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Não é o MAGA. É o império.

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 2 horas
  • 10 min de leitura

O erro das análises atuais é acreditar que a ofensiva contra o Brasil nasce no trumpismo. O MAGA é apenas a forma mais agressiva de uma preocupação estratégica muito mais profunda: a tentativa dos Estados Unidos de preservar sua influência sobre a América Latina em um mundo que já não conseguem controlar como antes.


As tarifas, os ataques ao STF, a pressão sobre o governo brasileiro, a guerra cultural e a disputa eleitoral são apenas a superfície. Por trás delas está uma batalha por rotas, portos, minerais, energia, infraestrutura digital e corredores logísticos que atravessam todo o continente. Enquanto a maioria discute personagens, a disputa real acontece sobre estruturas. E o Brasil voltou a ocupar o centro desse tabuleiro.

A notícia é pequena. O fato histórico é grande.



No dia 23 de junho de 2026, Donald Trump compartilhou um artigo que classificava a eleição presidencial brasileira como seu próximo grande desafio político. A declaração soma-se a uma sequência de pressões que vêm se acumulando nos últimos meses: tarifas comerciais contra produtos brasileiros, ataques ao Supremo Tribunal Federal, críticas à regulação das plataformas digitais e tentativas crescentes de transformar a política brasileira em tema de interesse estratégico para Washington. Não se trata de um episódio isolado. 


Nos últimos meses, Washington abriu investigações comerciais contra o Brasil, anunciou novas tarifas, elevou o tom das críticas contra decisões do Supremo Tribunal Federal e passou a tratar a política brasileira como tema recorrente do debate estratégico norte-americano. No mesmo período, setores conservadores dos Estados Unidos passaram a enquadrar a eleição brasileira de 2026 como uma disputa de interesse hemisférico, vinculando seu resultado à correlação de forças em toda a América Latina. À primeira vista, tudo parece apenas mais um capítulo da polarização contemporânea. Trump contra Lula. Bolsonaro contra o STF. Direita contra esquerda. MAGA contra progressistas.


Essa leitura, porém, enxerga apenas a superfície dos acontecimentos. O verdadeiro problema começa quando passamos a acreditar que a crise pode ser explicada apenas pelos personagens que ocupam momentaneamente o palco. A pergunta central não é por que Trump voltou a falar do Brasil. A pergunta central é por que o Brasil voltou a ocupar uma posição tão relevante no cálculo estratégico dos Estados Unidos. Essa mudança de perspectiva altera completamente o significado dos fatos que estamos observando.


O erro de grande parte das análises atuais é tratar a ofensiva contra o Brasil como uma agenda exclusiva do trumpismo ou da nova direita norte-americana. Como se tudo pudesse ser explicado pela radicalização ideológica do MAGA. Essa interpretação é confortável porque personaliza um fenômeno que, na realidade, é estrutural. Ela transforma uma disputa geopolítica em uma disputa eleitoral. Transforma uma questão de poder em uma questão de narrativa. E, ao fazer isso, obscurece justamente aquilo que mais importa.


Impérios não reorganizam suas prioridades estratégicas por causa de afinidades ideológicas. Eles o fazem quando percebem mudanças concretas na correlação de forças internacional. Nas últimas duas décadas, os Estados Unidos assistiram à ascensão econômica e tecnológica da China, ao fortalecimento dos BRICS, à expansão de novos corredores comerciais, ao crescimento de mecanismos financeiros alternativos ao dólar e à ampliação da autonomia política de diversas potências médias. O mundo que sustentou a hegemonia absoluta de Washington após o fim da Guerra Fria já não existe da mesma forma.


É nesse contexto que a América Latina reaparece no horizonte estratégico norte-americano. Não porque Trump tenha decidido olhar para o sul. Não porque a nova direita tenha descoberto a região. Mas porque a transformação da economia mundial devolveu ao continente uma importância que muitos julgavam superada. O que está em disputa não são apenas governos, eleições ou alinhamentos ideológicos. O que está em disputa são rotas, portos, energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital, corredores logísticos e a capacidade de organizar os fluxos que movimentarão a economia global nas próximas décadas.


