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Venezuela e o Imperialismo dos Fluxos

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 1 dia
  • 22 min de leitura

Como a coerção dos Estados Unidos reorganiza energia, capital e poder no Sul Global sem ocupar territórios


Enquanto o espetáculo domina as manchetes, a Venezuela vive uma crise administrada: sem guerra aberta, sem colapso institucional e com o petróleo fluindo. O que está em jogo não é o território, mas o controle dos fluxos. O desafio histórico do Sul Global é impedir que essa coerção se normalize.

O erro de leitura que interessa ao imperialismo



Há momentos históricos em que o maior erro não é tomar partido errado, mas ler errado o próprio acontecimento. A crise atual na Venezuela tem sido tratada, em grande parte da cobertura internacional, como colapso iminente, loucura geopolítica ou improviso autoritário. Essa leitura, além de superficial, interessa diretamente ao imperialismo, porque desloca o foco do essencial: não se trata de desordem, mas de ordem imposta por outros meios.


O imperialismo contemporâneo não opera mais prioritariamente pela ocupação territorial clássica, pelo desembarque massivo de tropas ou pela administração direta de governos fantoches visíveis. Ele opera pela produção controlada de crises, pela administração do tempo político, pela coerção jurídica e econômica e, sobretudo, pelo controle dos fluxos que sustentam a vida material dos Estados. Ler a Venezuela a partir de categorias do século XX é, portanto, um erro analítico grave — e funcional aos interesses que pretendem normalizar a violação da soberania dos povos.


O primeiro dado que precisa ser encarado com seriedade é simples e objetivo: não há colapso interno. Não há guerra civil, não há ruptura generalizada das instituições, não há conflagração social fora de controle, não há fragmentação visível do aparelho estatal. Esse fato, longe de ser irrelevante, é o ponto de partida de qualquer análise responsável. Crises genuinamente caóticas produzem desorganização difusa, violência descontrolada e perda de capacidade administrativa. O que se observa, ao contrário, é contenção.


Essa contenção não significa aceitação, capitulação ou normalidade democrática. Significa algo mais preciso: gestão da crise. A institucionalidade venezuelana, pressionada por fora, tenta preservar sua funcionalidade por dentro. As ruas não são incendiadas porque o incêndio não interessa a quem governa nem, neste momento, a quem agride. O tempo, aqui, é um ativo estratégico. Manter o país funcionando, ainda que sob enorme pressão, preserva margem de manobra política e impede que a coerção externa se converta automaticamente em colapso interno.


O erro dominante da leitura midiática é confundir ausência de caos com ausência de violência. A violência está presente, mas deslocada. Ela se manifesta na forma de sanções, ameaças, coerção diplomática, captura de fluxos econômicos, intimidação jurídica e espetáculo político. É uma violência fria, administrada, muitas vezes apresentada como racional, necessária ou civilizatória. É exatamente essa forma de violência que o imperialismo busca naturalizar.


Por isso, este texto parte de uma recusa clara: não aceitar a narrativa do caos, nem a narrativa da normalização. Ambas servem ao mesmo fim. O caos justifica a intervenção; a normalização legitima a coerção. Entre uma e outra, constrói-se o terreno no qual a soberania dos povos é corroída sem que tanques precisem ocupar capitais.


A Venezuela, neste momento, não é um caso isolado nem uma anomalia. Ela é um laboratório visível de uma forma de dominação que se espalha pelo mundo, especialmente sobre o Sul Global. Entender isso exige abandonar a pressa, recusar o espetáculo como critério de verdade e recolocar a análise no terreno onde ela sempre deveria estar: na base material do poder, nas formas contemporâneas de coerção e na disputa real pela soberania.


É a partir desse ponto que o texto avança. Não para justificar a violência imperial, mas para desmascarar sua lógica, defender explicitamente o direito da Venezuela à autodeterminação e oferecer uma leitura estratégica que ajude a impedir que essa forma de dominação se torne o novo normal.

A mutação do imperialismo: do território aos fluxos



Durante boa parte do século XX, o imperialismo se apresentou de forma direta, visível e territorializada. Golpes militares, ocupações, ditaduras explícitas e administrações coloniais eram os instrumentos centrais de dominação. A violência era concreta, ostensiva e facilmente identificável. Hoje, esse modelo não desapareceu por completo, mas deixou de ser o eixo principal. O imperialismo contemporâneo, especialmente o exercido pelos Estados Unidos, passou por uma mutação profunda: o centro do poder deslocou-se do território para os fluxos.


