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Como foi possível capturar Maduro

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 1 dia
  • 14 min de leitura

O que a ausência de reação militar na Venezuela revela sobre guerra híbrida, soberania e poder no século XXI


Sob alerta máximo, com forças armadas em prontidão e sistemas de defesa ativos, a Venezuela assistiu à captura de seu chefe de Estado sem resposta aérea ou terrestre efetiva. Não se trata de opinião nem de propaganda, mas de um problema material que exige análise rigorosa: que condições tornaram isso possível e o que esse precedente significa para a soberania dos países do Sul Global.

O fato e a anomalia



No início de janeiro de 2026, uma operação conduzida pelos Estados Unidos resultou no sequestro de Nicolás Maduro em território venezuelano e em sua transferência imediata para os Estados Unidos. O episódio foi apresentado por Washington como uma ação de natureza penal e descrito por Caracas como um sequestro internacional. Em poucos dias, a estrutura política do país entrou em rearranjo acelerado, sob forte pressão externa e profunda instabilidade institucional.


O que torna esse evento singular não é apenas a violação explícita da soberania venezuelana, nem o precedente jurídico que se tenta construir a partir dela. O ponto central, aquele que exige análise rigorosa, é outro: a ausência de uma reação militar observável compatível com o nível de ameaça previamente declarado pelo próprio Estado venezuelano.


A Venezuela vinha operando sob discurso permanente de alerta máximo, em um contexto de hostilidade aberta, sanções prolongadas e risco anunciado de agressão externa. Em situações desse tipo, a experiência histórica mostra que Estados, mesmo fragilizados, tendem a reagir de alguma forma quando seu núcleo de poder é diretamente atacado. Aqui, isso não ocorreu de maneira proporcional ou visível.


Esse descompasso não pode ser tratado como detalhe nem explicado por slogans. Ele constitui uma anomalia estratégica. E anomalias, quando observadas com seriedade, não são descartadas; são o ponto de partida de qualquer investigação honesta.


Este artigo não parte de narrativas prontas, nem da propaganda imperial que celebra “operações perfeitas”, nem de explicações apressadas que reduzem processos complexos a traições genéricas. O objetivo é outro: compreender quais condições materiais, humanas e organizacionais podem ter tornado esse evento possível, e o que isso revela sobre o exercício do poder, a guerra contemporânea e os limites da soberania no século XXI, especialmente para os países do Sul Global.

Estados funcionam por cadeias materiais



Estados não reagem por abstrações, discursos ou intenções declaradas. Reagem por cadeias materiais. Essas cadeias são compostas por estruturas físicas, rotinas organizacionais, fluxos de informação, hierarquias humanas e protocolos de decisão que, quando acionados, produzem efeitos concretos no território. Defesa, portanto, não é uma ideia; é um processo.


Para que um Estado responda a uma agressão direta contra seu núcleo de poder, uma sequência mínima precisa estar operacional: detecção, comunicação, decisão, execução. A interrupção de qualquer elo dessa cadeia não paralisa apenas uma unidade isolada; compromete a resposta como um todo. Quanto mais centralizado o sistema político-militar, maior a dependência dessa sequência funcionar sem rupturas.


A detecção envolve sensores, vigilância humana, inteligência técnica e percepção situacional. A comunicação exige canais funcionais, redundantes e confiáveis entre unidades, comandos intermediários e centros decisórios. A decisão depende de autoridade reconhecida, clareza de comando e disposição para agir. A execução requer tropas, meios e operadores dispostos e capazes de cumprir ordens em tempo útil.


Nada disso acontece automaticamente. Mesmo sistemas altamente militarizados não “reagem sozinhos”. Eles reagem quando essas cadeias permanecem íntegras sob estresse. Quando não permanecem, o que se observa não é necessariamente derrota militar clássica, mas inércia operacional.


É por isso que explicações baseadas apenas em “superioridade tecnológica” ou “vontade política” são insuficientes. Tecnologias ampliam capacidades, mas não substituem cadeias organizacionais. Vontade política pode orientar decisões, mas não executa ações se os meios não estão sincronizados. Estados colapsam operacionalmente não quando perdem todas as armas, mas quando perdem a capacidade de transformar intenção em ação coordenada.


