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Por que os governos mandam estocar comida?

Foto do escritor: Rey Aragon
Rey Aragon
há 4 minutos
12 min de leitura

O mundo se prepara para o pior. Em meio à escalada das guerras, às disputas pelas rotas comerciais e à militarização das infraestruturas essenciais, governos preparam suas populações para crises prolongadas que expõem as vulnerabilidades estratégicas do Brasil e do Sul Global.


O que parece uma simples recomendação doméstica revela uma transformação muito mais profunda na ordem mundial. Enquanto as grandes potências disputam territórios, energia, alimentos e o controle dos fluxos globais, populações inteiras são orientadas a se preparar para possíveis rupturas da vida cotidiana. Quem está produzindo essa insegurança, quem se beneficia da militarização do mundo e quem pagará o preço? Uma investigação sobre a geopolítica do medo e da fome, os riscos de um conflito generalizado e o futuro da soberania brasileira.

Quando a guerra ameaça paralisar o mundo



Água para três dias. Alimentos que não dependam de fogão nem geladeira. Remédios, lanterna, rádio a pilha e dinheiro em espécie. Em 22 de outubro de 2026, o governo britânico atualizou suas orientações de emergência e iniciou uma campanha para que as famílias suportem interrupções temporárias de serviços essenciais. O dinheiro em papel merece atenção. Numa economia em que quase tudo depende de redes eletrônicas, até comprar comida pode se tornar difícil quando a energia ou as comunicações falham. A campanha também trata de tempestades e outros desastres, não anuncia uma guerra iminente. Seu significado aparece quando é colocada ao lado das decisões estratégicas que governos e forças armadas vêm tomando diante de conflitos capazes de atingir a infraestrutura da vida cotidiana.


A Comissão Europeia havia recomendado, em março de 2025, que os cidadãos se preparassem para pelo menos 72 horas de emergência. A estratégia reúne trinta ações contra desastres, ataques cibernéticos, sabotagens e conflitos armados. Nos Estados Unidos, orientações domésticas desse tipo existem há décadas. A novidade não é a reserva de água ou alimento, mas a incorporação da possibilidade de interrupções graves ao planejamento dos Estados. A despensa entrou numa discussão que envolve quartéis, hospitais, sistemas elétricos, empresas de tecnologia e cadeias internacionais de abastecimento.


Em setembro de 2026, a OTAN publicou seus requisitos de resiliência civil. O documento não se limita à proteção da população. Exige que governos assegurem eletricidade, água, comida, transportes, serviços médicos e comunicações capazes de sustentar também as operações militares. Determina mecanismos para conciliar necessidades civis, comerciais e das forças armadas quando disputarem recursos escassos. É uma mudança concreta na organização da segurança. Uma ferrovia pode servir ao deslocamento de tropas; um hospital, ao atendimento de feridos de guerra; as redes de telecomunicações, simultaneamente à população e ao comando militar. A pergunta decisiva está escrita nas entrelinhas desse planejamento. Quem terá prioridade se não houver recursos para todos?


O Pentágono anunciou em setembro o programa FORTRESS America, voltado a tornar instalações militares mais autossuficientes em energia, suprimentos e infraestrutura crítica. A União Europeia procura fortalecer reservas, exercícios e cooperação entre setores civis e militares. São políticas distintas, com justificativas próprias, mas revelam a mesma preocupação prática. Autoridades já trabalham com a hipótese de que partes do mundo continuarão operando enquanto outras estarão sob ataque, bloqueio ou desorganização. Preparar a população é legítimo. Transformar a sobrevivência doméstica no substituto de serviços públicos resistentes seria outra coisa. Nenhuma família consegue estocar uma rede elétrica, um banco funcional ou um hospital inteiro.


