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Por dentro da nova estratégia de defesa do Brasil

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 16 minutos
  • 12 min de leitura

Entre drones autônomos, ciberdefesa, radares nacionais e indústria militar, o país começa a construir as bases tecnológicas de sua soberania em um mundo cada vez mais instável.


Num cenário global marcado por disputas geopolíticas, guerra informacional e corrida tecnológica, o Brasil discretamente reforça sua capacidade de defesa e investe em tecnologias estratégicas. Mas enquanto surgem novos projetos nacionais em inteligência artificial, drones, satélites e cibersegurança, permanece a pergunta central do século XXI: será possível construir soberania tecnológica em um sistema global dominado por poucas potências?

O RUÍDO NO CÉU



Em Anápolis, no coração do Brasil, o som de um caça atravessando o céu pode parecer rotina militar. Mas, em fevereiro de 2026, aquele ruído passou a carregar outro significado. Foi ali, na Base Aérea de Anápolis, que a Força Aérea Brasileira colocou em regime permanente de alerta o F-39 Gripen, o caça mais avançado já operado pelo país.


A decisão marcou um momento simbólico. Não se tratava apenas da chegada de uma nova aeronave. O Gripen representa uma geração de guerra aérea construída em torno de sensores digitais, radares de varredura eletrônica, compartilhamento de dados em rede e integração com sistemas de vigilância territorial. Em outras palavras, ele faz parte de um sistema muito maior que inclui radares, satélites, enlaces de comunicação e centros de comando.


Quando um Estado coloca esse tipo de plataforma em prontidão permanente, ele está enviando um sinal estratégico: o ambiente internacional mudou.


Durante décadas, o Brasil viveu em uma das regiões mais pacíficas do planeta. A América do Sul permaneceu relativamente distante das grandes tensões militares que marcaram outras partes do mundo. Esse contexto permitiu que o país tratasse a defesa nacional como uma questão de baixa prioridade política.


Esse cenário começou a se transformar nos últimos anos. A disputa tecnológica entre grandes potências, a crescente importância estratégica da Amazônia e do Atlântico Sul e a centralidade da informação digital na economia global recolocaram a soberania no centro do debate internacional.


Nesse novo ambiente, a defesa nacional deixou de ser apenas uma questão de tropas e equipamentos. Ela passou a depender da capacidade de produzir tecnologia, controlar infraestrutura informacional e desenvolver sistemas industriais estratégicos.


O ruído de um caça sobre o Planalto Central é apenas a parte visível dessa transformação.


Por trás dele está algo mais profundo: a lenta reconstrução de uma arquitetura de defesa que conecta ciência, indústria, tecnologia e poder de Estado. É um processo que começou a tomar forma no Brasil ainda no início do século XXI, foi interrompido por uma grave ruptura política e institucional na década passada e agora volta a ganhar impulso.


Compreender essa trajetória é fundamental para entender a nova estratégia de defesa brasileira.

QUANDO A SOBERANIA VOLTOU A SER PROBLEMA



Durante boa parte dos anos 1990 e 2000, consolidou-se no Brasil a ideia de que soberania era sobretudo um princípio diplomático. O país vivia em uma região relativamente estável, sem conflitos militares relevantes entre Estados, e a globalização parecia reduzir a importância das disputas clássicas de poder. Comércio internacional, integração financeira e cadeias produtivas globais davam a impressão de que o sistema internacional havia entrado em uma fase mais previsível.


Essa percepção começou a mudar abruptamente na segunda década do século XXI.


Um dos episódios mais reveladores ocorreu em 2013, quando documentos vazados pelo analista Edward Snowden expuseram o funcionamento do sistema global de vigilância da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Entre os alvos espionados estavam comunicações da Petrobras, além de autoridades brasileiras, incluindo a própria presidência da República. A revelação produziu um choque político em Brasília. Pela primeira vez, tornou-se evidente que infraestrutura digital, telecomunicações e sistemas de dados eram também instrumentos de poder geopolítico.


O episódio demonstrou algo que hoje parece evidente: quem controla tecnologia controla informação. E quem controla informação possui enorme vantagem estratégica.


Nos anos seguintes, essa realidade se tornaria ainda mais visível com a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Em 2019, o governo americano proibiu empresas de seu país de fornecer componentes estratégicos para a Huawei, gigante chinesa das telecomunicações. A decisão não foi apenas comercial. Ela mostrou como cadeias tecnológicas globais podem ser usadas como ferramentas de pressão geopolítica.


