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Não se enganem, o Brasil já está sob cerco militar dos EUA

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 15 minutos
13 min de leitura

Sob o novo Corolário Trump à Doutrina Monroe, Washington expande sua presença militar na América Latina e constrói uma estrutura de coerção que ameaça a soberania e a democracia brasileiras.


O cerco militar ao Brasil já é uma realidade estratégica. Por meio do SOUTHCOM, de exercícios multinacionais, acordos militares, operações cibernéticas e alianças regionais, Washington amplia sua capacidade de intervenção no continente. Sob o pretexto do combate ao narcoterrorismo, cria instrumentos de pressão sobre o Brasil, enquanto o próprio Itamaraty alerta para o risco de ações militares em território nacional. O cerco não começa com a primeira bomba, mas com a construção das condições para submeter uma nação pela força.

O alerta que veio do próprio Estado brasileiro



Em 1º de julho de 2026, o Itamaraty advertiu oficialmente a Câmara dos Deputados sobre o risco de emprego da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro. O alerta, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, veio após Washington classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Não anunciava uma invasão. Reconhecia que uma decisão unilateral de outra potência poderia fornecer justificativa para uma intervenção contra a soberania nacional.


O alerta adquire outra dimensão quando confrontado com a movimentação norte-americana no continente. Os Estados Unidos expandem acordos de acesso militar, exercícios, inteligência e infraestrutura logística. Sua Estratégia Nacional de Defesa de 2026 admite agir unilateralmente contra organizações classificadas como narcoterroristas. A convergência desses instrumentos aumenta a capacidade de Washington de operar e exercer pressão sobre países da região.


O cerco, aqui, não significa tropas estacionadas diante de cada fronteira brasileira. Significa a articulação de vigilância, mobilidade, comando e meios de intervenção no entorno do país, associada a instrumentos jurídicos que alcançam organizações sediadas em nosso território. A ausência de ultimato não elimina as condições materiais para uma ação coercitiva.


Em 23 de janeiro de 2026, Washington publicou sua nova Estratégia Nacional de Defesa, estabelecendo como prioridade restaurar a predominância militar dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, assegurar acesso a posições geográficas estratégicas e impedir que potências concorrentes consolidem capacidades na região. O governo Trump deu a essa orientação um nome oficial, Corolário Trump à Doutrina Monroe, recuperando uma tradição de supremacia hemisférica que, desde o século XIX, serviu de fundamento político para sucessivas intervenções norte-americanas na América Latina.


O Pentágono afirma que oferecerá ao presidente opções militares contra organizações classificadas como narcoterroristas, onde quer que estejam, e poderá agir quando governos regionais não corresponderem às prioridades de Washington. É uma reivindicação de poder sobre Estados soberanos. Ao reservar a ação unilateral como alternativa à cooperação, a doutrina transforma a assimetria política em possibilidade concreta de emprego da força.


O Comando Sul dos Estados Unidos, o SOUTHCOM, já organiza suas operações sob essa orientação. Em março, seu comandante, general Francis Donovan, apresentou ao Congresso uma estratégia de fortalecimento do comando e controle hemisférico, integração de forças, combate a organizações terroristas designadas e garantia de posições estratégicas. A justificativa oficial é proteger a segurança norte-americana e conter adversários, especialmente num ambiente de competição com outras potências. Na prática, o resultado é a ampliação da capacidade de Washington de condicionar decisões políticas e militares além de suas fronteiras. Para compreender o alcance dessa mudança sobre o Brasil, é necessário examinar onde essa estrutura está sendo instalada, quais governos lhe oferecem acesso e que capacidades operacionais ela já concentra.


No Panamá, a expansão militar norte-americana pode ser identificada pelas instalações e pelos investimentos. O SOUTHCOM confirmou presença rotativa no aeroporto Panamá Pacífico, na Base Naval Noel Rodríguez e na Base Aeronaval Cristóbal Colón, onde está sendo construída infraestrutura para apoiar operações e treinamento em selva. No Caribe, Guantánamo permanece como instalação avançada de projeção de forças. Em El Salvador, Comalapa facilita o deslocamento de meios militares pela região. Em Honduras, a força-tarefa norte-americana instalada em Soto Cano mantém capacidade de resposta rápida. São posições distintas, mas integradas a uma estrutura de comando que permite movimentar pessoal, equipamentos e informações por diferentes pontos do continente.