No caso venezuelano, o sequestro de um chefe de Estado em território nacional sem resposta militar observável sugere, no mínimo, uma ruptura significativa em uma ou mais dessas cadeias. Não se trata ainda de atribuir causa, mas de reconhecer o mecanismo: algo interrompeu, atrasou ou neutralizou o processo que normalmente converteria alerta em reação.


Essa constatação é decisiva porque desloca o debate do campo moral ou ideológico para o campo material. Antes de perguntar “quem venceu” ou “quem traiu”, é preciso compreender o que deixou de funcionar. Sem essa compreensão, qualquer narrativa será apenas isso: narrativa.

O que se espera quando um Estado está sob alerta máximo



Estados que operam sob alerta máximo não funcionam como em tempos ordinários. O alerta não é apenas uma declaração política; ele implica alterações práticas no funcionamento do aparelho militar e de segurança. Protocolos mudam, cadeias encurtam, margens de decisão se estreitam. A finalidade do alerta máximo é reduzir o tempo entre ameaça percebida e resposta efetiva.


Em termos empíricos, quando um Estado acredita estar sob risco iminente de agressão externa, alguns comportamentos tendem a aparecer com alta regularidade histórica. A defesa aérea eleva níveis de prontidão. Unidades sensíveis reforçam perímetros. Autoridades-chave passam a operar em circuitos de proteção ampliados. Tropas estratégicas entram em estado de mobilização preventiva. Mesmo países com capacidades limitadas costumam produzir sinais visíveis de reação, ainda que desorganizados ou ineficientes.


Essas respostas não precisam ser bem-sucedidas para existirem. Em diversos conflitos contemporâneos, observam-se lançamentos erráticos de mísseis, decolagens tardias, confrontos localizados, decisões improvisadas. O ponto não é a eficácia, mas a presença de reação. A ausência quase total de resposta observável, sobretudo em um ataque dirigido ao núcleo do poder estatal, é estatisticamente rara.


Essa raridade aumenta quando o contexto é de hostilidade prolongada. Estados submetidos a sanções, ameaças reiteradas e pressão externa tendem a desenvolver uma postura defensiva hipertrofiada, ainda que muitas vezes disfuncional. O alerta máximo, nesses casos, costuma servir menos para vencer uma guerra e mais para evitar a surpresa estratégica. Ele existe justamente para impedir que o ataque ocorra sem fricção.


É por isso que o caso venezuelano exige cautela analítica redobrada. Não se trata de um Estado desarmado, pacificado ou desatento. Trata-se de um país que, há anos, declara viver sob ameaça existencial, que estrutura sua narrativa de segurança em torno da defesa contra agressões externas e que afirma manter vigilância permanente. Em um cenário assim, a expectativa mínima seria algum nível de reação, ainda que limitada.


Quando essa reação não se manifesta de forma observável, duas conclusões preliminares se impõem. A primeira é negativa: algo impediu o funcionamento normal dos mecanismos de resposta. A segunda é metodológica: não basta afirmar que houve “superioridade” do agressor; é preciso explicar como essa superioridade se traduziu em paralisia, e se ela foi suficiente por si só.


Esse ponto é central porque delimita o campo das hipóteses plausíveis. Um ataque externo, mesmo sofisticado, precisa atravessar sistemas técnicos e humanos que, em alerta máximo, operam justamente para resistir à surpresa. Quando isso não ocorre, a explicação exige mais do que slogans. Exige uma análise dos limites reais da tecnologia, da organização e da decisão humana sob pressão extrema.

O alcance real da guerra cibernética e eletrônica



A explicação mais difundida para a ausência de reação militar venezuelana recorre à ideia de um apagão cibernético ou eletrônico total, capaz de cegar, ensurdecer e paralisar o Estado em minutos. Essa hipótese precisa ser tratada com seriedade, mas também com rigor. Guerra cibernética e guerra eletrônica são instrumentos poderosos, porém não são mágicos, nem operam fora de limites materiais bem conhecidos.