O mesmo ocorre na indústria de semicondutores. Chips avançados, essenciais para smartphones, inteligência artificial, radares, satélites e sistemas militares, são produzidos por um número extremamente pequeno de empresas. Taiwan, Coreia do Sul e Estados Unidos concentram a maior parte dessa produção. O controle dessa cadeia tornou-se uma das principais disputas estratégicas do século XXI.


Essas transformações alteraram profundamente o significado de segurança nacional. No mundo contemporâneo, proteger um país envolve também garantir acesso a infraestrutura tecnológica crítica. Satélites de comunicação, centros de processamento de dados, sistemas de navegação e redes digitais tornaram-se parte da arquitetura estratégica dos Estados.


Ataques cibernéticos demonstraram essa vulnerabilidade de forma dramática. Em 2021, um grupo de hackers conseguiu interromper o funcionamento do Colonial Pipeline, nos Estados Unidos, paralisando temporariamente o abastecimento de combustíveis em grande parte da costa leste do país. O episódio revelou que infraestrutura digital pode se tornar alvo estratégico com impactos econômicos e políticos imediatos.


Para um país com dimensões continentais, abundância de recursos naturais e uma das maiores populações conectadas do planeta, como o Brasil, essa nova realidade não pode ser ignorada. A soberania deixou de ser apenas um conceito jurídico ou diplomático. Ela voltou a aparecer como um problema material.


Em outras palavras, o poder de um Estado no século XXI depende cada vez mais da sua capacidade tecnológica.


É justamente nesse ponto que começa a se desenhar a estratégia brasileira de defesa.

O PROJETO BRASILEIRO DE SOBERANIA



Foi diante dessa transformação do sistema internacional que o Brasil começou, no início do século XXI, a estruturar uma visão mais ambiciosa de soberania. Durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, consolidou-se a percepção de que autonomia política e capacidade tecnológica são inseparáveis. A defesa nacional deixou de ser tratada apenas como questão militar e passou a ser articulada com política industrial, ciência e inovação.


O marco institucional dessa mudança foi a Estratégia Nacional de Defesa, lançada em 2008. O documento estabeleceu um princípio claro: um país com as dimensões territoriais do Brasil não pode depender integralmente de tecnologia estrangeira para proteger seu território e seus recursos estratégicos. A estratégia definiu três eixos centrais para reorganizar a defesa brasileira: fortalecer a indústria nacional, desenvolver tecnologias estratégicas e modernizar as forças armadas com transferência de conhecimento.


A partir dessa diretriz, começaram a tomar forma alguns dos programas mais ambiciosos da história recente da defesa brasileira.


Um deles foi o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), resultado de uma parceria entre o Brasil e a França. O projeto previa a construção de submarinos convencionais e o desenvolvimento do primeiro submarino nuclear brasileiro. Mais do que um equipamento militar, o programa representava um salto tecnológico envolvendo engenharia naval, domínio do ciclo do combustível nuclear e formação de centenas de engenheiros especializados.


Outro projeto estruturante foi a modernização da aviação de combate brasileira, que culminaria na escolha do Gripen E/F como novo caça da Força Aérea Brasileira. Diferentemente de aquisições militares tradicionais, o acordo incluiu participação direta de engenheiros brasileiros no desenvolvimento da aeronave e integração de empresas nacionais à cadeia produtiva do programa.


Paralelamente, o país começou a construir sistemas próprios de vigilância territorial. O SISFRON, coordenado pelo Exército, foi concebido para monitorar milhares de quilômetros de fronteiras terrestres por meio de radares, sensores eletrônicos e redes digitais de comunicação. No domínio marítimo, a Marinha iniciou o desenvolvimento do SisGAAz, voltado para acompanhar atividades na chamada Amazônia Azul, área oceânica sob jurisdição brasileira que concentra rotas comerciais e reservas energéticas estratégicas.


Esses projetos não eram iniciativas isoladas. Eles faziam parte de um esforço mais amplo para reconstruir a base científica e industrial do país. Durante o mesmo período, o Brasil expandiu universidades federais, fortaleceu instituições de pesquisa e estimulou políticas industriais voltadas para setores estratégicos, como defesa, energia e tecnologia da informação.


A lógica era clara: soberania não se constrói apenas com discurso diplomático. Ela exige capacidade científica, indústria avançada e domínio tecnológico.