Na fronteira norte brasileira, a aproximação militar entre Washington e Georgetown ganhou novo alcance em 21 de outubro, quando Estados Unidos e Guiana assinaram uma declaração para ampliar treinamento multidomínio, exercícios conjuntos e vigilância aérea. Na Colômbia, o SOUTHCOM mantém uma célula de integração de inteligência em Bogotá, apoiada por capacidades norte-americanas de reconhecimento aéreo. No Equador, a cooperação ultrapassou o intercâmbio de informações. Em março, forças dos dois países iniciaram operações militares conjuntas contra organizações classificadas como narcoterroristas. A presença norte-americana vai do compartilhamento de inteligência à participação operacional.


Na vertente amazônica do Pacífico, o Peru autorizou a entrada de militares norte-americanos armados durante 2026 para atividades de treinamento com suas Forças Armadas e instituições policiais. Em setembro, recebeu militares dos Estados Unidos, Chile e Argentina para treinamento combinado em ambiente de selva. No interior do continente, o Paraguai aprovou, pela Lei 7.630, um acordo que estabelece condições para a presença temporária de pessoal militar norte-americano, com facilidades de circulação, acesso a instalações acordadas, telecomunicações próprias e prerrogativas jurisdicionais. A aprovação legislativa está comprovada, embora a entrada em vigor internacional dependa dos procedimentos diplomáticos previstos no instrumento.


O movimento também alcança o Cone Sul e o Atlântico Sul. Em 2026, a Quarta Frota norte-americana mobilizou o porta-aviões USS Nimitz e o destróier USS Gridley numa circunavegação da América do Sul, com atividades militares junto a forças navais da região, inclusive brasileiras. A operação demonstrou alcance aeronaval e capacidade de manter uma presença militar expressiva em águas sul-americanas.


Esses pontos de acesso não são todos bases permanentes, nem a participação dos governos vizinhos comprova intenção de agir contra o Brasil. Sua relevância está na soma das capacidades. Instalações, logística, inteligência, comunicações e mobilidade naval reduzem os obstáculos à concentração e à sustentação de forças. Essa rede fornece substância material à hipótese de um cerco estratégico, ainda que não exista ordem pública de ataque ao país.


A infraestrutura militar distribuída pelo continente adquire eficácia quando essas forças são preparadas para atuar conjuntamente. É o que os estrategistas militares chamam de interoperabilidade, a capacidade de integrar tropas, armamentos, inteligência, comunicações, logística e decisões operacionais de países diferentes numa estrutura coordenada. Não se trata apenas de aprender a combater lado a lado. Trata-se de desenvolver procedimentos que permitam mobilizar forças multinacionais com maior rapidez, eficiência e conhecimento recíproco de suas capacidades.


No PANAMAX 2026, realizado em agosto sob patrocínio do SOUTHCOM, militares e agentes de segurança de 19 países participaram de exercícios envolvendo operações terrestres, aéreas, navais, forças especiais e defesa cibernética. O treinamento incluiu planejamento multinacional de comando e controle, operações anfíbias, incursões simuladas e resposta a ameaças contra infraestruturas estratégicas. Mais de 80 especialistas de 11 países participaram das atividades cibernéticas, com compartilhamento de conhecimentos sobre táticas ofensivas e defensivas. O Brasil integrou o componente de planejamento aéreo. A operação demonstrou como forças nacionais distintas podem ser articuladas para executar missões complexas sob uma coordenação multinacional.


Em setembro, a UNITAS 2026 reuniu forças de 24 países no Peru, com operações marítimas, fluviais, anfíbias e cibernéticas, inclusive em ambientes amazônicos. No mesmo mês, o Southern Vanguard treinou aproximadamente 400 militares em operações de selva, mobilidade, sobrevivência e combate combinado. Em ambos os casos, a interoperabilidade foi apresentada oficialmente como objetivo central. O resultado concreto é a formação de conhecimentos operacionais compartilhados, inclusive em ambientes geográficos fundamentais para a defesa sul-americana.


A interoperabilidade pode fortalecer a defesa nacional e, simultaneamente, criar dependências quando uma potência concentra sistemas de comando, inteligência, tecnologia e logística. Participar desses exercícios não transforma automaticamente um país em instrumento de Washington. Mas os padrões comuns ampliam suas opções de coordenação multinacional. A questão seguinte é quem define os alvos e quais instrumentos jurídicos autorizam o emprego dessa força.


A transformação do narcotráfico em questão de segurança militar hemisférica aumenta os riscos para o Brasil. Em 5 de junho de 2026, entrou em vigor a decisão do Departamento de Estado norte-americano de classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A medida não pode ser compreendida apenas como instrumento de combate ao crime. Ela incorpora organizações que atuam em território brasileiro a uma política de contraterrorismo na qual Washington já admite o emprego unilateral da força militar. A escolha da categoria jurídica modifica os instrumentos disponíveis para enfrentar o problema e amplia as possibilidades de pressão internacional sobre o Estado brasileiro.


