados por plataformas. Reconstruir o comum não significa ressuscitar mecanicamente as formas do século passado. Significa devolver força coletiva a uma sociedade que foi treinada a se relacionar com mercado, Estado e política cada vez mais como uma soma de indivíduos.


A disputa tecnológica faz parte dessa reconstrução. Um país que terceiriza dados, nuvens, inteligência artificial, comunicação e parte crescente de sua capacidade de decisão entrega parcelas de sua soberania. Não existe projeto democrático consistente se o espaço no qual a população percebe o mundo e toma decisões estiver organizado por estruturas privadas submetidas a interesses externos. Soberania no século XXI continua passando por energia, indústria, território e recursos naturais, mas passa também por processamento, modelos, redes e capacidade cognitiva.


É nesse sentido que o socialismo recupera sua questão mais concreta. Não se trata de prometer que o Estado dará mais coisas às pessoas. Trata-se de mudar quem possui capacidade para decidir o que será produzido, como a riqueza será distribuída, quais tecnologias serão desenvolvidas, quem controlará a infraestrutura e quais interesses orientarão o país. Proteção sem poder pode produzir dependência. Democracia duradoura exige sujeitos capazes de interferir sobre as condições de sua própria existência.


Essa é a dimensão do problema que o segundo turno colocou diante do Brasil. Se Flávio Bolsonaro perder, o fascismo não desaparecerá. Cinquenta e seis milhões de votos, uma bancada gigantesca e uma estrutura social capaz de sustentar esse projeto continuarão existindo. Se vencer, a disputa mudará de escala. O campo fascista terá instrumentos muito maiores para realizar aquilo que promete e carregará, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas consequências de suas escolhas. A democracia não pode apostar sua sobrevivência na incapacidade do adversário de suportar esse peso. Precisa reconstruir, desde agora, a força social, política, tecnológica e nacional capaz de impedir que o poder absoluto de alguns seja construído sobre a impotência de todos os outros.


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