Deus, Pátria e Autoritarismo: A Nova Face da Direita Latino-Americana
- Luís Delcides

- há 15 minutos
- 3 min de leitura

A América Latina acaba de dar um passo perigoso. As vitórias de Keiko Fujimori, no Peru e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, não são meras alternâncias de poder — são a consolidação de uma onda conservadora que traveste autoritarismo de promessa de ordem e disfarça intolerância de fé. E o pior: fazem isso com a bênção das igrejas e o aplauso dos quartéis.
Por Luis Delcides - Advogado e jornalista
Espriella não esconde suas intenções. Prometeu aos militares colombianos restaurar a honra "roubada" pelo governo de esquerda — como se a honra das Forças Armadas residisse na repressão, e não na proteção da cidadania. Grupos evangélicos, num delírio teológico-político, comparam-no a Ciro, o Grande, o "ungido" de Deus que libertou os judeus do cativeiro.
A mensagem é clara: Espriella se vê como um salvador enviado por Deus para livrar a Colômbia do "mal" progressista. E, como todo salvador, ele não admite questionamentos.
Esse discurso não é apenas populista — é uma arma. Fala-se em "guerra espiritual" contra a política, mas o que se faz, na prática, é guerra contra o dissenso. A extrema-direita, com sua retórica rasteira e emocional, explora o medo e a ignorância das camadas mais humildes: promete o fim do comunismo, denuncia inimigos ocultos, exalta a meritocracia. Coisas simples, diretas, que não exigem leitura nem reflexão. Apenas adesão.
O resultado é uma democracia esvaziada, onde o adversário político deixa de ser um oponente legítimo para se tornar um inimigo a ser aniquilado. A promessa de "mão firme" contra a insegurança e a restauração da "honra" militar são o prelúdio de um modelo que já conhecemos bem: o da militarização da vida pública, da violência estatal como política de governo e da supressão de direitos em nome da "ordem".
E não nos enganemos: essa ordem tem nome e sobrenome. É a ordem do capital, da exploração mineral desenfreada, do alinhamento subserviente aos Estados Unidos e do retrocesso ambiental. É a ordem que transforma a Amazônia em zona de saque e os povos indígenas em obstáculos a serem removidos.
Importar o modelo de segurança de El Salvador — com suas megaprisões e mão de ferro — para a Colômbia é uma receita para o desastre. Um país com a complexidade histórica e social da Colômbia não pode ser tratado como um campo de batalha. A violência não se resolve com mais violência. A desigualdade não se resolve com discurso de ordem. E a pobreza não se resolve com promessas vazias de meritocracia.
É profundamente preocupante ter Fujimori e Espriella no comando de dois países estratégicos para a região. Ambos carregam o peso de um passado autoritário — um, herdado do pai que dissolveu o Congresso e governou com mãos de ferro; outro, construído sobre uma retórica militarista que flerta com o caudilhismo. Juntos, representam um retrocesso civilizatório.
A resposta da sociedade civil e dos movimentos sociais será decisiva. Se calarem, a democracia será devorada pelo próprio discurso que diz defender. Se resistirem, ainda haverá esperança.
O futuro da América Latina não será decidido nos palácios presidenciais, mas nas ruas, nas comunidades, nas igrejas que optarem pela fé que acolhe, e não pela que condena; nas instituições que resistirem à cooptação; e na consciência de um povo que se recusa a trocar liberdade por promessas de ordem.
Porque ordem sem justiça é tirania. E fé sem humanidade é fanatismo.




Comentários