top of page

Gaza, ONU e Lula: Como Evitar a Armadilha de Trump

  • Foto do escritor: Rey Aragon
    Rey Aragon
  • há 3 minutos
  • 10 min de leitura

O falso Conselho da Paz, o genocídio palestino e a disputa pela governança global no século XXI


O convite feito por Donald Trump ao presidente Lula para integrar um suposto “Conselho da Paz” para Gaza não é um gesto diplomático neutro, mas uma operação política desenhada para contornar a ONU, esvaziar o direito internacional e legitimar uma arquitetura de tutela colonial sobre o povo palestino. Em um contexto marcado pelo genocídio em Gaza e pela ofensiva contra o multilateralismo, a decisão brasileira diante dessa armadilha pode redefinir o papel da ONU, a luta pela autodeterminação dos povos e a posição do Brasil como liderança soberana do Sul Global.

O convite e a armadilha



O convite feito por Donald Trump ao presidente Lula para integrar um suposto “Conselho da Paz” para Gaza não é um gesto diplomático convencional. Ele surge em um contexto de genocídio em curso, desgaste deliberado das instituições multilaterais e tentativa explícita dos Estados Unidos de reconstruir sua capacidade de comando global por meio de arranjos paralelos à ONU. Trata-se, portanto, de um movimento calculado dentro da disputa pela governança do pós-guerra em Gaza.


A armadilha está na forma e no tempo do gesto. Ao convidar Lula, Trump busca capturar o capital político e simbólico de um líder reconhecido por sua defesa da autodeterminação dos povos e por sua autoridade moral no Sul Global. A intenção é legitimar, por associação, um mecanismo que nasce sem centralidade da ONU e sem protagonismo palestino, convertendo o prestígio de Lula em escudo político para uma arquitetura de tutela. Se Lula aceita, o Conselho ganha verniz de legitimidade; se recusa de maneira isolada, abre-se espaço para enquadramentos e pressões diplomáticas.


Esse movimento se insere em uma estratégia mais ampla de produção do caos como instrumento de poder. Trump acumula frentes simultâneas de tensão com grandes potências, regiões periféricas e organismos multilaterais, utilizando a instabilidade como método de recomposição de hegemonia. O “Conselho da Paz” segue essa lógica: não resolve conflitos, mas reorganiza centros decisórios fora do direito internacional. O convite a Lula, nesse cenário, não é um chamado à mediação, mas um teste político desenhado para forçar o Brasil a atuar em um tabuleiro incompatível com seus princípios históricos.

Gaza e a materialidade do genocídio



Qualquer discussão séria sobre “paz” em Gaza precisa partir da materialidade dos fatos. Gaza não é um território em disputa simétrica, mas uma população civil submetida há anos a cerco, punição coletiva e destruição sistemática de suas condições de existência. O que se intensifica desde 2023, ao longo de 2024 e 2025, não é um conflito convencional, mas um processo contínuo de extermínio social, urbano e humano, marcado por bombardeios indiscriminados, colapso sanitário, fome induzida e aniquilação deliberada de infraestrutura civil.


Essa realidade não pode ser dissociada de sua moldura histórica. Gaza e Cisjordânia integram um mesmo continuum colonial, sustentado por fragmentação territorial, expansão de assentamentos, controle militar permanente e negação de soberania política. Gaza representa a forma extrema desse modelo: um território convertido em espaço de confinamento, onde a vida é administrada por critérios de segurança impostos por uma potência ocupante e onde a autodeterminação é sistematicamente adiada.


É nesse contexto que a ideia de “pós-guerra” se revela enganosa. Não há reconstrução possível enquanto as causas estruturais da destruição permanecem intactas. Reconstruir sem pôr fim ao cerco, sem garantir direitos políticos e sem reconhecer a autodeterminação Palestina significa apenas gerir a devastação. Prédios podem ser refeitos; direitos, quando negados, perpetuam o ciclo da violência. A materialidade do genocídio não termina com o silêncio das armas: ela persiste sempre que a arquitetura política do conflito permanece colonial.