Essa transformação não é fruto de benevolência, mas de cálculo. A ocupação territorial clássica tornou-se cara, politicamente custosa, instável e, muitas vezes, contraproducente. Ela gera resistência prolongada, desgasta a legitimidade internacional e impõe custos humanos e econômicos difíceis de sustentar. Em seu lugar, consolidou-se uma forma de dominação mais sofisticada, menos visível e, por isso mesmo, mais eficiente: o controle das condições materiais de funcionamento dos Estados, sem a necessidade de governá-los formalmente.


No mundo contemporâneo, governar não significa necessariamente ocupar. Significa regular quem pode produzir, vender, comprar, transportar, financiar, assegurar e legitimar. Energia, capital, logística, contratos, sistemas de pagamento, seguros, certificações, tribunais e regimes de sanção passaram a funcionar como instrumentos centrais de poder. Quem controla esses circuitos controla, de fato, a capacidade de decisão dos Estados periféricos, mesmo quando estes mantêm bandeira, hino e eleições formais.


É nesse ponto que a Venezuela se torna emblemática. Seu território permanece formalmente soberano, mas seus fluxos vitais são permanentemente atacados, condicionados ou ameaçados. A produção energética pode existir, mas sua circulação depende de autorizações externas. O petróleo pode ser extraído, mas sua venda está sujeita a licenças, sanções, intermediações forçadas e riscos jurídicos calculados. O Estado segue de pé, mas funciona sob constrangimento estrutural.


Essa mutação do imperialismo explica por que a coerção atual não precisa assumir a forma de guerra aberta. A guerra está embutida nos dispositivos que regulam o cotidiano econômico. Sanções substituem bombardeios; tribunais substituem quartéis; comunicados oficiais substituem ultimatos militares. O efeito final, no entanto, pode ser igualmente devastador: perda de autonomia, asfixia financeira seletiva e subordinação política progressiva.


O aspecto mais perverso dessa forma de dominação é sua aparência de normalidade. Diferentemente da ocupação armada, o controle por fluxos se apresenta como técnica, legalidade, governança ou até mesmo responsabilidade internacional. A violência deixa de ser percebida como violência e passa a ser naturalizada como regra do jogo. É exatamente por isso que ela é tão perigosa para o Sul Global.


Ao deslocar o centro da dominação para os fluxos, o imperialismo também desloca o campo de batalha. A disputa não se dá mais apenas nas ruas ou nos palácios, mas nos contratos, nos portos, nos sistemas financeiros, nas seguradoras, nas plataformas logísticas e nas decisões aparentemente técnicas que definem quem pode operar e em quais condições. Trata-se de uma guerra silenciosa, contínua e profundamente assimétrica.


Compreender essa mutação é condição indispensável para não cair em leituras ingênuas. Quem espera tanques para reconhecer a violência já perdeu a disputa. O imperialismo do século XXI não precisa ocupar Caracas para subjugar a Venezuela. Ele precisa apenas regular os fluxos que tornam possível a vida econômica do país. É isso que está em jogo, e é a partir dessa chave que os próximos movimentos devem ser analisados.

Venezuela como caso exemplar, não exceção



A Venezuela costuma ser tratada, na imprensa internacional e em parte do debate público, como um desvio, uma anomalia latino-americana explicável por supostos erros internos, irracionalidades políticas ou falhas morais de sua liderança. Essa leitura é conveniente, mas falsa. A Venezuela não é exceção. Ela é, na verdade, um caso exemplar de como o imperialismo contemporâneo opera quando um país do Sul Global tenta preservar autonomia material sobre recursos estratégicos.


O que torna a Venezuela central não é apenas o volume de suas reservas de petróleo, mas o conjunto de fatores que a colocam em rota de colisão com a lógica imperial: controle estatal sobre energia, política externa não subordinada, alianças fora do eixo atlântico tradicional e recusa histórica em aceitar tutelas explícitas. Esses elementos fazem do país um alvo pedagógico. A mensagem implícita nunca foi dirigida apenas a Caracas, mas a toda a região: qualquer projeto nacional que tente controlar seus próprios fluxos vitais pagará um preço.


É por isso que a Venezuela não pode ser analisada isoladamente de outros processos latino-americanos. O que se observa ali dialoga diretamente com o que ocorreu no Brasil, na Bolívia, no Equador e em outros países onde tentativas de maior soberania material foram seguidas por sanções, golpes institucionais, lawfare, estrangulamento financeiro ou campanhas sistemáticas de deslegitimação. A diferença venezuelana está no grau de exposição: ali, a disputa é mais visível, mais concentrada e mais longa.


Essa visibilidade transforma a Venezuela em laboratório. Não no sentido conspiratório, mas no sentido histórico: testam-se limites, métodos e narrativas. Até onde é possível pressionar sem provocar guerra aberta? Quais instrumentos geram mais resultado com menor custo político internacional? Como combinar sanções, discurso moralizante e espetáculo midiático sem perder completamente o controle da situação? Cada movimento aplicado à Venezuela produz aprendizados que podem ser replicados em outros contextos.