A Lei Antiterrorismo brasileira, de 2016, estabelece requisitos específicos para a caracterização desse crime. Em março de 2026, o Brasil aprovou a Lei 15.358, que endureceu o enfrentamento às organizações criminosas ultraviolentas e criou mecanismos de investigação, punição e recuperação de patrimônio ilícito. Em outubro, órgãos federais já utilizavam essa legislação para buscar judicialmente o confisco de bens vinculados ao PCC e ao Comando Vermelho. Portanto, a divergência com Washington não decorre da inexistência de instrumentos nacionais contra o crime organizado. O que está em disputa é quem possui autoridade para definir a ameaça e decidir os meios legítimos de combatê-la.


Essa disputa adquiriu dimensão operacional com a Coalizão das Américas contra os Cartéis, a A3C. Em agosto, representantes de 19 países reuniram-se no Panamá para definir responsabilidades, estabelecer grupos de trabalho e desenvolver um plano de campanha multinacional sob liderança norte-americana. Em setembro, o Escudo das Américas avançou sobre o terreno diplomático. Estados Unidos e outros 14 governos incluíram PCC e Comando Vermelho entre 24 organizações visadas por medidas coordenadas, sem a participação brasileira. A declaração também propôs consultas no âmbito do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o TIAR, para examinar possibilidades de ação coletiva.


Nenhuma dessas decisões autoriza, por si, uma incursão estrangeira no Brasil. Mas Washington reúne uma designação jurídica de organizações brasileiras, parceiros mobilizados em torno dela e estruturas militares destinadas a combater grupos assim classificados. Uma responsabilidade legítima dos Estados, a repressão ao crime organizado, passa a operar também dentro de uma arquitetura de segurança definida principalmente pelos Estados Unidos. O precedente regional demonstra por que essa concentração de instrumentos merece atenção.


Em 3 de janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos bombardearam instalações militares venezuelanas, entraram em Caracas e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, numa operação preparada durante meses. Segundo o Pentágono, mais de 150 aeronaves foram mobilizadas a partir de vinte bases terrestres e navais no Hemisfério Ocidental. Caças, bombardeiros, helicópteros, plataformas de vigilância e forças especiais demonstraram, em território sul-americano, o alcance da estrutura operacional norte-americana.


A gravidade desse precedente ultrapassa qualquer julgamento sobre o governo venezuelano. Uma potência estrangeira empregou força militar para sequestrar o chefe de Estado de outro país, subordinando sua soberania a uma decisão tomada em Washington. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos considerou a intervenção uma violação da Carta da ONU. O que estava em discussão não era a legitimidade política de Maduro, mas a integridade de um princípio indispensável à autodeterminação dos povos latino-americanos.


No Caribe e no Pacífico, ataques norte-americanos contra embarcações acusadas de narcotráfico já vinham produzindo mortes desde setembro de 2025. Levantamentos independentes registravam dezenas de operações e centenas de vítimas até outubro de 2026, embora os totais variem conforme os critérios de contagem. Organizações de direitos humanos questionam a legalidade dos ataques e a ausência de garantias judiciais.


A operação venezuelana demonstrou capacidade de concentrar forças, superar defesas e agir militarmente contra alvos definidos em Washington. Isso não prova um plano equivalente contra Brasília. Torna, porém, o risco de emprego da força uma questão estratégica concreta, que deve ser examinada junto aos instrumentos de inteligência e tecnologia envolvidos nessas operações.


Essa capacidade de intervenção depende também de inteligência, vigilância espacial, operações cibernéticas e instrumentos de influência sobre a informação. Em seu depoimento ao Congresso, em março de 2026, o SOUTHCOM descreveu a atuação da Joint Interagency Task Force South na integração de informações aéreas e marítimas para identificação de alvos em portos, pistas clandestinas e rotas de distribuição. Confirmou também a existência de uma célula de inteligência em Bogotá, alimentada por recursos norte-americanos de vigilância e reconhecimento. Esses mecanismos permitem transformar informações dispersas em conhecimento operacional e orientar o emprego da força.


Em fevereiro, a Space Forces Southern buscou integrar radares comerciais à vigilância espacial hemisférica. Em agosto, Donald Trump assinou um memorando presidencial estabelecendo um programa para autorizar empresas selecionadas a executar operações de vigilância e intervenção cibernética contra organizações criminosas estrangeiras envolvidas em delitos digitais contra interesses norte-americanos, sob direção federal. O documento prevê capacidades de acesso a sistemas, coleta de informações e produção de efeitos sobre redes e dados. Não há comprovação pública de sua utilização contra infraestruturas brasileiras. O fato relevante é a incorporação formal de capacidades empresariais ao aparato estatal de operações cibernéticas.


