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O voto que pode custar o mercado do agro brasileiro: se Lula cair, vocês caem junto

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 12 minutos
8 min de leitura

O apoio do agro a Flávio Bolsonaro expõe uma contradição difícil de esconder. O setor se aproxima de um projeto alinhado aos Estados Unidos enquanto disputa com os americanos alguns dos mercados mais importantes do mundo.


Da soja ao etanol, dos minerais críticos ao Pix, da China às tarifas comerciais, documentos oficiais e movimentos recentes revelam uma disputa por mercados, ativos, tecnologia e poder de decisão. A questão central não é afinidade ideológica. É compreender o que acontece com a posição econômica do Brasil quando escolhas políticas internas se cruzam com os interesses de uma potência que também compete diretamente com setores decisivos da economia brasileira.

Quando a ideologia chega à planilha



Há alguns meses publiquei um texto chamado “Se Lula cair, vocês caem junto”. O argumento era simples. Num mundo reorganizado pela disputa entre Estados Unidos e China, afinidade política não revoga interesse econômico. Potências defendem seus produtores, suas empresas, sua tecnologia e seu poder. Não era uma profecia. Era uma conta. A julgar pelo entusiasmo com que parte do agro recebeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, talvez valha conferir os números mais uma vez.


Em 1º de outubro, a diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária declarou apoio oficial a Flávio. Quatro dias depois, Ronaldo Caiado anunciou que faria o mesmo no segundo turno. Nada há de estranho em empresários, produtores ou suas representações políticas apoiarem quem consideram mais próximo de seus interesses. A curiosidade começa quando se pergunta se todos os interesses entraram na planilha.


E planilha é justamente uma coisa que o agro sabe fazer. O produtor calcula fertilizante, diesel, frete, câmbio, produtividade, juros, seguro, armazenagem e preço futuro. Alguns centavos por tonelada têm a desagradável propriedade de continuar sendo dinheiro quando multiplicados por uma safra inteira. É uma atividade pouco tolerante a romantismo contábil. Por isso chama atenção a facilidade com que uma parte do setor parece abandonar a calculadora quando a conta chega à geopolítica.


No primeiro trimestre de 2026, a China comprou US$ 11,33 bilhões do agronegócio brasileiro e respondeu por 29,8% das exportações do setor. Os Estados Unidos compraram US$ 2,24 bilhões, equivalentes a 5,9%. No mesmo período, as vendas do agro brasileiro ao mercado americano caíram 31,2%. Esses números não fazem de Pequim amiga do Brasil nem de Washington inimiga. Apenas lembram que países compram, vendem, protegem mercados e defendem interesses. É menos emocionante que uma fotografia de campanha, mas costuma pagar melhor.


O produtor de Iowa também fez a conta


O agricultor americano não interrompe a colheita para verificar a afinidade ideológica do concorrente de Mato Grosso. Ele olha preço, produtividade, mercado e governo. O Departamento de Agricultura dos próprios Estados Unidos descreve o Brasil como concorrente em soja, milho, algodão, carnes, açúcar, café, suco de laranja e etanol. Na soja, o Brasil tomou a liderança americana e hoje responde por parcela próxima de 60% das exportações mundiais. No milho, chegou a superar os Estados Unidos como maior exportador em 2023. No algodão, os dois países disputam a ponta do comércio internacional.


Essa mudança não ocorreu num seminário sobre multipolaridade. Ocorreu em portos, contratos e toneladas. Há vinte anos, os Estados Unidos respondiam por cerca de 40% das exportações mundiais de soja e 68% das de milho. Em 2024, essas participações haviam caído para aproximadamente 26% e 30%. Seria preciso uma confiança extraordinária na fraternidade entre povos para imaginar que Washington observou duas décadas de perda de mercado e decidiu não fazer nada a respeito.


Trump fez exatamente o contrário. A Casa Branca negociou com Pequim compromissos de compra de pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos. O acesso da carne bovina americana ao mercado chinês também entrou no pacote. Washington apresentou o acordo como vitória de seus agricultores. Naturalmente. America First ainda não ganhou uma tradução em que Goiás venha antes de Iowa.


A guerra comercial anterior já havia mostrado o outro lado da equação. Pesquisa publicada em 2026 na revista The World Economy estimou que a retaliação chinesa contra produtos americanos elevou em 28,4% o valor e em 21,2% a quantidade das exportações brasileiras beneficiadas pelo desvio de comércio. Quando o produto americano perdeu espaço na China, o brasileiro ocupou parte dele. Quando Washington negocia para recuperar mercado, tenta recuperar exatamente aquilo que perdeu. Não há vilão nessa história. Há concorrente.


