Jornali$mo de apo$ta$
- Luís Delcides

- há 2 horas
- 3 min de leitura

Conhecido como o “casino journalism” o novo “Quarto poder” se configura entre as interferências do mercado financeiro e as apostas esportivas (BETs). Será possível acreditar em um jornalismo hegemônico financeirizado?
Pra tratar de “um novo quarto poder” lembrei de duas histórias marcantes: Um trecho da fala do Ed Rene Kivitz, preocupado com o avanço das Bets no Brasil e o número de pessoas que não conseguiam contribuir com a igreja por estarem endividadas e o motorista de Uber dizendo ser bem informado escutando uma única fonte noticiosa.
A pergunta central deste texto é: É possível acreditar em uma mídia patrocinada por bets e mercado financeiro?

Ao começar a responder à pergunta, é preciso trazer a profundidade da ligação entre as mídias, bets e mercado financeiro no Brasil. Há uma triplica conexão: Financeirização, Conteúdo e influência comportamental. Nunca foi tão tênue a linha entre investir, apostar e consumir notícias.
Os veículos de comunicação, preocupados com a perda de patrocinadores, resolvem firmar parcerias milionárias com plataformas de mercados de previsão e de apostas esportivas, ou seja, transformar palpites em produto jornalístico e em pista do mercado em ativos financeiros.
Ao trazer as palavras do Prof. Ladislau Dowbor: “...a economia real sugada pela financeirização planetária”. Ou seja, as empresas do setor financeiro passaram investir em empresas do setor produtivo, ao representar mais um passo de um domínio e permissivo para a complementação da forma tradicional da mais-valia para processos mais sofisticados, baseados na financeirização dominante.
Assim, o noticiário econômico participa dos interesses dos agentes econômicos e torna-se porta-voz do capital financeiro. Desse modo, empresas de mídia e agentes econômicos unificam na mesma tessitura vocal com o objetivo de construir uma visão específica sobre a realidade.
No mesmo sentido, é preciso trazer a luz do presente texto a popularização dos mercados de previsão (Prediction markets). Um exemplo claro são os aplicativos Polymarket e Kalshi, que funcionam como bolsas de valores para eventos do mundo real, onde se compra e vende “contratos” baseados no resultado de acontecimentos futuros.
Sim, o próprio nome diz: acontecimentos futuros. Veja o cenário eleitoral do presente ano! É possível apostar ou “investir” no possível vencedor da próxima eleição ou se o FED (Federal Reserve) vai subir os juros ou em alguns palpites relacionados aos detalhes geopolíticos.
Um exemplo é a utilização das plataformas de previsão pelos jornalistas. Um apostador ganhou mais de US$ 400 mil dólares ao apostar na deposição do presidente Nicolas Maduro, poucas horas antes da operação militar no Polymarket. Ou seja, para Chris Murphy, senador democrata pelo Estado de Conneicticut, há um mundo distópico onde cada crise e evento tornam-se meras mercadorias.
Isso apenas reforça a presença massiva dos mercados de previsão na cobertura jornalística – tanto como fonte e assunto. É assustador saber que a CNN e CNBC fecharam acordos com a Kalshi , cujas as previsões atualizadas sobre eventos que podem mudar o cenário mundial agora aparecem na televisão e no ar.
Sem contar as parcerias entre mídias e bets. Afinal, emissoras como Band tem Bet, Record tem bet, ESPN, The Ringer e Basrtool Sports fecharam contratos milionários com FanDuel e DraftKings. Contudo, trata-se de quadros patrocinados e promoção de apostas no conteúdo editorial.
Logo, é impossível acreditar em uma mídia patrocinada por bets e mercado financeiro. Há possibilidade dos jornalistas evitarem pautas negativas, viés editorial – pressão para promover odds, tipos específicos com o intuito de forçar análises substanciais sobre políticas públicas ou táticas dos times.
Portanto, o risco de manipulação é muito grande. Alguns especialistas chamam de “casino journalism”. Logo, é preciso banir as apostas em mercados de previsão do jornalismo. Tratar o jornalismo como um cassino é destruir o jornalismo e corrói a as estruturas democráticas, principalmente pela liberdade de imprensa ser um direito fundamental positvado em nossa Constituição Federal.





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