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O caos de Trump não é loucura é estratégia e dá lucro

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 4 minutos
  • 17 min de leitura

Por trás dos ataques à OTAN, ao BRICS e da escalada global de tensões, há uma lógica clara de poder e dinheiro: produzir instabilidade, controlar fluxos e transformar risco geopolítico em rentabilidade para os grandes fundos e as elites financeiras.


O que parece loucura é cálculo. Nesta análise estratégica, mostramos como as políticas de Donald Trump dialogam diretamente com os interesses do capital financeiro global, porque o medo da desdolarização move decisões-chave e como o caos internacional se converte em lucro concentrado nas mãos de poucos.

O erro de chamar caos de loucura



A explicação mais difundida para a ofensiva global de Donald Trump é também a mais cômoda. Diz-se que ele age por impulso, que governa pelo conflito, que perdeu qualquer senso de racionalidade estratégica. Essa leitura tranquiliza porque reduz o problema à psicologia de um indivíduo. E, ao fazer isso, impede que se enxergue o que realmente está em operação. Quando o caos é tratado como loucura, desaparecem o método, os incentivos e os beneficiários.


Os ataques recorrentes a aliados históricos, a pressão sobre organismos multilaterais, o uso político de tarifas e sanções, a hostilidade aberta a blocos como o BRICS e a disposição permanente para criar crises diplomáticas não são eventos isolados nem erros sucessivos. Eles formam um padrão. Não um padrão de desorganização, mas de indução sistemática de instabilidade em um sistema internacional altamente integrado e financeirizado.


Em sistemas complexos, desordem não significa ausência de regra. Significa operar fora do equilíbrio. Pequenas perturbações produzem efeitos amplificados porque a estrutura do sistema permite essa propagação. A política externa de Trump atua exatamente nesse registro. Ela introduz choques contínuos, desloca expectativas e força Estados, mercados e alianças a reagirem em vez de planejarem. O caos, nesse contexto, não é falha de governo. É ferramenta.


Essa ferramenta produz efeitos assimétricos. Para sociedades e Estados, a instabilidade se traduz em perda de previsibilidade, aumento de custos e redução da capacidade de decisão soberana. Para determinados atores econômicos, especialmente no campo financeiro, o mesmo ambiente cria oportunidades de arbitragem, proteção e reposicionamento. A incerteza que paralisa uns se converte em vantagem para outros.


A pergunta central, portanto, não é se Trump governa de forma errática. A pergunta relevante é quem ganha quando a previsibilidade desaparece e quando alianças, fluxos e regras passam a operar sob tensão permanente. Este texto parte dessa chave para demonstrar que o caos contemporâneo não é um acidente da política internacional, mas um método funcional a interesses concretos, com impactos profundos sobre a reorganização do poder global.

A ciência do caos e a falsa ideia de irracionalidade



Na ciência do caos, sistemas complexos não se comportam de forma aleatória quando se afastam do equilíbrio. Eles passam a operar sob regras diferentes, nas quais pequenas perturbações iniciais podem gerar efeitos amplificados. Imprevisibilidade, nesse contexto, não significa ausência de método, mas sensibilidade extrema às condições iniciais e à arquitetura do próprio sistema. Confundir caos com irracionalidade é um erro conceitual que compromete qualquer análise séria.


Essa chave ajuda a compreender a política internacional recente sem recorrer a caricaturas. O que se observa não é a ruptura súbita da racionalidade estatal, mas a introdução deliberada de perturbações sucessivas em um sistema global já tensionado. Anúncios e recuos tarifários, ameaças diplomáticas seguidas de ambiguidades calculadas, declarações que deslocam mercados e alianças sem produzir decisões finais compõem uma sequência coerente. Cada ato isolado parece errático. O conjunto revela padrão.


O funcionamento do sistema internacional amplifica esse tipo de ação. Em um ambiente financeirizado, integrado por cadeias logísticas sensíveis e fluxos de capital instantâneos, qualquer sinal político tem efeito multiplicador. A instabilidade não se dissipa. Ela se propaga. Governos reagem defensivamente, mercados reprecificam riscos e alianças entram em estado de vigilância permanente. O sistema deixa de operar por coordenação e passa a operar por resposta.