Operações cibernéticas podem comprometer redes de comando e controle, degradar bancos de dados, interferir em sistemas de apoio logístico e gerar confusão decisória. A guerra eletrônica pode suprimir radares, interferir em comunicações, saturar sensores e dificultar a coordenação entre unidades. Em combinação, essas capacidades podem reduzir drasticamente a eficácia de uma defesa organizada, sobretudo se explorarem vulnerabilidades pré-existentes.


O ponto crítico é que essas ferramentas não substituem automaticamente a reação humana. Mesmo sob intensa interferência eletrônica, forças armadas tendem a recorrer a protocolos de contingência, comunicações redundantes, cadeias locais de decisão e, em última instância, à iniciativa individual de comandantes no terreno. A história militar recente mostra que sistemas degradados continuam produzindo respostas imperfeitas, erráticas ou tardias, mas raramente resultam em silêncio completo.


Além disso, operações cibernéticas eficazes exigem preparo prolongado, conhecimento detalhado das redes-alvo e, frequentemente, algum grau de acesso prévio. Elas funcionam melhor quando encontram organizações já fragilizadas por problemas de manutenção, treinamento ou coesão interna. Mesmo assim, seu efeito típico é a desorganização, não a neutralização absoluta de todos os elos da cadeia de resposta.


Por essa razão, a hipótese de que a guerra cibernética e eletrônica, por si só, explique a ausência de reação observável precisa ser tratada como necessária, mas insuficiente. Necessária porque é plausível que tenha havido degradação significativa dos sistemas de detecção e comunicação. Insuficiente porque não explica, sozinha, a falta de iniciativas locais, ações defensivas dispersas ou reações improvisadas que costumam surgir mesmo em cenários de colapso parcial.


Esse limite é fundamental para evitar dois erros simétricos. O primeiro é o fetiche tecnológico, que transforma ferramentas reais em explicações totais e serve à propaganda de poder do agressor. O segundo é a negação dessas capacidades, que subestima a transformação contemporânea da guerra. A análise rigorosa exige manter ambos os pés no chão: reconhecer o impacto da guerra cibernética e eletrônica, sem atribuir a ela um poder absoluto que a experiência empírica não sustenta.


Ao reconhecer esses limites, o debate avança para onde realmente importa. Se a tecnologia não explica tudo, é preciso olhar para a dimensão humana e organizacional do poder militar, onde decisões, omissões e conflitos internos podem amplificar ou neutralizar qualquer vantagem técnica externa.

A dimensão humana do poder militar



Nenhum sistema militar funciona sem pessoas. Sensores detectam, redes transmitem, armas disparam, mas decisões são tomadas por seres humanos inseridos em hierarquias, rotinas, medos e cálculos. É nesse plano, frequentemente invisibilizado pelas narrativas tecnicistas, que muitos processos de colapso ou paralisia ganham sentido.


Cadeias de comando não são apenas organogramas formais. Elas dependem de confiança, legitimidade e expectativa de consequência. Um comandante reage quando acredita que sua decisão será respaldada, quando reconhece a autoridade que emite a ordem e quando avalia que agir é menos arriscado do que não agir. Quando essas condições se deterioram, a reação não desaparece por incapacidade técnica, mas por cálculo humano.


Há uma diferença crucial entre confusão e cooperação. A confusão decorre de ruído, falhas de comunicação ou choque inicial; tende a produzir ações descoordenadas, atrasos e erros. A cooperação, por sua vez, implica algum grau de alinhamento consciente, ainda que fragmentado, com a não reação. Entre esses polos existe uma zona intermediária, mais comum do que se admite: a inércia induzida, quando atores aguardam sinais que não chegam, temem agir isoladamente ou percebem que o centro decisório perdeu capacidade de coordenar.


Forças armadas não “desligam” coletivamente sem algum gatilho humano. Mesmo sob ataque externo severo, unidades locais costumam agir com base em regras de engajamento prévias ou iniciativa própria. Quando isso não ocorre, é razoável supor que ordens explícitas, sinais implícitos ou expectativas compartilhadas tenham operado no sentido da contenção. Isso não exige uma conspiração ampla; basta que a incerteza sobre quem manda e o que acontecerá depois se torne dominante.


