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TRILIONÁRIOS ENQUADRAM TRUMP A SE ENTENDER COM A CHINA

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    Redação
  • há 17 minutos
  • 9 min de leitura

POR MIGUEL MANSO


CEOs das trilionárias corporações americanas tomaram de Trump o banco do motorista nas relações e negociações com a China. Amargaram duras perdas de mercado e posição estratégica, no comércio e indústria, na tecnologia e finanças globais. Depois da última cartada derrotada de asfixiar a China com o controle do petróleo do Irã, resolveram em bloco obrigar, como se diz no mundo do pugilismo, o seu batido e nocauteado boxeador - a "jogar a toalha”, ou levantar uma bandeira branca nas relações com a fortalecida China.

A recente visita de Estado do presidente Donald Trump à China, entre 13 e 15 de maio de 2026, marcou um momento simbólico nas relações entre as duas maiores economias do mundo.


Longe de apresentar-se como uma imposição americana, o evento evidenciou o peso decisivo das grandes corporações dos EUA no redirecionamento da política externa de Washington. Não foi Trump quem levou os CEOs à mesa de negociações com Xi Jinping: foram eles que, pressionados por perdas acumuladas, guiaram o presidente rumo a um “pragmatismo renovado”.


Visivelmente enfraquecido e calado, por vezes constrangido, sem a costumeira verborragia e arrogância imperial a delegação das corporações, que representam dois terços do PIB americano, levaram Trump à mesa de negociação com Xi Jiping, fortalecido pelo desempenho e expansão da economia chinesa em seu próprio mercado e nas suas relações globais.


Após Washington aplicar taxas iniciais e proibir venda de semicondutores e produtos de tecnologia, Pequim revidou com impostos de 34% sobre produtos americanos e aproveitou para acelerar sua soberania em produtos tecnológicos e novos parceiros comerciais. Trump reagiu imediatamente elevando ainda mais o tom:


  • “A China jogou errado, eles entraram em pânico – a única coisa que eles não podem se dar ao luxo de fazer!” (Truth Social, abril de 2025)

  • ● “Se a China não retirar seu aumento de 34% acima de seus abusos comerciais de longo prazo até amanhã... os Estados Unidos imporão Tarifas ADICIONAIS à China de 50%.” (Declaração que levou as taxas totais contra o país ao patamar de 104%)

● “Para os muitos investidores vindo para os Estados Unidos... minhas políticas nunca mudarão. Este é um ótimo momento para ficar rico, mais rico do que nunca antes!!!” (Minimizando a queda das bolsas globais com o conflito)

● “Todas as conversas com a China sobre as reuniões solicitadas por eles conosco serão encerradas!” Disputa sobre o controle de Terras Raras (Outubro de 2025). Diante das ameaças chinesas de restringir minerais estratégicos, Trump anunciou novos bloqueios tarifários:

● “Uma das políticas que estamos calculando neste momento é um aumento massivo nas tarifas sobre produtos chineses que entram nos Estados Unidos...” ● “Isso é absolutamente inédito no comércio internacional e uma vergonha moral ao lidar com outras nações.” (Sobre a postura chinesa)

● “Se eles seguirem por esse caminho, os EUA também possuem posições de monopólio, muito mais fortes e de maior alcance do que as da China.”


Acostumado a tomar pela força vantagens e enriquecimento, Trump, diante das pressões de seus próprios “monopólios", rasgou elogios à China e ao seu líder: Sobre acordos comerciais: "Acordos comerciais fantásticos foram fechados".


Contudo, a cúpula foi caracterizada por poucos avanços detalhados e uma ausência de grandes anúncios formais Sobre a relação com Xi Jinping: Trump descreveu a reunião como “extremamente positiva e construtiva”.


Sobre a recepção: Agradeceu a Xi pela "grande honra" do que descreveu como uma "recepção magnífica". Sobre a relação bilateral: Chamou a relação entre EUA e China de “uma das relações mais importantes da história mundial”. Sobre afinidade cultural e econômica: “Assim como muitos chineses hoje amam basquete e calças jeans, os restaurantes chineses nos Estados Unidos hoje superam em número as cinco maiores redes de fast-food do país juntas”. Sobre a união dos países: “O mundo é especial com nós dois unidos e juntos”. Sobre o Irã: Afirmou que a China se comprometeu a não enviar armas e equipamentos militares ao Irã, e que os Estados Unidos têm a situação do Irã "sob controle"....