O falso Conselho da Paz e a lógica da tutela colonial



O chamado “Conselho da Paz” não nasce como mediação multilateral, mas como mecanismo de administração tutelar do pós-guerra, concebido para deslocar o centro decisório da ONU para um arranjo político paralelo, sob comando direto de Washington. Sua institucionalização confirma essa natureza: em novembro de 2025, o Conselho de Segurança endossou o plano norte-americano para Gaza, acolheu a criação do Board e autorizou que ele operasse entidades sob sua “autoridade transitória”, inclusive uma força internacional com comando “aceitável” ao próprio Conselho. Trata-se de um roteiro clássico de tutela: transição indefinida, reformas condicionadas e autodeterminação sempre adiada.


A intenção real do dispositivo torna-se explícita em seu desenho político e financeiro. Reportagens indicam um estatuto com presidência concentrada em Trump, amplos poderes de veto e controle de membros, além de um modelo de adesão baseado em mandatos temporários e possibilidade de assentos permanentes mediante contribuição bilionária. Essa arquitetura converte governança internacional em mercadoria política e transforma a reconstrução de Gaza em instrumento de dependência, não de emancipação. Um conselho que admite “cadeiras compradas” não produz paz; produz hierarquia.


Essa lógica aparece também na narrativa oficial do plano, que trata o pós-guerra como problema de “oversight”, captação de recursos e gestão tecnocrática. Direitos, soberania e autodeterminação surgem como variáveis secundárias, subordinadas à estabilidade definida pelos mesmos atores que sustentaram a destruição. O Conselho, assim, não encerra o genocídio; ele o reorganiza em forma administrável, normalizando a violência como transição e esvaziando o princípio fundamental que deveria orientar qualquer solução legítima: a Palestina como sujeito político pleno, não como objeto de governança colonial.

A ONU sob ataque e a disputa pela governança global



O esvaziamento da ONU não é efeito colateral do conflito em Gaza; é parte central da estratégia em curso. O “Conselho da Paz” surge para deslocar decisões políticas fundamentais para fora do sistema multilateral, reduzindo a ONU a papel operacional ou humanitário. Trata-se de uma inversão perigosa: o multilateralismo deixa de comandar e passa a apenas legitimar, a posteriori, arranjos definidos por fora do direito internacional.


Esse ataque é também material. A ofensiva contra a UNRWA, com cortes de financiamento, criminalização de funcionários e destruição de instalações, visa corroer a principal infraestrutura internacional que reconhece o estatuto político e jurídico do povo palestino. Enfraquecer a ONU, nesse caso, significa apagar a linguagem dos direitos, da autodeterminação e da responsabilidade internacional. Não é uma disputa administrativa; é uma disputa pela memória jurídica do conflito.


A própria resolução que endossa a “transição” em Gaza evidencia a contradição: ao mesmo tempo em que invoca o Conselho de Segurança para conferir legalidade, autoriza a criação de entidades sob autoridade externa à ONU. O precedente é grave. Se a ONU aceita ser contornada em um caso dessa magnitude, abre-se caminho para uma governança global baseada em conselhos ad hoc, lideranças personalistas e exceções permanentes. Resgatar a ONU, portanto, não é idealismo; é necessidade estratégica para qualquer país que não aceite a privatização da paz e a substituição do direito pela força.

Lula como sujeito histórico do Sul Global



O convite dirigido a Lula só se explica pela posição singular que ele ocupa no sistema internacional. Lula não é um mediador circunstancial; é um sujeito histórico do Sul Global, cuja trajetória combina legitimidade popular, experiência de governo e capacidade de articulação transversal. Ao longo de décadas, construiu uma política externa orientada à multipolaridade, ao fortalecimento do multilateralismo e à defesa da autodeterminação dos povos, tornando-se referência para países que recusam a submissão automática às grandes potências.


Essa coerência se expressa de forma clara no caso palestino. Ao nomear o que ocorre em Gaza como genocídio, Lula rompeu com o vocabulário eufemístico que sustenta a inação internacional e assumiu custos diplomáticos por isso. Esse gesto consolidou sua autoridade moral e ampliou seu soft power, sobretudo no Sul Global. É precisamente esse capital simbólico que o “Conselho da Paz” tenta capturar: deslocar Lula de sua posição histórica para transformá-lo em fiador de uma arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a Palestina a uma tutela externa.