A falsa leitura da irracionalidade cumpre uma função política. Ao atribuir o caos a descontrole pessoal, elimina-se a necessidade de investigar incentivos estruturais e retornos objetivos. Sistemas de poder não sustentam comportamentos disfuncionais por longos períodos sem produzir ganhos concretos. A repetição do padrão indica que há retorno estratégico, mesmo quando os custos sociais e institucionais são elevados.


Nesse sentido, a política externa de Trump não deve ser analisada como anomalia, mas como exploração consciente de um ambiente propício à amplificação do choque. O caos deixa de ser ruído e passa a ser linguagem. Ele não busca previsibilidade, mas vantagem relativa em um sistema onde quem reage perde tempo e quem provoca dita o ritmo.


Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para abandonar a explicação confortável da loucura e avançar para uma análise material do poder. A instabilidade contemporânea não nasce do acaso. Ela emerge da interação entre decisões políticas e um sistema global desenhado para transformar perturbação em efeito sistêmico.

O método do caos como instrumento de poder



Se a instabilidade não é irracionalidade, ela precisa ser entendida como instrumento. Em política internacional, perturbações recorrentes não produzem apenas desordem. Elas redistribuem poder ao deslocar decisões do campo do planejamento para o campo da reação. O método do caos opera exatamente nesse deslocamento. Ele não busca controlar o sistema, mas impedir que outros o façam com previsibilidade.


Esse método se manifesta por ações que criam choque sem produzir ruptura definitiva. A política tarifária de Trump é exemplar. Em janeiro de 2026, ao anunciar tarifas contra países europeus e contra a Dinamarca em razão da disputa em torno da Groenlândia, Trump não apenas afetou relações bilaterais. Ele introduziu incerteza estratégica em um espaço que dependia de estabilidade jurídica e comercial. O objetivo não foi fechar mercados, mas torná-los instáveis, elevando o custo do planejamento e forçando reposicionamentos rápidos.


O mesmo padrão aparece na relação com alianças militares. Ao relativizar compromissos históricos com a OTAN e questionar publicamente a lógica da defesa coletiva, Trump não rompeu o pacto. Criou algo mais eficiente. Um ambiente de insegurança controlada. Países europeus passaram a revisar estratégias, ampliar gastos militares e buscar garantias individuais. A previsibilidade coletiva foi substituída por ansiedade estratégica. O resultado foi aumento de custos, fragmentação da coordenação e reativação de mercados ligados à segurança e à defesa.


No plano regional, a política em relação à Venezuela segue a mesma lógica. Sanções econômicas severas, combinadas com sinais ambíguos de negociação, mantêm o país em estado de pressão permanente. Não há solução definitiva nem colapso imediato. Há instabilidade administrada. Esse ambiente afeta fluxos energéticos, gera volatilidade nos mercados de petróleo e mantém a região sob constante tensão política, sem exigir intervenção direta.


O caso do Irã reforça o padrão. A retomada de uma retórica agressiva, combinada com ameaças de sanções ampliadas, não visa necessariamente um confronto direto. Visa elevar o risco geopolítico no Oriente Médio, pressionar preços de energia e manter a região em estado de alerta contínuo. Pequenos gestos produzem efeitos sistêmicos porque o ambiente já é sensível ao choque.


Esses exemplos revelam a lógica do método. Não se trata de vencer conflitos, mas de mantê-los abertos. Não se trata de destruir instituições, mas de enfraquecer sua capacidade estabilizadora. O caos funciona como ferramenta porque obriga Estados, empresas e alianças a operarem sob pressão constante, reduzindo horizontes de decisão e ampliando dependências.


O método do caos é, portanto, uma forma de exercício indireto de poder. Ele não impõe uma nova ordem. Ele impede a consolidação de qualquer ordem que não possa ser permanentemente tensionada. Em um sistema internacional financeirizado, essa instabilidade não paralisa o capital. Ela o reorganiza. E é exatamente essa reorganização que torna o método funcional para interesses específicos.

