Prometeu tinha mãos de operário


A história de um homem que conheceu a fome, a dor e as correntes, mas nunca deixou de acreditar que os filhos dos pobres também tinham o direito de alcançar o fogo dos deuses e iluminar o próprio destino.
Na antiga Grécia, Prometeu foi acorrentado por entregar aos mortais o fogo, a chama com que aprenderiam a trabalhar a matéria e a enfrentar a escuridão. Séculos depois, no agreste pernambucano, nasceu um menino que conheceria cedo a fome, o trabalho e a dor. Chamava-se Luiz Inácio. Não tinha a eternidade de um Titã. Tinha as mãos, a vida que lhe coubera e uma teimosia aprendida com a mãe. Esta é uma homenagem ao operário que conheceu as correntes sem deixar de acreditar que o conhecimento, o cuidado e a esperança não deveriam ser privilégios. É também uma história de amor entre um homem e seu povo.
Antes do fogo, havia um menino

Na primeira fotografia conhecida de Luiz Inácio, as sandálias não lhe cabiam. O fotógrafo emprestara também a roupa ao menino de três anos, que posou ao lado da irmã Maria num estúdio em Garanhuns. Os pés quase desaparecem dentro dos calçados. Toda vez que volto a essa imagem, penso no cuidado de quem ajeitou aquela criança para o retrato e naquilo que a fotografia não podia mostrar. Fora do estúdio havia uma casa de chão de terra, a falta de água, a comida contada, uma mãe que precisava inventar todos os dias uma maneira de chegar ao seguinte. O menino ainda não sabia que o mundo podia ser diferente. Sabia apenas que até os sapatos, naquela tarde, pertenciam a outra pessoa.
Dona Lindu vivia com os filhos em Vargem Comprida, no agreste pernambucano. O marido partira antes do nascimento de Luiz Inácio. Quando o pai apareceu, anos depois, o menino precisou perguntar quem era aquele homem. Não há como saber tudo o que uma criança sente diante de uma ausência tão antiga; sabemos, porém, o que aquela mulher fazia. Trabalhava, procurava alimento, sustentava a casa, insistia em manter os filhos perto de si. O amor não lhe oferecia meios extraordinários. Tinha de se realizar com as poucas coisas disponíveis. E havia uma teimosia sua que, vista de longe, parece pequena demais para anunciar qualquer destino histórico. Queria que os filhos aprendessem a ler.
Em dezembro de 1952, juntou as crianças e atravessou o país num caminhão pau de arara. Foram treze dias de estrada até São Paulo. A viagem não transformou a pobreza numa lembrança. No litoral, o menino vendeu amendoim, tapioca e laranjas. Tinha vergonha de anunciar a mercadoria em voz alta. Imagino aquela timidez entre o movimento da rua e a urgência de vender. Mais tarde, um país inteiro aprenderia a reconhecer sua voz. Naquele tempo, conseguir que um desconhecido parasse para comprar uma laranja já exigia uma coragem que não se ensinava na escola.
O pai preferia os filhos trabalhando. Dona Lindu defendia que estudassem também. Luiz Inácio chegou a frequentar aulas às escondidas. A primeira desobediência desta história coube, portanto, no gesto de uma criança entrando numa sala em que lhe diziam não ser necessário estar. Em Prometeu Acorrentado, a escrita e os números figuram entre as artes que o Titã oferece aos mortais. Na vida do menino, tudo começava de maneira menos solene, com uma mãe protegendo o direito de aprender. Prometeu levaria o fogo até os homens. Dona Lindu não possuía fogo algum para roubar dos deuses. Tinha uma convicção que se recusava a abandonar, mesmo sem poder prometer ao filho que o estudo lhe traria uma vida melhor.
Aos catorze anos, a aprendizagem mudou de matéria. Na Fábrica de Parafusos Marte e no Senai, Luiz Inácio conheceu os tornos, a medida exata das peças, a atenção de que depende um trabalho bem-feito. Tornou-se torneiro mecânico. O metal obedecia ao movimento das mãos, mas exigia delas disciplina e as punha em risco. Em 1964, na Metalúrgica Independência, uma prensa atingiu sua mão esquerda. O dedo mínimo foi amputado. Voltou ao trabalho poucos dias depois. A falta daquele dedo o acompanharia em todos os apertos de mão, inclusive nos que um dia receberia como presidente. Não era um emblema escolhido. Era uma parte de seu corpo que o trabalho levara.