A armadilha é evidente. Aceitar o convite, tal como formulado, implicaria contradição com a trajetória que sustenta a liderança de Lula; recusar sem estratégia abriria espaço para enquadramentos e pressões. A força de Lula está justamente em evitar essa binariedade. Seu papel histórico lhe permite inverter o jogo, reafirmando que não há paz legítima fora da ONU nem reconstrução possível sem soberania Palestina. Ao fazê-lo, Lula não apenas protege o Brasil de uma armadilha política, como reafirma sua função no mundo: a de líder capaz de recolocar o direito, a política e a dignidade dos povos no centro de uma ordem internacional em crise.

Correlação de forças e cenário preditivo



A correlação de forças que molda o convite a Lula é objetiva. Os Estados Unidos tentam recompor capacidade de comando global em um contexto de erosão hegemônica; Israel busca consolidar o pós-guerra de Gaza como rearranjo político irreversível; e o Sul Global, ainda que fragmentado, dispõe hoje de maior margem de manobra, impulsionada pelo peso econômico da Ásia, pela densidade dos BRICS e pela crise de legitimidade do unilateralismo ocidental.


O “Conselho da Paz” sintetiza esse momento. Ele não responde apenas a Gaza, mas inaugura um modelo de governança de exceção, concebido para contornar o multilateralismo, reduzir custos jurídicos e acelerar decisões favoráveis aos interesses imperiais. Ao endossar uma autoridade transitória externa à ONU e autorizar uma força sob comando “aceitável” a esse arranjo, a resolução que sustenta o plano institucionaliza uma zona cinzenta onde o direito perde centralidade e a força ganha verniz administrativo.


No curto prazo, três movimentos são previsíveis. O primeiro é a intensificação da pressão por adesões ao conselho, combinando sedução diplomática, chantagem econômica e narrativa moralista de “paz e reconstrução”. O segundo é o aprofundamento do ataque à ONU e às agências que preservam a legitimidade Palestina, abrindo espaço para estruturas tuteladas. O terceiro é o enquadramento de governos resistentes como obstáculos à paz, com uso de guerra informacional e coerção seletiva. Para o Brasil, o risco não está apenas na decisão formal, mas na captura de sua reação.


Essa correlação, contudo, também abre oportunidade. Há fissuras no Ocidente, desconforto crescente com a privatização da governança global e repúdio internacional ao massacre em Gaza. Se operar com precisão, o Brasil pode deslocar o eixo do debate, transformar o convite em teste de legitimidade e recolocar a ONU e a autodeterminação Palestina no centro. O objetivo não é apenas evitar custos, mas converter a crise em vitória estratégica, afirmando o Brasil como ator capaz de produzir ordem política em um mundo governado pelo caos.

Os riscos para o Brasil: aceitar, recusar ou inverter o jogo



O convite de Trump foi desenhado para capturar o gesto brasileiro, qualquer que ele seja. O risco central não está apenas na decisão formal, mas no enquadramento político posterior. Trata-se de uma armadilha clássica: transformar uma escolha soberana em custo inevitável, seja pela adesão, seja pela recusa, deslocando o debate do direito internacional para uma disputa narrativa controlada pelos Estados Unidos.


Aceitar o Conselho tal como proposto é a opção mais onerosa. Significaria legitimar uma arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a reconstrução de Gaza a uma tutela externa, corroendo a coerência histórica da política externa brasileira e o capital simbólico de Lula. A tese de “entrar para moderar” não se sustenta diante da assimetria de comando: o Brasil seria convertido em avalista de uma estrutura concebida por outros, com custos domésticos e internacionais difíceis de reverter.


A recusa frontal, embora coerente no princípio, também carrega riscos se não for acompanhada de engenharia diplomática. Em um ambiente de guerra informacional, ela pode ser enquadrada como obstrução à paz, abrindo espaço para pressões seletivas e tentativas de isolamento. O dilema, portanto, é falso: aceitar compromete princípios; recusar sem estratégia compromete margem de manobra.