Por isso, a notícia do dia é menor do que parece. O compartilhamento de um artigo por Donald Trump pode ocupar as manchetes. Mas o fato histórico relevante está em outro lugar. Pela primeira vez em muitos anos, a principal potência do planeta voltou a tratar a América Latina não como periferia, mas como território decisivo para a preservação de sua influência global. E nenhum país ocupa posição mais importante nessa disputa do que o Brasil.

Não é uma disputa ideológica. É uma disputa por hegemonia.


A maior parte das análises sobre a crise atual parte de uma premissa equivocada. Supõe que a escalada de pressões sobre o Brasil seja consequência direta da ascensão do trumpismo ou da radicalização da direita norte-americana. Essa interpretação confunde forma com conteúdo. O que está em movimento é algo muito maior: a tentativa dos Estados Unidos de administrar a erosão relativa de sua própria hegemonia em um sistema internacional que já não conseguem controlar da mesma forma que controlavam há trinta anos.


Os fatos são eloquentes. Nos últimos anos, a China consolidou-se como principal parceiro comercial de grande parte da América do Sul. Os BRICS ampliaram sua influência econômica e política. Novos mecanismos financeiros passaram a ser discutidos fora da órbita tradicional do dólar. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, Washington passou a observar a formação de redes econômicas, financeiras e logísticas que escapam parcialmente de sua capacidade de coordenação. O avanço dos BRICS, a ampliação das relações sino-latino-americanas e os novos corredores de integração continental sinalizam uma redistribuição gradual de poder que ultrapassa governos e ciclos eleitorais.


Corredores logísticos ligando a América do Sul ao Pacífico avançaram do papel para a fase de execução. O porto de Chancay, no Peru, financiado por capital chinês, tornou-se um dos símbolos mais evidentes dessa transformação. Ao mesmo tempo, projetos como a Ferrovia Bioceânica passaram a ser tratados não apenas como obras de infraestrutura, mas como instrumentos de reorganização dos fluxos globais de comércio.


O problema para Washington não é apenas econômico. É a possibilidade de perder capacidade de organizar os fluxos que sustentaram sua hegemonia durante décadas. Os Estados Unidos ocuparam a posição de principal organizador dos fluxos financeiros, comerciais e tecnológicos do planeta. Essa condição permitiu que sua influência ultrapassasse largamente seu poder militar. Mas essa capacidade de organização passou a enfrentar limites cada vez mais visíveis. A ascensão chinesa, o fortalecimento de novas coalizões internacionais e a crescente autonomia de potências regionais reduziram a margem de manobra de uma ordem internacional construída sob liderança norte-americana após o fim da Guerra Fria.


É nesse contexto que a América Latina volta ao centro do tabuleiro. Não por acaso, mas por necessidade histórica. Quando a capacidade de influência global encontra obstáculos crescentes na Eurásia, no Oriente Médio e em outras regiões estratégicas, a importância da retaguarda hemisférica aumenta. Não se trata de uma novidade da administração Trump. Trata-se de uma lógica recorrente das grandes potências ao longo da história. Nenhum centro de poder aceita passivamente a perda de influência sobre sua área imediata de projeção estratégica.


É por isso que a crise atual não pode ser compreendida apenas através das disputas eleitorais brasileiras ou das guerras culturais que dominam as redes sociais. As tarifas, as pressões diplomáticas, os ataques às instituições brasileiras e a crescente tentativa de enquadrar a política nacional como tema de interesse estratégico dos Estados Unidos são manifestações diferentes de uma mesma preocupação. O que está em disputa não é apenas quem governará o Brasil nos próximos anos. O que está em disputa é a posição que o país ocupará na reorganização do poder global que já está em curso.

A América Latina voltou a ser a retaguarda estratégica do império


A melhor forma de entender a crise atual é observar para onde os Estados Unidos estão olhando. Não para os discursos. Não para as eleições. Não para as redes sociais. Mas para os mapas.


