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Da ALCA aos minerais críticos: Lula e os 21 anos de uma guerra invisível pela soberania do Brasil

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 17 horas
12 min de leitura

De 2005 a 2026, a disputa pela autonomia brasileira atravessou comércio, petróleo, justiça, tecnologia, dados e geopolítica, até chegar aos minerais críticos e à nova ofensiva dos Estados Unidos pelo controle estratégico do hemisfério.


A crise atual não começou com Trump e não cabe numa eleição. Da derrota política da ALCA à espionagem da Petrobras, da Lava Jato à ascensão da China e à disputa por dados, alimentos e minerais, o Brasil atravessou duas décadas de pressões, rupturas e escolhas soberanas. No centro dessa história está Lula e uma pergunta que nunca desapareceu: quem decide o lugar do Brasil no mundo?

2005, quando o Brasil começou a dizer não



Há muitos anos venho estudando guerra híbrida, operações psicológicas e as novas formas de disputa pelo poder. O tema atravessou minha tese de doutorado e boa parte do que escrevi desde então. Voltar a 2005 para este artigo, porém, me obrigou a desconfiar da explicação que eu próprio havia construído. Uma sequência histórica pode ser impressionante e ainda assim não provar causalidade. Duas crises podem acontecer ao mesmo tempo sem nascer da mesma decisão. Foi esse incômodo que orientou a pesquisa: procurar o ponto em que a documentação termina e a interpretação começa. O que encontrei não foi uma ordem secreta inaugurando uma guerra contra Lula. Foi algo mais sólido. Naquele momento, o Brasil começava a alterar sua posição relativa no sistema internacional.


Lula chegou ao Planalto em 2003 cercado pela expectativa de ruptura, mas governou os primeiros anos preservando compromissos macroeconômicos e mantendo interlocução intensa com Washington. A mudança mais importante ocorria na política externa. Mercosul, América do Sul, África, mundo árabe, China, Índia e novas coalizões comerciais passaram a ocupar espaço que antes era muito menor. Em janeiro de 2005, um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília registrou que alterar a “geografia do comércio” havia se tornado uma marca do governo e que algumas dessas parcerias carregavam objetivos geopolíticos. Não era ainda confronto. Era diversificação. E diversificar, para um país periférico, significa reduzir o preço político de depender de um único centro de poder.


A ALCA condensou esse conflito. O acordo deveria ter sido concluído em janeiro de 2005, mas o prazo morreu sem consenso. O próprio órgão de controle do Congresso americano registrou o impasse entre coalizões lideradas por Estados Unidos e Brasil em torno de agricultura, subsídios, serviços, investimentos, propriedade intelectual e compras governamentais. Brasília não abandonou formalmente a negociação. Em novembro, depois de Mar del Plata, Lula e George W. Bush ainda reafirmaram compromisso com o processo dentro do marco de Miami. O que se tornara inviável era a ALCA tal como havia sido concebida nos anos 1990. O Brasil aceitava integração, mas queria preservar espaço para política econômica, exigir abertura agrícola e construir alternativas. Autonomia, naquele contexto, não era hostilidade aos Estados Unidos. Era capacidade de negociar sem ficar encurralado.


No mesmo ano, o governo mergulhou na crise dos Correios e do mensalão. A coincidência entre o bloqueio político da ALCA e a explosão doméstica é sedutora, sobretudo quando se olha retrospectivamente para tudo o que viria depois. Eu mesmo trabalhei durante anos com essa hipótese. A documentação disponível, contudo, não permite afirmar que Washington produziu aquela crise como retaliação. A investigação parlamentar revelou interesses empresariais, conflitos partidários, corrupção e personagens ligados ao sistema brasileiro de inteligência. Há perguntas que permanecem abertas, mas não há prova pública suficiente para transformar simultaneidade em comando externo. O dado histórico que resiste é outro: a partir de 2005, o Brasil passou a exercer uma autonomia que seria testada em terrenos cada vez mais sensíveis. A questão já não era apenas comercial. A autonomia brasileira havia se tornado uma variável estratégica.