Nem Pequim merece tratamento sentimental. Em 2026, a China limitou importações de carne bovina e passou a aplicar tarifa adicional sobre volumes brasileiros acima da cota. Quando seus interesses domésticos exigiram proteção, a parceria estratégica esperou do lado de fora. Isso é útil porque limpa a discussão de qualquer romantismo. O Brasil ganha quando compradores competem pelo que produz e perde quando transforma um deles em patrono.


Washington chegou com a lista pronta


A discussão deixaria espaço para abstrações se o governo americano não tivesse colocado no papel as políticas brasileiras que pretende alterar. A investigação da Seção 301 tratou de comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Em julho, Washington aplicou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. O próprio USTR explicou que sua ação buscava defender agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos. Não chega a ser uma mensagem cifrada.


O momento mais revelador veio em 7 de julho, quando Flávio Bolsonaro participou da audiência pública do USTR. Ele informou que havia se reunido no mês anterior com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio para discutir as tarifas. Uma representante americana então perguntou que medidas, além das tarifas, poderiam levar o Brasil a eliminar as políticas contestadas no processo. Flávio respondeu que as tarifas não eram o caminho adequado, mencionou a possibilidade de mudança de governo em janeiro e sugeriu que Washington considerasse esperar ou suspender a decisão.


É importante não inventar aquilo que o documento não diz. Flávio não prometeu naquela resposta acabar com o Pix, desmontar o RenovaBio ou conceder cada item da lista americana. A transcrição permite uma afirmação mais precisa e, por isso mesmo, mais séria. Diante de uma pergunta sobre como obter mudanças em políticas brasileiras, a possibilidade de um novo governo apareceu na resposta do candidato. Poucas investigações recebem da realidade a gentileza de entregar pergunta, resposta e contexto no mesmo documento.


O Pix ajuda a perceber o alcance dessa agenda. Empresas e associações americanas questionaram características do sistema brasileiro de pagamentos, inclusive o papel do Banco Central e as condições de concorrência. Flávio defendeu a preservação do Pix, mas também propôs mantê-lo afastado de certas redes de pagamentos não ocidentais. O debate, portanto, não é apenas sobre soja ou tarifa. Chega à infraestrutura por onde circulam dinheiro, dados e poder econômico. O agricultor acompanha Chicago, o banco acompanha juros, a mineradora acompanha o minério. Washington tem a inconveniente vantagem de olhar tudo ao mesmo tempo.


A experiência brasileira já deveria servir de vacina contra a ideia de que proximidade política suspende interesse comercial. Em março de 2019, Jair Bolsonaro chegou a Washington oferecendo isenção unilateral de vistos, facilidades em Alcântara e uma cota anual de 750 mil toneladas de trigo com tarifa zero. A comitiva voltou frustrada com a falta de avanços em carne e açúcar, e o apoio americano à entrada do Brasil na OCDE veio condicionado a uma concessão na OMC. Meses depois, Trump ameaçou restaurar tarifas sobre aço e alumínio brasileiros e justificou a medida dizendo que a política cambial do Brasil prejudicava agricultores americanos. A amizade continuava ótima. A conta também.


Goiás já entrou na planilha de Washington


Se a geopolítica ainda parecer distante da porteira, Goiás resolve o problema. O estado governado por Caiado está no centro da corrida por minerais críticos que abastecem motores elétricos, turbinas, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Em março, o governo goiano assinou um memorando de cooperação com os Estados Unidos para pesquisa, processamento, manufatura e atração de investimentos. O documento admite, em determinadas condições, acesso exclusivo temporário de entidades indicadas pelos americanos a informações produzidas por levantamentos geológicos apoiados pelos Estados Unidos. Quem conhece antes o recurso, sua localização e seu potencial não recebeu apenas uma curiosidade científica.


A Serra Verde mostra a escala do movimento. A operação de Minaçu produz em escala os quatro elementos magnéticos de terras raras mais importantes para ímãs permanentes. Em 2026, a americana USA Rare Earth acertou sua aquisição numa operação de aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde recebeu financiamento de até US$ 565 milhões da DFC e firmou um acordo de quinze anos para destinar 100% da produção da primeira fase a uma estrutura capitalizada por organismos do governo americano e capital privado, com pisos de preço para os quatro elementos magnéticos.