Os grandes fundos e a economia política da instabilidade



A instabilidade não afeta todos os atores da mesma forma. Para Estados e economias produtivas, ela encarece decisões, paralisa investimentos e reduz horizontes de planejamento. Para grandes fundos de investimento, a mesma instabilidade cria um ambiente favorável à extração de valor. A diferença não é moral, é estrutural. Fundos globais operam com liquidez elevada, instrumentos de proteção sofisticados e capacidade de reposicionamento rápido. Eles não precisam de estabilidade. Precisam de movimento.


Em contextos de choque político recorrente, volatilidade deixa de ser exceção e passa a ser condição permanente. Esse ambiente amplia spreads, valoriza ativos de refúgio e cria oportunidades contínuas de arbitragem. Tensões no Oriente Médio elevam preços de energia e beneficiam posições compradas em petróleo e gás. Ameaças a alianças atlânticas impulsionam gastos militares e favorecem empresas do setor de defesa, já fortemente presentes em carteiras de grandes gestores. Disputas comerciais reconfiguram cadeias de suprimento e criam ganhos em logística, seguros e commodities estratégicas.


O mercado de dívida soberana oferece outro exemplo claro. Em cenários de instabilidade política global, países periféricos passam a ser reprecificados como ativos de risco elevado. O aumento do prêmio exigido não é apenas consequência indesejada. Ele se torna campo de operação. Instrumentos como seguros contra default, posições vendidas em moedas e estratégias de entrada e saída rápida permitem ganhos tanto na deterioração quanto na recuperação parcial desses mercados. A crise vira ciclo explorável.


Esse funcionamento produz uma assimetria profunda. Quanto maior a instabilidade, maior a dependência de instrumentos financeiros concentrados nas mãos de poucos. Estados pressionados por choques externos buscam “acalmar mercados” por meio de ajustes, concessões regulatórias e abertura financeira. O risco político é internalizado como custo público, enquanto a rentabilidade privada é preservada ou ampliada. O caos não democratiza oportunidades. Ele concentra vantagem.


A financeirização do sistema internacional é o elemento que torna esse processo possível. Em um mundo menos integrado, instabilidade paralisaria fluxos. No ambiente atual, ela os reorganiza em favor de quem domina mecanismos de proteção e leitura antecipada. Grandes fundos não fogem do risco. Eles o precificam, o fragmentam e o transformam em produto financeiro.


É nesse ponto que a política do caos se revela funcional. Ao ampliar a incerteza estrutural, cria-se um ambiente no qual a economia real perde capacidade de ação, enquanto o capital financeiro ganha centralidade como mediador obrigatório. A instabilidade deixa de ser falha do sistema e passa a ser condição de sua rentabilidade.

Trump e os grandes fundos: convergência sem conspiração



A relação entre as políticas de Trump e os interesses dos grandes fundos não depende de coordenação explícita, alinhamento ideológico ou qualquer forma de conspiração. Ela se estabelece por convergência estrutural. Em sistemas complexos, agentes diferentes podem agir de forma independente e, ainda assim, produzir resultados compatíveis quando respondem aos mesmos incentivos. O que importa não é a intenção declarada, mas o efeito material.


A política externa trumpista intensifica choques, fragiliza compromissos e introduz incerteza recorrente. Para Estados, isso significa perda de capacidade de planejamento. Para fundos globais, significa oportunidade de reposicionamento. Quando regras se tornam instáveis, quem dispõe de liquidez, informação e instrumentos de proteção passa a operar em vantagem sobre quem depende de estabilidade institucional. O capital financeiro prospera em ambientes nos quais decisões precisam ser tomadas rapidamente e sob pressão.


Essa convergência é observável nos efeitos. Questionamentos públicos à OTAN elevam o risco percebido na Europa e pressionam governos a ampliar gastos militares, beneficiando empresas já presentes em grandes carteiras globais. Tensões comerciais deslocam fluxos produtivos e ampliam ganhos em logística, seguros e commodities. Sanções e tarifas criam ciclos de choque que reprecificam moedas e dívidas soberanas, abrindo espaço para estratégias especulativas de curto e médio prazo. O capital não reage com retração sistêmica, mas com leitura ativa do movimento.


Trump atua, assim, como acelerador de tendências já existentes no capitalismo financeirizado. Ele não inventa a lógica da volatilidade, mas a intensifica e a torna central. Ao enfraquecer compromissos multilaterais e relativizar regras comuns, desloca a mediação do conflito do campo político para o campo financeiro. A governança baseada em normas perde espaço para a governança baseada em risco.