Por alguns anos, esse projeto começou a transformar a relação entre Estado, ciência e indústria no Brasil. O país parecia caminhar na direção de uma autonomia tecnológica gradual, capaz de sustentar uma presença internacional mais independente.


Mas essa trajetória seria interrompida de forma abrupta na década seguinte.

A RUPTURA: LAVA JATO E A DESTRUIÇÃO INDUSTRIAL



O projeto de soberania tecnológica que começou a se estruturar nos anos 2000 sofreu uma ruptura profunda a partir da metade da década de 2010. A Operação Lava Jato, apresentada inicialmente como uma grande investigação anticorrupção, acabou produzindo um efeito devastador sobre setores estratégicos da economia brasileira, justamente aqueles que sustentavam parte da base industrial ligada à infraestrutura, energia e defesa.


O impacto foi imediato na engenharia pesada e na indústria naval. Grandes empresas brasileiras de construção e engenharia, responsáveis por obras de infraestrutura, plataformas de petróleo, estaleiros e projetos industriais complexos, foram paralisadas ou entraram em colapso financeiro. Estaleiros que haviam sido reativados durante o ciclo de expansão da indústria do pré-sal fecharam as portas. Cadeias produtivas inteiras foram desmontadas.


Esse processo atingiu diretamente programas estratégicos do Estado. A indústria naval brasileira, que havia voltado a crescer impulsionada por encomendas da Petrobras e por projetos militares como o Programa de Submarinos da Marinha, sofreu uma contração abrupta. Empresas envolvidas em projetos de engenharia complexa perderam capacidade operacional ou foram levadas à falência.


Anos depois, decisões do Supremo Tribunal Federal reconheceriam irregularidades graves na condução da operação. Mensagens reveladas posteriormente indicaram cooperação informal entre procuradores da Lava Jato e autoridades estrangeiras, além de práticas processuais que violaram princípios básicos do sistema jurídico brasileiro. O próprio ex-presidente Lula teve suas condenações anuladas pelo STF, que reconheceu parcialidade do então juiz responsável pelos processos.


Independentemente das disputas jurídicas, o efeito econômico foi evidente. A destruição de empresas estratégicas enfraqueceu a capacidade industrial do país em setores de alta complexidade tecnológica. Engenharia pesada, indústria naval, construção de grandes equipamentos e projetos industriais avançados sofreram perdas que levariam anos para serem parcialmente reconstruídas.


Para programas de defesa, que dependem de continuidade industrial e planejamento de longo prazo, essa ruptura foi especialmente grave. Projetos tecnológicos exigem cadeias produtivas estáveis, empresas capazes de executar contratos complexos e capacidade acumulada de engenharia. Quando essa base industrial se desestrutura, o impacto se estende muito além de uma crise empresarial.


Foi exatamente isso que ocorreu no Brasil. Parte da infraestrutura industrial que sustentava o projeto de autonomia tecnológica iniciado nos anos anteriores simplesmente deixou de existir.


O país entrou, naquele momento, em uma fase de desorganização estratégica. Enquanto outras potências ampliavam investimentos em inteligência artificial, semicondutores, satélites e sistemas militares avançados, o Brasil via parte de sua base industrial ser desmontada.


A consequência foi uma década marcada por atraso tecnológico, paralisação de projetos estratégicos e perda de capacidade industrial.


Mas essa trajetória começaria a mudar novamente a partir de 2023.

RECONSTRUÇÃO: O RETORNO DO PROJETO SOBERANO



A partir de 2023, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, o Estado brasileiro começou a reconstruir parte da arquitetura estratégica que havia sido desmontada ao longo da década anterior. O movimento não foi apresentado como uma ruptura espetacular, mas como uma retomada gradual de políticas industriais, científicas e tecnológicas voltadas para recuperar a capacidade do país de produzir conhecimento e tecnologia em setores críticos.


Um dos primeiros sinais dessa mudança foi a reativação da política industrial brasileira. Programas de estímulo à inovação, financiamento para setores estratégicos e investimentos em ciência passaram novamente a integrar a agenda econômica do governo. A ideia central era recuperar algo que havia sido enfraquecido durante anos: a articulação entre Estado, universidades e indústria.


Na área de defesa, essa reconstrução se manifesta em vários níveis. Projetos estratégicos que haviam sido desacelerados voltaram a receber prioridade. O programa de submarinos da Marinha segue avançando no complexo naval de Itaguaí, enquanto a Força Aérea Brasileira consolida a incorporação do Gripen e amplia a participação da indústria nacional em sua cadeia tecnológica.