Para compreender por que chegamos a esse ponto, é preciso abandonar a ideia confortável de que as guerras atuais nasceram de incidentes isolados. A ordem construída depois da Guerra Fria preservou a supremacia militar, financeira e tecnológica dos Estados Unidos, acompanhada pela expansão de alianças e mecanismos de pressão sobre regiões estratégicas. Em fevereiro de 1990, durante as negociações sobre a reunificação alemã, James Baker disse a Mikhail Gorbachev que a jurisdição militar da OTAN não avançaria para leste. Aquela formulação não se transformou numa proibição geral por tratado, mas os registros diplomáticos comprovam que o problema da expansão foi discutido e que Moscou recebeu garantias políticas naquele contexto.


As advertências prosseguiram. Em 1997, George Kennan, formulador da política de contenção da União Soviética, criticou a ampliação da OTAN por seu potencial de reabrir a confrontação. Em 2008, o embaixador William Burns comunicou a Washington que uma eventual adesão da Ucrânia atingia uma questão particularmente sensível para a segurança russa. No mesmo ano, a aliança anunciou que Ucrânia e Geórgia se tornariam membros. Durante o Euromaidan de 2014, uma conversa divulgada entre Victoria Nuland e o embaixador Geoffrey Pyatt mostrou autoridades norte-americanas debatendo nomes para um futuro governo ucraniano. A mobilização tinha atores e reivindicações internas, mas a interferência externa era documentável. Não faltou conhecimento dos riscos. Faltou disposição para construir uma segurança europeia que levasse essas advertências a sério.


Em 2019, a RAND Corporation publicou, com patrocínio do Exército norte-americano, o estudo Extending Russia: Competing from Advantageous Ground. Examinava medidas para impor custos econômicos, políticos e militares à Rússia, explorando vulnerabilidades do país. Tratava-se de um catálogo de opções estratégicas, não de uma ordem operacional para iniciar uma guerra. A distinção importa porque as evidências já são graves sem precisar ser infladas. A invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, provocou devastação e sofrimento humano, mas não surgiu num vazio histórico. Foi precedida por décadas de expansão militar ocidental, disputas de influência e deterioração das condições de segurança na Europa. Ignorar essa sequência não torna o diagnóstico mais equilibrado. Torna-o incompleto.


No Irã, a intervenção estrangeira possui uma história ainda mais longa. Estados Unidos e Reino Unido participaram da derrubada de Mohammad Mossadegh em 1953, depois que seu governo nacionalizou a indústria petrolífera. Em 2015, o acordo nuclear abriu uma via diplomática, acompanhada por verificações internacionais. Donald Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do pacto em 2018 e restabeleceu sanções. Em 28 de fevereiro de 2026, forças norte-americanas e israelenses atacaram o território iraniano após uma terceira rodada de conversações indiretas mediadas por Omã. O secretário-geral da ONU condenou a ofensiva e lamentou a oportunidade diplomática perdida. A retaliação iraniana veio depois. Essa ordem dos acontecimentos é indispensável para localizar a origem imediata da escalada, cujas consequências passaram a ameaçar toda a região.


A guerra contemporânea atinge a produção antes de aparecer nas prateleiras. Em março de 2026, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz caiu mais de 95%. Pela passagem circulava aproximadamente um quarto do petróleo comercializado por mar e um terço dos fertilizantes transportados por navios. O bloqueio e a insegurança da navegação elevaram custos de frete, seguro e energia. O gás natural mais caro encarece a fabricação de fertilizantes nitrogenados; o insumo mais caro pressiona a produção agrícola; o transporte mais caro chega ao preço do alimento. Uma ofensiva militar no Golfo pode terminar na conta de supermercado de quem vive no outro lado do planeta.


No Mar Negro, a guerra compromete portos e corredores por onde escoam cereais da Rússia e da Ucrânia. No Mar Vermelho, ataques e riscos à navegação levaram embarcações a contornar a África, com viagens mais longas e dispendiosas. Em Malaca, a passagem entre os oceanos Índico e Pacífico permanece decisiva para o comércio energético asiático. A competição entre Estados Unidos e China combina presença militar, controles tecnológicos e disputas por rotas de circulação. A abertura do porto de Chancay, no Peru, operado pela chinesa COSCO, mostra que a América do Sul também procura redes logísticas capazes de modificar antigas dependências. O mapa da disputa mundial não é feito apenas de fronteiras. É desenhado pelos caminhos que mercadorias, combustível, dados e dinheiro precisam percorrer.