A delegação que acompanhou Trump incluiu mais de uma dúzia de CEOs de peso, como Elon Musk (Tesla e SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia), Larry Fink (BlackRock), Kelly Ortberg (Boeing) e executivos de Meta, Visa, JP Morgan e outros. Sua presença não foi meramente protocolar — foi estratégica. Fatos que sustentam essa virada pragmática:


● Custos das tarifas: As escaladas tarifárias de 2025 geraram volatilidade extrema, afetando exportadores americanos (soja, carne, aviões) e importadores de componentes. Muitas empresas relataram perdas significativas e realocação custosa, sem eliminar a dependência da China.

● Perda de market share: Empresas como a Nvidia viram sua fatia na China despencar para zero em certos segmentos, beneficiando concorrentes locais. A Boeing busca destravar pedidos pendentes de aeronaves.


O encontro produziu tom positivo, com discussões sobre possibilidade de retorno ao acesso do mercado, possíveis compras agrícolas, aviões e cooperação em áreas não-sensíveis, além de convite recíproco de Xi à Casa Branca.


Essa dinâmica revelou uma verdade incômoda para narrativas mais belicosas: o empresariado americano, movido por resultados concretos e não por ideologia, prioriza o acesso ao mercado chinês e a estabilidade das cadeias globais.


As corporações não são meras coadjuvantes — elas moldam a política quando os custos da confrontação se tornam insustentáveis. Panorama geral dos prejuízos e perda de mercado com a política de TRUMP de choque e bloqueios dos EUA a China em 2025–2026: A combinação de tarifas efetivas muito elevadas, restrições tecnológicas, controles de exportação de chips, retaliações chinesas, substituição por fornecedores locais, acabou produzindo um efeito importante:


1. Perda direta de receita e margem para empresas americanas;


2. Aceleração da substituição tecnológica chinesa;


3. Mudança de postura do empresariado americano, que passou a pressionar por pragmatismo e distensão.


Além da enorme repercussão negativa para o bolso do povo americano, os setores mais atingidos das corporações foram: semicondutores, veículos elétricos, aviação, agronegócio, bancos e finanças globais, vejamos: 1. Elon Musk — Tesla - Valor de mercado (maio 2026) -


Aproximadamente US$ 1,4 trilhões. A Tesla talvez seja a empresa americana mais profundamente dependente da China entre as Big Techs: Gigafactory de Xangai é uma das fábricas mais eficientes da companhia; China é um dos maiores mercados da Tesla; forte dependência da cadeia chinesa de baterias e minerais; concorrência direta com BYD, NIO, Xiaomi EV etc. Perdas e impactos


Os impactos foram relevantes em três frentes: a) Tarifas retaliatórias As tarifas chinesas sobre produtos americanos chegaram a 125%, tornando inviáveis modelos importados dos EUA. A Tesla suspendeu novos pedidos de Model S e X na China. b) Perda de liderança A BYD ultrapassou a Tesla em vários indicadores globais de EVs: volume, crescimento, custo e integração vertical. Isso reduziu a percepção de domínio tecnológico da Tesla. c) Reputação política


A aproximação de Musk com a política americana nacionalista/comercialmente agressiva: ampliou boicotes, deteriorou imagem na Europa, gerou desgaste entre consumidores chineses.


Mudança estratégica A Tesla passou a depender ainda mais da produção local chinesa; foi obrigada a acelerar automação e robo táxis e reduzir o foco nos modelos premium tradicionais. 2. Tim Cook — Apple - Valor de mercado - Cerca de US$ 3,9–4,3 trilhões. A Apple continua extremamente exposta, a principal base industrial do iPhone é na China com enorme ecossistema de fornecedores e mercado consumidor crítico. A China é simultaneamente fábrica, mercado, centro logístico. Perdas e impactos a) Custos tarifários A Apple reportou centenas de milhões de dólares adicionais em custos tarifários em trimestres recentes.