Outro aspecto decisivo é que a Venezuela concentra, de forma quase didática, a contradição central do capitalismo contemporâneo: recursos naturais estratégicos localizados em países periféricos, mas integrados a cadeias globais controladas por centros de poder externos. O conflito não é sobre democracia abstrata ou valores universais. É sobre quem decide o destino da renda energética, quem regula seu acesso e quem captura o excedente produzido.


Por isso, insistir na ideia de que a Venezuela “quebrou” ou “colapsou” por razões exclusivamente internas é uma forma de apagar o essencial. Nenhum país submetido a décadas de sanções, bloqueios financeiros, perseguição jurídica internacional e sabotagem de seus fluxos econômicos pode ser avaliado fora desse contexto. O que está em jogo ali é a tentativa de sobrevivência de um Estado sob ataque estrutural permanente.


Ao tratar a Venezuela como exceção, o debate público se desobriga de enfrentar a questão central: a soberania dos povos sobre seus recursos e seus fluxos é incompatível com a forma atual do imperialismo. Ao tratá-la como caso exemplar, a análise muda de patamar. Passa-se a entender que defender a Venezuela não é defender um governo específico, mas defender o princípio de autodeterminação frente a uma ordem internacional que aceita cada vez menos desvios.


É por isso que a crise venezuelana não pode ser lida como tragédia local nem como espetáculo distante. Ela é um aviso histórico. O que se testa ali hoje poderá ser aplicado amanhã em qualquer país que tente reorganizar sua base material de forma soberana. Entender isso é condição para sair da indignação estéril e entrar no terreno da estratégia.

A crise administrada: institucionalidade, contenção e tempo



Um dos sinais mais reveladores da crise venezuelana atual não está no que explode, mas no que não explode. Crises verdadeiramente descontroladas produzem colapso administrativo, fragmentação do comando, ruptura institucional aberta e mobilização social contínua, com efeitos em cadeia difíceis de conter. O que se observa até aqui, ao contrário, é um padrão de contenção interna e de preservação mínima da governabilidade. Isso não é sinônimo de estabilidade plena nem de normalidade política. É, sobretudo, um indício de que a crise está sendo administrada.


A primeira evidência é institucional. A transição para um governo interino sob Delcy Rodríguez ocorre dentro de mecanismos formais do próprio Estado venezuelano, com discurso voltado à continuidade e não à convocação de confronto generalizado. A manutenção do núcleo administrativo e político do Estado, mesmo sob pressão externa, indica que o objetivo interno imediato é impedir vácuo, impedir dispersão e evitar que o país se torne um campo aberto para escaladas imprevisíveis. Quando a institucionalidade resiste, mesmo com tensões, ela opera como um dique: reduz o espaço para aventureirismos, impede a multiplicação de centros de poder e preserva capacidade de resposta.


A segunda evidência é social. A ausência de grandes mobilizações de rua, de confrontos prolongados e de ruptura pública do aparelho coercitivo aponta para uma escolha estratégica: não entregar ao agressor o pretexto do caos. Em guerras híbridas, o caos não é apenas consequência, é ferramenta. Ele legitima intervenções, amplia sanções, autoriza narrativas moralizantes e rompe solidariedades internacionais. Ao manter as ruas contidas, ainda que por diferentes mecanismos, o Estado preserva um ativo decisivo: o tempo. E tempo, nessas circunstâncias, vale mais do que declarações inflamadas.


A terceira evidência é militar, ainda que em silêncio. Não se viu até aqui uma cisão explícita e pública do comando, nem sinais de guerra interna, nem convocações generalizadas às armas que indiquem fragmentação. Em situações de ruptura real, esse tipo de fissura aparece rapidamente, porque a disputa por legitimidade se desloca para a força bruta e para o controle de territórios internos. A ausência desse padrão não significa harmonia, mas sugere que o aparelho estatal permanece suficientemente coeso para impedir que a crise seja capturada por lógicas de guerra civil.


Esse conjunto de elementos configura um quadro específico: uma crise com alta coerção externa e contenção interna. A coerção vem na forma de ameaça, sanções, controle de fluxos, pressão internacional e espetáculo político. A contenção, por sua vez, busca impedir que o país se desfaça por dentro. O equilíbrio é frágil, mas não é aleatório. Ele expressa uma racionalidade de sobrevivência: preservar funcionamento mínimo para não ser empurrado ao abismo que justificaria a tutela.