Em documento oficial atualizado em fevereiro de 2021, o SOUTHCOM reconheceu realizar operações militares de influência sobre públicos estrangeiros em diversos países, incluindo expressamente o Brasil. Televisão, rádio, mensagens, redes sociais e plataformas digitais apareciam entre os instrumentos utilizados. O registro não demonstra uma campanha atual contra a democracia brasileira, mas comprova que o país já esteve incluído no alcance declarado dessas operações.


Poder militar e poder tecnológico já não podem ser analisados separadamente. Sensores, processamento de dados, infraestrutura digital e inteligência permitem antecipar movimentos, mapear vulnerabilidades e influenciar ambientes de decisão. Para o Brasil, defender a soberania exige capacidade própria de reconhecer ameaças e proteger redes essenciais sem depender exclusivamente de sistemas controlados por uma potência com interesses potencialmente conflitantes.


As vulnerabilidades brasileiras são materiais. A chamada Amazônia Azul, com aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados de águas de interesse estratégico, concentra infraestrutura energética e rotas decisivas para o país. Mais de 95% do comércio exterior brasileiro é transportado por via marítima, e a maior parte da produção nacional de petróleo ocorre no mar. Portos, plataformas, cabos submarinos e corredores oceânicos tornam-se, portanto, parte inseparável da defesa. Quem pode projetar força naval e pressionar rotas comerciais dispõe de meios para afetar a economia brasileira sem ocupar território.


Daí a contradição que Brasília precisa enfrentar. Em julho, enquanto o Itamaraty alertava para o risco de força militar norte-americana em território nacional, o Ministério da Defesa conversava com Washington sobre cooperação antinarcóticos. No mesmo período, Polícia Federal e Marinha realizaram operação contra o tráfico internacional com apoio de inteligência ligado ao SOUTHCOM. A cooperação pode servir à segurança brasileira; isso não dispensa uma revisão pública de seus limites no novo ambiente estratégico. Quais dados são compartilhados, quais sistemas geram dependência e quem conserva poder de decisão numa crise? Sem respostas transparentes, a continuidade burocrática substitui a avaliação política.


A imprensa também precisa enfrentar esse desafio. Os alertas diplomáticos, as designações terroristas e os exercícios militares foram noticiados, muitas vezes em coberturas separadas. A própria checagem de boatos sobre supostos deslocamentos de tropas mostrou a necessidade de distinguir movimentos inventados de riscos documentados pelo Itamaraty. Parte da mídia progressista permanece absorvida pela disputa política imediata, enquanto setores da imprensa liberal raramente articulam a dimensão militar, jurídica e tecnológica da conjuntura. A crítica necessária não pede alarmismo, mas investigação capaz de mostrar conexões, identificar incertezas e informar a sociedade antes da crise.


O Brasil também dispõe de iniciativas próprias de defesa. O exercício Guardião Cibernético 8.0 reuniu aproximadamente 1.300 participantes e representantes de 14 países em setembro, mobilizando instituições responsáveis por infraestruturas essenciais. O país desenvolve sistemas próprios de vigilância, capacidades industriais de defesa e tecnologia de propulsão nuclear naval. O problema é saber se esses esforços possuem escala, financiamento, continuidade e articulação política suficientes diante da velocidade das mudanças externas. Uma estratégia nacional de soberania exige coordenação entre diplomacia, defesa, inteligência, ciência, indústria e comunicação pública. Exige, sobretudo, reconhecer que o desenvolvimento tecnológico e a proteção dos interesses populares são inseparáveis da capacidade de o Estado decidir sem coerção estrangeira.


Em 5 de fevereiro de 2026, expirou o Novo START, último tratado que estabelecia limites juridicamente vinculantes aos arsenais nucleares estratégicos dos Estados Unidos e da Rússia. A ONU advertiu que o mundo ingressava num período de incerteza especialmente perigoso. Paralelamente, Washington avançou no desenvolvimento do SLCM-N, míssil de cruzeiro nuclear lançado do mar. Em outubro, a General Dynamics anunciou um contrato adicional de 194 milhões de dólares para desenvolver sistemas destinados à integração desse armamento aos submarinos norte-americanos da classe Virginia. A previsão de disponibilização limitada a partir de 2032 demonstra que a expansão dessas capacidades não se restringe ao debate doutrinário.


