top of page

EUA avançam sobre minerais do Brasil e excluem o próprio país

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 6 horas
  • 5 min de leitura

Enquanto os Estados Unidos avançam diretamente sobre estados brasileiros para garantir controle de minerais críticos, o governo federal falha em disputar a narrativa pública e deixa a sociedade alheia a uma das batalhas mais decisivas do século.


Hoje, 18 de março de 2026, não foi um dia comum. Foi o dia em que os Estados Unidos deram um passo explícito para reorganizar o controle sobre os minerais críticos brasileiros sem o Brasil. Em um evento articulado pela Embaixada americana com governos estaduais, bancos e interesses privados, desenha-se uma operação clara: acessar terras raras, lítio e outros recursos estratégicos diretamente no território, contornando o governo federal e fragmentando a capacidade de decisão nacional. Não se trata de cooperação. Trata-se de poder. Trata-se de geopolítica. E trata-se, sobretudo, de um erro grave do próprio Estado brasileiro, que, ao não antecipar o debate público e não mobilizar a sociedade para compreender o que está em jogo, permite que essa disputa aconteça longe dos olhos do povo. Quando a sociedade não sabe, ela não reage. E quando não reage, perde. O que está em curso hoje não é um acordo econômico. É uma disputa direta pelo futuro do país.

Em São Paulo, sob liderança da Embaixada dos Estados Unidos, reuniu-se um conjunto de atores que não se encontra por acaso: governos estaduais, bancos internacionais, fundos estratégicos, empresas de mineração e representantes do aparato estatal norte-americano. O tema é técnico apenas na aparência. Minerais críticos. Terras raras. Cadeias produtivas. O conteúdo real é outro. Poder. Soberania. Controle.


O que está em curso não é cooperação econômica. É a reorganização deliberada do acesso a recursos estratégicos em um país que ocupa posição central no tabuleiro global. O Brasil detém algumas das maiores reservas de minerais críticos do mundo, incluindo terras raras, lítio, níquel e nióbio, insumos fundamentais para a produção de semicondutores, baterias, sistemas de inteligência artificial, equipamentos militares e infraestrutura energética. Em outras palavras, trata-se da base material do século XXI. Quem controla essas cadeias não controla apenas mercados. Controla tecnologia, defesa, informação e, em última instância, a própria hierarquia do sistema internacional.


Nesse contexto, os Estados Unidos se movem com clareza estratégica. Buscam reduzir sua dependência da China, que hoje domina a produção e, sobretudo, o refino global de terras raras. Para isso, reorganizam cadeias produtivas em países considerados politicamente acessíveis e economicamente integráveis. O Brasil surge como peça-chave dessa equação. Não por acaso, o evento de hoje não foi genérico. Foi direcionado, estruturado, financiado. Houve presença de instituições como EXIM Bank e DFC, instrumentos clássicos da projeção de poder econômico norte-americano. Não se trata de mercado livre. Trata-se de política industrial externa operando em escala global.


O ponto mais grave, no entanto, não é a presença dos Estados Unidos. É a forma como essa presença se organiza no território brasileiro. O que se viu hoje foi uma negociação direta com estados, especialmente com Goiás, contornando o governo federal. Esse movimento não é técnico. É político. Ele fragmenta a capacidade de decisão nacional, desloca o centro da negociação para entes mais vulneráveis à pressão por investimento imediato e cria uma dinâmica de competição interna por capital externo. Na prática, estabelece-se um bypass da soberania nacional.


Esse tipo de operação não é novo na história. Ele se insere em um padrão clássico de reorganização de periferias estratégicas, no qual o controle não se dá necessariamente por imposição direta, mas por articulação institucional, financeira e territorial. A diferença é que, no século XXI, esse processo se dá em torno de cadeias tecnológicas altamente complexas, o que aumenta exponencialmente seus efeitos. Não estamos falando apenas de extração mineral. Estamos falando da estrutura material que sustenta a inteligência artificial, a economia digital, a indústria de defesa e a transição energética.


E é aqui que se revela o núcleo do problema brasileiro. O país não está apenas sendo pressionado externamente. Está falhando internamente. O governo federal, que deveria liderar essa disputa, antecipar o debate público e mobilizar a sociedade em torno de uma agenda estratégica de soberania mineral e tecnológica, não está fazendo isso na escala e na intensidade necessárias. Sua ausência no evento de hoje não é apenas um gesto diplomático. É um sintoma. Enquanto os Estados Unidos operam com método, capital e clareza de objetivos, o Brasil permanece incapaz de transformar esse tema em questão pública central.


Isso é um erro estratégico grave. Porque disputas dessa natureza não se vencem apenas em mesas de negociação. Elas se vencem também no campo da opinião pública. Sem compreensão social do que está em jogo, não há pressão política, não há legitimidade para decisões duras e não há capacidade de enfrentamento. Quando a sociedade não sabe, ela não reage. E quando não reage, outros decidem por ela.


O risco que se desenha é conhecido, ainda que em nova forma. O Brasil pode entrar no século mineral da mesma maneira que entrou em ciclos anteriores de sua história econômica: como fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia. Pode extrair terras raras, mas não dominar seu refino. Pode exportar lítio, mas importar baterias. Pode produzir nióbio, mas não controlar as cadeias industriais que dele dependem. Em suma, pode continuar sendo potência em recursos e periferia em poder.


A diferença é que, desta vez, as consequências são mais profundas. Porque os minerais críticos não são apenas commodities. São infraestrutura. São condição de possibilidade para qualquer projeto de soberania informacional, tecnológica e industrial. Sem controle sobre essas cadeias, não há autonomia em inteligência artificial, não há independência em sistemas digitais, não há capacidade de defesa compatível com a complexidade do mundo contemporâneo.


O que se viu hoje foi um passo concreto na direção de consolidar esse modelo de dependência. Um movimento articulado, financiado e legitimado por atores internos e externos, que avança sobre o território brasileiro enquanto a maioria da população sequer tem conhecimento do que está acontecendo. Isso não é apenas um problema de política econômica. É um problema de projeto nacional.


O Brasil ainda tem margem de manobra. Ainda pode definir regras, construir cadeias internas, articular política industrial, mobilizar universidades, centros de pesquisa e empresas nacionais. Ainda pode transformar sua base mineral em base de poder. Mas essa janela não é infinita. E ela se fecha na medida em que decisões estratégicas são tomadas sem debate público, sem transparência e sem participação social.


O que aconteceu hoje precisa ser entendido pelo que é. Não como um evento técnico, não como uma agenda de investimentos, mas como um momento de inflexão. Um momento em que a disputa pelo futuro do Brasil deixou de ser abstrata e se materializou em acordos, reuniões e estratégias concretas. Ignorar isso é abrir mão de decidir. E, em geopolítica, quem não decide é decidido.


Este texto é, portanto, um alerta. Porque o que está em jogo não é apenas o subsolo brasileiro. É o lugar do Brasil no século XXI.


pin-COMENTE.png
mantenha-se atualizado

Obrigado pelo envio!

  • linktree logo icon
  • Ícone do Instagram Branco
  • x logo
  • bluesky logo icon
  • Spotify
  • Ícone do Youtube Branco
bottom of page