Há ainda um ponto decisivo, frequentemente ignorado: a estabilidade relativa não é apenas um resultado interno, é também um elemento que pode interessar ao agressor, dependendo do objetivo estratégico. Se a meta não é destruir a capacidade produtiva de longo prazo, mas reorganizá-la sob controle externo, então a estabilidade administrada se torna funcional. Uma Venezuela totalmente incendiada seria um problema regional, elevaria custos econômicos e criaria um cenário imprevisível. Uma Venezuela contida, com institucionalidade funcionando, é um terreno mais favorável para negociações coercitivas, reconfiguração de contratos, reorganização de fluxos e tentativa de “normalização” sob tutela.


É nesse ponto que o debate precisa ser elevado. “Calma relativa” não é prova de legitimidade do que está acontecendo. É um indicador estratégico de que a disputa pode estar ocorrendo em outro nível: no nível dos fluxos, dos contratos, do sistema financeiro, das rotas energéticas e das negociações de bastidor. Quem fica preso ao espetáculo perde o essencial. A luta pelo poder, aqui, não é apenas a luta por palácios. É a luta por circuitos.


Defender a soberania venezuelana, portanto, não é apenas denunciar a agressão externa, mas compreender que a preservação de institucionalidade e contenção social podem ser, paradoxalmente, formas de resistência estratégica, desde que não se convertam em capitulação ou validação da coerção. O desafio é manter coesão sem aceitar tutela, ganhar tempo sem normalizar o fato consumado e sustentar a autodeterminação sem entregar ao agressor o argumento do caos.

O espetáculo como tecnologia de poder



Uma das armadilhas mais comuns na análise da política contemporânea é confundir espetáculo com falsidade. Quando imagens fortes circulam, quando gestos performáticos ganham centralidade e quando frases de efeito parecem organizar o debate público, surge rapidamente a tentação de dizer que “tudo é encenação”. Essa leitura, além de imprecisa, é politicamente estéril. O espetáculo não nega o acontecimento. Ele media o acontecimento, molda sua recepção e produz efeitos concretos. No imperialismo contemporâneo, o espetáculo não é ornamento; é tecnologia de poder.


O ponto central é compreender que fatos, narrativas e efeitos não são a mesma coisa. O fato pode ser real e grave; a narrativa é a forma como ele é apresentado; o efeito é o resultado político produzido. O espetáculo atua exatamente nesse intervalo. Ele organiza percepções, acelera conclusões, desloca o foco do essencial para o acessório e cria a sensação de que algo está totalmente resolvido ou totalmente fora de controle, mesmo quando nenhuma das duas coisas é verdadeira.


No caso venezuelano, o espetáculo cumpre múltiplas funções simultâneas. Para o público interno dos países centrais, ele serve como demonstração de força, reafirmação de autoridade e reposicionamento de liderança. Para o sistema internacional, funciona como sinalização de poder e aviso pedagógico. Para o país agredido, atua como instrumento de pressão psicológica, tentativa de desmoralização e indução ao isolamento. Tudo isso pode ocorrer sem que a materialidade da disputa se altere imediatamente.


É justamente aí que reside o perigo analítico. Quem se deixa capturar pelo espetáculo tende a superestimar o evento e subestimar o processo. O imperialismo do século XXI prefere produzir imagens de impacto enquanto reorganiza, de forma silenciosa, contratos, rotas, permissões e intermediações. O barulho ocupa o centro do palco; a engenharia do poder opera nos bastidores. Confundir uma coisa com a outra leva à paralisia estratégica.


Tratar o espetáculo como tecnologia de poder também permite evitar o erro oposto: o niilismo. Nada aqui sugere que os acontecimentos não sejam reais ou que a violência não exista. A violência existe, mas se expressa de forma mediada, calculada e juridicamente enquadrada. O espetáculo não substitui a coerção; ele a legitima, a suaviza ou a dramatiza, conforme a necessidade política do momento.


Outro aspecto decisivo é que o espetáculo cria uma sensação artificial de encerramento. Ao transformar a crise em uma sequência de imagens e declarações, induz-se a percepção de que o capítulo foi fechado, que o problema está resolvido ou que a nova ordem já se consolidou. Esse efeito é funcional para quem busca normalizar a coerção. A ausência de tanques nas ruas e de colapso imediato reforça a ilusão de que nada estrutural está em disputa, quando, na verdade, a disputa apenas mudou de forma.


É por isso que uma análise responsável precisa resistir à tentação do adjetivo fácil e da denúncia performática. Não se trata de ridicularizar o espetáculo, mas de deslocar o olhar. O critério de verdade não está na imagem mais forte, mas na pergunta silenciosa: o que mudou — ou está sendo preparado para mudar — na base material do poder? Quem ganhou tempo? Quem perdeu margem de manobra? Quais fluxos foram interrompidos, reorientados ou colocados sob tutela?