Há também um efeito disciplinador nessa dinâmica. Estados pressionados pela instabilidade externa passam a adotar políticas defensivas para preservar acesso a capitais, priorizando ajustes, concessões e previsibilidade para investidores. O método do caos não apenas gera lucro direto para determinados atores, mas reorganiza comportamentos estatais em favor de uma racionalidade financeira. Mesmo discursos hostis ao “globalismo” acabam produzindo ambientes mais dependentes do capital móvel e concentrado.


O ponto central não é afirmar que Trump governa em nome dos grandes fundos, mas reconhecer que suas políticas operam em sintonia com uma economia política que recompensa a instabilidade administrável. Enquanto o caos puder ser convertido em rentabilidade e controle de fluxos, essa convergência se mantém, silenciosa e pragmática. Não por afinidade ideológica, mas por funcionalidade histórica.

Atacar alianças para governar a instabilidade



Alianças multilaterais não são apenas arranjos políticos. Elas funcionam como infraestruturas de previsibilidade. Reduzem incertezas, distribuem custos e organizam respostas coletivas. Atacá-las não significa necessariamente destruí-las. Significa enfraquecer sua função estabilizadora. É exatamente nesse ponto que o método do caos atua com maior eficiência.


A OTAN oferece o exemplo mais claro. Ao questionar publicamente compromissos de defesa coletiva e condicionar garantias históricas a barganhas financeiras, Trump não rompeu a aliança. Introduziu dúvida. Essa dúvida teve efeitos imediatos. Países europeus passaram a revisar estratégias, ampliar orçamentos militares e buscar soluções nacionais ou bilaterais de segurança. A coordenação coletiva cedeu lugar à ansiedade estratégica. O custo aumentou. A previsibilidade diminuiu.


Esse deslocamento reativa mercados específicos. Gastos militares crescentes alimentam a indústria de defesa, fortalecem contratos de longo prazo e ampliam dependências tecnológicas. A segurança deixa de ser um bem coletivo relativamente estável e passa a ser adquirida de forma fragmentada. O enfraquecimento político da aliança produz, assim, ganhos econômicos concentrados, sem exigir ruptura institucional formal.


O mesmo padrão aparece em outras frentes multilaterais. A recusa em assumir compromissos ambientais duradouros, a desvalorização de organismos internacionais e a preferência por acordos bilaterais assimétricos corroem normas comuns e ampliam relações de força. Em vez de regras compartilhadas, impõe-se a negociação permanente. Estados médios e pequenos perdem capacidade de barganha coletiva e passam a negociar isoladamente, sob maior pressão.


Esse ambiente favorece atores capazes de operar em contextos fragmentados. Grandes fundos e corporações transnacionais não dependem de coesão política para agir. Ao contrário, conseguem extrair vantagem quando compromissos se tornam incertos e quando a proteção institucional se enfraquece. A instabilidade institucional não paralisa o capital financeiro. Ela o reposiciona.


Atacar alianças, portanto, não é gesto errático nem ideológico. É parte de uma estratégia que transforma a fragilidade institucional em ativo político e econômico. A ordem formal permanece, mas sua capacidade de organizar expectativas se deteriora. O mundo se torna mais caro, mais armado e mais instável. E, para determinados setores, mais lucrativo.

Controle dos fluxos: Américas, Atlântico e a geopolítica do movimento



No estágio atual do sistema internacional, poder se exerce menos pela ocupação direta de territórios e mais pela capacidade de regular fluxos. Fluxos de energia, comércio, capitais, dados, cadeias logísticas e mobilidade humana. Controlar o movimento é mais eficaz do que administrar o espaço fixo. O método do caos se ajusta perfeitamente a essa lógica porque fragiliza os mecanismos que garantiam circulação previsível e os substitui por ambientes de risco permanente.


As Américas ocupam posição central nesse desenho. O continente funciona como zona estratégica de contenção, abastecimento e disciplinamento. A pressão contínua sobre a Venezuela ilustra esse mecanismo. Sanções prolongadas, combinadas com sinais intermitentes de negociação, mantêm a produção energética e os fluxos regionais sob tensão constante. Não há colapso total nem normalização. Há instabilidade administrada, suficiente para afetar mercados e reorganizar interesses sem exigir intervenção direta.