Paralelamente, centros de pesquisa voltaram a ocupar papel central no desenvolvimento de tecnologias estratégicas. Instituições como o Instituto Militar de Engenharia, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o Instituto de Pesquisas da Marinha e universidades federais passaram a integrar novamente projetos ligados a inteligência artificial, sistemas autônomos, sensores avançados e engenharia aeroespacial.


Um exemplo concreto desse movimento é o desenvolvimento brasileiro de enxames de drones autônomos, conduzido por pesquisadores do Instituto Militar de Engenharia com colaboração de instituições como a Universidade Federal de Pernambuco, o Laboratório Nacional de Computação Científica e o Instituto de Matemática Pura e Aplicada. O projeto busca criar sistemas capazes de coordenar múltiplos drones que operam de forma cooperativa, compartilhando dados e executando missões de monitoramento territorial.


Esse tipo de tecnologia está no centro das transformações militares contemporâneas. Conflitos recentes demonstraram que drones e sistemas autônomos podem alterar profundamente operações de reconhecimento, vigilância e defesa de fronteiras. Ao desenvolver essas capacidades internamente, o Brasil reduz dependência tecnológica e amplia sua margem de autonomia estratégica.


Outro eixo dessa reconstrução envolve o fortalecimento da infraestrutura científica. Investimentos em centros de supercomputação, programas espaciais e sistemas de monitoramento territorial indicam uma tentativa de ampliar a capacidade nacional de processar grandes volumes de dados estratégicos. Em um mundo no qual informação se tornou recurso de poder, essa capacidade é decisiva.


O retorno dessa agenda soberana também se conecta com a política externa brasileira. O governo Lula voltou a defender uma posição de maior autonomia internacional, fortalecendo alianças com países do Sul Global e ampliando parcerias tecnológicas que permitam reduzir dependências estruturais.


Esse processo ainda enfrenta desafios consideráveis. Cadeias industriais foram quebradas, empresas desapareceram e parte da capacidade tecnológica do país se dispersou ao longo da última década. Reconstruir essa base exige tempo, investimento e continuidade institucional.


Mas a direção estratégica voltou a aparecer com clareza: ciência, indústria e tecnologia são elementos centrais da soberania nacional.


E é nesse ponto que a defesa brasileira volta a se conectar com um projeto mais amplo de desenvolvimento.

TECNOLOGIA E DEFESA NO SÉCULO XXI



A reconstrução da base tecnológica brasileira ocorre em um momento em que a própria natureza da guerra está mudando rapidamente. Se no século XX o poder militar estava associado principalmente a grandes plataformas físicas, como tanques, navios e aeronaves, o século XXI passou a integrar essas estruturas com sistemas digitais, inteligência artificial, sensores avançados e redes de informação em tempo real.


Essa transformação já é visível em conflitos recentes. A guerra na Ucrânia mostrou como drones, satélites comerciais e sistemas de monitoramento digital passaram a desempenhar papel central em operações militares. Pequenas aeronaves não tripuladas são utilizadas tanto para reconhecimento quanto para ataques de precisão, enquanto imagens de satélite e análise de dados permitem monitorar movimentos de tropas e infraestrutura estratégica com uma velocidade inédita.


Para países que buscam preservar autonomia estratégica, acompanhar essa transformação tecnológica tornou-se uma necessidade. No Brasil, parte dessa adaptação aparece no desenvolvimento de sistemas de vigilância territorial e na ampliação da infraestrutura de defesa digital.


Projetos como o SISFRON e o SisGAAz exemplificam essa mudança. O primeiro integra sensores, radares e redes de comunicação para monitorar fronteiras terrestres em regiões de difícil acesso. O segundo combina satélites, radares costeiros e sistemas embarcados para acompanhar atividades marítimas em uma área oceânica gigantesca que inclui rotas comerciais e campos petrolíferos do pré-sal.


No campo aéreo, radares nacionais desenvolvidos por centros tecnológicos do Exército ampliam a capacidade de vigilância do espaço aéreo brasileiro. Esses sistemas funcionam como olhos eletrônicos distribuídos pelo território, capazes de detectar aeronaves e transmitir dados em tempo real para centros de comando. Integrados a caças como o Gripen, eles compõem uma rede que permite responder com maior rapidez a possíveis ameaças.