Ao tratar o espetáculo como tecnologia, o texto preserva sua força crítica sem cair em conspiracionismo. Não é necessário afirmar que tudo foi combinado ou que todos os atores atuam em harmonia. Basta reconhecer que, em um sistema internacional altamente mediado, a forma como o poder aparece é parte do próprio exercício do poder. Ignorar isso é ingenuidade; absolutizá-lo é delírio.


Defender a soberania venezuelana exige, portanto, uma postura dupla: rejeitar a violência imperial que se esconde atrás do espetáculo e, ao mesmo tempo, recusar leituras que transformem o espetáculo em prova de inexistência do real. A luta pela autodeterminação passa, hoje, pela capacidade de enxergar além da cena e identificar onde a disputa efetivamente se trava.

Energia, petróleo e o verdadeiro centro da disputa



Em qualquer análise séria sobre a Venezuela, há um ponto que não admite rodeios: o petróleo não é um pano de fundo, é o centro gravitacional da disputa. Tudo o mais — narrativas, sanções, espetáculos, pressões diplomáticas e arranjos institucionais — orbita em torno da questão energética. Não como abstração geopolítica, mas como fluxo material de valor, inserido em cadeias globais altamente controladas.


O erro recorrente é tratar o petróleo como “recurso nacional” em sentido genérico, quando, na realidade, o que define o poder é quem controla cada etapa do circuito: extração, autorização, transporte, seguro, financiamento, comercialização e recebimento. Um país pode ter reservas gigantescas e, ainda assim, estar submetido, se essas etapas forem capturadas externamente. É exatamente essa captura que o imperialismo contemporâneo busca aperfeiçoar.


No caso venezuelano, o objetivo nunca foi simplesmente interromper a produção de forma definitiva. Isso seria economicamente irracional e estrategicamente contraproducente. O que está em jogo é algo mais sofisticado: subordinar o circuito energético, transformando um recurso soberano em fluxo condicionado. O petróleo pode continuar existindo, pode até continuar sendo vendido, inclusive para países fora do eixo atlântico, desde que sob um regime de permissões, intermediações e riscos definidos externamente.


Essa lógica explica por que a retórica de estrangulamento total convive, sem contradição, com sinais de continuidade seletiva. A coerção funciona melhor quando não destrói completamente o objeto que pretende controlar. Manter a produção operante, ainda que sob forte pressão, preserva valor econômico, reduz instabilidade regional e cria um ambiente propício para renegociações assimétricas. O controle não se exerce pela ausência absoluta de fluxo, mas pela capacidade de ligá-lo e desligá-lo, de redirecioná-lo, de encarecê-lo ou de condicioná-lo politicamente.


O petróleo venezuelano, nesse contexto, não é apenas mercadoria. Ele é instrumento de disciplinamento. Cada licença concedida ou retirada, cada navio autorizado ou bloqueado, cada seguradora disposta ou não a cobrir operações, cada banco que aceita ou recusa transações, compõe um sistema de pressão contínua. Trata-se de uma forma de guerra econômica que não precisa de tanques, mas produz efeitos profundos na soberania decisória do Estado.


Esse mecanismo revela um traço central do imperialismo atual: a capacidade de internalizar a coerção no próprio funcionamento do mercado. O que aparece como “risco”, “compliance” ou “incerteza jurídica” é, muitas vezes, a tradução técnica de uma decisão política tomada fora do alcance do país afetado. A dominação se disfarça de regra, e a regra se apresenta como neutralidade técnica.


Defender a soberania da Venezuela, portanto, não é apenas denunciar sanções ou ameaças explícitas. É afirmar o direito do país de decidir soberanamente sobre seus fluxos energéticos, sem tutelas, sem intermediários impostos e sem chantagem jurídica permanente. Qualquer arranjo que preserve a aparência de normalidade econômica enquanto desloca o controle efetivo do circuito para fora é uma forma de expropriação política.


É por isso que a disputa energética não pode ser tratada como tema setorial. Ela é o eixo em torno do qual se reorganiza a relação entre centro e periferia no capitalismo contemporâneo. O que acontece hoje com o petróleo venezuelano antecipa o que pode ocorrer amanhã com outros recursos estratégicos do Sul Global: lítio, água, alimentos, dados. O método é o mesmo; muda apenas o objeto.


Ao recentrar a análise na energia e nos fluxos, o texto retira o debate do terreno moralista e o recoloca onde ele sempre esteve: na luta concreta pelo controle do excedente e pela capacidade de decidir o próprio destino. É nesse ponto que a soberania deixa de ser palavra de ordem e volta a ser problema material.