Quando autonomia deixou de significar apenas comércio


O pré-sal deu peso material a essa mudança. A descoberta de grandes reservas em águas profundas, seguida pelo anúncio de Tupi em 2007, colocou energia, tecnologia e capacidade estatal no centro da projeção brasileira. Em 2009, Brasil, Rússia, Índia e China realizaram a primeira cúpula do BRIC e defenderam maior participação das economias emergentes nas instituições internacionais. No ano seguinte, Lula e Recep Tayyip Erdoğan negociaram com o Irã a Declaração de Teerã sobre combustível nuclear. Washington rejeitou a solução e avançou com sanções no Conselho de Segurança. O episódio não rompeu a relação bilateral, mas revelou algo que já não cabia na velha imagem de um país apenas regional. Brasília começava a entrar em assuntos que as grandes potências tratavam como parte de sua esfera principal de decisão.


Em 2013, o conflito ganhou outra natureza. Os documentos de Edward Snowden mostraram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos havia espionado comunicações do governo brasileiro e incluído a Petrobras entre seus alvos. Pela primeira vez nessa trajetória, não se tratava de interpretar interesses ou comparar agendas. Havia uma ação de inteligência documentada contra o núcleo político e econômico do Estado brasileiro. Dilma Rousseff levou o caso à Assembleia Geral da ONU, cancelou a visita de Estado que faria a Washington e passou a defender mecanismos de proteção de comunicações e dados. O pré-sal havia colocado o petróleo no mapa estratégico; a NSA mostrou que informação também era poder. A soberania passava a depender não só da propriedade formal de recursos, mas da capacidade de proteger conhecimento, infraestrutura e decisões.


Em menos de uma década, o terreno mudara. Comércio, energia, diplomacia, finanças e inteligência já se cruzavam. A disputa pela autonomia deixava de ocorrer apenas nas fronteiras do Estado e começava a penetrar suas instituições.


A fronteira interna do poder


A Lava Jato encontrou corrupção real. Executivos, operadores e agentes públicos participaram de esquemas de propina, e grandes empresas admitiram crimes em diferentes países. Esse ponto não pode ser apagado. O problema está em imaginar que a existência do crime torna neutro todo método usado para investigá-lo. Entre 2014 e 2018, a operação acumulou prisões preventivas prolongadas, delações, vazamentos, exposição midiática e decisões com impacto direto sobre a política. É nesse conjunto que a categoria lawfare ganha densidade analítica: a lei continua sendo lei, os processos continuam existindo, mas sua aplicação produz efeitos de poder muito além da sentença. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula por incompetência da 13ª Vara de Curitiba e confirmou a suspeição de Sergio Moro no caso do triplex. O próprio STF registrou que o então juiz atuara com parcialidade. Isso não apaga os crimes revelados pela operação. Muda, porém, a maneira como se deve avaliar o mecanismo que reorganizou a política brasileira durante aqueles anos.


A dimensão internacional foi igualmente concreta. Em julho de 2017, Kenneth Blanco, chefe interino da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, descreveu a relação com os procuradores brasileiros como uma cooperação excepcional. Disse que o DOJ e a Lava Jato haviam cooperado e coordenado casos envolvendo Embraer, Rolls-Royce, Braskem e Odebrecht e explicou que a confiança entre os dois lados permitia comunicação direta entre procuradores e agentes sobre evidências, sem depender exclusivamente do tratado formal de assistência jurídica. Dois anos antes, procuradores americanos e agentes do FBI haviam ido a Curitiba para reuniões com a força-tarefa e advogados de colaboradores; o Ministério da Justiça soube da visita quando os encontros já estavam em andamento. Houve disputa jurídica sobre esses canais, e a Lava Jato sustentou que contatos preliminares eram legítimos e que provas usadas em juízo seguiriam os procedimentos formais. O fato central permanece: a operação brasileira estava inserida numa rede transnacional de investigação e punição conduzida também por instituições de uma potência estrangeira.


