“Sem jornalismo estratégico não há soberania cognitiva”
- Luís Delcides

- 17 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Luís Delcides - Advogado e jornalista
Gostei muito dessa frase do Rey Aragon. Ao pensar sobre um novo modo de fazer jornalismo, me fez lembrar o meu grupo de família, principalmente com o susto que a minha irmã mais velha tomou ao saber da morte do Ex-delegado de Polícia na cidade de Praia Grande.

Confesso que nos meus tempos de repórter, nunca entrou na minha cabeça o Hard News. De verdade, tinha até dificuldade em escrever pequenas notas – lembro que fui duramente criticado por uma amiga que hoje é Coordenadora do núcleo artístico de uma importante Companhia de Dança daqui de São Paulo.
Ela, por ter muita experiência no texto, bem mais do que eu – tava engatinhando na época – a moça já sacava os meus problemas com o Lead e a organização das falas dos personagens no decorrer do texto noticioso.
Nesse sentido, observo que tenho uma facilidade imensa com o texto longo, a crônica, o tal do “nariz de cera”. Aliás, é uma delicia escrever de forma longa, abusar do processo descritivo, narrar os fatos, mostrar a importância de cada situação vivenciada durante a observação das imagens.
Pois é, observar, fazer parte, estar presente. Falta isso no jornalismo brasileiro. É horrível o tal “jornalismo de gabinete”, aquele sentadinho na tela, toca o telefone para o fulano e pede: “Vá lá, faz um filminho e manda pra mim aqui no zap!”. Gente, a estratégia faz parte do sentir o calor do momento!
Ah, lembrei da eleição de 2023. Sim, 2023 teve as eleições para o conselho tutelar. Um monte de irmã de igreja votando, os homens levando as “velinhas com bíblia na mão” pra votar na irmã Fulana para Conselheira Tutelar dos Distritos São Mateus , Igutatemi e São Rafael.
Ainda bem que foi eleito um sujeito progressista para o Conselho Tutelar de São Mateus. Já, São Rafael, uma evangélica foi eleita. Até onde sei, a moça é de direita, põe a bandeira de Israel na cabeça, faz vigília, sobe no monte e faz umas orações vingativas durante a alvorada.
Logo, onde tá o jornalismo estratégico? Na observação dos fatos, dos personagens. Como os comportamentos mudaram, em vez de uma crença saudável, livre, uma devoção singela e simples, deu-se lugar a estética agressiva, ao “Aceita Jesus ou você vai para o inferno!”
Outro detalhe interessante sobre os fatos relatados: análise de cenários. Primeiramente fiz todo um relato sobre o local, quem estava votando. Um detalhe importante: era um domingo chuvoso. Domingo é o dia que as avenidas ficam lotadas de gente indo pra igreja. Ou seja: os crentes de domingo.
Lembrei de Gilles Lipovestky, principalmente quando ele trata sobre o “Capitalismo Estético”. O pesquisador traz a ideia da estética dos produtos, as suas disposições nas vitrines e gôndolas. No entanto, ser um religioso é uma vitrine em tempos de Capitalismo Estético.
Sim, é uma vitrine por ter câmeras, fotógrafos na igreja. Espaço para ser fotografado. Tem imagem, vai para o YouTube, para as redes sociais da igreja. Ou seja, o sujeito aceita “Jesus” e torna-se um produtinho, mais um item disposto na “gôndola religiosa” chamada redes sociais.
Ou seja, eu trouxe para este espaço descrições sobre fatos que envolvem campo político, religioso, família, educação e economia. Veja como essas nuances se amarram e interligam uma com as outras. Não são meras pontas soltas, são assuntos conectados e presentes no nosso dia a dia.
É isso que o jornalismo estratégico faz contigo: provoca reflexões, observações. Melhor, ajudar a você a observar o seu dia a dia de forma crítica. Não é dizer “Globo Lixo” e eu “Duvido do repórter e vou consultar a irmã Maria do Grupo de zap da igreja”. É provocar uma vontade imensa de buscar, entender os fatos e as mensagens transmitidas.
Desse modo, não se trata apenas de “velinhas com bíblia na mão”; é produtos, é possíveis eleitores, é uma massa com um grande potencial de consumo e capacidade de compra. No caso do relato do primeiro parágrafo, é uma senhora de 63 que não lê, não acompanha noticiário e só se informa por Whatsapp. E ainda acha que se sente dona da verdade.
Jornalismo estratégico é uma leitura do dia a dia, a observação dos fatos. Aliás, o brasileiro está tão ansioso em sair fora do Imposto de Renda, especialmente aqueles que ganham até 5 mil, mas Seu Mottinha tá enrolando, né? Tá vendo, gente! Mais um cruzamento de dados do seu interesse.




Também gostei da notícia. São coisas que passam batido no estadão.
Código aberto me chamou a atenção porque sou programador. Vou acompanhar daqui pra frente e te seguir nas redes sociais.
Concordo demais! Foi assim, observando, que saí do efeito "manada" da minha família e construí minha identidade política.
Também adoro textos longos. No meu caso, para ler. RSS. Tudo mais esmiuçado e intrigante. Te sigo no X. Adoro!
Muito obrigada!
Abraços
Anna