Esse aspecto é ainda mais relevante em contextos de pressão prolongada. Sanções, isolamento e disputas internas corroem a coesão institucional ao longo do tempo. O efeito não é a desintegração imediata, mas a erosão da disposição para assumir riscos. Em momentos críticos, essa erosão se manifesta como espera, hesitação ou silêncio operacional.


Considerar a dimensão humana não é acusar, nem absolver. É reconhecer que o poder militar é sempre mediado por pessoas, e que essas pessoas operam sob incentivos, medos e expectativas concretas. Ignorar esse plano é aceitar explicações incompletas, que transformam fenômenos sociais complexos em meros testes de hardware.


Esse reconhecimento prepara o terreno para o passo seguinte da análise: se a tecnologia não explica tudo e a dimensão humana é decisiva, então é preciso organizar as hipóteses plausíveis de forma explícita, comparando cenários concorrentes sem fechar conclusões onde faltam dados.

Três cenários plausíveis para o que ocorreu



A anomalia permanece: um sequestro de chefe de Estado, em território nacional, sob ambiente de alerta, com resposta militar observável muito abaixo do esperado. A tarefa agora é organizar hipóteses concorrentes sem transformar lacunas em certezas. Três cenários, distintos e compatíveis com a evidência pública disponível, ajudam a mapear o campo do possível.


Cenário A: Supressão externa eficaz e colapso do comando


Neste cenário, a operação combinou ataque eletrônico, perturbação de comunicações, ações de choque e velocidade decisiva para romper a cadeia detecção–comunicação–decisão–execução. O resultado não é “apagão total”, mas uma paralisia prática: unidades não recebem quadro de situação, não têm ordens claras, temem agir no escuro e perdem tempo crítico.


  • Força: explica a desorganização sem depender de cooperação interna ampla.


  • Limite: mesmo sob colapso parcial, costuma haver reação dispersa, sobretudo com meios de defesa pontual.


  • Predições testáveis: relatos consistentes de falhas de comunicação, confusão de ordens, interrupções simultâneas em múltiplas redes, decisões tardias e contraditórias.


Cenário B: Facilitação interna limitada e localizada


Aqui, existiu colaboração de poucos atores em pontos-chave, sem exigir adesão generalizada. Bastaria abrir janelas específicas: acesso, rotas, horários, localização, rotinas de segurança, ou neutralização pontual de um elo decisivo da cadeia de comando. O Estado não “cai”, mas fica vulnerável no lugar exato e no minuto exato.


  • Força: explica a eficiência do sequestro sem requerer silêncio absoluto de todo o aparato militar.


  • Limite: ainda precisa explicar por que a reação posterior permaneceu baixa.


  • Predições testáveis: sinais de vazamento prévio de informação, discrepâncias em escalas de serviço, mudanças de rota, remoção de pessoas-chave, prisões seletivas após o evento.


Cenário C: Stand-down em cadeia, por cooperação, cálculo ou ruptura interna


Neste cenário, segmentos relevantes da cadeia de comando foram induzidos, ordenados ou convencidos a não reagir. Isso pode ocorrer por cooperação ativa, por medo de escalada, por percepção de que a correlação de forças tornou a reação “inútil”, ou por disputa interna sobre sucessão. O efeito é um silêncio organizado, ainda que não totalmente centralizado.


  • Força: explica a baixa reação mesmo onde haveria iniciativa local.


  • Limite: é a hipótese mais grave e, portanto, exige a evidência mais forte.


  • Predições testáveis: expurgos amplos, conflitos entre comandos, mensagens internas vazadas sobre “não engajar”, reconfiguração rápida de lideranças, padrão de omissões repetidas em unidades distintas.


O ponto decisivo é simples: os três cenários podem coexistir em graus diferentes. O trabalho científico não é escolher por instinto, mas identificar quais evidências futuras aumentariam ou reduziriam a probabilidade de cada um. Na prática, a pergunta deixa de ser “foi tecnologia ou traição” e passa a ser “qual combinação de degradação técnica, ruptura organizacional e decisão humana torna o caso coerente”.