Direito, sanções e coerção sem guerra



Se a mutação do imperialismo deslocou o centro do poder para os fluxos, foi o direito que forneceu a arquitetura necessária para exercer essa dominação sem declarar guerra. Sanções, regimes de exceção, extraterritorialidade jurídica e dispositivos administrativos transformaram-se nos principais instrumentos de coerção internacional. Não se trata de uma anomalia do sistema, mas de sua forma normal de funcionamento no capitalismo contemporâneo.


A guerra clássica exige tanques, soldados, ocupação e custos políticos elevados. A coerção jurídica, ao contrário, opera de maneira contínua, fragmentada e, sobretudo, legalizada. Ela não suspende a ordem internacional; ela se apresenta como sua aplicação rigorosa. Esse é o ponto mais perigoso. A violência deixa de ser percebida como violência e passa a ser naturalizada como cumprimento da lei, defesa da ordem ou proteção da democracia.


No caso venezuelano, o uso sistemático de sanções ilustra com clareza esse mecanismo. Elas não funcionam apenas como punição pontual, mas como ambiente permanente de incerteza. Empresas deixam de operar não necessariamente porque foram diretamente proibidas, mas porque o risco jurídico se torna alto demais. Bancos se recusam a processar pagamentos, seguradoras abandonam contratos, transportadoras evitam rotas. O efeito é difuso, mas profundamente eficaz: o país passa a operar em condição de asfixia seletiva, mesmo quando nenhuma bomba cai.


Esse modelo de coerção tem uma vantagem estratégica central para o imperialismo: ele desresponsabiliza o agressor. Quando a economia sofre, a culpa é atribuída à má gestão interna; quando a produção cai, fala-se em ineficiência; quando a população enfrenta dificuldades, o discurso desloca a causa para o governo local. O agressor aparece como árbitro moral, não como parte ativa da violência. O direito, nesse contexto, funciona como máscara.


Outro elemento decisivo é a extraterritorialidade. As sanções não se aplicam apenas a cidadãos ou empresas do país que as impõe, mas a qualquer ator global que se relacione com o país-alvo. Trata-se de uma extensão prática da soberania imperial para além de suas fronteiras formais. Estados periféricos passam a ter suas decisões econômicas condicionadas por tribunais, agências e normas que não controlam e nas quais não têm poder real de influência.


Essa forma de coerção também cria um terreno fértil para a chamada “normalização”. Uma vez que o regime de sanções se prolonga no tempo, ele deixa de ser percebido como exceção e passa a ser tratado como dado estrutural. Negociações passam a ocorrer não para restaurar a soberania plena, mas para administrar a subordinação. Concede-se uma licença aqui, flexibiliza-se uma regra ali, sempre sob a lógica de que o centro detém o poder de autorizar o funcionamento mínimo do sistema.


É nesse ponto que a defesa da soberania venezuelana precisa ser inequívoca. Nenhum povo pode ser considerado livre se sua economia depende de autorizações externas para operar. Nenhum Estado é soberano se suas decisões estratégicas são constantemente anuladas por instrumentos jurídicos alheios. A coerção sem guerra não é menos violenta do que a guerra aberta; ela é apenas mais silenciosa e mais aceitável aos olhos de uma ordem internacional que prefere não se confrontar com seus próprios limites.


Ao expor o papel do direito como arma, o texto não rejeita a legalidade internacional. Ao contrário, ele denuncia sua captura seletiva. O problema não é a existência de normas, mas seu uso assimétrico como instrumento de dominação. Defender a Venezuela é, também, defender a necessidade de um direito internacional que não seja monopólio dos mais fortes.


Compreender essa dimensão jurídica da coerção é essencial para evitar armadilhas discursivas. Quando a violência se apresenta como legalidade, a crítica precisa ser ainda mais rigorosa. Não basta indignar-se; é preciso revelar o mecanismo. É isso que permite manter o debate no terreno estratégico e impedir que a dominação se consolide sob a aparência de normalidade.

O Sul Global diante da coerção: os riscos da normalização



Há um ponto em que a análise deixa de ser apenas descritiva e se torna normativa no sentido mais profundo da palavra: o que acontece quando a coerção imperial passa a ser aceita como parte natural da ordem internacional? É nesse ponto que o caso venezuelano ultrapassa suas fronteiras e se transforma em advertência direta ao Sul Global.


A normalização é a forma mais eficaz de vitória do imperialismo contemporâneo. Não porque elimina resistências de imediato, mas porque redefine o horizonte do possível. Quando sanções permanentes, tutelas jurídicas, condicionamentos econômicos e intervenções indiretas passam a ser tratadas como “realismo”, “pragmatismo” ou “necessidade”, a soberania deixa de ser princípio e passa a ser concessão. O que ontem era inadmissível torna-se hoje negociável.