Nos últimos anos, Washington voltou a concentrar atenção sobre alguns dos principais gargalos logísticos do planeta. O Canal do Panamá retornou ao centro da disputa entre Estados Unidos e China porque continua sendo uma das principais artérias do comércio mundial. No Peru, a inauguração do porto de Chancay criou uma rota direta entre a América do Sul e a Ásia, reduzindo custos logísticos, encurtando prazos de transporte e diminuindo a dependência de circuitos historicamente organizados sob influência norte-americana. Pela primeira vez em décadas, uma infraestrutura de escala continental começou a reposicionar parte dos fluxos comerciais sul-americanos diretamente em direção ao Pacífico. Pela primeira vez em décadas, uma parcela crescente dos fluxos comerciais sul-americanos começa a encontrar caminhos alternativos às rotas historicamente organizadas sob influência norte-americana.


O mesmo ocorre com os projetos de integração física do continente. A Ferrovia Bioceânica, os corredores rodoviários ligando o Atlântico ao Pacífico e os investimentos em infraestrutura regional não representam apenas obras de transporte. Representam a possibilidade concreta de reorganizar a geografia econômica da América do Sul. Cada quilômetro de trilho, cada novo terminal portuário e cada corredor logístico reduzem custos, encurtam distâncias e ampliam a autonomia de países que, durante décadas, permaneceram dependentes de circuitos econômicos desenhados em outra época e para outros interesses.


O Atlântico Sul ocupa posição semelhante. A região concentra rotas marítimas estratégicas, reservas energéticas, cabos submarinos de comunicação e uma parcela crescente da infraestrutura digital que sustenta a economia contemporânea. Não por acaso, a presença militar, diplomática e econômica das grandes potências voltou a crescer nesse espaço. A disputa não ocorre apenas sobre territórios. Ocorre sobre os sistemas que conectam territórios.


É justamente aí que muitas análises se perdem. O que está em jogo não é apenas o controle de governos. É o controle dos fluxos. Fluxos de mercadorias, energia, minerais estratégicos, informações, dados e investimentos. A lógica que orienta a competição geopolítica do século XXI não é mais apenas territorial. Ela é logística. Quem controla os corredores, os portos, as redes e as infraestruturas controla uma parte decisiva da capacidade de organizar a economia global.


Sob essa perspectiva, a América Latina deixa de ser periferia e volta a ser infraestrutura estratégica. E é exatamente por isso que a região reaparece no centro das preocupações de Washington. Não porque tenha mudado de ideologia. Mas porque mudou de posição dentro da arquitetura do poder mundial.

O Brasil é o prêmio


Se a América Latina voltou a ocupar posição estratégica na disputa global por fluxos, o Brasil tornou-se seu ativo mais valioso. Nenhum outro país da região reúne, simultaneamente, a mesma combinação de território, população, recursos naturais, capacidade produtiva, posição geográfica e peso político internacional. É exatamente essa combinação que explica por que o Brasil voltou a aparecer com tanta frequência nos cálculos estratégicos de Washington.


O país concentra algumas das maiores reservas de água doce do planeta, é um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, possui reservas estratégicas de petróleo, abriga minerais indispensáveis para a transição tecnológica e ocupa posição central na conexão entre Atlântico Sul, Amazônia e América do Sul. Em um mundo marcado pela disputa por energia, segurança alimentar, infraestrutura digital e minerais críticos, poucos territórios concentram simultaneamente tantos ativos estratégicos quanto o Brasil. Ao mesmo tempo, controla uma extensa faixa do Atlântico Sul, integra os BRICS, mantém relações econômicas crescentes com a China e ocupa posição central em qualquer projeto de integração física da América do Sul.


A transformação dos fluxos globais ampliou ainda mais essa importância. À medida que novos corredores comerciais conectam a América do Sul ao Pacífico e ao mercado asiático, o território brasileiro deixa de ser apenas um grande mercado consumidor ou exportador de commodities. Ele passa a funcionar como peça-chave de uma nova arquitetura logística continental. A Ferrovia Norte-Sul, a Fiol, a Fico, os corredores bioceânicos e as conexões projetadas entre o centro produtivo brasileiro e os portos do Pacífico não representam apenas investimentos em infraestrutura. Representam a possibilidade concreta de reorganizar rotas comerciais historicamente estruturadas sob outras lógicas geopolíticas. Se esses projetos forem consolidados, parte crescente da produção brasileira poderá alcançar a Ásia sem depender dos circuitos logísticos que dominaram o comércio hemisférico durante décadas.


