Socialismo após a IA: técnica, subjetividade e soberania no capitalismo da fricção zero
- Rey Aragon

- 28 de abr.
- 11 min de leitura

Entre a crítica da técnica e a economia política, uma lacuna decisiva emerge: na era dos metaintermediários algorítmicos, a própria capacidade de perceber, deliberar e decidir tornou-se terreno de disputa
O debate contemporâneo sobre inteligência artificial e socialismo tem avançado ao reconhecer que a tecnologia não é neutra e que seu desenvolvimento exige coordenação política e planejamento democrático. No entanto, ao situar a disputa apenas no plano da técnica e da economia, permanece insuficientemente explorada uma dimensão decisiva: a da subjetividade. No capitalismo da fricção zero, sistemas algorítmicos não apenas organizam a produção e a circulação, mas modulam comportamentos, antecipam decisões e configuram os próprios limites do pensável. Nesse contexto, a luta pela transformação social não pode prescindir de uma questão anterior: em que condições cognitivas, informacionais e perceptivas se forma o sujeito que deveria decidir o futuro da técnica?
O debate em seu ponto mais alto

O debate sobre inteligência artificial e socialismo entrou, nos últimos anos, em um patamar mais exigente. Já não se trata de discutir apenas os efeitos da tecnologia, mas de reconhecer que a própria técnica passou a ocupar um lugar estrutural na organização da vida social. Esse deslocamento obriga a abandonar de vez a ideia de neutralidade tecnológica e a enfrentar a questão em termos mais densos.
É nesse terreno que se destacam as reflexões de Evgeny Morozov e Aaron Benanav. Em registros distintos, ambos contribuem para afastar leituras simplificadoras. De um lado, ganha força a crítica à noção de que a tecnologia possa ser simplesmente apropriada e redirecionada sem que se considerem as formas de vida que ela engendra. A inteligência artificial não se limita a operar sobre o mundo social; ela participa da sua configuração, reorganizando práticas, rotinas e possibilidades de ação.
De outro, reafirma-se algo que não pode ser contornado: o desenvolvimento tecnológico está inscrito em relações concretas de poder. Investimento, infraestrutura, energia, trabalho qualificado e direção social definem quais trajetórias técnicas se consolidam e quais permanecem marginais. A questão da decisão — quem decide, com base em quais critérios e com que horizonte — retorna ao centro do problema.
Nesse ponto, o debate atinge um grau relevante de elaboração. A técnica deixa de ser pensada como mero instrumento e passa a ser compreendida como elemento constitutivo das relações sociais, ao mesmo tempo em que se reconhece que sua direção não está dada, mas depende de disputas e escolhas historicamente situadas. É a partir desse nível que se torna possível avançar.

O limite comum: técnica e decisão não esgotam o problema

Esse avanço teórico, no entanto, carrega um limite que não é imediatamente visível. Ao articular a crítica à neutralidade da técnica com a necessidade de coordenação política, o debate tende a se organizar em torno de dois polos: de um lado, a forma como a tecnologia estrutura o mundo social; de outro, a capacidade coletiva de orientar seus rumos. A disputa aparece, assim, como uma questão de direção.
Essa formulação é forte, mas parte de uma suposição que permanece pouco interrogada. Supõe-se, ainda que implicitamente, que o sujeito que percebe, avalia e decide mantém uma certa estabilidade. A técnica pode reorganizar o contexto, o planejamento pode estruturar escolhas, mas a instância que julga essas escolhas continua a ser tratada como um dado relativamente preservado.
É justamente aqui que o problema se estreita. Ao concentrar a análise na relação entre infraestrutura tecnológica e decisão institucional, perde-se de vista o modo como essas próprias capacidades de julgamento são formadas. Não se trata apenas de perguntar quem decide ou o que é decidido, mas de compreender em que condições materiais se constitui a própria possibilidade de decidir.
Esse deslocamento não nega a centralidade da técnica nem a importância do planejamento. Ele apenas indica que ambos se apoiam em uma dimensão anterior, frequentemente naturalizada: a produção histórica das formas de percepção, avaliação e escolha. É nesse terreno que o debate precisa avançar.
A questão decisiva: a produção da subjetividade