O mercado passou a precificar: compressão de margem; risco geopolítico estrutural. b) Perda gradual de mercado Huawei e marcas chinesas ganharam força premium. A Apple sofreu: queda moderada nas vendas na China; maior pressão regulatória; restrições indiretas em órgãos públicos. c) Diversificação forçada Tim Cook acelerou negociações com a Índia, Vietnã e Indonésia. Mas substituir a China integralmente ainda é considerado impraticável no curto prazo. Mudança estratégica:


A Apple migrou de “integração total com China” para: “China + diversificação parcial”. 3. Jensen Huang — Nvidia - Valor de mercado - Aproximadamente US$ 5 trilhões, tornando-se a empresa mais valiosa do mundo em vários momentos de 2026. Dependência da China - Antes das restrições:


China representava parcela enorme da demanda por IA; mercado crucial para GPUs de datacenter. Perdas e impactos A Nvidia foi provavelmente o caso mais dramático da guerra tecnológica. a) Queda de market share: Jensen Huang afirmou que a participação da Nvidia em chips avançados na China caiu de cerca de 95% do mercado chines para praticamente zero em segmentos estratégicos. b) Write-offs bilionários:


A companhia registrou cerca de US$ 4,5 bilhões em encargos ligados às restrições dos chips H20. c) Perda de vendas futuras: Estimativas de mercado sugerem: US$ 8–15 bilhões em receita potencial comprometida. d) Fortalecimento chinês: As restrições ajudaram: Huawei


Ascend, SMIC, fortalecer o ecossistema doméstico chinês. A própria SMIC reportou ganho de demanda em meio às restrições americanas. Mudança estratégica: Huang tornou-se um dos CEOs mais vocalmente críticos das políticas americanas de exportação. Ele passou a defender: exportações controladas, coexistência tecnológica, manutenção de presença americana no mercado chinês. 4. Larry Fink — BlackRock - Valor de mercado -


Aproximadamente US$ 170–180 bilhões. Exposição à China: A BlackRock buscou: expansão de asset management; fundos locais; acesso ao investidor chinês. Impactos: As tensões geraram: maior volatilidade; restrições cross-border; dificuldade em captar fluxos institucionais. O problema aqui não foi “tarifa” diretamente, mas a fragmentação financeira global, risco regulatório, desacoplamento parcial. Mudança estratégica: O discurso mudou de: “globalização financeira irreversível” - para: “regionalização financeira com gestão geopolítica”. 5. Kelly Ortberg — Boeing - Valor de mercado - Cerca de US$ 170 bilhões.


Dependência da China: A China é um dos maiores mercados globais de aviação civil. Impactos a) Congelamento de entregas: Pedidos e certificações desaceleraram. b) Airbus ganhou espaço: A Airbus avançou fortemente em contratos bilionários; preferência política chinesa e menor risco geopolítico. c) Perda estratégica: A Boeing perdeu influência num dos mercados mais importantes do século XXI. Mudança estratégica: A empresa passou a priorizar diplomacia econômica e pressionar Washington por estabilização comercial. 6.


Stephen Schwarzman — Blackstone - Valor de mercado - Aproximadamente US$ 150 bilhões. Exposição em private equity; imóveis; infraestrutura; investimentos alternativos. Impactos: A crise imobiliária chinesa + tensões geopolíticas reduziram exits; diminuíram valuations; tornaram “deals” e acordos mais difíceis. Mudança estratégica: Maior cautela na China e foco crescente em: Índia, Golfo, Sudeste Asiático.