A única saída racional é inverter o jogo. O Brasil precisa transformar o convite em um teste público de legitimidade, condicionando qualquer participação a critérios claros: centralidade da ONU, protagonismo palestino e vínculo entre reconstrução e autodeterminação. Assim, o “sim” deixa de ser adesão e passa a ser exigência, e o “não” deixa de ser isolamento para se tornar consequência da recusa imperial em respeitar o direito internacional. Esse movimento protege a soberania brasileira e impede que Gaza se torne precedente para futuras tutelas em outras regiões do mundo.

O caminho correto: como evitar a armadilha e sair maior



Evitar a armadilha exige iniciativa, não defensiva. O Brasil precisa converter o convite em teste público de legitimidade, deslocando o eixo do debate para onde ele deve estar: ONU, direito internacional e autodeterminação dos povos. Não se trata de aceitar ou recusar um conselho específico, mas de reformular as condições de possibilidade de qualquer iniciativa de paz.


O primeiro passo é condicionar publicamente. O Brasil afirma disposição para atuar pela paz desde que três critérios sejam atendidos: centralidade formal da ONU como autoridade política e operacional; protagonismo palestino com mandato reconhecido; e vínculo indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos políticos. Essa resposta impede a captura do gesto brasileiro: se os critérios são aceitos, o arranjo deixa de ser tutelar; se são rejeitados, a ilegitimidade do conselho fica exposta.


O segundo passo é internacionalizar a posição. O Itamaraty deve articular, de forma discreta e coordenada, uma coalizão mínima com países do Sul Global e atores europeus desconfortáveis com o bypass da ONU. O objetivo não é confronto ideológico, mas blindagem política: quando a exigência de legalidade é compartilhada, o custo de coerção aumenta e a narrativa de isolamento perde eficácia.


O terceiro passo é ofensivo e estruturante. O Brasil deve propor que a reconstrução de Gaza seja conduzida sob mandato claro da ONU, com transparência, auditoria e participação dos diretamente afetados. Ao fazer isso, Lula conecta o episódio a uma agenda histórica: a reforma da governança global. Em vez de legitimar conselhos ad hoc, o Brasil oferece uma alternativa concreta para resgatar a política e o direito onde foram substituídos pela força. Assim, o país não apenas evita a armadilha, como sai maior: preserva coerência, amplia soft power e afirma liderança em um mundo que carece de legitimidade.

Uma bússola para o Itamaraty



Para atravessar este episódio sem custos estratégicos e sair fortalecido, o Itamaraty precisa operar com método, disciplina narrativa e tempo político. A primeira diretriz é controlar o enquadramento. O convite deve ser tratado como oportunidade de reafirmar princípios universais, como a centralidade da ONU, a legalidade internacional e a autodeterminação dos povos, e não como adesão a um conselho específico. Toda comunicação oficial deve partir desse tripé, blindando o Brasil contra enquadramentos oportunistas.


A segunda diretriz é ancorar a posição em multilateralismo ativo. Antes de qualquer decisão pública, o Brasil deve articular consultas com países do Sul Global e atores europeus comprometidos com a preservação da ONU. O objetivo é transformar uma posição nacional em referência compartilhada. Quando a defesa da legalidade deixa de ser isolada, o custo de coerção aumenta e a margem de pressão diminui.


A terceira diretriz é converter princípio em proposta concreta. O Brasil deve defender que a reconstrução de Gaza ocorra sob mandato claro da ONU, com participação palestina efetiva, transparência de recursos e vínculo indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos políticos. Essa postura desloca o Brasil da reação para a formulação, afirmando-o como ator capaz de oferecer soluções sistêmicas.


Por fim, é essencial unidade interna de discurso. O governo deve falar a uma só voz, com mensagens curtas e repetíveis. O Brasil é a favor da paz, mas não de qualquer paz. É a favor da reconstrução, mas não da tutela. É a favor do multilateralismo, não de conselhos privados. Seguindo essa bússola, o Brasil não apenas evita a armadilha, como transforma o episódio em afirmação histórica, consolidando Lula como liderança global de soft power e reafirmando a vocação brasileira de reconstruir a política onde ela foi deliberadamente corroída.



Comentários


pin-COMENTE.png
mantenha-se atualizado

Obrigado pelo envio!

  • linktree logo icon
  • Ícone do Instagram Branco
  • x logo
  • bluesky logo icon
  • Spotify
  • Ícone do Youtube Branco
bottom of page