O mesmo ocorre no campo tecnológico. A disputa contemporânea já não envolve apenas petróleo, minérios ou produção industrial. Ela envolve infraestrutura digital, centros de processamento de dados, inteligência artificial, redes de comunicação e capacidade de armazenamento. Nesse cenário, o Brasil tornou-se um espaço estratégico para investimentos em data centers, cabos submarinos e serviços digitais que serão fundamentais para a próxima fase da economia global. A disputa pelos fluxos do século XXI não ocorre apenas sobre mercadorias. Ocorre também sobre dados.


É justamente por isso que a política brasileira passou a despertar atenção crescente fora de suas fronteiras. Não porque Washington tenha desenvolvido um interesse súbito pelo processo eleitoral brasileiro. Mas porque as decisões tomadas em Brasília possuem impacto direto sobre corredores logísticos, relações comerciais, integração regional, infraestrutura digital, recursos estratégicos e alinhamentos internacionais. O Brasil deixou de ser apenas um ator regional. Tornou-se uma variável relevante na disputa pela configuração da ordem internacional que emerge da crise da hegemonia unipolar.


Por essa razão, interpretar a ofensiva atual como simples expressão do trumpismo significa olhar para a sombra e ignorar o objeto que a produz. Trump pode ser o instrumento mais visível. Pode ser a voz mais estridente. Pode ser a face mais agressiva do processo. Mas a centralidade do Brasil não nasce nele. Ela nasce da posição objetiva que o país passou a ocupar em um mundo que se reorganiza rapidamente. O Brasil não está no centro da disputa porque Trump decidiu colocá-lo ali. O Brasil está no centro da disputa porque a geografia, a economia e a política internacional o colocaram ali.

Não é o MAGA. É o império.


Existe um erro recorrente na forma como o Brasil interpreta as grandes transformações internacionais. Tendemos a enxergar processos estruturais através dos personagens que momentaneamente ocupam o palco. Foi assim durante a Guerra Fria. Foi assim durante a ascensão da globalização. E volta a acontecer agora. Enquanto parte do debate nacional se concentra em Trump, Bolsonaro, Lula, STF, plataformas digitais e eleições, uma disputa muito mais profunda avança silenciosamente sob nossos pés.


O que está em curso não é apenas uma batalha política. É uma disputa pela reorganização dos fluxos que sustentarão o poder global nas próximas décadas. Portos, corredores bioceânicos, energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital, inteligência artificial, cabos submarinos, rotas marítimas e cadeias produtivas tornaram-se ativos centrais de uma nova geopolítica. A América Latina voltou ao centro dessa disputa porque concentra parte significativa desses recursos. E o Brasil ocupa posição privilegiada dentro dessa arquitetura.


Por isso, a ofensiva atual não pode ser compreendida apenas como manifestação do trumpismo ou da radicalização da direita norte-americana. Trump é um fenômeno político. A disputa é histórica. O MAGA é uma forma de atuação. O império é a estrutura que lhe dá direção. As tarifas, as pressões diplomáticas, os ataques institucionais, a guerra cultural e a crescente tentativa de transformar a política brasileira em tema de interesse estratégico para Washington são expressões diferentes de uma mesma realidade: a dificuldade dos Estados Unidos em administrar a transição para um mundo cada vez mais multipolar.


O verdadeiro desafio do Brasil não é compreender Trump. É compreender a transformação histórica que tornou o país importante demais para ser ignorado e estratégico demais para ser deixado em paz. Enquanto continuarmos discutindo apenas os atores, continuaremos chegando atrasados às disputas que realmente importam. Porque a batalha decisiva do nosso tempo não está sendo travada apenas nos parlamentos, nas redes sociais ou nas urnas. Ela está sendo travada sobre os fluxos que definirão quem terá capacidade de organizar a economia, a tecnologia e o poder no século XXI.


E é exatamente por isso que o erro mais perigoso deste momento é acreditar que estamos diante de uma simples disputa eleitoral. Não estamos. O que está em jogo é a posição que o Brasil ocupará na nova geografia do poder mundial.


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