Essa rede alcançou empresas que carregavam tecnologia, emprego, engenharia e projeção internacional. Petrobras, Odebrecht e Braskem foram submetidas a acordos e penalidades em diferentes jurisdições. A Petrobras acertou mais de US$ 850 milhões para encerrar investigações relacionadas à legislação anticorrupção americana. No Brasil, a construção pesada entrou em colapso durante uma recessão devastadora, empresas encolheram ou perderam espaço externo e a estatal reduziu investimentos e vendeu ativos. Não é sério atribuir toda a recessão à Lava Jato; também não é sério fingir que o método empregado para punir corrupção não teve consequências econômicas. O Dieese estimou R$ 172,2 bilhões em investimentos que deixaram de ocorrer nos setores analisados e um potencial de 4,4 milhões de ocupações não geradas. É uma estimativa contrafactual, não uma contagem de demissões, mas dimensiona a escala da destruição de capacidade produtiva associada ao ciclo.


O efeito político foi ainda mais direto. Lula foi condenado, preso e impedido de disputar a eleição de 2018. Jair Bolsonaro venceu. Sergio Moro deixou a magistratura e aceitou ser ministro da Justiça do novo governo. Anos depois, o STF confirmou a parcialidade do juiz no processo que havia produzido a primeira condenação. No mesmo período, depois do impeachment de Dilma Rousseff, o Congresso alterou o regime do pré-sal e retirou da Petrobras a obrigação de ser operadora de todos os blocos com participação mínima de 30%. A sequência não prova que impeachment, Lava Jato e mudança regulatória tenham obedecido a uma única cadeia de comando. Os efeitos, porém, são materiais: o projeto político que havia fortalecido a Petrobras perdeu o governo, Lula ficou fora da eleição, a engenharia nacional saiu enfraquecida e a arquitetura do pré-sal mudou.


É por isso que reduzir a Lava Jato a uma investigação que “cometeu excessos” empobrece o problema. A categoria lawfare não exige imaginar uma sala secreta em Washington controlando cada decisão em Curitiba. Exige olhar para o resultado produzido quando justiça, mídia, cooperação internacional e poder econômico passam a operar sobre a mesma correlação de forças. Para os críticos que descrevem esse processo como um golpe contra capacidades do Estado brasileiro, o sentido está justamente aí: perda de instrumentos de decisão, produção, competição e projeção externa. A corrupção precisava ser combatida. A soberania também exige que esse combate não destrua aquilo que permite ao país governar o próprio futuro.


O paradoxo americano


A chegada de Bolsonaro ao Planalto parecia recolocar o Brasil dentro de uma órbita mais confortável para Washington. Em 2019, ele foi recebido por Trump, assinou o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas para Alcântara e o Brasil foi designado aliado preferencial extra-Otan. A aproximação tinha conteúdo militar, diplomático e ideológico. Mesmo assim, encontrou um limite material quando os Estados Unidos pressionaram Brasília para excluir a Huawei do 5G. A empresa chinesa já estava profundamente instalada nas redes nacionais, e a China ocupava uma posição grande demais no comércio para desaparecer por decisão política. O alinhamento tinha limites que a estrutura econômica impunha.


Com Joe Biden, o movimento se inverteu. Depois do ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio, Washington passou a observar com atenção as acusações de Bolsonaro contra as urnas brasileiras. A Reuters revelou que o diretor da CIA, William Burns, transmitiu em Brasília, em julho de 2021, a mensagem de que o presidente deveria parar de questionar o sistema eleitoral. Em 2022, o Departamento de Estado defendeu publicamente a confiabilidade das eleições brasileiras e o secretário de Defesa Lloyd Austin chegou ao país com uma mensagem explícita sobre respeito dos militares às autoridades civis e aos processos democráticos. Não há base para dizer que Biden “impediu o golpe” no Brasil. Há base para afirmar que seu governo decidiu deixar claro ao núcleo militar e político brasileiro que uma ruptura eleitoral não correspondia aos interesses americanos naquele momento.