Se o debate avança ao reconhecer o peso da técnica e a necessidade de decisão coletiva, há um ponto que começa a se impor quase como um incômodo. Não dá mais para tratar como evidente aquilo que, por muito tempo, foi tomado como dado: a própria formação do sujeito que percebe, avalia e decide.
Esse sujeito não está fora das relações que estruturam a técnica. Ele se forma dentro delas. É atravessado por dispositivos, por rotinas, por ambientes que organizam a experiência antes mesmo que ela se torne consciente. O que se vê, o que chama atenção, o que parece relevante ou urgente não surge de forma espontânea.
Percepção, desejo e julgamento, nesse sentido, deixam de ser categorias naturais. Passam a aparecer como resultados de mediações concretas, historicamente situadas. A inteligência artificial, integrada a plataformas e sistemas de recomendação, não atua apenas reorganizando fluxos de informação. Ela intervém diretamente na forma como esses fluxos são percebidos, interpretados e incorporados à ação.
Isso muda o problema de lugar. Já não basta perguntar como a técnica molda o mundo social ou como a sociedade pode orientá-la. A questão se desloca: em que condições se formam as capacidades que permitem essa orientação? Como se produz, materialmente, a possibilidade de perceber, comparar e decidir?
Quando essa dimensão entra em cena, o debate muda de escala. A técnica deixa de ser apenas objeto de decisão e passa a participar da constituição daqueles que decidem. É aí que o problema ganha densidade real.
Fricção zero: a eliminação da resistência como forma de poder

Quando se observa mais de perto como essa modulação ocorre, uma tendência aparece com nitidez. Não se trata apenas de organizar melhor a informação ou tornar sistemas mais eficientes. O que se consolida é uma lógica orientada a reduzir ao máximo qualquer forma de atrito entre estímulo e resposta.
A ideia de fricção zero ajuda a dar nome a esse movimento. Ela não diz respeito apenas à facilidade de uso ou à fluidez das interfaces. O que está em jogo é a tentativa sistemática de encurtar o caminho entre a exposição a um estímulo e a ação correspondente. Quanto menos tempo, menos dúvida, menos interrupção, melhor o desempenho do sistema.
Isso vai muito além de conveniência. Ambientes digitais são desenhados para evitar desvios, antecipar preferências e oferecer respostas antes mesmo que uma pergunta se consolide plenamente. A experiência passa a ser conduzida de modo contínuo, quase sem pausas, com poucas oportunidades reais de suspensão ou recuo.
Do ponto de vista comportamental, os mecanismos são conhecidos. Reforço intermitente, expectativa de recompensa, simplificação de escolhas, repetição de padrões. O que muda é a escala e a integração desses elementos em sistemas que operam de forma permanente, ajustando-se em tempo real.
Nesse cenário, a fricção deixa de ser um obstáculo e passa a revelar seu valor. É ela que abre espaço para a dúvida, para o conflito interno, para a comparação entre alternativas. Quando desaparece, algo se altera na própria estrutura da decisão. A ação continua existindo, mas ocorre dentro de um campo cada vez mais estreito.
É assim que a técnica passa a operar de outra forma. Não apenas como meio, mas como organização da conduta. A eliminação da resistência não é um detalhe técnico. É uma forma específica de exercício de poder, discreta, contínua e profundamente eficaz.
Metaintermediação algorítmica: a organização invisível do real

Mas esse processo não se limita ao momento da ação. Antes mesmo de qualquer escolha, já existe uma camada que organiza o campo no qual essa escolha vai acontecer. É aí que a ideia de metaintermediação ganha força.
Não se trata mais apenas de intermediar relações entre pessoas, conteúdos ou serviços. O que está em jogo é algo anterior: a definição das condições sob as quais algo aparece, se torna visível, relevante ou sequer chega a existir como possibilidade.
Plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial operam como filtros permanentes. Eles selecionam, ordenam, repetem, ocultam. O que circula não é simplesmente o mundo tal como ele é, mas uma versão continuamente reorganizada a partir de critérios que combinam dados, objetivos econômicos e padrões de comportamento já identificados.
Isso muda a natureza da mediação. Ela deixa de ser um canal e passa a funcionar como infraestrutura. A experiência cotidiana acontece dentro de um ambiente previamente estruturado, no qual certas informações ganham centralidade enquanto outras desaparecem quase sem deixar rastro.
O ponto decisivo está no fato de que essa organização ocorre antes da relação direta entre sujeito e objeto. Não se escolhe entre todas as opções possíveis, mas entre aquelas que já foram previamente dispostas. A percepção, nesse sentido, não começa do zero. Ela já chega orientada.
Nada disso elimina completamente a agência individual. Mas a desloca. A ação continua existindo, só que dentro de um espaço delimitado por sistemas que operam de forma contínua e, muitas vezes, invisível. É nesse plano que a técnica passa a atuar não apenas como mediadora, mas como condição de possibilidade do próprio real vivido.
Economia política do comportamento