Evidência, propaganda e o problema das narrativas



Eventos dessa magnitude não ocorrem apenas no plano material. Eles são imediatamente disputados no plano narrativo. A velocidade com que versões se cristalizam costuma ser inversamente proporcional à qualidade das evidências disponíveis. É nesse terreno que a análise estratégica precisa ser mais cautelosa, porque a guerra informacional não é um efeito colateral do conflito, mas parte constitutiva dele.


A narrativa dominante no Norte Global tende a converter o sequestro em demonstração de “perfeição operacional”. O foco recai sobre tecnologia, siglas, plataformas e doutrinas, produzindo uma sensação de inevitabilidade. Essa narrativa cumpre uma função clara: transformar poder bruto em normalidade, reduzir a soberania a um detalhe jurídico e apresentar a ausência de reação como prova de obsolescência do Estado agredido. O problema é que ela antecipa conclusões que não foram demonstradas.


No extremo oposto, narrativas reativas do Sul Global correm o risco de explicar a anomalia por meio de categorias igualmente totalizantes, como a ideia de traição generalizada. Embora a dimensão interna não possa ser descartada, esse enquadramento tende a simplificar processos complexos e a substituir investigação por indignação. Ele oferece conforto moral imediato, mas pouco esclarecimento.


Entre esses polos, a evidência concreta costuma ser escassa, fragmentada e tardia. Vídeos sem contexto, declarações interessadas, análises retrospectivas e vazamentos seletivos não constituem, por si sós, prova robusta. Evidência forte, em casos como este, envolve padrões consistentes ao longo do tempo: decisões administrativas subsequentes, mudanças abruptas em cadeias de comando, punições ou promoções, conflitos públicos entre autoridades, e coerência entre o que foi dito antes, durante e depois do evento.


É crucial reconhecer que a propaganda não mente apenas ao inventar fatos. Ela também mente ao preencher lacunas com excesso de certeza. Quando uma narrativa afirma explicar tudo, desconfie. Processos reais deixam rastros irregulares, contradições e zonas de sombra. O trabalho analítico sério não elimina essas zonas; ele as mapeia.


Essa distinção é central para preservar a autonomia intelectual do Sul Global. Repetir a narrativa do agressor reforça sua pretensão de legitimidade. Reagir com explicações apressadas enfraquece a capacidade de resposta estratégica. O caminho mais difícil, e mais necessário, é sustentar a dúvida informada, exigir evidência e recusar conclusões que não resistam ao teste da coerência material.


Com isso, o caso venezuelano deixa de ser apenas um episódio isolado e passa a operar como sinal de algo maior: um precedente que afeta todos os Estados que dependem da estabilidade de suas cadeias internas para garantir soberania. É esse deslocamento que precisa ser enfrentado no próximo passo da análise.

O precedente estratégico para o Sul Global



O sequestro de um chefe de Estado não é apenas um ato contra um governo. É uma mensagem dirigida a todos os Estados que, por localização, dependência tecnológica, assimetrias econômicas ou fragilidade institucional, vivem sob a sombra de coerções externas. O alvo imediato pode ser a Venezuela, mas o efeito mais profundo é a tentativa de redefinir, na prática, o que “soberania” significa.


A soberania, para o Sul Global, nunca foi um conceito abstrato. Ela sempre dependeu de condições materiais: capacidade de proteger infraestrutura crítica, preservar coesão institucional, sustentar cadeias de comando sob pressão e resistir à captura externa de seus pontos sensíveis. Quando um sequestro desse tipo é apresentado como ação normalizável, abre-se um precedente perigoso: o de que a integridade política de um país pode ser violada com base em enquadramentos unilaterais produzidos fora dele.


