Guerra espiritual, negócio eleitoral
- Luís Delcides

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Por Luis Delcides - Advogado e Jornalista
Tem louvor, leitura da bíblia, oração. Ao mesmo tempo, há uma retórica bélico-religiosa com uma práxis de alavancagem político-financeira das casas da fé.
Num primeiro momento, precisei pedir ajuda da Inteligência artificial para pensar melhor na dinâmica de um texto. Logo, quando o seu Flávio Bolsonaro, ou vulgo TARIFLÁVIO, vem com o papinho da Gu3rr4 Espiritual – sim, é papinho, irmãos! Nem vem que não tem, moços de d’us! – lembrei de tantas canções entoadas na igreja e de “Santa fé” do irmão Moraes Moreira:
Bam bam bam ba bateu
Bateu meu coração
Minha cabeça enlouqueceu
Tam tam também tocou
Falou pro nosso amor
Falou e desapareceu
E Deus?
Deus e o Diabo na Terra
Sem guarda-chuva, sem bandeira, bem ou mal
Ninguém destrói essa guerra
Plantando brisa e colhendo vendaval
Não sou nenhum São Tomé
No que eu não vejo, eu ainda levo fé
Eu quero a felicidade
Mas a tristeza anda pegando no meu pé
Então, TARIFLÁVIO, dedico essa música a você e eu a parafraseio para ti, Flávio: É “bam bam bam bateu, bateu meu coração e sua cabeça enlouqueceu, Flávio Bolsonaro” – P.S: Meu vizinho-pastor, no momento em que escrevo este texto deve estar em posição genuflexa e rezando para o seu vizinho da esquerda parar de escrever.
Logo, não vou parar! Nem a Duquesa, minha cachorra SRD, vai me impedir de parar de escrever. Assim, essa aproximação de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes ao palco da Marcha para Jesus – Jesus tá bem distante daquilo, certo? – vem com essa lógica de “Gu3err4 Espiritual”. No entanto, não é nada disso!
Há uma transformação de eventos religiosos em plataformas de manipulação política. No meio das canções, apresentações, orações e leituras de pai-nosso e “Se Deus é por nós, quem será contra nós” há um proselitismo religioso escancarado e utilizado como moeda de troca pelos magnatas da fé.
Ao mesmo tempo há um projeto de poder operacionalizado por esses empreendedores da fé. O objetivo dessa gente não é apenas salvar almas, é desestabilizar o campo democrático-progressista. Trazendo a ideia de Félix Guatarri, em “Caosmose”: tratam-se de Agenciamentos Territorializados de Enunciação ao cristalizar fliiação, aliança e registros conectados à vida social e ao mundo externo.
Há um “fundamentalismo de mercado” e ao mesmo tempo um sequestro do sagrado. As igrejas estão lotadas de gente jovem se convertendo, batizando. No entanto, muitos desses jovens mal pegaram na bíblia para ler e se lê, não compreendem os textos bíblicos. Aliás, será que compreenderiam uma escrita tão sofisticada e complexa como as duas cartas do Apóstolo São Paulo aos Coríntios?
É óbvio que não. Aliás, há uma “guerra cultural” em curso e, ao mesmo tempo, uma fé instrumentalizada para condicionar pessoas a olhar com preconceito as ideias e teorias marxistas, as questões ligadas a democracia – justiça, política, questões administrativas – movidas por uma ruptura institucional e um discurso “anti-sistema”.
Assim, o fundamentalismo religioso é bastante perigoso para o campo democrático! Ao capturar o Estado, três pilares são derrubados: a laicidade (a imposição de uma moral religiosa a toda a sociedade), o pluralismo (ao tratar dissenso como possessão demoníaca – o fim do pensamento crítico) e a racionalidade do debate público (substituição de fatos por profecias).
Ou seja, para o campo progressista, é partir para o enfrentamento da teocracia e, ao mesmo tempo, esta nega a ideia de convivência democrática. Embora o adversário tenha o direito de existir, há uma falsa ideia de espiritualidade por parte da extrema-direita, principalmente ao combater agressivamente as argumentações do campo democrático.
Importante observar as frases relacionadas ao medo: “Inimigo espiritual”, “Não se pode aceitar, precisamos combater”, “Você é um porta-voz de demônios”, “Sua liberdade é desobediência a Deus”. Por isso que não dá mais para emitir a opinião rasa de “Isso é coisa de gente simples! “Não, trata-se de um projeto articulado, onde pessoas são usadas e instrumentalizadas para formação de novos guerreiros.
Por isso a necessidade de defender o estado laico como valor democrático, principalmente o respeito e defesa de todos os credos religiosos. Ao mesmo tempo, é necessário mostrar a diferença entre “Guerra espiritual” e a omissão aos escândalos financeiros, milícias digitais e uso de laranjas para esconder condenações judiciais como as de Estevam Hernandes, Silas Malafaia e tantos outros espalhados pelo Brasil.
Assim, a esquerda precisa aprender a fazer a crítica cultural da fé. É incabível ver o campo democrático progressista cair no anticlericalismo raso. Caso tropece neste distanciamento religioso, perderá votos e o monopólio da ideia de futuro. Afinal, no Brasil, o futuro tem nome de santo, endereço de pastor e senha de pix.




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