O ferro aproxima duas histórias que, de outro modo, pareceriam distantes demais. No início de Prometeu Acorrentado, Hefesto, deus do fogo e artesão dos metais, recebe a ordem de prender o Titã à rocha. Hesita diante da violência, mas obedece. Poder o pressiona; Força permanece em silêncio. É uma cena perturbadora porque o mesmo saber capaz de fabricar ferramentas aparece submetido à fabricação de uma prisão. Na oficina brasileira, um rapaz aprendia a produzir com as mãos; na tragédia grega, um deus precisava usar sua arte para imobilizar outro. Não são acontecimentos equivalentes. A aproximação está na pergunta que deixam. Quem decide para que servirá o trabalho de quem conhece o fogo e o metal?
Luiz Inácio encontrou parte da resposta entre os companheiros de fábrica. Frei Chico, seu irmão, aproximou-o do sindicato. As reclamações que pareciam individuais começaram a se revelar semelhantes, de bancada em bancada, de turno em turno. O salário insuficiente, o corpo cansado, o receio de perder o emprego deixavam de ser pequenos dramas privados. Em 1975, tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Naquele mesmo ano, Frei Chico foi preso e torturado pela ditadura. A violência do regime chegava à família enquanto o jovem dirigente aprendia que a voz de um trabalhador se tornava diferente quando encontrava a de outros.
Em maio de 1978, os operários da Scania entraram na fábrica, bateram o cartão e se colocaram diante das máquinas. Não as ligaram. É uma cena que dispensa qualquer adorno. Homens treinados para fazer funcionar engrenagens imensas descobriram a força de permanecer imóveis. A greve se espalhou pelo ABC. No estádio de Vila Euclides, assembleias reuniriam multidões. O menino que mal conseguia anunciar o preço de uma laranja agora precisava ser ouvido por milhares de pessoas, e não falava por ter deixado de conhecer a insegurança. Falava porque aprendera a ouvir. Aquelas máquinas pertenciam aos patrões, mas só ganhavam movimento por meio dos corpos e do conhecimento dos trabalhadores. Pela primeira vez, muitos puderam experimentar juntos o que significava interferir nessa ordem.
A ditadura procurou conter o movimento. Em abril de 1980, Lula e outros dirigentes foram presos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Marisa, sua companheira, ajudou a organizar uma caminhada de mulheres e crianças pela libertação dos sindicalistas. Havia costurado a primeira bandeira do PT, uma estrela branca sobre tecido vermelho. É bonito imaginar o contraste entre o barulho das fábricas e o trabalho silencioso de uma agulha. As duas coisas pertenciam à mesma história. Uma mulher não precisava empunhar um microfone para participar da construção daquele mundo. Podia marchar, reunir famílias, costurar um símbolo que depois atravessaria décadas. Não era uma figurante na vida de Lula. Tinha as próprias mãos ocupadas na luta.
Foi durante aqueles trinta e um dias de prisão que Dona Lindu morreu. Lula recebeu autorização para ir ao velório. Penso no filho que havia atravessado o sertão com ela, no menino a quem a mãe defendera o direito de estudar, e naquele homem que, embora conhecido por tanta gente, continuava sendo apenas um filho diante da morte. A prisão estabelecia horários e limites; a morte não reconhecia nenhum deles. A mãe partira sem ver tudo o que ainda aconteceria. A história pública de Lula prosseguiria por décadas. A conversa que ele não teria mais com Dona Lindu havia terminado ali.
Outras perdas já o tinham alcançado. Em 1971, Lourdes, sua primeira esposa, morreu durante a gravidez; o bebê também não sobreviveu. Lula recordaria mais tarde a insuficiência do atendimento que acreditava ter recebido. Seria indevido explicar políticas de saúde por uma tragédia pessoal, como se uma vida pudesse caber numa relação tão simples de causa e efeito. Mas não consigo separar inteiramente o homem que conheceu aquela impotência do governante que depois participaria da ampliação do cuidado público. Há dores que não viram programa de governo, nem deveriam ser tratadas como sua justificativa. Permanecem no modo como alguém olha para a dor dos outros.