Para a América Latina, há um limite jurídico e histórico decisivo. O Tratado de Tlatelolco, firmado em 1967, estabeleceu uma zona livre de armas nucleares, proibindo seu recebimento, armazenamento e instalação nos territórios abrangidos. A região já conheceu a presença desses armamentos durante a Guerra Fria. Sua eventual reintrodução representaria, portanto, a ruptura de uma conquista histórica construída precisamente para impedir que nossos povos fossem submetidos à competição nuclear das grandes potências. O tratado distingue a instalação permanente de determinadas situações de trânsito marítimo e aéreo, submetidas a regras próprias. Essa diferença exige atenção porque a projeção nuclear naval pode ocorrer sem a construção de novas bases terrestres.


Não há evidência pública de decisão norte-americana de instalar ogivas em países vizinhos nem de posicionar o futuro SLCM-N na região. Mas a modernização nuclear e o enfraquecimento dos acordos de controle de armamentos tornam indispensável vigiar qualquer iniciativa que ameace a desnuclearização latino-americana.


Em abril de 2026, o Brasil assumiu a presidência da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, reunindo países sul-americanos e africanos em torno de compromissos de cooperação e segurança regional. O Atlântico Sul não deve ser transformado em extensão das disputas militares entre grandes potências. A defesa desse princípio exige diplomacia ativa, mecanismos de transparência e capacidade nacional de dissuasão convencional, inclusive o desenvolvimento autônomo do submarino brasileiro de propulsão nuclear, cujo armamento será convencional. A prioridade não é reproduzir a lógica nuclear das potências, mas impedir que ela comprometa a autodeterminação dos países da região.


Os cenários possíveis


Três cenários condicionais ajudam a identificar sinais de agravamento antes que uma crise reduza a margem de resposta brasileira. São possibilidades derivadas de capacidades e decisões documentadas, não previsões inevitáveis.


No primeiro cenário, Washington aprofunda a pressão estrutural sem confronto direto. Mantém acordos de acesso, exercícios, vigilância e cooperação antiterrorista, sem romper relações com Brasília. Novas autorizações de presença militar, ampliação da inteligência regional e iniciativas que classifiquem organizações brasileiras como ameaças hemisféricas seriam sinais de avanço. A consequência possível é reduzir gradualmente as alternativas estratégicas do país. O enfrentamento exigiria revisão dos acordos, diversificação tecnológica e fortalecimento das capacidades próprias de defesa.


O segundo cenário envolve escalada coercitiva desencadeada por incidentes regionais ou decisões unilaterais sobre narcoterrorismo. Operações próximas às fronteiras, novas designações terroristas, consultas hemisféricas sobre medidas coletivas ou ameaças explícitas de intervenção indicariam agravamento. Sanções, pressão diplomática, operações informacionais e demonstrações de força poderiam atuar conjuntamente. Sua contenção exigiria coordenação entre diplomacia, defesa e mecanismos multilaterais, com comunicação pública que combata a desinformação sem ocultar riscos.


O terceiro cenário corresponde à deterioração da segurança regional, associada à competição entre potências e ao enfraquecimento do controle de armamentos. Expansão militar no Atlântico Sul, alterações nas condições de acesso a instalações estratégicas ou iniciativas para admitir armamentos nucleares em territórios latino-americanos seriam indicadores de uma mudança qualitativa. Não há evidência de que tal processo esteja decidido. Sua prevenção exige defender o Tratado de Tlatelolco, fortalecer a ZOPACAS e preservar a América Latina como zona livre de armas nucleares.


Nos três cenários, reagir somente a fatos consumados seria insuficiente. O Brasil precisa de avaliação estratégica permanente, proteção de infraestruturas críticas, política industrial e tecnológica de defesa e cooperação latino-americana e com o Sul Global, sem trocar uma dependência externa por outra.


A responsabilidade envolve governo, Forças Armadas, Congresso, universidades, centros de pesquisa e comunicação social. Vigilância democrática não é militarização da política. É informar a sociedade, exigir transparência e preparar respostas institucionais antes que a superioridade militar externa imponha seus termos.


Os documentos não revelam ordem norte-americana para atacar o Brasil. Revelam, porém, uma rede hemisférica de projeção de força e instrumentos jurídicos e tecnológicos que ampliam as possibilidades de coerção sobre a região e alcançam interesses brasileiros. Sua convergência sustenta a caracterização do cerco como análise estratégica. Enfrentá-lo exige capacidades nacionais e cooperação entre povos latino-americanos, enquanto o Brasil conserva espaço político para decidir livremente sobre sua soberania e sua democracia.


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