É preciso reconhecer o mérito. Washington identifica o recurso, financia a expansão, organiza a compra de longo prazo e integra o ativo a uma cadeia concebida para reduzir a dependência ocidental da China. Não é conspiração. É política industrial. Das boas, inclusive. O problema aparece quando o Brasil participa da história apenas com o buraco no chão.


Investimento estrangeiro não é pecado econômico. País que precisa de capital e tecnologia e decide rejeitar ambos pode terminar soberano apenas sobre o próprio atraso. A questão relevante é onde ficam conhecimento, beneficiamento, tecnologia, poder de decisão e margem industrial depois que o minério sai de Goiás. A nova política federal de minerais críticos tenta justamente criar triagem para mudanças de controle estrangeiro, acesso a informação geológica estratégica e operações sensíveis, além de estimular agregação de valor no país. O ponto não é impedir negócio. É evitar que negócio e estratégia sejam tratados como a mesma coisa.


A estratégia está escrita


Há uma razão para soja, Pix e terras raras aparecerem na mesma história. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 afirma que Washington pretende fortalecer cadeias críticas no Hemisfério Ocidental, reduzir dependências, tornar-se parceiro preferencial dos países da região e dificultar o avanço de concorrentes extrarregionais. O documento fala em identificar pontos e recursos estratégicos, mobilizar instrumentos do governo americano e desencorajar certas colaborações com outros parceiros. É uma política legítima para uma potência que sabe o que quer.


O problema brasileiro não está em Washington perseguir seus objetivos. Está em Brasília, Goiânia ou qualquer outro lugar imaginar que esses objetivos sejam automaticamente os nossos. A economia brasileira cresceu em poder externo justamente porque passou a operar entre vários centros, vendendo à China, negociando com os Estados Unidos, buscando Europa, Oriente Médio e Ásia e usando a competição entre compradores e investidores para ampliar sua própria margem. A posição mais racional não é escolher um protetor. É impedir que qualquer potência possa cobrar o preço de ser indispensável.


É por isso que o apoio de Caiado e da FPA a Flávio Bolsonaro merece uma leitura mais séria do que a fotografia eleitoral. Um projeto de aproximação maior com Washington pode produzir ganhos em algumas áreas e custos em outras. A pergunta estratégica é quem fará a conta quando o interesse do agricultor de Iowa colidir com o do produtor de Mato Grosso, quando uma empresa estrangeira quiser controlar um ativo crítico ou quando o governo americano pedir mudanças em regras brasileiras que beneficiem suas próprias empresas. Nessas horas, amizade ajuda a marcar reunião. Não decide o preço.

A calculadora também funciona na geopolítica


O agro brasileiro construiu uma das atividades mais competitivas do mundo porque aprendeu a fazer conta sem sentimentalismo. Incorporou tecnologia, assumiu risco, ampliou produtividade, encontrou mercados e aproveitou uma transformação internacional que deslocou parte do comércio agrícola dos Estados Unidos para o Brasil. Seria uma ironia peculiar chegar ao momento de maior disputa por esse espaço e decidir que geopolítica é a única área em que números podem ser substituídos por afinidade.


Nada disso exige escolher a China contra os Estados Unidos. Essa seria apenas outra forma de dependência, com bandeira diferente. O interesse brasileiro está em vender para quem comprar, negociar com quem oferecer melhores condições, receber investimento sem abrir mão de capacidade de decisão e conservar concorrência suficiente para que nenhum parceiro transforme acesso ao mercado brasileiro em direito adquirido sobre a política brasileira.


O primeiro texto terminava com um aviso. Este termina com uma conta mais completa. O governo americano já declarou os setores que pretende proteger, negociou a recuperação de mercado agrícola na China, abriu contencioso contra políticas brasileiras, incorporou minerais críticos à sua estratégia hemisférica e financiou uma cadeia de terras raras em Goiás. Flávio Bolsonaro já esteve diante do USTR discutindo esse conflito. Caiado e a principal frente parlamentar do agro decidiram apoiá-lo. Todos esses fatos podem coexistir sem teoria conspiratória alguma.


A questão é apenas se quem sabe calcular uma safra inteira está disposto a calcular também o preço de uma escolha estratégica.


Porque o mercado costuma perdoar menos que a política.


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