Esse é o núcleo material da guerra dos fluxos. Uma potência pode conservar aviões, mísseis e bases militares e, ainda assim, descobrir que sua economia depende de estreitos marítimos, fornecedores estrangeiros, empresas privadas e conexões que não consegue proteger por completo. Interromper o movimento torna-se uma forma de pressão estratégica. A carga pode existir, mas não chegar. O navio pode estar pronto, mas perder o seguro. A mercadoria pode ser produzida, mas tornar-se inacessível pelo preço. E o país que parece distante dos combates descobre que depende de decisões tomadas onde não possui voz suficiente.


Em março de 2026, a guerra alcançou também a chamada nuvem. Ataques de drones danificaram instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e atingiram a infraestrutura da empresa no Bahrein, durante a resposta iraniana à ofensiva de Washington e Tel Aviv. Serviços foram interrompidos; equipamentos ficaram inutilizados. Em setembro, a própria Amazon informou que não conseguiria recuperar o acesso a dados e recursos armazenados exclusivamente em determinadas instalações afetadas. A palavra nuvem sugere algo imaterial. Na realidade, informação depende de edifícios, cabos, transformadores, servidores e pessoas capazes de repará-los. Alguns desses ativos podem ser destruídos mais rapidamente do que conseguem ser reconstruídos.


Em 23 de outubro, dois altos funcionários iranianos disseram à Reuters que o país havia elaborado planos para atingir cabos submarinos de comunicação no Golfo caso sofresse novos ataques dos Estados Unidos e de Israel. Não há confirmação de que esses planos tenham sido executados. Mas a advertência revela a lógica da dissuasão assimétrica. Diante de um adversário militarmente superior, Teerã sinaliza que uma nova ofensiva poderá produzir danos econômicos e tecnológicos sobre interesses muito mais amplos. O risco para populações civis é real, inclusive entre países que não decidiram iniciar a guerra.


Mais de 99% do tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos. Isso não significa que uma ruptura em Ormuz desligaria a internet mundial. Menos de 1% da capacidade internacional de transmissão atravessa aquele estreito, segundo dados citados na investigação da Reuters. O perigo regional, porém, cresce quando cortes de comunicação coincidem com danos a centros de dados, redes elétricas e rotas de reparo. Bancos precisam validar transações. Hospitais dependem de sistemas clínicos, equipamentos e entregas. Distribuidores precisam localizar mercadorias, pagar fornecedores e abastecer lojas. Há redundâncias e planos de contingência, mas eles possuem limites. Uma pane isolada pode ser administrada; falhas simultâneas podem impedir que um sistema ajude a recuperar o outro.


A vulnerabilidade é também política. Quanto mais concentradas as plataformas, os fornecedores e as infraestruturas indispensáveis à vida social, maior o poder de quem pode restringir seu uso ou interromper sua operação. A superioridade militar dos Estados Unidos convive com a exposição de uma economia que se estende por múltiplos territórios e redes privadas. Países do Sul Global, frequentemente com menor capacidade fiscal e tecnológica de resposta, absorvem choques que não provocaram. Não se trata de prever um apagão planetário. Trata-se de reconhecer que a destruição física de alguns pontos críticos pode produzir perdas muito além do local atingido, sobretudo quando os conflitos se sobrepõem.


O medo começa a circular antes da falta de comida. Uma pesquisa oficial britânica de 2026, UK Public Survey of Risk Perception, Resilience and Preparedness, realizada com 10.791 adultos, constatou que apenas 13% consideravam suas famílias bem ou totalmente preparadas para uma emergência. Outros 29% apontaram a falta de dinheiro como obstáculo a uma preparação maior. O dado social é inseparável do psicológico. Dizer a uma família que compre suprimentos pode tranquilizar quem dispõe de renda e aumentar a angústia de quem precisa escolher entre a reserva de amanhã e a refeição de hoje.