Quando chegou à Presidência, em janeiro de 2003, Luiz Inácio não levou apenas sua biografia ao Palácio do Planalto. Levou as experiências de milhões de trabalhadores que haviam organizado sindicatos, movimentos, partidos e reivindicações muito antes de sua vitória. A caneta presidencial não apagava os limites do Estado nem a desigualdade acumulada durante séculos. Mas havia, enfim, instrumentos para que certas necessidades não continuassem entregues exclusivamente à sorte de nascer numa família com recursos. Era o momento em que a esperança, tantas vezes repetida em assembleias, precisaria encontrar orçamento, escolas, hospitais, fios elétricos e gente capaz de transformar decisões em vida cotidiana.
Na tragédia antiga, Prometeu revela algo anterior à entrega do fogo. Diz que fez nascer esperanças no coração dos mortais. Só depois fala da chama, da qual aprenderiam as artes. Há uma diferença delicada entre as duas dádivas. A esperança permite atravessar um dia em que o futuro parece fechado; o fogo dá às mãos condições para agir sobre esse futuro. Uma sem a outra seria insuficiente. Também no Brasil, nenhuma palavra generosa alimentaria uma criança ou abriria as portas de uma universidade. A esperança precisaria deixar de ser apenas aquilo que se diz e passar a existir na mesa, na sala de aula, no atendimento de uma unidade de saúde.
O Fome Zero pôs a fome no centro das prioridades federais. O Bolsa Família reuniu e ampliou programas anteriores de transferência de renda. Numa casa onde cada moeda precisa ser contada, a ajuda mensal não é uma abstração. É parte da compra do mês, o caderno de uma criança, a passagem de ônibus, a possibilidade de não atravessar a noite calculando o que faltará no dia seguinte. Uma quantia de dinheiro não elimina as relações que produzem a pobreza, mas pode devolver à família algo de que a pobreza também a priva, a capacidade de pensar um pouco adiante. Não há grandiosidade retórica comparável à serenidade de uma mãe que sabe que os filhos terão o que comer pela manhã.
Em 2003, o Luz para Todos começou a levar eletricidade a comunidades rurais que ainda viviam sem ela. A imagem de Prometeu quase se oferece sozinha, e seria fácil exagerá-la. Não havia deuses naquele trabalho. Havia eletricistas, postes, fios, máquinas, planejamento público. O resultado, porém, tinha a beleza concreta de uma lâmpada acesa numa casa onde antes a noite chegava cedo demais. Alimentos podiam ser conservados, ferramentas ligadas, livros abertos depois do pôr do sol. O fogo mitológico cabia numa haste oca de planta; essa luz precisava atravessar estradas e distâncias que o país demorara tanto a enfrentar.
A educação talvez seja o lugar onde o menino de sandálias emprestadas mais se aproxima do Prometeu que leva aos mortais a escrita, o cálculo e as artes. Surgiram novos campi de universidades federais, bolsas do Prouni, institutos de educação técnica e científica em cidades que antes pareciam remotas aos mapas das oportunidades. Gosto de pensar numa mãe que passou o dia limpando os corredores de uma faculdade e um dia vê a filha entrar por aquelas portas para estudar. A cena é imaginada, mas o deslocamento social que representa é real. A filha não precisa entrar agradecida por uma concessão. Entra porque possui um direito, porque aprendeu, porque enfrentou provas, transporte difícil, cansaço e uma desigualdade que não desaparece ao atravessar o portão.
Para os filhos de trabalhadores negros, essa mudança tocava uma história mais antiga que qualquer mandato. Os movimentos negros, indígenas, estudantis e sociais haviam lutado durante décadas para questionar quem podia ocupar as universidades. As cotas federais foram estabelecidas em 2012, sob Dilma Rousseff, depois de experiências anteriores, e atualizadas em 2023, no governo Lula. Também no governo Dilma nasceu o Ciência sem Fronteiras. A estudante que crescera ouvindo que o mundo era grande demais para ela pôde, em algumas trajetórias, conhecer um laboratório estrangeiro, aprender outra língua, voltar com perguntas novas. Nenhuma dessas conquistas pertence a um só homem. Mas há vidas políticas cujo significado está justamente em ajudar a fazer de reivindicações antigas possibilidades concretas para quem virá depois.
