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Oito anos de alertas. A cegueira tinha comando

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 1 minuto
10 min de leitura

Enquanto nós olhávamos as ruas, eles organizavam a urna. O primeiro turno de 2026 expôs não apenas a força de uma organização política construída ao longo de oito anos, mas as falhas de leitura, decisão e execução de quem recebeu os sinais e não respondeu à altura.


Durante oito anos, os alertas se acumularam, enquanto a extrema direita transformava redes de confiança em votos, representação parlamentar e poder institucional. Do outro lado, a direção governista chegou a 2026 reconhecendo falhas que já não podia ignorar. O primeiro turno expôs muito mais que um erro eleitoral. Revelou o custo político de confundir informação com inteligência, comunicação com organização e autoridade com capacidade estratégica. Às portas do segundo turno, permanece uma questão incontornável. Quem tinha a responsabilidade de enxergar os sinais, por que não respondeu à altura e o que ainda pode ser corrigido?

O erro tinha nome, data e responsáveis



Em 10 de setembro de 2026, faltando 24 dias para o primeiro turno, Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, reconheceu publicamente um “erro de planejamento”. A produção de material eleitoral havia sido descentralizada para estruturas estaduais que não conseguiram atender à demanda. Sob pressão, a direção voltou a concentrá-la nos grandes centros e anunciou a correção do problema. Na véspera, a imprensa já registrara reclamações sobre a falta de bandeiras, panfletos e adesivos, além da irritação de Lula com vazamentos de reuniões reservadas. A crise não foi descoberta na contagem dos votos. Era conhecida por quem comandava a operação.


O reconhecimento tampouco encerrou as dificuldades. Em 18 de setembro, a direção do PT cobrou dos candidatos proporcionais a inclusão de Lula e dos demais nomes majoritários nos materiais de campanha e ameaçou exigir a devolução de recursos eleitorais em casos de descumprimento. Ainda circulavam peças sem referência às candidaturas da própria aliança, enquanto dirigentes relatavam escassez de material. Numa eleição que escolheria presidente, governadores, dois senadores por estado e parlamentares, articular esses nomes era parte da organização do voto. A questão não era a quantidade de propaganda impressa, mas a dificuldade de converter decisões nacionais em ação coordenada nos territórios.


Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença superior a 2,2 milhões de votos. Três dias depois, diante de parlamentares aliados, o presidente classificou aquela como a campanha menos organizada de que participara desde 1989. Admitiu também sua surpresa por não terminar à frente do adversário, considerando as realizações do governo. Uma declaração tratava da execução eleitoral. A outra mostrava a distância entre aquilo que o Planalto julgava ter entregado à sociedade e a resposta política que esperava receber.


Não existe base para atribuir a escassez de material ou as disputas internas à diferença final de votos. A responsabilidade política não exige essa simplificação. Houve problemas reconhecidos antes da eleição, medidas anunciadas como corretivas e novas reclamações na reta final, até a avaliação pública do próprio candidato. Edinho ocupava a coordenação-geral, mas decisões e recursos circulavam por instâncias partidárias, equipes de comunicação e pelo entorno presidencial. O que precisa ser explicado é como uma estrutura dotada de autoridade e meios de execução deixou persistir falhas que seus dirigentes já haviam identificado.


Oito anos de sinais que não se transformaram em inteligência


Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à Presidência. Quatro anos depois, Lula recuperou o governo por uma diferença de 2,14 milhões de votos, mas o presidente derrotado recebeu 58,2 milhões de votos. A alternância no Planalto não havia desfeito sua base social. Em estudo publicado em 2026, o cientista político Jairo Nicolau mostrou que a geografia eleitoral de 2018 e 2022 permaneceu relativamente estável. O resultado se inverteu sobretudo porque diminuíram as vantagens bolsonaristas nas grandes cidades do Sudeste. A vitória de Lula não significava, portanto, que o campo adversário tivesse perdido sua capacidade de organização.


Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos. A decisão restringiu sua trajetória pessoal nas urnas, não a atuação das estruturas que gravitavam em torno dele. Nas municipais de 2024, o PL conquistou 516 prefeituras, ante 345 em 2020. Prefeitos da mesma legenda não formam necessariamente um bloco ideológico uniforme, nem uma eleição local antecipa a presidencial. O crescimento, porém, indicava a expansão de uma infraestrutura territorial capaz de permanecer ativa sem a candidatura de seu principal líder.


Em maio de 2026, o Datafolha registrava 45% para Lula e 45% para Flávio Bolsonaro numa simulação de segundo turno. Era um retrato daquele momento, não uma previsão de outubro. Mas bastava para impedir que a campanha tratasse uma disputa apertada como hipótese remota. Não dispomos das avaliações internas completas nem sabemos que providências foram tomadas diante de cada pesquisa. O histórico eleitoral, o desempenho municipal do PL e os levantamentos públicos ofereciam, contudo, informação suficiente para planejar cenários adversos muito antes da reta final.


É aí que se mede a qualidade de uma inteligência política. Conhecer um risco não equivale a incorporá-lo às decisões. A questão já não era saber se o bolsonarismo tinha condições de disputar o poder depois da derrota de 2022. Sua permanência fora demonstrada nas urnas e nas organizações locais. Cabia examinar como a direção governista traduziu esse conhecimento em coordenação, presença territorial e capacidade de rever expectativas. O primeiro turno tornou impossível continuar confundindo informação disponível com resposta construída.


O comando e a máquina que não respondiam ao mesmo problema


A coordenação da campanha de Lula foi ampliada em julho e restringida em setembro. Em 22 de julho, diante de atritos internos, o presidente incorporou auxiliares do Planalto para reforçar agenda, comunicação e logística. Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe de gabinete, passou a atuar na agenda ao lado de Gilberto Carvalho; Tiago Cesar dos Santos, então secretário-executivo da Secom, foi deslocado para a campanha. Em setembro, insatisfeito com vazamentos e com a estagnação da avaliação do governo, Lula limitou as discussões centrais a Edinho Silva, Sidônio Palmeira, Guilherme Boulos e, eventualmente, Paulo Okamotto. Mudar o tamanho do comando não resolvia, por si, a relação entre diagnóstico, decisão e execução.


Segundo a Folha de S.Paulo, três núcleos influenciavam a comunicação. Sidônio defendia valorizar o legado do governo. Nicole Briones, responsável pelas redes do PT, preferia uma abordagem mais combativa, enquanto Ricardo Stuckert exercia influência relevante sobre o conteúdo dos canais presidenciais. Divergências estratégicas não constituem defeito em si. Tornam-se um problema quando não há instância capaz de convertê-las em orientação comum, ou quando o acesso ao candidato pesa mais que a circulação de avaliações críticas. Os relatos disponíveis mostram desacordo sobre prioridades e dificuldades de entrosamento, não uma cadeia completa de decisões que autorize responsabilizações indiscriminadas.


A mesma reportagem descreveu um episódio revelador. Lula recebeu empresários no Palácio da Alvorada sem que Gilberto Carvalho, encarregado da agenda, e José de Filippi, tesoureiro da campanha, soubessem do encontro até a noite anterior. Também relatou atritos entre Edinho e Sidônio sobre medidas relacionadas às plataformas de apostas. Não é possível determinar o efeito eleitoral de cada episódio. Eles mostram, porém, como decisões e informações podiam circular fora dos canais destinados a executá-las. O problema de comando deixava de ser uma abstração.


Depois do primeiro turno, a estrutura voltou a mudar. Em 8 de outubro, o UOL noticiou a convocação de Camilo Santana para a coordenação política, Rui Costa para a agenda e Rafael Fonteles para a comunicação. Na véspera, Kátia Abreu, coordenadora no Tocantins, criticara a concentração da área comunicacional e defendera a participação de quadros de outras regiões. A redistribuição de funções poderá corrigir parte das falhas, mas também evidencia que a configuração anterior estava sob contestação. O risco de uma direção excessivamente fechada não é ouvir opiniões divergentes. É impedir que os fatos incômodos modifiquem as decisões a tempo.