A ciência ajuda a compreender essa diferença. No estudo Meta-analytic evidence identifies efficacy beliefs and social norms as key correlates of public emergency preparedness, publicado em janeiro de 2026 na revista Communications Earth & Environment, Sofiia Skipor e Magnus Bergquist reuniram pesquisas sobre preparação para desastres naturais. Identificaram a crença na eficácia das medidas e a influência das normas sociais entre os fatores associados à disposição de agir. O alcance dos resultados precisa ser respeitado. O estudo não investigou campanhas de guerra, mas mostra por que informar sobre um perigo, sem apresentar meios reais de proteção, pode ter efeitos muito distintos dos pretendidos.


Melanie Tannenbaum e colaboradores, na metanálise Appealing to Fear, publicada em 2015 no Psychological Bulletin, demonstraram que mensagens que despertam medo podem influenciar atitudes e comportamentos. Décadas antes, Amos Tversky e Daniel Kahneman, em Availability: A Heuristic for Judging Frequency and Probability (1973), explicaram como a facilidade de recordar acontecimentos interfere na avaliação de sua frequência e probabilidade. Num ambiente saturado por bombardeios, ameaças e previsões de catástrofe, a repetição pode aumentar a presença subjetiva de riscos sem esclarecer sua probabilidade concreta. Uma informação verdadeira, isolada do contexto e reiterada seletivamente, também pode desorientar.


Isso não autoriza chamar toda campanha de proteção civil de operação psicológica. Comunicação preventiva, propaganda e manipulação deliberada precisam ser distinguidas por suas finalidades e evidências. O que merece investigação é o uso político da ameaça. A emergência pode fortalecer a solidariedade e a organização coletiva; também pode acostumar uma sociedade à suspensão do debate, à excepcionalidade permanente e à transferência de responsabilidades públicas para indivíduos. O temor é especialmente corrosivo quando as pessoas recebem instruções de sobrevivência, mas não explicações suficientes sobre quem cria os riscos, quais decisões podem reduzi-los e que proteção o Estado efetivamente oferecerá.


No Brasil, essa discussão encontra uma contradição de enorme alcance. O país está entre os maiores produtores agrícolas do mundo, mas importa 93% dos fertilizantes que consome, segundo o Ministério da Agricultura. Com o agravamento da crise logística internacional, o governo recomendou, em agosto de 2026, prioridade ao desembarque desses insumos nos portos nacionais. Nos cinco primeiros meses do ano, as importações de fertilizantes nitrogenados e fosfatados recuaram 8,7% em volume, enquanto o preço médio de entrada subiu 14,4%. A decisão portuária foi necessária para proteger a safra. Também expôs o que está em jogo. A abundância agrícola não equivale à autonomia produtiva quando seus insumos fundamentais dependem de rotas vulneráveis.


A eletricidade oferece uma vantagem estratégica, mas não uma imunidade. O Balanço Energético Nacional 2026 registrou participação de 86,8% de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira em 2025. Ainda assim, linhas de transmissão, transformadores e sistemas digitais de controle precisam de proteção, peças e capacidade de recuperação. Nos transportes, combustíveis, estradas e portos sustentam o abastecimento diário. Alimento armazenado no interior não resolve a fome urbana se os mecanismos de distribuição pararem. A segurança de uma população depende do funcionamento coordenado de estruturas que raramente aparecem nos discursos sobre autossuficiência.


A dependência digital tornou-se outra fronteira da soberania. Ao defender o programa Redata em 2026, o governo informou, com base em diagnóstico do Ministério da Fazenda, que cerca de 60% das cargas digitais brasileiras dependiam de serviços prestados no exterior. A questão não se resolve com instalar servidores em qualquer lugar do território. Importam o controle sobre dados sensíveis, a diversidade de fornecedores, a continuidade operacional, a proteção dos cabos que chegam ao litoral e a capacidade nacional de recuperar sistemas em uma crise. Num país que digitalizou pagamentos, serviços públicos e atividades produtivas, deixar essas decisões inteiramente nas mãos de plataformas externas significa aceitar uma vulnerabilidade política concreta.