Quando se traz esse quadro para o terreno da economia política, o que aparece é um deslocamento importante. A modulação do comportamento deixa de ser algo periférico e passa a ocupar um lugar central na própria dinâmica de produção e acumulação.
A atividade dos indivíduos, aqui, não importa apenas enquanto trabalho direto. Ela passa a ter valor enquanto fonte contínua de dados, padrões e previsibilidade. Cada interação, cada escolha, cada trajetória de navegação vai sendo incorporada como informação que pode ser processada, comparada e, sobretudo, antecipada.
Nesse contexto, a atenção ganha outro estatuto. Não é apenas um recurso subjetivo, algo difuso. Torna-se algo disputado, capturado e organizado como variável econômica. Manter alguém engajado, prolongar sua permanência, direcionar seu foco — tudo isso passa a ter implicações diretas na geração de valor.
O comportamento, assim, entra no circuito produtivo de forma ampliada. Não apenas como resposta a estímulos de mercado, mas como matéria-prima a partir da qual novos padrões são construídos. A previsibilidade torna-se um ativo. Quanto mais previsível a conduta, maior a capacidade de orientar fluxos, ajustar ofertas e reduzir incertezas.
Isso implica uma mudança de escala. A produção de valor não se limita ao espaço tradicional do trabalho. Ela se estende para a gestão contínua das condutas. Percepção, ação e resposta passam a ser integradas em sistemas que operam em tempo real, convertendo experiência em informação e informação em capacidade de intervenção.
Ao colocar isso no plano das relações de produção, evita-se tanto a abstração quanto a moralização. Não se trata apenas de dizer que há influência ou manipulação. Trata-se de reconhecer que a subjetividade entra, de forma material, no processo de valorização do capital. E isso muda o problema por completo.
Guerra híbrida e disputa cognitiva

Quando essa engrenagem é observada fora do estritamente econômico, o quadro se amplia. As mesmas estruturas que organizam atenção e comportamento passam a operar também como instrumentos de influência em escala social. Não há uma ruptura clara entre essas dimensões. Elas se sobrepõem.
Ambientes digitais baseados em inteligência artificial oferecem condições muito particulares para isso. Segmentação fina de públicos, teste constante de mensagens, acompanhamento de reações quase em tempo real. O que antes exigia campanhas pontuais passa a ser conduzido de forma contínua, incorporado ao próprio fluxo das interações.
Nesse cenário, operações psicológicas deixam de ser eventos excepcionais. Elas se diluem no cotidiano. Não aparecem como algo externo, mas como parte do ambiente informacional no qual as pessoas vivem. A disputa não se restringe ao conteúdo de uma ideia, mas alcança os critérios pelos quais ela será percebida como plausível, urgente ou irrelevante.
Confiança, credibilidade, familiaridade — tudo isso pode ser trabalhado tecnicamente. Pequenos deslocamentos acumulados ao longo do tempo tendem a produzir efeitos mais consistentes do que intervenções abruptas. A percepção vai sendo ajustada de maneira gradual, quase imperceptível.
A guerra híbrida, nesse contexto, ganha outro contorno. Não se trata apenas da combinação de instrumentos militares, econômicos e informacionais. Trata-se da capacidade de atuar sobre a formação de juízos, de influenciar o modo como a realidade é interpretada e de orientar, por essa via, a ação coletiva.
Isso não é um desvio da lógica econômica. É um desdobramento dela. A mesma infraestrutura que transforma comportamento em valor permite que esse comportamento seja mobilizado estrategicamente. Previsibilidade e influência passam a caminhar juntas. E é nesse ponto que a técnica revela toda a sua dimensão política. Não se trata de exceção, mas de funcionamento normal.
Sul Global e soberania informacional