Outros setores fortemente afetados Semicondutores Cristiano Amon, Sanjay Mehrotra, Cisco Problemas: restrições, substituição por chips chineses, perda de contratos, risco regulatório. Agronegócio: Brian Sikes da Cargill - A China reduziu as compras americanas em vários momentos: soja, carne e milho. Brasil e Argentina ganharam participação em alguns fluxos. Finanças: Jane Fraser, David Solomon - Impactos: menor integração financeira; risco regulatório; maior custo político para operar nos dois blocos. Conclusão: mudança estrutural


O ponto mais importante não foi apenas a perda financeira imediata. A grande mudança foi a perda estratégica. Antes (2010–2022) As empresas americanas acreditavam em:


● integração econômica irreversível; ● dependência mútua;

● globalização eficiente. Depois (2025–2026) Passaram a operar num cenário de:

● bifurcação tecnológica,

● regionalização,

● cadeias duplicadas,

● risco geopolítico permanente. O resultado foi uma aproximação incomum entre grandes CEOs e governos para tentar:

● limitar escalada tarifária,

● preservar mercados,

● evitar desacoplamento total. Ao mesmo tempo, a China acelerou substituição doméstica em:

● EVs,

● chips,

● software,

● aviação,

● pagamentos digitais.


Isso transformou a guerra comercial em algo mais profundo: uma disputa estrutural pela liderança tecnológica e industrial do século XXI. Essa delegação reflete o peso das grandes corporações na busca da correção de rota da política americana em relação à China.


A presença maciça deles sinaliza que os custos do confronto superaram os benefícios para o setor privado. O encontro ocorre em um contexto de tensões comerciais persistentes, disputas sobre exportação de semicondutores, restrições envolvendo minerais estratégicos, além de discussões sobre inteligência artificial para o mercado chinês, enquanto enfrenta limitações regulatórias tanto em Washington quanto em Pequim.


A Boeing tenta retomar a negociação de possíveis encomendas de centenas de aeronaves, movimento que pode representar um dos maiores contratos industriais da visita. Tesla, por sua vez, tenta expandir sua atuação em tecnologias de condução autônoma e preservar sua posição estratégica em sua mega fábrica de Xangai, considerada central para suas exportações globais.


Durante anos, a estratégia de tarifas elevadas, restrições tecnológicas e tentativas de “desacoplamento” visou conter o avanço chinês. No entanto, esses mecanismos não frearam o crescimento da economia chinesa, que continuou a expandir sua influência global em tecnologia, manufatura e mercados emergentes. Pelo contrário, geraram custos elevados para empresas americanas dependentes da cadeia de suprimentos chinesa e do vasto mercado consumidor da China.


Diante de sucessivas derrotas comerciais e da erosão de market share, o setor privado optou pelo realismo: retomar o diálogo e os acordos. Tim Cook, da Apple, expressou satisfação ao retornar à China: “It was marvelous. It’s so great to be back in China.” A empresa mantém forte dependência de produção e vendas no país asiático, e as tensões tarifárias anteriores impactaram diretamente seus custos e margens, Elon Musk, por sua vez, sinalizou otimismo, declarando que pretendia nesta visita “realizar muitas coisas boas”. Jensen Huang, da Nvidia, que se juntou à delegação de última hora, destacou a importância de melhorar as relações bilaterais.


Após ver sua participação de mercado na China cair drasticamente devido a restrições, o executivo defendeu que isolar um mercado do tamanho da China “provavelmente não faz muito sentido estratégico” e pode acelerar a competição local. Durante a visita, ele expressou esperança de que Trump e Xi “construam sobre sua boa relação” para fortalecer os laços. Xi Jinping reforçou a mensagem ao receber os executivos: “A porta da China para o mundo exterior só se abrirá mais amplamente.”


Os CEOs americanos, por sua vez, afirmaram valorizar altamente o mercado chinês e desejar aprofundar a cooperação. A visita de 2026 não representa derrota ou vitória unilateral, mas um reconhecimento pragmático. A economia chinesa demonstrou resiliência, e as empresas americanas, guiadas pelo instinto de sobrevivência e crescimento, forçaram uma correção de rota.


No final, o que fica é a imagem de CEOs influentes ao lado de Trump, celebrando aberturas e “fantastic trade deals”, enquanto a porta chinesa, como prometido por Xi, se abre um pouco mais. Em um mundo interconectado, o isolamento custa caro. Os fatos da visita confirmam: o negócio continua, e os grandes players do capitalismo americano querem sua fatia garantida.


Vale lembrar a máxima do destemido guerrilheiro Ernesto Che Guevara: - “no imperialismo não se pode confiar nem um tantinho assim…” Quem vai sair fortalecido desta nova realidade?


Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV, é diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.


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