A realidade material que a campanha não conseguiu traduzir


Em setembro de 2026, a taxa de desemprego estava em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor patamar para aquele período desde o início da série do IBGE. Na pesquisa referente a agosto, a Confederação Nacional do Comércio registrou 82% das famílias endividadas e 29,9% com contas em atraso. O mercado de trabalho melhorava sem eliminar a pressão sobre os domicílios. Um emprego formal ou uma renda maior podem coexistir com parcelas vencidas, aluguel elevado e crédito caro. Não há contradição estatística entre esses resultados. Há uma experiência material da economia que os números agregados não conseguem descrever sozinhos.


A distância apareceu nas pesquisas. Em julho, saúde era apontada como principal problema do país por 21% dos entrevistados pelo Datafolha; segurança aparecia com 17%, e economia e inflação, com 14%. Entre 29 de setembro e 1º de outubro, 69% disseram sentir insegurança ao pensar no Brasil, 57% manifestaram medo do futuro e 43% foram classificados como pessimistas. Na mesma pesquisa, 41% avaliavam negativamente o governo, contra 35% de avaliação positiva. Nenhum desses indicadores estabelece, sozinho, a direção do voto. Eles mostram que os avanços administrativos não haviam dissolvido a insegurança social.


Entre uma condição de vida e sua interpretação política há famílias, igrejas, amizades, ambientes de trabalho, lideranças locais e redes digitais. O Datafolha registrou que 43% dos entrevistados atribuíam alguma influência a amigos próximos, 39% a perfis acompanhados nas redes e 30% a líderes religiosos. Essas respostas não revelam quem influenciou quem nem provam uma operação coordenada. Ajudam a compreender por que uma percepção econômica pode ganhar sentidos políticos distintos conforme o círculo em que é discutida. A tecnologia acelera a circulação dessas leituras, mas não substitui as relações de confiança que lhes dão credibilidade.


O problema começava quando essa distância era tratada apenas como uma dificuldade de comunicação. Os indicadores de emprego e endividamento descreviam a mesma sociedade, mas não a mesma experiência para todos os trabalhadores. A direção precisava distinguir quem havia conquistado alguma segurança material de quem continuava vivendo sob o peso de juros, serviços precários e renda insuficiente. Pesquisas identificam tendências, e a publicidade lhes dá circulação. Nenhuma substitui a escuta organizada dos conflitos sociais nem a capacidade de rever diagnósticos quando a vida cotidiana contraria o discurso oficial. Sem esse retorno, uma campanha passa a responder à imagem que construiu do país, não necessariamente ao país que encontrará nas urnas.


Enquanto se disputava a Presidência, o poder já mudava de lugar


Na noite de 6 de outubro, Flávio Bolsonaro reuniu-se com a Frente Parlamentar da Agropecuária, que havia formalizado apoio à sua candidatura. O encontro tratou de crédito rural, seguro agrícola, regularização fundiária e infraestrutura. Questionado sobre a escolha do ministro da Agricultura num eventual governo, respondeu que a bancada faria a indicação. Dois dias depois, reportagens já registravam negociações sobre as presidências da Câmara e do Senado, com Rogério Marinho e Pedro Lupion entre os nomes cogitados. Eram articulações, não nomeações. Ainda assim, mostravam representantes de interesses econômicos discutindo espaços de decisão antes mesmo do segundo turno.


O primeiro turno havia alterado as condições desse jogo. O PL elegeu 121 deputados e 19 senadores, alcançando projeção de 28 cadeiras no Senado em 2027. Os novos mandatos se estenderão até 2035. Com 28 integrantes, uma bancada que atue conjuntamente pode reunir as 27 assinaturas necessárias para propor uma emenda constitucional ou requerer uma CPI, atendidas as demais exigências legais. Para aprovar uma emenda são necessários 49 votos no Senado e 308 na Câmara, em dois turnos; para condenar um ministro do Supremo em processo de impeachment, 54 senadores. Iniciativa, negociação e decisão não são poderes equivalentes.