Para o Sul Global, esse processo é particularmente perigoso porque se apresenta como escolha técnica, não política. Aceitar a coerção em nome da estabilidade, da previsibilidade dos mercados ou da “responsabilidade internacional” parece, à primeira vista, uma solução racional. Na prática, é a institucionalização da subordinação. Estados deixam de discutir se devem aceitar a tutela e passam a discutir apenas como administrá-la com menor custo imediato.


A Venezuela ocupa um lugar central nessa disputa justamente porque resiste a essa lógica. Mesmo sob pressão extrema, o país se recusa a transformar a exceção em regra e a coerção em normalidade. Essa resistência tem custos altos, e não há qualquer romantização possível aqui. Mas há um dado incontornável: se a coerção aplicada à Venezuela for plenamente normalizada, nenhum outro país do Sul Global estará a salvo.


O precedente é o verdadeiro campo de batalha. Quando a violação da soberania de um Estado é aceita sob justificativas morais, jurídicas ou humanitárias frágeis, cria-se um modelo replicável. Amanhã, o alvo pode ser outro recurso estratégico, outro governo incômodo, outra tentativa de reorganizar a base material da economia. A diferença estará apenas no discurso utilizado para legitimar a mesma operação.


É por isso que a defesa da Venezuela não pode ser reduzida a alinhamento ideológico ou solidariedade retórica. Trata-se de defesa estrutural. Defender a autodeterminação venezuelana é defender o direito de qualquer povo decidir sobre seus fluxos vitais sem ameaça permanente de punição externa. É afirmar que a estabilidade não pode ser comprada ao preço da soberania e que a “ordem” imposta pela coerção é, em última instância, uma forma de guerra.


O Sul Global enfrenta, hoje, um dilema histórico: aceitar a normalização da coerção como condição para sobreviver no sistema internacional ou reconstruir, ainda que com enormes dificuldades, formas de cooperação e resistência que preservem a autonomia dos Estados. Esse dilema não se resolve com discursos vazios nem com gestos simbólicos. Ele exige lucidez estratégica, leitura fria da correlação de forças e compromisso político com princípios que não podem ser negociados.


A Venezuela, nesse contexto, não é apenas vítima; é fronteira. O que se decide ali ecoará por toda a América Latina, pela África, pela Ásia e por qualquer região onde a soberania ainda seja vista como valor e não como obstáculo. Normalizar a coerção hoje é garantir sua ampliação amanhã. Resistir a essa normalização, mesmo de forma imperfeita e sob pressão, é manter aberta a possibilidade de um sistema internacional menos assimétrico.


É nesse terreno que a análise precisa se posicionar sem ambiguidade. Não há neutralidade possível quando o que está em jogo é o direito dos povos de existir politicamente. A história mostra que toda normalização da violência imperial começa com silêncio, pragmatismo excessivo e concessões “temporárias”. O preço, invariavelmente, é pago depois — e sempre pelos mesmos.

O papel do Brasil e o dilema da mediação soberana



O Brasil não observa a crise venezuelana de fora. Ele está implicado nela por geografia, história, economia e, sobretudo, por responsabilidade política. Em um cenário de coerção imperial crescente sobre o Sul Global, o Brasil ocupa uma posição singular: grande demais para ser ignorado, relevante demais para ser tratado como satélite e exposto demais para agir com ingenuidade. É exatamente por isso que o dilema brasileiro é tão complexo — e tão decisivo.


A tentação mais perigosa é confundir mediação com neutralidade. Não existe mediação soberana possível quando uma das partes opera pela coerção estrutural. Assumir uma postura “equidistante” diante de uma agressão dessa natureza não é prudência diplomática; é normalização da violência. Ao mesmo tempo, confrontação retórica vazia ou gestos performáticos não apenas são inúteis como podem agravar o isolamento e reduzir a capacidade real de influência. O desafio brasileiro é desarmar a crise sem legitimar o método que a produziu.


O Brasil carrega um capital político raro. Sua história recente, sua inserção internacional, sua credibilidade no Sul Global e sua capacidade de diálogo com diferentes polos fazem dele um ator capaz de elevar o custo da coerção sem recorrer à escalada. Esse capital, no entanto, só é útil se for empregado com clareza estratégica. Administrar a crise nos termos do agressor, ainda que com boas intenções, transforma o mediador em gestor do dano imperial. Essa é a armadilha central.


Uma mediação soberana exige critérios claros. O primeiro é a defesa explícita da autodeterminação venezuelana. Não se trata de apoiar governos específicos, mas de afirmar que nenhum rearranjo político é legítimo quando produzido sob ameaça, sanção ou chantagem jurídica permanente. O segundo critério é a recusa de qualquer “normalização” que transforme a coerção em condição permanente de governabilidade. O terceiro é a internacionalização do debate, retirando-o do eixo bilateral assimétrico e recolocando-o em fóruns onde a legalidade internacional possa, ao menos, ser disputada politicamente.