O conhecimento da universidade não apaga aquele que existe nas oficinas, nas roças e nas cozinhas. Dona Lindu não precisou conhecer uma teoria da educação para compreender que seus filhos tinham de estudar. Um torneiro sabe coisas sobre a resistência dos metais que não se aprendem somente num livro. A ciência, quando encontra essas experiências sem desprezá-las, amplia o que cada uma pode compreender. Penso no estudante que volta à cidade de origem para trabalhar num hospital, numa escola, num laboratório. Ele não retorna ao mesmo lugar de onde saiu, embora reconheça suas ruas. O mundo se tornou maior dentro dele. E o conhecimento que adquiriu já não pode ser devolvido à condição de privilégio de outros.
Prometeu também fala da medicina. O SUS, conquista da Reforma Sanitária e da Constituição de 1988, existia antes de Lula, mas seus governos ampliaram serviços e criaram programas como Samu, Farmácia Popular e Brasil Sorridente. Uma ambulância que chega a tempo, um remédio levado para casa, um tratamento dentário que a família não teria como pagar fazem parte da mesma história da educação. A pessoa doente não precisa de discursos sobre liberdade enquanto espera por atendimento. Precisa que alguém a cuide. A possibilidade de continuar vivo, de dormir sem dor, de trabalhar, de brincar com os filhos é também uma forma elementar de poder decidir o próprio destino.
Na rocha dos gregos, Prometeu não podia recolher o fogo que já circulava entre os homens. No Brasil, tampouco seria possível devolver ao silêncio o conhecimento que milhões de pessoas haviam adquirido. Isso não tornava as políticas perfeitas. Havia evasão, insuficiência de recursos, racismo persistente, serviços desiguais, projetos interrompidos. A chama não eliminava a escuridão ao redor de todas as casas. Mas uma vez que alguém aprende a pesquisar, a cuidar de outra pessoa, a reconhecer seus direitos, algo novo passa a existir. O presidente pode deixar o cargo. A vida transformada não volta, por esse único motivo, a ser o que era.
Marisa morreu em fevereiro de 2017, depois de um acidente vascular cerebral. A companheira de tantos anos, dos filhos, das derrotas, das campanhas, das noites em que nenhuma pesquisa eleitoral podia consolar uma família, já não voltaria para casa. Penso outra vez na bandeira que ela costurara. A estrela continuaria a ser erguida em praças e comícios, mas aquela agulha estava parada. Não precisamos atribuir sua morte a adversários políticos para perceber a dimensão do luto. A dor não ganha dignidade por receber uma explicação conveniente. Às vezes, tudo o que uma homenagem pode fazer é reconhecer que, por trás do homem cumprimentado por multidões, havia alguém a quem faltaria para sempre uma voz conhecida dentro de casa.
Em abril de 2018, Lula voltou à prisão, desta vez por decisão judicial num país governado por uma Constituição democrática. Não era a repressão militar de 1980. A diferença entre os dois períodos precisa permanecer intacta. Anos depois, o Supremo Tribunal Federal anularia as condenações da Lava Jato por incompetência do juízo de Curitiba e reconheceria a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. A revisão judicial não restituiu os 580 dias vividos na carceragem nem a possibilidade de disputar a eleição presidencial de 2018. A rocha da alegoria não substitui os acontecimentos e suas responsabilidades. Ajuda apenas a enxergar, por outra luz, a experiência humana de alguém que perde a liberdade depois de haver ajudado a ampliar a de outros.
O mito é especialmente cruel nesse ponto. Na Teogonia, de Hesíodo, uma águia se alimenta do fígado de Prometeu; o órgão volta a crescer, e o tormento se repete. A imortalidade garante a continuidade da dor. Lula, ao contrário, não podia recuperar aquilo que a vida lhe retirava. Em janeiro de 2019 morreu Vavá, seu irmão; não chegou ao sepultamento. Em março, morreu Arthur, neto de sete anos. Lula recebeu autorização para ir ao velório sob escolta e depois regressou à prisão. Diante dessa despedida, a analogia precisa ter pudor. Um avô que perde um menino não necessita que a literatura engrandeça sua dor. Precisa, antes de tudo, que ela não a diminua.