Esse precedente tem duas camadas. A primeira é jurídica e narrativa: a tentativa de reembalar um ato de força como “cumprimento penal”, deslocando a discussão do campo da soberania para o campo de uma autoridade doméstica estrangeira. A segunda é operacional: a demonstração de que, para inviabilizar uma resposta estatal, não é necessário ocupar um país. Basta atingir seus elos críticos, explorar suas fissuras internas e vencer a corrida do tempo.


Para Estados do Sul Global, a lição não é imitar arsenais ou comprar plataformas caras na esperança de “equilibrar” a correlação de forças. A lição é mais dura: sistemas de defesa, por sofisticados que sejam, valem pouco se não estiverem integrados a cadeias humanas e organizacionais capazes de operar sob choque. E cadeias humanas, por sua vez, colapsam quando convivem com degradação, medo, disputa interna e dependência estrutural.


Há ainda um efeito político regional inevitável. Quanto mais um episódio assim é narrado como prova de impunidade, mais ele incentiva dois movimentos simultâneos: de um lado, governos se tornam mais propensos a endurecer controles internos, em nome da sobrevivência; de outro, setores internos passam a recalcular custos e benefícios de lealdade institucional diante de uma potência que se apresenta como capaz de decidir destinos. Ambos os movimentos corroem a democracia, a autodeterminação e a estabilidade, exatamente o tipo de ambiente em que operações de coerção se tornam mais fáceis de repetir.


Por isso, o caso venezuelano não deve ser lido como episódio fechado, mas como alerta estrutural. O que está em disputa é a capacidade do Sul Global de manter sua autonomia em um cenário em que a guerra, cada vez mais, opera por atalhos: atacar decisões, interromper coordenação, fabricar legitimidade posterior e impor fato consumado antes que qualquer resposta possa se organizar.


Resta, então, encerrar sem artificialismo: reconhecer o que se pode afirmar com segurança, o que permanece em aberto e qual é a única postura intelectual compatível com soberania. É isso que faremos na conclusão.

O que sabemos, o que não sabemos e o que importa



Há poucos pontos que podem ser afirmados com segurança. O primeiro é factual: ocorreu um sequestro de um chefe de Estado em território soberano, conduzido por uma potência estrangeira. O segundo é empírico: esse sequestro aconteceu sem uma reação militar observável compatível com o nível de alerta previamente declarado. O terceiro é analítico: essa combinação constitui uma anomalia estratégica real, que não pode ser dissolvida nem por propaganda tecnológica, nem por explicações morais apressadas.


Também há limites claros do que pode ser afirmado neste momento. Não há evidência pública suficiente para sustentar a tese de um apagão técnico absoluto, tampouco para comprovar uma cooperação interna generalizada. As hipóteses permanecem concorrentes, e qualquer tentativa de fechar a questão sem novos dados seria intelectualmente irresponsável. Em análise séria, reconhecer o limite do conhecimento não é fraqueza; é método.


O que realmente importa, porém, não é apenas reconstruir o passado imediato, mas compreender o mecanismo que torna eventos como esse possíveis. O caso venezuelano revela que a soberania contemporânea não é rompida apenas por tanques ou ocupações prolongadas. Ela pode ser violada por operações rápidas, que exploram simultaneamente degradações técnicas, fissuras organizacionais e cálculos humanos sob pressão extrema, impondo fatos consumados antes que o Estado consiga reagir.


Esse mecanismo tem implicações profundas para o Sul Global. Ele sinaliza que a defesa da autodeterminação não depende apenas de armamentos ou discursos, mas da robustez das cadeias internas que ligam detecção, decisão e ação. Onde essas cadeias são frágeis, disputadas ou corroídas, a soberania torna-se vulnerável, mesmo sem guerra declarada.


Por isso, este texto não oferece conforto nem soluções fáceis. Ele oferece algo mais necessário: clareza sobre o problema real. Repetir narrativas do agressor legitima a violência. Responder com certezas infundadas enfraquece a análise. O único caminho compatível com a defesa da soberania é investigar mecanismos, exigir evidências e recusar a naturalização da força como norma.


A Venezuela é o caso. O precedente é global. O desafio é estrutural. E a responsabilidade intelectual, diante disso, é não permitir que o extraordinário se torne banal antes de ser compreendido.


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