Esse episódio impede uma leitura preguiçosa da história. Washington não é uma consciência única que atravessa administrações repetindo a mesma política. É um sistema de poder composto por governos, burocracias, empresas, Forças Armadas, agências, Congresso e interesses que nem sempre coincidem. Trump e Biden fizeram cálculos diferentes sobre o Brasil. A constante não é uma moral americana, favorável ou hostil a determinado presidente brasileiro. É a defesa de interesses em conjunturas distintas. Essa distinção se tornaria decisiva quando Trump voltasse à Casa Branca.


Quando a guerra deixa de ser invisível


O segundo governo Trump encontrou outro Brasil e outro mundo. A China já era o principal destino das exportações brasileiras, o BRICS havia se ampliado, o pré-sal transformara o país em grande produtor de petróleo e infraestrutura digital, pagamentos eletrônicos, inteligência artificial e minerais críticos haviam entrado no vocabulário da segurança nacional. Em 30 de julho de 2025, a Casa Branca declarou que determinadas ações do governo brasileiro constituíam uma ameaça “incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos e impôs tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros atingidos pela ordem. O texto americano ligou a medida ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro e seus apoiadores, a decisões dirigidas a plataformas de tecnologia e à política externa dos Estados Unidos. Pela primeira vez nessa trajetória, coerção econômica e conflito político brasileiro apareciam conectados no mesmo ato jurídico de Washington.


A pressão ganhou outra camada com a investigação da Seção 301. O USTR colocou sob exame comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, etanol, tarifas, política ambiental e o que chamou de interferência no combate à corrupção. Em julho de 2026, depois de classificar determinadas práticas brasileiras como prejudiciais ao comércio americano, aplicou tarifa adicional de 25% sobre certos produtos. A lista mostra quanto o objeto havia mudado desde 2005. A ALCA discutia mercados, investimentos, serviços e propriedade intelectual. Duas décadas depois, entram no mesmo campo de disputa plataformas, meios de pagamento, dados, regulação digital e cadeias tecnológicas. A economia passou a carregar infraestrutura política dentro dela.


A Estratégia de Segurança Nacional publicada em novembro de 2025 tornou o movimento ainda mais explícito. O documento apresenta um “Trump Corollary” à Doutrina Monroe e declara a intenção de restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental. A estratégia afirma que os Estados Unidos pretendem impedir competidores extra-hemisféricos de controlar ativos considerados vitais, preservar acesso a geografias estratégicas e usar seu peso econômico, financeiro, tecnológico e militar para proteger interesses nacionais. Também fala em estimular governos, partidos e movimentos alinhados às prioridades americanas. Não é a interpretação de um crítico de Washington. É a linguagem oficial de uma potência definindo o hemisfério como espaço prioritário de competição.


Em 2026, essa doutrina começou a ganhar corpo militar e político. O SOUTHCOM passou a apresentar entre seus imperativos o fortalecimento do comando e controle hemisférico e a proteção de “terreno estratégico-chave”, enquanto a nova Joint Task Force Western Hemisphere ampliou operações na região. O Shield of the Americas reuniu governos latino-americanos em torno de segurança, cartéis, cooperação política e econômica sob liderança americana; Brasil e México ficaram fora. Nada disso autoriza dizer que uma invasão do Brasil esteja sendo preparada. Seria propaganda travestida de análise. O que os documentos permitem afirmar é suficientemente grave: Washington recolocou o hemisfério no centro de sua estratégia, identifica infraestrutura e ativos críticos como objetos de segurança e assume que a competição com potências externas deve ser administrada também dentro da América Latina.


A comparação com a ALCA termina aí. Não existe uma “ALCA 2.0”. O instrumento dos anos 1990 era uma arquitetura comercial criada no auge da globalização liberal. A arquitetura que surge agora é mais ampla e mais dura porque nasce de um mundo de competição entre grandes potências. Comércio continua importando, mas divide espaço com tecnologia, finanças, sanções, inteligência, defesa, infraestrutura e cadeias de suprimento. Em 2005 era preciso reconstruir o conflito a partir de negociações, telegramas e movimentos diplomáticos. Em 2026, parte da lógica está escrita nos próprios documentos de Washington.