Dona Lindu, Lourdes, Marisa, Vavá, Arthur. São nomes, não símbolos. Nenhum deles pode ser reduzido à função de tornar mais trágica uma biografia pública. A diferença entre o homem e o Titã aparece justamente aí. Prometeu não envelhece como nós, não precisa aprender a continuar depois de uma ausência definitiva. Os humanos carregam mortos que amaram sem que a vida lhes permita reconstruir o que se perdeu. Lula continuou vivendo entre essas faltas. Houve coragem nisso, mas houve também a vulnerabilidade comum a qualquer pessoa. A política pode organizar multidões. Não consegue devolver alguém à mesa de sua família.
Em Prometeu Acorrentado, o sofrimento não acontece inteiramente sem testemunhas. As Oceânides aproximam-se da rocha, escutam, temem pelo Titã e permanecem ao seu lado, mesmo incapazes de desfazer os ferros. A peça compreende que a companhia não cura a ferida nem substitui a liberdade. Ainda assim, impede que o abandono seja completo. Em Curitiba, uma vigília nasceu nas proximidades da Polícia Federal. Pessoas compartilhavam alimentos, livros, o frio, os dias repetidos. De manhã, chamavam por Lula. À tarde, voltavam a chamar. À noite, desejavam boa noite a um homem que não podiam abraçar. O bom-dia atravessava a distância que separava aquelas pessoas da cela. Às vezes, a ternura política cabe numa saudação.
Entre as pessoas do acampamento estava Maria Gabrielly Dantas, jovem negra, estudante de Design de Moda com bolsa do Prouni. Tinha vinte anos quando montou ali um pequeno brechó, em abril de 2018. Vendia roupas usadas, ajudava a família e esperava ser a primeira neta a concluir a universidade. A história que a reportagem registrou já carrega tudo o que precisamos. Uma mulher com o trabalho diante de si, os estudos ainda em curso e uma escolha política que ninguém fizera por ela. Não estava ali para pagar uma dívida de gratidão. Estava porque quis. Se o fogo de Prometeu significava dar aos mortais instrumentos para agir, ali estava uma vida em que a possibilidade de estudar se encontrava com a liberdade de decidir.
Platão conta, no Protágoras, outra versão do mito. O fogo e os ofícios não bastavam para que os homens vivessem juntos; Zeus mandou Hermes distribuir entre todos o respeito e a justiça, sem reservá-los a uma categoria de especialistas. Não é o mesmo Zeus da tragédia, e não se deve transformar tradições diferentes numa só história. Mas há uma ideia de grande alcance nessa passagem. Saber fazer coisas não basta quando alguns são impedidos de participar das decisões que afetam suas vidas. A estudante de Curitiba tinha direito aos conhecimentos de sua profissão e, igualmente, à própria voz. Nenhuma dessas conquistas era menos importante que a outra.
Em 8 de novembro de 2019, a porta se abriu. Uma mudança no entendimento do Supremo sobre a execução antecipada das penas permitiu a libertação de Lula. Houve advogados, decisões judiciais e disputas públicas; não houve um milagre. O homem saiu a pé e encontrou gente que o esperava. Recebeu abraços. Voltou a caminhar sem a escolta de um preso, embora nem todas as pessoas que desejaria rever estivessem vivas. Em Hesíodo, Héracles mata a águia e alivia o suplício de Prometeu com a anuência de Zeus. O Brasil não precisou de um semideus para chegar àquele encontro. Precisou de instituições que pudessem rever decisões e de pessoas que insistiram em não deixar o prisioneiro sozinho.
O retorno político exigiria mais tempo. Em 2021, o STF anulou as condenações que restringiam seus direitos. Em 2022, Lula venceu novamente a eleição presidencial. Não voltava a um país pacificado; as divergências eram profundas e continuariam depois das urnas. Mas a posse de primeiro de janeiro de 2023 guardou uma cena que, sozinha, parece reunir uma vida inteira. A faixa presidencial foi colocada por Aline Sousa, mulher negra e catadora de materiais recicláveis, no peito de um antigo torneiro mecânico. Ao lado deles havia trabalhadores de diferentes ofícios e Francisco, menino negro de dez anos. A faixa passou por mãos que a história tantas vezes deixara longe dos símbolos do poder.