O Caribe e a América Central cumprem função semelhante. Rotas comerciais, pontos de transbordo logístico e corredores migratórios tornam-se instrumentos de barganha política. O controle não se dá pelo fechamento absoluto, mas pelo encarecimento do trânsito. Cada incerteza adicionada ao percurso aumenta a dependência de seguros, intermediários e proteção financeira. O custo do fluxo cresce para Estados e economias reais, enquanto o valor capturado se concentra em quem domina os instrumentos de mitigação do risco.


O Atlântico deve ser entendido como um único teatro estratégico. No Norte, concentram-se as arquiteturas financeiras, militares e institucionais tradicionais. No Sul, localizam-se rotas energéticas emergentes, cabos submarinos de dados, reservas estratégicas e novas articulações políticas entre América do Sul e África. Conectar esses dois espaços é decisivo para a manutenção da centralidade global. A instabilidade seletiva impede que o Atlântico Sul consolide autonomia logística e informacional sem custos elevados.


Nesse contexto, tarifas, sanções, disputas diplomáticas e retórica agressiva funcionam como instrumentos de ajuste fino. Não interrompem fluxos de forma definitiva, mas os tornam mais caros, mais arriscados e mais dependentes de mediação externa. O método do caos não bloqueia o movimento. Ele o condiciona. A circulação continua, mas sob vigilância e dependência crescentes.


Essa lógica explica por que a instabilidade se concentra em zonas-chave de trânsito. Pequenos choques nesses pontos produzem efeitos sistêmicos amplificados. Controlar fluxos nas Américas e no Atlântico significa controlar a dinâmica do conjunto. O poder deixa de se manifestar como domínio territorial visível e passa a operar como capacidade de induzir custo, risco e dependência no movimento global.

O BRICS e o medo estrutural da desdolarização



Entre todos os movimentos tensionados pelo método do caos, nenhum provoca reação tão sensível quanto a possibilidade de redução da centralidade do dólar. Não se trata de colapso iminente, mas de algo mais profundo. A introdução de alternativas. O poder do dólar reside menos no volume atual de transações e mais no monopólio da confiança, da liquidez e da coerção financeira. Qualquer fissura nesse monopólio é lida como risco sistêmico.


É nesse ponto que o BRICS assume relevância estratégica. O bloco não ameaça o sistema pela força imediata, mas pela direção histórica que aponta. Discussões sobre comércio em moedas locais, expansão do Novo Banco de Desenvolvimento, acordos bilaterais fora do circuito tradicional e redução gradual da exposição a sanções indicam um movimento defensivo. Não ideológico, mas pragmático. Países pressionados aprendem a reduzir vulnerabilidades.


A reação de Trump a esse processo é reveladora. Ataques verbais ao BRICS, ameaças indiretas de retaliação e uso recorrente de sanções não buscam encerrar o movimento, algo inviável. Buscam elevar seu custo. O objetivo não é impedir a diversificação monetária, mas torná-la lenta, fragmentada e politicamente onerosa. O método do caos atua aqui como freio assimétrico. Introduz ruído suficiente para desestimular coordenação estável entre países que buscam alternativas.


O paradoxo é evidente. A mesma estratégia que reforça o dólar no curto prazo, ao gerar corridas para ativos considerados seguros em momentos de crise, acelera a busca por proteção no médio e longo prazo. Cada sanção amplia o incentivo à diversificação. Cada ameaça reforça a percepção de risco associado à dependência excessiva de uma única moeda. O método gera retorno imediato, mas semeia desconfiança estrutural.


Para grandes fundos, o problema não é a perda abrupta da hegemonia do dólar. É a fragmentação do sistema monetário. Um mundo com múltiplas âncoras é mais caro de operar, mais difícil de proteger e menos previsível. A hostilidade ao BRICS expressa esse medo. Não o medo da ruptura, mas o medo da transição.