Outro eixo decisivo é a ciberdefesa. À medida que sistemas militares e infraestrutura crítica se tornam cada vez mais dependentes de redes digitais, proteger esses sistemas contra ataques cibernéticos passa a ser uma tarefa essencial para qualquer Estado. O Brasil estruturou o Comando de Defesa Cibernética, responsável por monitorar redes estratégicas e desenvolver protocolos de proteção para sistemas militares e governamentais.


Além disso, o avanço da inteligência artificial abre novas possibilidades para análise de dados estratégicos. Algoritmos capazes de processar grandes volumes de informação podem ajudar a identificar padrões em dados de vigilância, imagens de satélite ou tráfego digital. Em ambientes operacionais complexos, essa capacidade de análise rápida pode fazer diferença significativa na tomada de decisões.


Essa integração entre sensores, sistemas digitais e inteligência artificial transforma profundamente a forma como Estados pensam segurança nacional. Defesa deixa de ser apenas mobilização de forças e passa a envolver capacidade de produzir tecnologia, desenvolver software e controlar fluxos de informação.


Nesse novo cenário, a linha que separa ciência, indústria e defesa torna-se cada vez mais tênue. Universidades, centros de pesquisa e empresas tecnológicas passam a desempenhar papel tão importante quanto bases militares ou arsenais tradicionais.


É exatamente nesse terreno que se desenha hoje a estratégia brasileira: garantir que o país não fique apenas como consumidor de tecnologias produzidas por outras potências, mas consiga participar da sua própria arquitetura tecnológica de defesa.

A NOVA QUESTÃO BRASILEIRA



A transformação da defesa brasileira não pode ser compreendida apenas como modernização militar. Ela reflete uma mudança mais profunda na forma como o país passa a enxergar seu lugar no sistema internacional. Durante décadas, a ideia de soberania foi tratada no debate público como um conceito jurídico ou diplomático. No século XXI, ela voltou a aparecer como uma questão concreta de poder material.


Essa mudança se tornou evidente à medida que tecnologia passou a ocupar posição central nas disputas globais. Semicondutores, inteligência artificial, satélites, infraestrutura digital e sistemas de comunicação tornaram-se recursos estratégicos comparáveis ao petróleo ou às rotas marítimas do passado. Países que dominam essas tecnologias ampliam sua capacidade de decisão política. Aqueles que dependem integralmente delas acabam operando dentro de limites definidos por outros.


Para um país como o Brasil, essa realidade possui implicações diretas. O território continental, a abundância de recursos naturais e a posição estratégica no Atlântico Sul tornam inevitável a necessidade de proteger infraestruturas críticas e preservar autonomia decisória. A Amazônia, o pré-sal, as rotas marítimas e as redes digitais que conectam o país ao mundo são ativos estratégicos que exigem capacidade tecnológica para serem monitorados e defendidos.


É por isso que a nova estratégia de defesa brasileira precisa ser compreendida como parte de um projeto mais amplo de reconstrução nacional. Caças, radares, drones, satélites e sistemas de cibersegurança são apenas elementos visíveis de uma arquitetura que envolve universidades, centros de pesquisa, indústria e capacidade de planejamento estatal.


A retomada desse projeto nos últimos anos, sob a liderança do governo Lula e com a reconstrução de políticas industriais e científicas, indica que parte do Estado brasileiro voltou a reconhecer o papel da tecnologia na preservação da soberania. Depois de uma década marcada por desorganização institucional e enfraquecimento da base industrial, o país começa a reconstruir instrumentos capazes de sustentar uma estratégia de longo prazo.


Esse processo está longe de concluído. Cadeias produtivas foram quebradas, empresas desapareceram e a dependência tecnológica em diversos setores ainda é significativa. Reconstruir autonomia exige continuidade política, investimento em ciência e articulação entre diferentes áreas do Estado.


Mas o ponto central já está colocado. No mundo contemporâneo, soberania não é apenas um princípio constitucional ou um discurso diplomático. Ela depende da capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e controlar infraestrutura estratégica.


Se o Brasil conseguirá consolidar essa trajetória ainda é uma questão em aberto. O que começa a se tornar evidente é que o país voltou a compreender algo que havia sido parcialmente esquecido: no século XXI, soberania é também uma questão tecnológica.


E é exatamente nesse terreno que a disputa pelo futuro do país está sendo travada.


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