O comércio exterior reforça a necessidade de escolhas próprias. A China é o principal destino das exportações brasileiras, enquanto os Estados Unidos conservam peso financeiro, comercial e tecnológico. A rivalidade entre essas potências atravessa investimentos, semicondutores, logística e acesso a mercados. Os BRICS oferecem possibilidades de cooperação e diversificação, mas não substituem automaticamente a construção de capacidades industriais e científicas nacionais. No Atlântico Sul, a proteção de portos, rotas de energia e cabos submarinos envolve interesses brasileiros permanentes. Soberania exige negociar com diferentes parceiros sem entregar a nenhum deles o poder de determinar sozinho nossas alternativas.


O país dispõe de instrumentos para enfrentar parte dessas ameaças. A Conab pode contribuir para políticas de abastecimento e estoques públicos; a produção nacional de fertilizantes pode reduzir dependências selecionadas; a política energética, a defesa civil, a cibersegurança e a indústria precisam planejar conjuntamente interrupções de fornecimento. Não basta anunciar metas de investimento. É necessário testar planos de continuidade, identificar fornecedores insubstituíveis, manter capacidade de reparo e estabelecer prioridades transparentes para hospitais, água, alimentos e comunicação. A autonomia de que precisamos não é isolamento econômico. É a possibilidade de manter decisões essenciais mesmo sob pressão externa.


Em 31 de outubro de 2026, negociadores iranianos se reuniram com mediadores do Catar para tentar evitar a retomada de ataques norte-americanos depois das eleições legislativas dos Estados Unidos, previstas para 3 de novembro. O diálogo permanecia aberto, sem acordo que eliminasse o risco de nova escalada. A situação demonstra por que uma previsão responsável deve trabalhar com alternativas, não com profecias. Se a diplomacia contiver os ataques, parte das rotas e cadeias comerciais poderá se recuperar. Se novas ofensivas atingirem energia, navegação e redes digitais, os custos podem voltar a se espalhar. O agravamento é possível; não está escrito que seja inevitável.


Para medir esse risco, é melhor acompanhar fatos do que discursos alarmistas. Interrupções prolongadas de navegação, encarecimento persistente dos seguros, ataques confirmados a instalações críticas, perda simultânea de serviços digitais e energéticos, dificuldades de importar insumos e mobilizações econômicas extraordinárias são sinais verificáveis. Ao Estado cabe traduzir esse acompanhamento em proteção concreta. Reservas públicas, distribuição descentralizada, hospitais com planos de continuidade, comunicações de emergência, assistência às famílias vulneráveis e coordenação entre governos valem mais do que campanhas que apenas recomendem comprar mantimentos. A segurança coletiva começa onde termina a capacidade individual de estocar.


Às famílias, cabe uma preparação proporcional às suas possibilidades. Guardar água, remédios indispensáveis, alguma comida de conservação simples, documentos e meios alternativos de comunicação pode ajudar numa interrupção temporária de serviços. Não há razão para endividamento, corrida às compras ou pânico. A orientação responsável precisa reconhecer que milhões de brasileiros não têm sequer margem financeira para reservas. Numa crise prolongada, quem protegerá essas pessoas não será a eficiência de suas despensas, mas o funcionamento das instituições, dos serviços públicos e das redes de solidariedade.


Os alertas sobre alimentos não contêm uma data secreta para o fim da normalidade. Revelam, porém, que os próprios governos passaram a considerar a interrupção dos sistemas essenciais uma possibilidade digna de planejamento. A resposta civilizada não é aceitar a guerra como destino, nem ensinar os mais pobres a sobreviver sozinhos às consequências das decisões dos mais poderosos. É combater a escalada militar, defender a diplomacia e construir a autonomia material capaz de impedir que uma crise distante paralise o país. Quem recomenda guardar comida deve responder também por preservar as condições de produzi-la e distribuí-la. Afinal, a medida da soberania não está apenas no território que um Estado controla, mas na capacidade de garantir que seu povo tenha luz, remédio e alimento quando o mundo ao redor começa a falhar.


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