O método do caos, ao tensionar permanentemente o sistema, transforma a estabilidade monetária em bem escasso. Ele preserva a centralidade do dólar no presente enquanto compromete sua exclusividade no futuro. Essa contradição não é acidental. É o preço pago para extrair valor em um mundo que já não aceita disciplina financeira sem alternativas.

O paradoxo do método: o caos que gera lucro também corrói o sistema



O método do caos é eficaz porque explora uma assimetria temporal. No curto prazo, a instabilidade amplia margens, concentra poder e permite ganhos extraordinários para quem domina os instrumentos financeiros, logísticos e informacionais do sistema. No médio e longo prazo, porém, essa mesma instabilidade começa a erodir as bases que tornam esses ganhos possíveis. É nessa tensão entre lucro imediato e desgaste estrutural que reside o paradoxo central da estratégia.


A financeirização global depende de um mínimo de previsibilidade. Não de ordem estática, mas de regras suficientemente estáveis para permitir cálculo de risco, coordenação e reprodução do sistema. O método do caos tensiona continuamente esse limiar. Ao transformar exceção em rotina e crise em método, ele amplia a rentabilidade do desequilíbrio enquanto reduz a capacidade do sistema de se estabilizar sem novos choques.


Esse desgaste aparece de forma gradual. Alianças tornam-se transacionais, instituições perdem legitimidade, normas passam a ser vistas como obstáculos e não como garantias. A política internacional deixa de organizar projetos coletivos e passa a administrar crises sucessivas. O risco, antes episódico, torna-se estrutural. Quanto mais o sistema se acostuma a operar sob tensão, mais dependente se torna de intervenções emergenciais e soluções financeiras de curto prazo.


Para o capital financeiro, esse processo cria um dilema objetivo. A instabilidade amplia oportunidades enquanto permanece administrável. Quando se prolonga, começa a distorcer sinais, encarecer proteção e introduzir incerteza não linear. O risco deixa de ser calculável e passa a ser sistêmico. Nesse ponto, o método perde eficiência e começa a operar contra seus próprios beneficiários.


A ciência do caos ajuda a compreender esse limite. Sistemas empurrados continuamente para longe do equilíbrio tendem a entrar em regimes nos quais pequenas perturbações produzem efeitos desproporcionais e difíceis de controlar. O que antes era explorável se torna perigoso. A instabilidade deixa de ser instrumento e passa a ser ameaça ao próprio funcionamento do sistema.


O método do caos, portanto, não aponta para um colapso imediato, mas para um processo de esgotamento. Ele adia ajustes estruturais enquanto acumula tensões. Produz lucro no presente ao custo de fragilizar o futuro. Funciona como estratégia de transição, não como fundamento duradouro de governança global.


Compreender esse paradoxo é essencial para interpretar o momento histórico atual. O mundo não caminha para uma ruptura súbita, mas atravessa uma reorganização forçada, na qual a instabilidade é explorada até seus limites. A pergunta decisiva já não é se o método funciona, mas por quanto tempo ele pode continuar funcionando sem se voltar contra o próprio sistema que o sustenta.

Brasil e Sul Global: custo, risco e possibilidade histórica



Para o Sul Global, o método do caos não é um jogo abstrato de poder. Ele se traduz em custos materiais imediatos. Instabilidade global encarece crédito, pressiona moedas, desorganiza cadeias produtivas e limita a capacidade de planejamento estatal. Países com menor margem fiscal e maior dependência de fluxos externos absorvem esses impactos de forma desproporcional. O risco não é teórico. Ele entra no orçamento, no preço dos alimentos, no custo da energia e na governabilidade.


O Brasil ocupa posição singular nesse contexto. Não é potência hegemônica nem economia periférica passiva. É um ator intermediário com peso demográfico, base produtiva diversificada, recursos estratégicos e capacidade diplomática reconhecida. Sua inserção em articulações como o BRICS, sua defesa de comércio em moedas locais e sua centralidade no Atlântico Sul o colocam como pivô sistêmico, não como antagonista declarado. E pivôs incomodam mais do que inimigos explícitos.


O método do caos atua sobre países como o Brasil por meio de pressão indireta. Choques externos elevam volatilidade cambial, aumentam o prêmio de risco e reduzem espaço para políticas de longo prazo. A guerra informacional amplifica tensões internas, enquanto a disciplina financeira impõe limites à autonomia decisória. Não é necessário confronto direto. Basta tornar o ambiente suficientemente instável para que cada escolha estratégica seja tratada como risco pelos mercados.