Observado a partir do Sul Global, esse processo ganha contornos mais duros. O que, em contextos centrais, pode aparecer como disputa interna sobre tecnologia e regulação, nas formações periféricas se apresenta como problema estrutural de dependência.
A infraestrutura não é neutra e tampouco está distribuída de forma equilibrada. Plataformas, centros de processamento, sistemas de armazenamento, modelos de inteligência artificial — tudo isso tende a se concentrar em poucos polos. A maior parte dos países opera a partir de tecnologias que não controla e sobre as quais tem pouca margem de intervenção.
Isso desloca o problema. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma questão de inovação ou eficiência produtiva. Passa a ser também uma questão de soberania. Quem controla os dados, define os padrões e organiza os fluxos de informação acaba por influenciar diretamente as condições sob as quais decisões são tomadas.
Essa dependência não se restringe ao plano técnico. Ela atravessa a formação da percepção. Ao operar dentro de ambientes estruturados externamente, os próprios critérios de relevância, urgência e verdade passam a ser mediados por lógicas que não se originam no interior dessas sociedades.
O resultado é uma assimetria mais profunda do que a simples diferença de acesso à tecnologia. Trata-se de uma diferença na capacidade de definir o que conta como realidade compartilhada. E isso tem implicações diretas sobre a política, sobre a economia e sobre a própria possibilidade de ação coletiva.
Falar em soberania informacional, nesse cenário, não é um gesto abstrato. É reconhecer a necessidade de construir capacidade própria: infraestrutura, processamento, desenvolvimento de modelos, organização de dados. Sem isso, qualquer tentativa de reorientar a técnica esbarra em limites que não são apenas internos.
A questão deixa de ser apenas “como usar” a tecnologia e passa a ser “em que condições essa tecnologia é produzida, controlada e integrada à vida social”. É nesse ponto que o problema se conecta diretamente com a ideia de autonomia.
Síntese: técnica, decisão e subjetividade como totalidade

Quando essas dimensões são colocadas lado a lado, o quadro deixa de ser fragmentado. A discussão sobre a inteligência artificial não pode mais ser reduzida nem à crítica da técnica, nem à defesa do planejamento. As duas continuam centrais, mas passam a exigir um nível de articulação maior.
A técnica não apenas organiza processos produtivos, nem a decisão política se limita a orientar seus usos. Entre uma coisa e outra, há um campo inteiro em funcionamento: a produção das condições sob as quais algo pode ser percebido, avaliado e transformado em ação.
É nesse ponto que o problema ganha consistência. A modulação do comportamento, a filtragem algorítmica da experiência e a organização prévia do campo perceptivo não operam isoladamente. Elas se integram às dinâmicas de acumulação e às disputas por direção social, formando um mesmo movimento.
Separar essas dimensões já não ajuda a compreender o que está em jogo. Produção de valor, formação de juízo e orientação da ação coletiva passam a acontecer dentro de circuitos interligados, nos quais dados, modelos e infraestruturas técnicas desempenham papel decisivo.
Isso não invalida as abordagens anteriores. Pelo contrário. A crítica da técnica continua necessária para evitar qualquer ilusão de neutralidade. A economia política segue indispensável para compreender as relações de poder que orientam o desenvolvimento tecnológico. O que muda é que nenhuma delas, isoladamente, dá conta do problema.
A incorporação da subjetividade não vem para substituir esses enfoques, mas para revelar aquilo que os atravessa. A decisão não é apenas um ato consciente sobre alternativas disponíveis. Ela depende de condições materiais que organizam o que aparece como alternativa, o que parece desejável e o que se apresenta como possível.
É nesse nível que a discussão se torna mais exigente. Não se trata apenas de decidir sobre a técnica, mas de compreender como a própria capacidade de decisão é produzida dentro das mesmas estruturas que se pretende transformar.
Conclusão: a condição da transformação

Quando se chega a esse ponto, a questão já não pode ser formulada apenas em termos de controle da técnica ou de reorganização da produção. Isso continua sendo fundamental, mas não esgota o problema. A transformação social passa a depender também das condições sob as quais a ação coletiva se torna possível.
A questão já não pode ser formulada apenas como decisão sobre a técnica, mas de garantir que essa decisão possa, de fato, existir como prática efetiva. Isso implica ambientes nos quais percepção, julgamento e escolha não estejam integralmente condicionados por estruturas que operam fora do alcance da coletividade.
A reorganização da produção, por si só, não resolve esse impasse. Sem capacidade de compreender, interpretar e disputar o campo no qual a realidade se apresenta, qualquer projeto de transformação tende a operar dentro de limites que não controla plenamente.
É por isso que a questão da soberania precisa ser pensada de forma ampliada. Técnica, informação e cognição não aparecem como esferas separadas, mas como dimensões interdependentes de um mesmo processo. A capacidade de desenvolver infraestrutura, organizar fluxos informacionais e sustentar formas próprias de interpretação da realidade torna-se parte integrante da possibilidade de orientar o futuro.
A inteligência artificial intensifica essa exigência. Ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades, também aprofunda mecanismos de antecipação e dependência. O sentido desses processos não está dado na técnica em si, mas nas relações sociais que a estruturam e nas formas de poder que se consolidam a partir dela.
A questão, portanto, não é apenas o que fazer com a técnica, mas em que condições esse “fazer” pode ser construído coletivamente. É nesse terreno que a discussão sobre socialismo após a inteligência artificial encontra seu ponto mais exigente — e também mais decisivo.





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