A presença parlamentar também altera a base material da competição política. Pela legislação vigente, 95% do Fundo Partidário são distribuídos proporcionalmente à votação das legendas para a Câmara, observadas as condições de acesso e as regras específicas de cálculo. Votos ajudam a definir recursos para diretórios, equipes e atividades permanentes. A representação amplia ainda a interlocução com governos, empresas e organizações sociais. Nada disso constitui uma maioria automática ou uma aliança imutável. Constitui, porém, uma infraestrutura que pode sobreviver às oscilações da campanha presidencial e pesar nas disputas seguintes.


A dimensão democrática desse movimento não é abstrata. Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e integrantes da trama de tentativa de golpe de Estado. Flávio Bolsonaro, que apresenta sua agenda como uma reforma institucional, defende mudanças constitucionais no Judiciário e prometeu indulto ao pai. São medidas juridicamente distintas, sujeitas a regras e controles próprios, mas sua combinação com a nova correlação de forças no Congresso exige exame rigoroso dos limites entre responsabilização penal, exercício do poder presidencial e independência dos tribunais. Também estão em disputa as condições de trabalho, a exploração dos recursos naturais, a política industrial e a margem de decisão do Brasil nas relações internacionais. O resultado de 25 de outubro definirá a Presidência, não eliminará essas disputas nem dará a qualquer coalizão autorização para ultrapassar a Constituição.


O segundo turno não absolve oito anos de erros


O segundo turno, marcado para 25 de outubro, ocorrerá sob condições distintas das que definiram as bancadas parlamentares. Parte da distribuição de poder já está estabelecida por mandatos que atravessarão os próximos anos, enquanto as alianças da disputa presidencial continuam em negociação. Depois de reconhecer falhas no primeiro turno, Lula anunciou mudanças na coordenação. Flávio Bolsonaro, por sua vez, pediu que parlamentares e governadores eleitos mantivessem ativas as estruturas mobilizadas na primeira votação. Nenhuma dessas providências assegura, por si, o apoio individual dos eleitores. A distância entre decisão de cúpula e comportamento social, que atravessou toda esta investigação, continuará sendo decisiva para compreender o que ocorrer nas urnas.


Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno. Cerca de seis milhões votaram em branco ou anularam o voto. Não sabemos como decidirão em 25 de outubro, nem é legítimo tratar as escolhas feitas por outros candidatos como propriedade transferível por suas lideranças. Comparecimento, decisões individuais e alianças estaduais serão observados dentro de uma composição parlamentar já definida em parte. O segundo turno escolherá o próximo presidente, mas não refará a votação que distribuiu mandatos legislativos até 2031 e 2035.


A integridade do processo também exige vigilância institucional. O NetLab/UFRJ encontrou 568 anúncios políticos veiculados em período proibido nas plataformas da Meta e identificou peças que imitavam comunicações do TSE para divulgar a falsa possibilidade de votar pela internet. Não há prova de que tenham alterado o resultado. Há prova de vulnerabilidade na circulação de informação sobre o próprio procedimento de votar. Quando anúncios enganosos procuram confundir o eleitor, a questão deixa de ser apenas persuasão partidária e passa a envolver a proteção das condições de exercício dos direitos políticos.


O resultado de outubro não extinguirá o dever de explicar os erros conhecidos antes da votação. A responsabilidade não pertence indistintamente a todo o campo democrático, nem pode ser atribuída a um único dirigente sem examinar a autoridade de cada um. Ela acompanha as decisões, os recursos e as funções de quem recebeu avisos e dispunha de meios para agir. Depois de uma tentativa de golpe julgada pelo Supremo, e diante de uma composição parlamentar que influenciará o país até 2035, a defesa da democracia exige transparência também daqueles que afirmam protegê-la. É preciso saber quais alertas chegaram ao comando, quais medidas foram adotadas, como sua execução foi verificada e por que as falhas reapareceram na reta final. Autocrítica sem prestação de contas não é correção de rumo. Não é a surpresa que exige explicação. É o fato de ela ter sobrevivido a oito anos de avisos.


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