A guerra pelos fluxos


Essa mudança fica mais nítida quando se olha para a China. Em agosto de 2026, 25,2% das exportações brasileiras tiveram o mercado chinês como destino; os Estados Unidos responderam por 9,6%. No agronegócio, a distância é ainda maior: em 2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos brasileiros, 32,7% das exportações do setor, contra US$ 11,4 bilhões enviados aos Estados Unidos. Pequim não aparece aqui como alternativa benevolente a Washington. É uma grande potência, com empresas, Estado e interesses próprios. O que sua presença produz é margem de escolha. Um país com vários mercados e fontes de capital negocia de maneira diferente de outro preso a um único centro. Foi esse espaço que a diversificação iniciada no primeiro governo Lula tentou ampliar e que hoje está inscrito na própria estrutura da economia brasileira.


A dependência, entretanto, não desapareceu; mudou de forma. O governo brasileiro reconheceu em 2026 que parcela majoritária do processamento de dados da economia ocorre fora do país. O Redata, sancionado em setembro, criou incentivos para instalação de data centers e contrapartidas em pesquisa, desenvolvimento e oferta ao mercado interno, associando a política a nuvem, inteligência artificial e soberania digital. O problema é simples de enunciar e difícil de resolver. Dados circulam por infraestruturas privadas, redes globais, plataformas e serviços que concentram capacidade de processamento em poucos atores. Henry Farrell e Abraham Newman chamaram de weaponized interdependence o poder que surge quando Estados controlam nós centrais dessas redes e conseguem usá-los para observar fluxos ou impor bloqueios. A espionagem da NSA, as sanções financeiras, a pressão sobre plataformas e a disputa por meios de pagamento pertencem a arenas diferentes, mas compartilham uma característica: dependência também é uma relação de poder.


Os minerais críticos trazem essa discussão de volta ao chão. Em setembro de 2026, o Brasil sancionou uma política nacional que subordina o setor aos princípios da soberania e do interesse público, cria mecanismos de análise sobre controle estrangeiro e busca ampliar pesquisa, beneficiamento, transformação e industrialização dentro do país. Baterias, semicondutores, satélites, radares, sistemas de defesa, armazenamento de energia e inteligência artificial dependem de cadeias minerais que as grandes potências passaram a tratar como assunto de segurança. Ter a reserva é apenas o primeiro degrau. Se o minério sai bruto e volta incorporado a tecnologias que o país não domina, a riqueza geológica convive com dependência industrial. A soberania está menos na posse abstrata do recurso do que na capacidade de decidir o que fazer com ele.


É nesse ponto que os vinte e um anos se fecham. Em 2005, Lula estava na Presidência quando o Brasil resistiu às condições da ALCA e ampliou relações com outros polos. Em 2026, volta a ocupar o cargo quando tarifas americanas, competição com a China, dados e minerais críticos colocam a autonomia novamente no centro da política externa. Isso não transforma Lula na causa da história nem prova uma operação contínua contra ele. Sua trajetória funciona como fio para enxergar um conflito maior, que atravessa governos e muda de instrumento conforme muda a economia mundial. O poder contemporâneo passa por petróleo, alimentos, finanças, cabos, nuvens, plataformas, portos, semicondutores e minerais. Controlar esses fluxos significa influenciar o espaço dentro do qual outros Estados podem escolher.


O Brasil pode negociar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Délhi ou qualquer outro centro de poder. Trocar uma dependência por outra não produz soberania. Vinte e um anos depois da ALCA, a pergunta continua sendo a mesma, só que agora atravessa quase tudo o que sustenta uma sociedade moderna.


A questão já não é se o Brasil escolherá entre Washington e Pequim. É se continuará tendo força para escolher.


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