Ainda assim, a instabilidade cria possibilidades. Em um sistema em reorganização, dependência excessiva de um único centro financeiro ou monetário deixa de ser segurança e passa a ser vulnerabilidade. A diversificação de parceiros, o fortalecimento de bancos de desenvolvimento, a coordenação regional e a proteção de infraestruturas críticas deixam de ser projetos ideológicos e se tornam estratégias defensivas racionais. O método do caos expõe, involuntariamente, os limites da submissão automática.


Para o Brasil e outros países do Sul Global, a escolha central não é entre confronto e alinhamento irrestrito. É entre passividade e estratégia. Reduzir exposição à volatilidade externa, preservar capacidade de planejamento e construir margens de decisão própria tornam-se imperativos em um mundo onde a instabilidade é utilizada como ferramenta de poder.


O erro histórico seria tratar o momento atual como desvio temporário, aguardando o retorno de uma normalidade que já não existe. O método do caos não é episódio. É sintoma de uma transição sistêmica. Entendê-lo permite antecipar movimentos, evitar armadilhas e transformar vulnerabilidade em margem de ação. Para o Sul Global, lucidez estratégica não é virtude abstrata. É condição de sobrevivência política.

Entender o método para não ser governado por ele



O maior erro diante do cenário atual é tratar o caos como desvio momentâneo ou patologia individual. Essa leitura conforta porque personaliza o problema e preserva a ilusão de que a normalidade retornará sozinha. O que este texto demonstrou é o oposto. A instabilidade promovida pelas políticas de Donald Trump não é falha de governança, mas expressão concentrada de um método que transforma desequilíbrio em instrumento de poder e em fonte recorrente de lucro para atores específicos.


Esse método opera explorando a arquitetura de um sistema internacional financeirizado, no qual volatilidade pode ser convertida em rentabilidade, risco em margem e crise em oportunidade. Ele enfraquece alianças sem destruí-las, pressiona fluxos sem bloqueá-los, tensiona moedas sem rompê-las. Governa não pela construção de uma nova ordem estável, mas pela administração permanente da instabilidade. Seu êxito reside justamente em manter o mundo em estado de reação contínua.


Os beneficiários desse arranjo são claros. Grandes fundos de investimento, setores rentistas e estruturas financeiras globais conseguem operar com vantagem em ambientes de choque controlado, enquanto Estados, economias produtivas e sociedades absorvem os custos sob a forma de inflação, insegurança e perda de capacidade de planejamento. O caos não se distribui igualmente. Ele concentra poder em quem controla os instrumentos de mitigação do risco e transfere vulnerabilidade para quem depende de previsibilidade para se desenvolver.


Ao mesmo tempo, o texto deixou evidente o limite histórico desse método. Ao explorar a instabilidade como ativo, ele corrói as próprias bases institucionais, monetárias e políticas que sustentam a financeirização global. No curto prazo, produz ganhos expressivos. No médio e longo prazo, acelera fragmentações, incentiva movimentos defensivos e amplia a busca por alternativas à centralidade financeira dominante. O medo em relação ao BRICS e à desdolarização não decorre de uma ruptura iminente, mas da percepção de que o sistema já não é incontestável.


Para o Brasil e o Sul Global, compreender essa dinâmica não é exercício teórico, mas necessidade estratégica. Em um mundo onde o caos é utilizado como ferramenta, soberania passa a significar redução de exposição, proteção de infraestruturas críticas, coordenação política e capacidade de planejar apesar do ruído. Não se trata de enfrentar o sistema frontalmente, mas de não se deixar governar por sua instabilidade induzida.


Entender o método do caos é o primeiro passo para neutralizar seus efeitos. Não para restaurar uma normalidade que já não existe, mas para operar com lucidez em um cenário de transição sistêmica. Em um mundo reorganizado pela instabilidade, a clareza analítica deixa de ser virtude intelectual e passa a ser instrumento de poder. O caos não é loucura. É método. E só quem o compreende pode escapar de ser conduzido por ele.


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