O detalhe que me acompanha é a presença de Francisco. Na fotografia de Garanhuns, outro menino tinha três anos e calçava sandálias emprestadas. Na rampa do Planalto, décadas depois, uma criança caminhava ao lado daquele que se tornara presidente. Nenhuma cerimônia consegue acabar com a desigualdade, e nenhuma criança deve carregar o peso de representar um país inteiro. Mas podemos olhar para aquela subida e reconhecer um desejo. Que as crianças não precisem pedir licença para pertencer ao mundo, que nenhuma origem seja uma sentença, que o poder público saiba reconhecer as mãos que erguem as casas, recolhem os resíduos, cuidam, plantam, ensinam, fabricam e sustentam a vida brasileira.
Em outubro de 2026, Lula foi novamente eleito presidente. A disputa apertada confirmou a força de sua trajetória e também as divisões da sociedade. Governos reconheceram o resultado, e movimentos políticos em outros países viram na experiência brasileira uma referência para suas próprias lutas. O L apareceu em mãos estrangeiras. Seria imprudente dizer que se tornara, em toda parte, um símbolo universal da liberdade. Os símbolos atravessam fronteiras carregando sentidos diferentes. O que aquela circulação permite perceber é que a história de um operário brasileiro passara a dizer alguma coisa a pessoas que não conheciam seu país pela própria experiência.
No século XXI, a disputa entre potências por tecnologia, energia, mercados e influência dá à antiga Titanomaquia uma atualidade inquietante. Mas o mito não autoriza identificar um país com Zeus ou reduzir outro a um Titã virtuoso. O mundo não está dividido em personagens de uma tragédia. Lula participa dessa ordem em transformação ao defender que o Brasil tenha capacidade de decidir seus caminhos, produzir conhecimento e dialogar sem entregar seu destino a uma potência estrangeira. Não há promessa de vitória definitiva nisso. A pergunta de Prometeu continua mais difícil que qualquer profecia. Quem terá acesso ao fogo de que dependerão as próximas gerações?
Acompanho a política desde os treze anos. Minha admiração por Lula atravessou o tempo das esperanças e o das decepções, os governos, as derrotas, as voltas que a história tomou sem pedir licença a ninguém. Não preciso imaginá-lo sem erros, nem acima dos homens, para reconhecer a singularidade de sua vida. Sei o quanto uma obra pública depende de movimentos, servidores, professores, pesquisadores, trabalhadores, legisladores e pessoas que jamais terão seus nomes inscritos numa placa. Foi precisamente por conhecer esse mundo coletivo que o operário aprendeu a conduzir parte de suas demandas até o centro do poder. O homem que homenageio não é aquele que fez tudo sozinho. É o que ajudou tantos outros a poder fazer.
Volto às mãos porque é nelas que a história adquire corpo. Às de Dona Lindu, ocupadas com os filhos e a sobrevivência. Às do rapaz que segurava uma laranja com vergonha de anunciar seu preço. À mão marcada pela prensa. Às de Marisa, trabalhando uma estrela com linha e tecido. Às de Aline Sousa, colocando a faixa presidencial. Às de Maria Gabrielly, escolhendo uma roupa no brechó entre um dia de estudo e outro. E às mãos que nenhum presidente poderá conhecer, as de uma filha de trabalhadores abrindo um livro, de um pesquisador diante de uma descoberta, de alguém que recebe um medicamento e pode voltar para casa. O fogo só ganha sentido quando deixa de pertencer a quem o carrega.
Prometeu tinha a eternidade. Lula tem a vida que coube a um homem, com a sua grandeza e com as feridas que ninguém vê por inteiro. É uma vida finita, como a de Dona Lindu, como a nossa. Essa diferença torna a homenagem mais íntima e mais exigente. Não há tempo infinito para reparar todas as injustiças, estudar tudo o que se deseja, rever todos os que partiram. Há, no entanto, tempo para fazer chegar aos outros aquilo que nos faltou. Quando olho de novo para a fotografia de Garanhuns, as sandálias continuam grandes demais. Não as imagino transformadas em algum calçado de rei. Prefiro pensar nas crianças que hoje podem entrar numa escola sem escondê-lo de ninguém, e naquelas para quem esse direito ainda precisa ser defendido. Dona Lindu queria que o filho aprendesse. Ele cresceu e ajudou a abrir caminhos para que os filhos de outras mulheres pudessem aprender também. Se há uma chama capaz de atravessar tantas perdas, talvez seja esta. A que passa de uma mão para outra e continua acesa quando as nossas já não puderem segurá-la.





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