O Brasil também precisa reconhecer seus próprios riscos. Normalizar a coerção aplicada à Venezuela hoje é abrir precedente para que instrumentos semelhantes sejam mobilizados amanhã contra qualquer tentativa brasileira de ampliar soberania sobre energia, dados, infraestrutura ou política industrial. A defesa da Venezuela, portanto, não é altruísmo; é autodefesa estratégica.


Isso exige maturidade política. Não há espaço para voluntarismo, mas tampouco para submissão. O Brasil não pode se apresentar como salvador, mas também não pode aceitar o papel de administrador técnico de uma crise que nasce da violação do direito dos povos. Seu papel histórico, se quiser preservar relevância, é o de contenção soberana: reduzir a escalada, proteger princípios e impedir que a exceção se transforme em regra.


Ao assumir essa posição, o Brasil não desafia a ordem internacional; ele desafia sua deformação. Defender a Venezuela é defender a ideia de que estabilidade não pode ser construída sobre a negação da soberania. É afirmar que a paz não se alcança pela coerção silenciosa e que o desenvolvimento do Sul Global não pode ser permanentemente condicionado à vontade dos centros de poder.


O dilema está posto. Ceder à lógica da normalização é mais fácil no curto prazo, mas cobra um preço alto no futuro. Sustentar uma mediação soberana é mais difícil, exige paciência e enfrenta resistências, mas preserva algo essencial: a possibilidade de que o Brasil continue sendo sujeito da história, e não apenas gestor de crises alheias.

Conclusão — O que está realmente em jogo



A crise venezuelana não é um episódio isolado, nem um desvio trágico da normalidade internacional. Ela é um marco revelador. O que se desenha ali, de forma cada vez mais clara, é o funcionamento ordinário de uma ordem internacional que tolera a soberania apenas enquanto ela não interfere no controle dos fluxos vitais do capitalismo global. Quando interfere, a coerção entra em cena — primeiro jurídica, depois econômica, depois simbólica, sempre buscando evitar o custo político da guerra aberta.


O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro da Venezuela, nem a permanência de um governo específico. O que está em disputa é o direito dos povos do Sul Global de decidir sobre seus próprios recursos, seus circuitos econômicos e seu tempo político sem serem permanentemente ameaçados por sanções, tutelas e espetáculos punitivos. A Venezuela tornou-se visível porque resistiu. Outros países podem se tornar alvos amanhã pelo mesmo motivo.


A tentativa de normalizar a coerção como instrumento legítimo de governança internacional é o maior risco deste momento histórico. Quando a violência se apresenta como legalidade, quando a expropriação se disfarça de regulação e quando a tutela se vende como estabilidade, a soberania deixa de ser violada por choque e passa a ser corroída por hábito. Esse processo não acontece de um dia para o outro. Ele se consolida na repetição, no silêncio e na aceitação pragmática do inaceitável.


Defender a Venezuela, hoje, é recusar esse caminho. É afirmar que nenhum rearranjo político produzido sob ameaça pode ser considerado legítimo. É lembrar que estabilidade imposta pela coerção não é paz, e que ordem construída sobre a negação da autodeterminação é apenas uma forma sofisticada de dominação. Essa defesa não exige romantização nem cegueira. Exige método, lucidez e coragem política.


Para o Sul Global, o desafio é claro. Ou se aceita a normalização da coerção como preço de integração subordinada, ou se constrói, com todas as dificuldades, uma estratégia de resistência que preserve margens reais de autonomia. Não há atalhos fáceis. Mas há escolhas que definem o futuro. A história mostra que toda renúncia silenciosa à soberania cobra seu preço mais adiante — sempre maior, sempre mais difícil de reverter.


O Brasil, por sua posição e história, não pode fingir neutralidade diante desse processo. Sua responsabilidade não é administrar crises produzidas por outros, mas impedir que a exceção se torne regra. Defender a Venezuela é, nesse sentido, defender a si mesmo, defender o princípio de que os povos não existem para servir aos fluxos, mas que os fluxos devem servir aos povos.


O imperialismo do século XXI dispensa bandeiras hasteadas e ocupações explícitas. Ele prefere contratos, sanções, imagens e permissões condicionadas. Justamente por isso, enfrentá-lo exige algo mais difícil do que indignação: exige análise rigorosa, posicionamento claro e ação estratégica. É esse o desafio do nosso tempo. E é diante dele que a soberania deixa de ser palavra e volta a ser prática histórica.


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